Agnes preparava-se para dormir, ainda filtrando as palavras do caranguejo em sua mente.
‘Você deveria tentar contatar Deus. E alcançar o Paraíso.’
A constatação de que o divino era real a deixou submersa em uma paranoia melancólica. Vinte e um anos de apatia humana cobravam seu preço. "Não fiz absolutamente nada da minha vida. Por um lado, não cometi grandes pecados; por outro, jamais pisei em uma igreja ou cultivei qualquer fé", lamentou Agnes, abraçando os próprios joelhos. "E agora eu estou no Inferno. Que maravilha."
Ela deitou-se sobre um monte de folhas largas. Ao seu redor, dezenas de minúsculos caranguejos aninhavam-se na areia, preparando-se para o descanso à sua própria maneira bizarra. Tudo o que Agnes podia fazer era aguardar o amanhecer, pois, segundo Go, o amanhã marcaria o início de sua jornada de volta à superfície.
“Boa noite, ápices da evolução” sussurrou ela, rindo da própria piada interna sobre carcinização antes de, finalmente, adormecer.
A cúpula central da Outra Costa era um oásis isolado naquele abismo oceânico. Enquanto a vida marinha exterior lutava para se reerguer após o impacto colossal da Grande Onda, o santuário interno mal sentira os tremores. Contudo, a escassez castigava as camadas periféricas: a água doce e os alimentos haviam sido varridos, restando aos sobreviventes a fome, a sede e o desespero de roubar uns aos outros.
Tudo o que a escória podia fazer era sonhar com as lendas sobre o interior da redoma de vidro, com seu sol azul artificial e águas imaculadas. E, inevitavelmente, sempre havia os desesperados que tentavam invadir.
Por isso, Go e o Rei Escorpião revezavam-se na vigília da abóbada, executando sumariamente os tolos obstinados que, de alguma forma, alcançavam o vidro.
“Eu estou falando, Tio Go, essa é a nossa chance de adquirir magia verdadeira!” Katun insistia.
Enquanto o gigantesco crustáceo flutuava nas correntes vigiando o domo, o jovem orc caminhava sobre sua carapaça, usando a desculpa de "ajudar na patrulha" apenas para aliciar a mente do arquimago.
“Não.” A resposta de Go soou monótona. Ele já havia recusado tantas vezes que começava a questionar a sanidade do bruxo juvenil.
“Mas o sangue dela…”
“O sangue dela não me importa!” A impaciência finalmente rompeu a polidez de Go, e as runas ancestrais cravadas em sua pinça colossal começaram a pulsar com uma luz oceânica. “Se você quer tanto o poder, estude e se esforce para alcançá-lo, em vez de cobiçar atalhos heréticos.”
“Espere, Tio Go!” Katun tentou argumentar, mas antes que pudesse formular outra frase de persuasão, a magia espacial do caranguejo o engoliu. O corpo do orc distorceu-se em um flash de pura luz, sendo banido instantaneamente para uma das ilhas tropicais mais distantes em um lago de água doce cheio de sapos e girinos.
Ao perceber sua condição agora molhada e cheirando a sapo, Katun chutou a água, cuspindo pragas. “O velho está cego pelo próprio poder!” esbravejou, incapaz de perceber que a verdadeira cegueira era a sua.
***
O sol azul voltou a acender lentamente sob o céu, indo de azul escuro a azul claro em poucas horas dando tempo às criaturas que viviam sob ele de acordar.
Agnes acordou. Em vez de sua cama de folhas improvisada, viu-se deitada sobre um fino leito de cinzas negras — sua temperatura corporal subconsciente havia incinerado a folhagem durante a noite. Como um cobertor vivo, vários caranguejinhos repousavam sobre ela se aproveitando do calor confortável e anormal. Por sorte, sua temperatura passiva não havia cozinhado nenhum deles.
Levantou-se com cuidado para não esmagá-los e caminhou até a orla. Mais à frente, presenciou uma cena estranhamente doméstica para o Inferno: uma fêmea de escorpião colossal, maior que Go por uma margem grande, com o dorso apinhado de filhotes, auxiliava Go e uma fêmea orc de músculos invejáveis no preparo do desjejum. Eles transformavam uma pilha de peixes em uma papa de carne grotesca.
“Olá, jovem Agnes. Deseja juntar-se a nós e preparar o alimento dos mais novos?” Go perguntou, as mandíbulas já se movendo de forma mecânica para triturar as carcaças.
