O quarto estava silencioso demais.
Carlos nunca havia gostado de hospitais. Havia algo na limpeza impecável, na luz branca e no zumbido constante dos equipamentos que tornava impossível esquecer onde se estava. Até mesmo a janela parecia conspirar contra ele, exibindo um céu azul absurdo, bonito demais para aquele dia.
Sentado ao lado da cama, mantinha uma das mãos sobre a de Clara.
Na outra ponta da pequena poltrona, Artemis dormia encostada em seu braço.
A menina tinha apenas seis anos.
Havia resistido ao sono até onde conseguira, insistindo que ficaria acordada para conversar com a mãe. Acabara perdendo a batalha pouco mais de meia hora antes.
Clara observava a filha.
Os cabelos negros, antes longos e sempre impecáveis, estavam mais curtos. Seu rosto perdera peso nos últimos meses. A pele parecia fina demais, quase translúcida sob a iluminação do quarto.
Ainda assim, os olhos azuis continuavam os mesmos.
Carlos conhecia aqueles olhos havia quinze anos.
Tinham sido os mesmos que o encararam na Academia quando ele derrubou uma bandeja inteira de comida em cima do uniforme dela.
Os mesmos que riram quando ele tentou pedir desculpas.
Os mesmos que, anos depois, olharam para ele diante de uma pequena cerimônia civil e disseram que sim.
Agora estavam cansados.
Mas ainda eram os olhos de Clara.
Ela desviou a atenção da filha e olhou para Carlos.
— Você está fazendo essa cara de novo.
Carlos franziu o cenho.
— Que cara?
— Essa.
— Muito esclarecedor.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dela.
— A cara de quem acha que, se ficar sério o bastante, consegue intimidar o universo.
— Funcionou algumas vezes.
— Nunca funcionou.
— Funcionou com aquele funcionário do banco.
— Carlos, ele só queria ir embora.
— Resultado é resultado.
Clara riu.
Foi uma risada curta.
Fraca.
E terminou numa tosse que imediatamente fez Carlos se inclinar.
— Devagar.
— Eu estou deitada numa cama há três semanas — respondeu ela depois de recuperar o fôlego. — Se eu descansar mais, começo a criar raízes.
Carlos apertou os lábios.
Ela percebeu.
Clara sempre percebia.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Essa cara.
— Você acabou de reclamar da outra.
— São caras diferentes.
— Eu só tenho uma cara, Clara.
— E consegue fazer umas quinze expressões irritantes com ela.
Ele tentou sorrir.
Não conseguiu.
Clara apertou sua mão.
Muito pouco.
Carlos percebeu como ela estava fraca pelo esforço daquele simples gesto.
Olhou para o equipamento ao lado da cama.
Os números estavam ali.
Estáveis.
Controlados.
Os médicos haviam usado tantas palavras nos últimos meses que ele já nem sabia mais quais odiava mais.
Progressivo.
Degenerativo.
Irreversível.
Paliativo.
A última era a pior.
Clara acompanhou o olhar dele.
— Pare de olhar para aquilo.
— Eu não estava...
— Você sempre foi um péssimo mentiroso.
— E você sempre teve mania de achar que sabe tudo.
— Eu sei tudo.
— Claro.
Ela olhou novamente para Artemis.
A menina dormia com a boca ligeiramente aberta, agarrada à manga do casaco do pai.
Clara sorriu.
— Ela vai dar trabalho.
Carlos acompanhou seu olhar.
— Puxou a mãe.
— Então você está condenado.
Dessa vez ele conseguiu rir.
Foi baixo.
Quase um sopro.
Por alguns segundos, o quarto voltou a ser apenas deles.
Não havia doença.
Não havia médicos.
Não havia aquele equipamento.
E Carlos desejou, com uma intensidade quase infantil, que fosse possível permanecer naquele instante para sempre.
Clara quebrou o silêncio.
— Carlos.
O jeito como ela disse seu nome fez o sorriso desaparecer.
— Não.
— Eu ainda nem falei.
— Mas sei o que você vai falar.
— Claro que sabe. Sou casada com um gênio.
— Clara...
— Cuide dela.
Carlos fechou os olhos por um instante.
— Nós vamos cuidar.
Ela não respondeu.
Quando ele tornou a encará-la, Clara apenas o observava.
Não havia tristeza no rosto dela.
Isso tornou tudo pior.
Carlos desviou os olhos.
— Nós vamos cuidar dela — repetiu.
Clara ficou em silêncio.
Ele apertou sua mão com mais força.
— Você prometeu que ia voltar para casa.
