Em uma região isolada no meio do Mar das Almas, três seres humanoides travavam um embate colossal que já perdurava por mais de um ano.
Shinphy, a Sombra, era uma clássica banshee dos contos humanos. Graund, o Eleito, ostentava a forma de uma rã humanoide multicolorida com olhos incandescentes. E Cary, o Pai, era uma abominação primordial nascida do próprio Mar das Almas, o progenitor de todos os metamorfos, incluindo o Caçador.
Cada um possuía um estilo de combate que distorcia a realidade ao seu redor. A banshee utilizava sua afinidade necrótica para manipular a água saturada de almas, atuando como o núcleo pulsante de um golem líquido gigantesco que espelhava sua forma espectral. A rã esguia desviava de ataques com agilidade predatória enquanto seu próprio estômago funcionava como uma fornalha alquímica, expelindo bombas biológicas e miasmas venenosos. Graund era o único que possuía os antídotos para suas próprias toxinas, um mecanismo de defesa letal que impedia a aproximação de seres inferiores.
Já o metamorfo Cary alterava sua estrutura celular sem pausas. Transmutações exigem tempo e biomassa, mas graças às magias de cura ensinadas a ele por Go e à abundância de "alimento" fornecida pela cúpula de cipó-raio e seus bulbos, ele não apenas mantinha o ritmo, mas a cada alimentação a parte que foi devorada desabava sobre o mar criando grotescas colunas de cinzas, forçando o campo de batalha a se mover constantemente já que as cinzas eram literais filtros mágicos, impedindo a maioria dos ataques do trio.
“Desistam, amadores! Vocês sabem que eu sou invencível!” Shinphy guinchou, sua voz espectral ecoando pelo vasto corpo de seu golem aquático.
“Meu! Meu!” Graund coaxou. A rã cuspiu um fluido supercongelante no braço do golem, estilhaçando-o com um chute giratório, apenas para recuar no ar e desviar de uma bala de canhão puramente orgânica.
“Eu preciso dele, e vocês sabem disso!” Cary rugiu. Seus braços haviam se moldado em armamentos profanos: um canhão de ossos estriados com propulsão à base de metano e uma metralhadora de feixes que absorvia a eletricidade punitiva dos Bulbos da Penitência.
No epicentro dessa carnificina, um cristal verde que se assemelhava a uma raiz petrificada era jogado de um lado para o outro. Era a lendária Alma Esmeralda. Uma anomalia no sistema de reencarnação: a alma de uma entidade vegetal milenar que se recusou a murchar. Por não possuírem rancor ou ódio, as plantas raramente geram almas densas; logo, aquela joia significava que a centelha de um ser "pensante" havia encarnado erroneamente em uma árvore, acumulando energia cármica por séculos. Para os habitantes do Inferno, possuir uma Alma Esmeralda era o equivalente a perscrutar os segredos proibidos da Criação.
Para esses três monarcas novatos, o cristal continha o segredo da vida após a morte, a chave para quebrar as correntes do abismo e ascender à luz de Deus. Eram jovens demais (para os padrões infernais) e ingênuos o bastante para não compreenderem que não se foge do Inferno por esforço; a fuga é uma prerrogativa divina ou uma impossibilidade absoluta. Ainda assim, a obsessão pelo poder os cegava.
Foi então que a Ordem interveio.
No meio da troca de golpes, um pilar de luz branca e absoluta rasgou o tecido da realidade, descendo do zênite do Sétimo Círculo até o mar. Ao redor da coluna celestial na superfície do deserto das cinzas, diversas Aparições Carnais surgiram em volta da luz orbitando o lugar com espasmos de indignação e fúria.
Dentro da luz esmagadora, os três reis ficaram paralisados. O terror os consumiu ao distinguirem duas silhuetas descendo do abismo. A luminosidade não ocultava suas formas. A primeira era uma ave de pura luz incandescente, com penas de ouro líquido e um bico que ofuscava como uma estrela supernova, seu tamanho era tão colossal que supera a carcaça do lobo colossal onde Agnes habitava antes; uma figura tão materna e divina que, se Agnes a visse, talvez chorasse instintivamente já que essa era a mãe pássaro dos seus sonho.
