A magia naquela parte do inferno dividia-se em três pilares fundamentais. A magia Xamânica, o ato de separar a pureza da corrupção e forjar armas a partir da escória espiritual; a magia Arcana, a manipulação fria dos resíduos anímicos deixados pelos seres vivos; e a Magia Verdadeira, o milagre profano e incontrolável que emanava da própria vida.
Como uma memória desbotada pelo tempo, Go lembrou-se de sua juventude. Naquela época, era apenas um crustáceo inocente com as proporções de um forno de cozinha. Ao seu lado, perfilavam-se seus dois companheiros e condiscípulos: Casuel, que possuía a aparência de uma criança humana arteira com longos cabelos negros carregando consigo uma vara de pesca, e Xarnum, a fênix, que, apesar de já ter nascido há dois anos, ainda exibia a plumagem fofa e macia de um filhote.
Eles estavam em uma caverna. Pilhas de livros desgastados estendiam-se até o teto rochoso, enquanto um tomo monumental — mais grosso e denso do que o próprio Go em sua forma atual — servia de palco para o mestre.
O professor era um rato gordo e corcunda. Um projétil de gelo perpétuo estava brutalmente cravado em seu olho direito, uma maldição antiga, enquanto o olho esquerdo era opaco, completamente cego. Ele mal parecia conseguir se manter em pé, dependendo inteiramente de seu cajado, uma versão diminuta da arma que Go carregava hoje... ou melhor, a versão original.
“Lembrem-se, a magia é a essência da alteração inconsciente” o velho rato grasnou, olhando para o vazio. Seu cajado apontava trêmulo para os jovens, emitindo um fio constante de fumaça, um feitiço de localização ininterrupto que o roedor cego usava para se ancorar no mundo material.
“Não importa como você a conjura; se ela te dá poder absoluto sem que você compreenda o porquê, é magia. Mas, a partir do momento em que você a entende, ela se torna manipulação.”
A voz do rato ecoou, carregando o peso de quem temia o próprio ofício.
“Eu os ensinei a se entenderem. E agora, vou lhes ensinar a se manipularem, parte por parte, até que a própria realidade se dobre a vocês!”
“Sim, mestre!” Os três jovens responderam em uníssono, um eco que atravessou os séculos e fez Go despertar no presente.
O arquimago não fez alarde. Acima dele, em sua carapaça colossal, a estranha humana e seus preciosos filhotes dormiam pacificamente, absorvendo o calor sobrenatural do corpo de Agnes. Go os observou com seus olhos compostos, preenchidos por uma ternura protetora que apenas um pai poderia abrigar, antes de voltar a impulsionar seu corpo lentamente pelas correntes do Mar das Almas.
***
O mar aos poucos se iluminava, não havia um indicativo de dia e noite aqui, somente o seu cansaço poderia dizer o que era dia e que era noite e isso incluía tudo que podia te matar…
Por isso, a maioria dos habitantes do mar andava em grupo.
Agnes observava o oceano com uma inocência genuína, algo raro de se demonstrar durante sua vida naquele inferno.
O comboio que acompanhava Go havia crescido. Vários outros crustáceos colossais uniram-se à jornada, carregando suas próprias ninhadas e formando um verdadeiro tapete vivo sobre as águas negras. Alguns desses leviatãs transportavam seres terrestres — a maioria claramente atuava como animais de estimação para entidades maiores, enquanto outros lembravam turistas excêntricos em um safári macabro. A diferença era que esses "turistas" possuíam cinturas de serpente ou rostos compostos por um amontoado de tentáculos retorcidos.
Abaixo deles, o mar brilhava com a passagem de criaturas abissais. O brilho bioluminescente, estranhamente semelhante ao sol artificial da cúpula, refletia-se nas escamas e carapaças dos monstros marinhos, criando um arco-íris pálido e fantasmagórico, ausente da cor roxa. Era uma visão espetacular e maravilhosa, desde que Agnes se esforçasse para não prestar atenção nas abstrações assustadoras e disformes que espreitavam nas profundezas.
Segundo Go, eles seguiam o "Caminho da Ilha", um fluxo migratório em direção ao domínio de uma entidade chamada Cinzel. Agnes não fazia ideia de quem ele era, mas, considerando as analogias biológicas e reprodutivas que Go usava em suas explicações, ela deduziu que seria uma espécie de praia de desova, que como na terra, as tartarugas botam seus ovos... ou é apenas um gigantesco bordel interespécies. Afinal, tratava-se do Inferno; nenhuma possibilidade bizarra poderia ser descartada.