À exceção da orc, que esmagava os peixes com um porrete de osso, o método de preparo dos demais era repulsivamente biológico e salivar.
“Eu vou passar essa experiência…” Agnes murmurou, sentindo o pouco apetite que tinha desaparecer.
Resolveu caminhar pela ilha pela sétima vez desde sua chegada. O cenário era monótono em sua perfeição irreal: árvores carregadas de frutos azuis, doces como açúcar puro; areia alva contornando milimetricamente o solo escuro e fértil; e, no horizonte, a redoma de vidro cravejada de fortalezas de ossos, onde, com alguma sorte, via-se bestas humanoides falhando miseravelmente em arranhar a barreira.
Após horas de caminhada, a fome retornou. Ao se aproximar de uma das árvores frutíferas, esbarrou em Katun. O orc parecia ansioso e agitado, algo que Agnes, com sua mentalidade humana, atribuiu à "vontade" — aquela velha inquietação da puberdade que a maioria dos adolescentes tenta saciar com romance, popularidade ou rebeldia.
“Oi, Agnes. Você quer essa... refeição mágica?” Ele estendeu um pedaço de pão que parecia velho, rígido e suspeitamente brilhante.
“Da última vez que alguém me ofereceu algo "mágico" com essa cara, passei um dia inteiro sem dormir e vendo coisas. Foi mal, cara, mas não” disse ela, lembrando-se de experiências traumáticas com drogas sintéticas na Terra. Tratando a iguaria alquímica como um simples entorpecente adulterado, Agnes deu as costas e foi buscar suas frutas.
Katun ficou para trás, tremendo de fúria e humilhação. ‘Se Go não tivesse implantado aquele maldito bloqueio mágico nessa ilha, o sangue dela já seria meu!’ pensou o bruxo, mastigando o próprio ódio.
Mais tarde, o tédio de Agnes foi finalmente quebrado. Era hora de partir. Go e sua numerosa prole aguardavam na orla onde vários outros pais e responsáveis também se preparavam para sair.
“Jovem Agnes, você parece ter passado bastante tempo imersa em pensamentos. E então?” perguntou Go, enquanto a passagem pela barreira arcana se desfazia à frente deles, revelando o exterior turbulento após a onda.
“Parece o início de uma daquelas jornadas do herói clichês... Para mim, isso é uma grande baboseira, mas acho que consigo lidar” respondeu ela. Não havia ansiedade heroica em sua voz; apenas a certeza de que definhar naquela praia a levaria à loucura ou à condenação eterna.
“Excelente. Isso significa que eu continuo sendo o sábio mentor desta história” riu o caranguejo. “Deseja aprender um pouco da verdadeira magia?”
A oferta não a seduzia por completo. Em sua concepção, o ocultismo parecia estar intrinsecamente ligado às engrenagens punitivas daquele lugar, uma força que exigia preços altos e cujo funcionamento era alertado pela maioria das religiões.
“Talvez o básico. Só o suficiente para me virar caso algum mago maluco tente arrancar minha pele” retrucou, num tom de brincadeira.
Mas a expressão de Go permaneceu pétrea. “Com sua natureza híbrida de fênix, você deve ter cuidado redobrado. Seu sangue é catalisador de milagres profanos, jovem.”
Agnes absorveu o peso do aviso antes de mudar de assunto. “Então, como eu vou chegar à superfície?”
“Tudo a seu tempo. Primeiro, preciso escoltar meus filhotes até a Costa do Rei Escorpião. Em situações normais, eu os enviaria sob a guarda dele, mas dessa vez... prefiro ir pessoalmente.”
Enquanto falava, os olhos compostos de Go fitavam um ponto invisível no horizonte, percebendo fluxos de causalidade que Agnes sequer imaginava. Ele via, através das correntes místicas, Katun tentando forjar alianças obscuras com os outros monarcas para extrair a essência da garota. O Cinzel, elevado demais em seu próprio mistério cósmico, ignorara o orc; já o Rei Escorpião demonstrou interesse, muito provavelmente maquinando usurpar a fênix para si mesmo. (Se o Grande Pai orc soubesse da traição, teria devorado o próprio neto e espancado o próprio colaborador).
Esta viagem será tortuosa, pensou Go, observando Agnes com a melancolia e o carinho com que se olha para uma velha conhecida que caminha, vendada, em direção ao abismo…
(Fim do capítulo)