A segunda figura, contudo, irradiava apenas o vácuo. Era uma mariposa do tamanho de um ser humano. Suas asas finas e aveludadas eram um buraco negro, absorvendo toda a luz, a esperança e a vontade de existir daqueles que ousavam olhá-la e suas patas brancas e esqueléticas pareciam ossos que tremulavam ao vento. Era a entropia encarnada a própria morte.
Quando os avatares tocaram o oceano, a fênix absorveu o pilar de luz e, com ele, a matéria física dos três reis, obliterando seus corpos. Suas almas tentaram fugir, mas a simples presença da mariposa espalhou um decaimento existencial tão severo que parte de seus espíritos se desfez em poeira antes de avançar um metro, e apenas fragmentos conseguiram escapar.
“Eles não se lembrarão de muita coisa nas próximas encarnações... mas eu preferia aniquilá-los de vez” a fênix murmurou, observando o mar com um nojo puritano, como se sua visão penetrasse cada pecado daquelas águas. A mariposa pousou graciosamente sobre a tensão superficial da água. Com as asas cobrindo o corpo esguio, lembrava a silhueta clássica de um ceifador.
“O mar foi envenenado, várias estruturas da cúpula foram danificadas e a água apresenta traços de decadência da não-morte. Mas que bagunceiros. Eles deveriam agir mais como o rei escorpião, aquele bruto sem cérebro.” A voz da mariposa era mansa, destituída de entonação, enquanto suas patas dianteiras puxavam uma esfera gigante de veneno alquímico de dentro da água, limpando o oceano enquanto a fênix liberava uma rajada de chamas douradas pela região.
“Eu limpei a podridão da não-morte com o fogo. Mas e o resto? Cá entre nós, eu não confio nessas coisas feias!” A fênix ergueu o bico em direção às Aparições Carnais na superfície, que tremiam caoticamente ao redor do rasgo no céu.
“Deixe que o Vigia Subterrâneo lide com isso. Ele pode ser um cão cego, mas ainda é a única engrenagem que mantém a reencarnação girando.” A mariposa não possuía olhos, mas seu "rosto" estava voltado diretamente para o colossal bulbo embrionário no topo da redoma.
“Vamos. Antes que as Aparições comecem a enlouquecer.” As duas entidades ascenderam em um clarão. Em resposta, as Aparições Carnais imediatamente vomitaram torrentes de cinzas, cicatrizando o buraco no céu do submundo enquanto tremiam de êxtase por fazer seu trabalho vital deixando suas vidas para trás.
***
Por uma ironia cruel do destino, a Alma Esmeralda — o epicentro de toda aquela destruição — não foi tocada pelas entidades. Na verdade, ela flutuava nas águas agora purificadas, brilhando com um verde ainda mais vívido e tentador.
***
Longe dali, Agnes estava profundamente entediada.
Ela havia tentado de tudo para se manter sã: nadou, experimentou frutas exóticas e tentou dar um acabamento decente à sua nova espada. Tudo parecia incrivelmente irritante. A areia branca e tropical entrava entre suas penas celestiais, virando vidro por causa do calor, as frutas eram doces até enjoar, e o osso do peixe-espada era infinitamente mais denso e flexível do que ela previa. Por um lado, uma lâmina precisava de flexibilidade e retenção de fio; por outro, sua total falta de habilidade como ferreira resultou apenas em um cabo rústico e uma lâmina com o peso todo concentrado na guarda. Era, em termos práticos, um pedaço de osso inutilizável.
Frustrada com a cutelaria, Agnes decidiu testar seu próprio corpo.
Ela ainda não conseguia voar, mas a pirocinese fluía por sua biologia de fênix. Cuspir fogo era possível, embora a sensação fosse tão agonizante e desconfortável quanto vomitar ácido gástrico. Ela percebeu que sua temperatura corporal flutuava com suas emoções; picos de raiva ou excitação causavam combustão espontânea em pequenos objetos ao redor. A única habilidade isenta de efeitos colaterais era o controle do fogo externo — manipular chamas já existentes era fácil, tão natural quanto brincar com uma mola maluca.