“Estamos chegando à primeira parada, minha jovem! Preparada?” O mago caranguejo transbordava uma animação atípica desde que se juntara aos seus semelhantes, o que impediu Agnes de estranhar o tom entusiástico.
“Espero que sim.”
Aos poucos, a água tornou-se densa e agitada, forçando Go e o resto do comboio a frear bruscamente. Nem mesmo a turbulência desanimou os viajantes. Foi então que Agnes avistou a estrutura: um caranguejo titânico, ou o que restara dele. Era uma carapaça colossal, tal presença era vagamente semelhante à ossada de lobo onde Agnes morara antes, porém com uma natureza etérea. Projetava uma aura translúcida e exalava um cheiro inconfundível de amido e ozônio, idêntico ao aroma dos bulbos do cipó-raio.
“Agnes, conheça meu avô! Hahaha, ele não é formidável?” Assim que Go anunciou, todos os filhotes começaram a nadar e rastejar para dentro da carapaça oca, eufóricos e levemente hipnotizados pela ressonância familiar.
“Vamos logo, antes que os pequenos fuçem em tudo!”
Go nadou rapidamente em direção aos restos mortais. Ao se aproximar, Agnes compreendeu que a carcaça não existia inteiramente no plano físico; era um eco espiritual ou um fantasma fossilizado (seja lá como isso seja possível). O interior da carapaça revelou-se uma imensa caverna seca, atulhada de livros e artefatos de diversas eras. Havia desde tablets eletrônicos quebrados até tábuas de pedra meticulosamente lapidadas.
No centro desse santuário de memórias, erguia-se a estátua de um rato corcunda. O monumento estava coberto por runas. Não eram glifos demoníacos ou diagramas mágicos, mas sim velhas runas celtas da Terra — símbolos que, até onde Agnes sabia, não possuíam poder real, servindo ali apenas como âncoras conceituais para alguma força desconhecida.
“Quem é aquele?” Agnes perguntou, descendo para o chão rochoso da caverna.
“Este é o mestre do meu avô, do meu pai e o meu! O terceiro de minha linhagem, de quem herdei o nome após sua morte. Este é o Primeiro Go!” O caranguejo falava, inebriado pela nostalgia, reverenciando a figura de pedra.
“Ele era seu… tataravô?” Agnes ficou levemente confusa com a forma como Go usava a palavra linhagem.
“Bem... na prática, sim. Na teoria, eu sou descendente direto do familiar espiritual dele, o que nos torna família pela força do sangue e da magia.”
'Legal. O caranguejo é algum tipo de escravo ancestral que sofreu lavagem cerebral de um rato mágico suspeito. Apenas concorde com ele', pensou Agnes, forçando um aceno respeitoso com a cabeça.
“Você iria adorar conhecê-lo... ou não. Ele já era tão velho quando eu era criança que mal conseguia andar sem ajuda.” O velho mago baixou o tom de voz. A lembrança parecia doce na superfície, mas carregava um fundo amargo de luto. “Bem, ele morreu. E como ele costumava dizer: "Antes ele do que eu", hahaha!”
A risada de Go soou melancólica. Ele caminhou lentamente até um canto da caverna, repleto de tomos antigos, e encolheu-se ali perto, como se o peso dos séculos subitamente caísse sobre sua carapaça.
Agnes se esticou, estalando os ossos, e olhou ao redor, apreciando a poeira e o silêncio do lugar sendo remexida pela multidão de caranguejos. Os filhotes pareciam se esbanjar com os aparelhos eletrônicos enquanto os adultos pareciam procurar livros específicos, somente os turistas faziam coisas de turistas como ficar apontado para as coisas ou pintando a paisagem.
“Bem, podemos começar por aqui.” Go quebrou a contemplação de Agnes com um tom de professor irritado.
“Então chegou a hora... legal, eu acho.”
“Mais animação, jovem Agnes! Este terreno pode não ser santo, mas não deve ser profanado com pessimismo.” O caranguejo ergueu um livro antigo e pesado. Na capa, lia-se: Manipulação, Magia e a Dualidade.
Go acariciou a encadernação gasta com a ponta de sua pinça, abrindo as páginas com uma reverência cuidadosa.
“Vamos começar, jovem?”
(Fim do capítulo)