Agnes divagava, imaginando-se como uma engenheira steampunk usando seu próprio corpo como caldeira. Mas os devaneios passavam rápido. Aquele breve período de paz apenas serviu para evidenciar que sua existência ali não tinha sentido. Todo o seu esforço pela sobrevivência parecia fútil diante da imensidão do Inferno.
“Será que vale a pena?” ela sussurrou, observando uma chama dançar na ponta de sua garra.
“Não sei. Mas aumenta mais essas chamas aí, garota.”
Agnes virou o pescoço. A poucos passos, estava um garoto orc esguio. Ele usava alargadores de orelha feitos de dentes bestiais e um piercing no nariz gravado com runas místicas, idênticas às que Go possuía. Vestia um poncho de couro cru, ostentando a estética inconfundível de um xamã ou bruxo juvenil.
“E você é...?”
“Eu sou eu. Mas pode me chamar de Katun, o Feiticeiro.” A voz dele falhava com as quebras típicas da puberdade, tentando soar imponente antes de se estabilizar.
“Você parece mais um xamã de quinta.” Agnes olhava para o jovem orc reconhecendo o jeito edgy de agir e se irritando logo de cara.
“Quem dera. O Grande Pai não ensina nada a ninguém, só historinhas idiotas. Tudo que aprendi foi sugando conhecimento do caranguejo quando ele está de bom humor” o orc retrucou, olhando para as chamas de Agnes com um interesse predatório.
“O que ele te ensinou? Magia de fogo?”
“O quê? Ah, não. Eu não perguntei se ele podia me ensinar magia. Parecia falta de educação.” Agnes voltou a manipular sua chama, moldando-a no formato de uma vareta incandescente.
“Então essa é a sua natureza... Legal.” Katun estreitou os olhos. Inveja transbordava sob a máscara de apreciação. ‘Se eu roubar o sangue dela, talvez consiga o mesmo poder’ pensou o jovem bruxo, a mente trabalhando nas leis do ocultismo que ele praticava desde a sua infância. Suas mãos esguias começaram a tecer sua vontade lentamente, preparando um feitiço de extração.
Antes que ele pudesse canalizar a magia, a água do mar ferveu e recuou. A forma colossal e tranquilizadora de Go emergiu das ondas, projetando uma sombra imensa sobre a praia.
“Olha só... Dois jovens na flor da idade. Seria este o florescer de um belo romance?” o tom do arquimago caranguejo era aveludado e carregado de ironia.
“Foi mal, Go, mas eu vou ficar pra titia” Agnes retrucou na hora. Podia estar em um corpo mitológico, mas seus planos de continuar solteira permaneciam intactos.
“Certo, certo. Eu vim apenas saber se a jovem dama gostaria de observar a Grande Onda quebrando contra nós. É um evento de beleza brutal para os que observam pela primeira vez.”
Agnes pensou por um segundo. Ficar ali entediada não era opção. “Tudo bem.”
“Excelente. E você, Katun? Deseja nos acompanhar?”
“Eu passo” o jovem orc se virou e caminhou em direção ao interior da ilha. Em sua mente, no entanto, o plano para extrair o sangue da fênix apenas havia sido adiado.
“Então somos apenas nós e as crianças. Pode subir, garota.” Go abaixou uma de suas garras massivas, oferecendo um degrau para Agnes.
“Que crianças?”
“Espere e verá haha.” o caranguejo parecia de bom humor, mas para Agnes parecia que o caranguejo tinha encarnado seu professor da faculdade antes de dar uma aula chata e desgastante.
A dúvida foi sanada quando Go a levou até uma vasta plataforma de terra suspensa sobre as águas da cúpula. Lá, filhotes de diversas raças aguardavam ansiosos. Entre eles estava um velho Rei Escorpião, um ser gigante de carapaça negra e laranja, com um aguilhão que parecia injetar veneno só pelo olhar e que tinha uma pinça cheia de runas como Go. Havia também Causel, o Grande Pai orc que Katun havia mencionado. No centro da plataforma, um lago abrigava as dezenas de pequenos filhotes de Go, que no momento praticavam bullying com o que parecia ser um inseto peculiar.
Era O Cinzel. A libélula com torso humano descansava sobre uma flor de lótus, zumbindo de irritação para os caranguejos que o beliscavam. Agnes quase o tratou como um inseto comum nesse inferno, até notar a perturbadora aura arco-íris ao redor da criatura, que causou um arrepio imediato em suas penas.
Quando todos estavam acomodados, Go bateu seu cajado. Uma coluna de água maciça ergueu a plataforma de terra, como um elevador hidráulico, levando todos em direção ao topo da cúpula de vidro.
Ao alcançarem o zênite, a libélula levantou voo. Sua aura de trinta metros de diâmetro atravessou o vidro e, instantaneamente, desintegrou a barreira visual de fortalezas de ossos do lado de fora, varrendo as construções e seus moradores sem arranhar a cúpula interna.
Agnes engoliu em seco ao ver tamanha destruição, mas ao perceber a normalidade dos espectadores tentou pensar em outra coisa enquanto olhava para as outras fortalezas ainda ali. ‘Eu construiria uma fortaleza muito melhor que essas porcarias…’ ela pensou.
Seus olhos vislumbraram um céu azul perfeito no horizonte, sem se dar conta de que o céu do Sétimo Círculo era, por natureza, um abismo negro pontilhado por estrelas vermelhas. Aquele "azul" não era o céu. Eram as três camadas do escudo de energia arcana da Outra Costa.
As barreiras haviam sido tecidas pelos antigos Reis do passado e aprimoradas através das eras. As ondas iniciais, ínfimas com seus dez metros de altura, batiam na primeira camada e se dissipavam. Ainda assim, a fauna exterior preparava-se para o holocausto: bestas terrestres se ancoravam em embarcações de ossos pesados, enquanto os leviatãs marinhos de várias raças entrelaçavam seus corpos em imensas correntes vivas de carne, espinhos e protuberâncias, protegendo suas proles no centro do emaranhado.
A Grande Onda não era um fenômeno de marés. As águas do Mar das Almas convergiam de todas as direções de uma vez só, empurradas por um vento macabro e denso, alimentado pelo fôlego das almas e pela fome do Vigia do submundo.
“A força de absorção constante do Vigia cria um efeito de vórtex gravitacional” explicava o xamã orc aos filhotes, o tom professoral ecoando acima do vento. “É por isso que estar no centro do furacão, sob esta cúpula, é o lugar mais seguro do mundo.” As crianças pareciam não entender nada mas concordavam de forma inocente.
Agnes sentiu suas penas arrepiarem de forma involuntária. Se aquilo era o evento em escala reduzida, o clímax estava prestes a colidir.
As barreiras de energia funcionavam menos como muros e mais como comportas elásticas. A muralha mística resistia ao máximo, até que fissuras fractais se abriam, permitindo a entrada controlada do oceano cármico. A água invadia a área entre os escudos, elevando o nível interno rapidamente e dissipando a força esmagadora da onda. A camada mais externa sofria a pressão brutal, a do meio alagava apenas suas fundações periféricas, e a redoma interna experimentava apenas uma maré alta dócil.
Era uma maravilha da engenharia da sobrevivência idealizada por anos para tornar o centro da proteção o mais seguro possível.
“E então, minha jovem... o que você planeja fazer com sua existência?” Go perguntou gentilmente, aproximando-se da garota enquanto a cacofonia do oceano colidindo contra os escudos aumentava.
“Não faço ideia…” Agnes suspirou, o peso do isolamento a atingindo de uma vez. “Eu queria muito dizer "voltar para casa", mas acho que nem isso eu tenho mais.”
“Deseja ouvir uma sugestão sincera de um velho monstro?”
Agnes assentiu. Ela esperava algo pragmático, como "fique aqui conosco" ou "seja minha aprendiz na magia".
A resposta do Mago, no entanto, apagou a mente de Agnes como um sopro apagando uma vela.
“Como uma humana que caiu nestas águas por um erro do destino, você deveria tentar contatar Deus. E alcançar o Paraíso.”
O silêncio absoluto entre eles só foi quebrado pelo rugido ensurdecedor de milhões de toneladas de água e remorso espancando as barreiras do fim do mundo, soando como trovões do Juízo Final.
“Go, você é cristão?” perguntou Agnes seriamente.
(Fim do capítulo)