— Eu prometi tentar.
— Não foi isso que eu ouvi.
— Então sua audição sempre foi péssima.
— Clara.
A voz falhou dessa vez.
Ela ergueu a mão livre lentamente.
Carlos se inclinou para ajudá-la, mas ela fez um pequeno gesto para que ele parasse.
Com esforço, tocou o rosto dele.
— Ei.
Carlos não conseguiu responder.
— Você fez tudo certo.
Ele soltou uma risada seca.
— Isso é mentira.
— Algumas mentiras são úteis.
— Você acabou de dizer que sou um péssimo mentiroso.
— Eu sempre fui melhor que você.
Dessa vez ele riu e chorou ao mesmo tempo.
Clara sorriu.
O polegar dela passou pela lateral do rosto dele.
— Não deixe que ela cresça achando que precisa ser alguma coisa por minha causa.
Carlos olhou para Artemis.
— Ela se parece muito com você.
— Eu sei. Coitada.
— Principalmente os olhos.
— O resto é seu.
— Então ainda há esperança.
Clara fechou os olhos por alguns segundos.
Carlos imediatamente ficou tenso.
Então ela respirou fundo e tornou a abri-los.
— Também não faça uma coisa.
— O quê?
— Passe o resto da vida sozinho.
Ele ficou imóvel.
— Clara...
— Eu conheço você.
— Não estamos falando disso.
— Estamos agora.
— Não.
— Carlos.
— Não.
Ela arqueou levemente uma sobrancelha.
Mesmo naquele estado, aquele gesto ainda tinha poder suficiente para fazê-lo sentir que estava novamente com dezessete anos, sendo repreendido por ela num corredor da Academia.
— Você não manda em mim.
— Passei vinte anos mandando.
— Quinze.
— Pareceram vinte.
— Ingrata.
Um pequeno sorriso surgiu novamente.
Depois desapareceu.
Clara ficou alguns segundos olhando para ele.
— Você sempre teve medo disso.
Carlos franziu o cenho.
— Do quê?
— De precisar de alguém.
— Eu precisei de você.
— Demorou bastante para admitir.
— E você nunca facilitou.
— Era mais divertido implicar com você.
Carlos riu baixinho.
A frase era antiga.
Muito antiga.
Desde os tempos da Academia.
Desde quando ele ainda perguntava por que ela, Clara Milisé, uma das estudantes mais promissoras de sua geração, havia escolhido um sujeito absolutamente comum como ele.
Quando poderia ter formado par com Aldergard Von Brainer.
Quarenta e oito por cento de compatibilidade.
Carlos e Clara tinham trinta e dois.
Era uma pergunta que ele fizera tantas vezes que a resposta dela se tornara automática.
“Porque é mais divertido implicar com você.”
Clara pareceu lembrar da mesma coisa.
— Trinta e dois por cento — murmurou.
Carlos sorriu.
— E você ainda insiste nisso.
— Foi mais que suficiente.
— Poderia ter tido quarenta e oito.
— Aldergard era insuportável.
— Continua sendo.
— Viu? Fiz uma excelente escolha.
— Estatisticamente questionável.
— Estatística não sabe tudo.
Havia algo diferente na forma como ela disse aquilo.
Carlos percebeu.
Mas antes que pudesse perguntar, Clara continuou:
— Algumas coisas não aparecem direito num medidor.
— Isso foi filosofia barata?
— Foi.
— Esperava mais de você.
Ela não riu.
Continuou olhando para ele.
— Quando chegar a hora...
Parou para recuperar o fôlego.
Carlos esperou.
— Não tenha medo de sincronizar novamente.
Ele ficou imóvel.
— Clara...
— Prometa.
— Não vou prometer uma coisa dessas.
— Covarde.
— Manipuladora.
— Funcionou?
Carlos abaixou a cabeça.
— Você sabe que sim.
Clara sorriu.
— Então está prometido.
— Isso não foi uma promessa.
— Para mim foi.
Ela fechou os olhos novamente.
Dessa vez demorou mais para abri-los.
Carlos sentiu o peito apertar.
— Clara?
— Estou aqui.
A voz era quase um sussurro.
Artemis se mexeu.
A menina abriu os olhos devagar.
— Mamãe?
Clara voltou imediatamente o rosto para ela.
E algo mudou.
O cansaço pareceu desaparecer por alguns segundos.
— Oi, meu amor.
Artemis saiu do braço do pai e aproximou-se da cama.
Carlos a ajudou a subir.
A menina se encolheu cuidadosamente ao lado da mãe.
— Você vai voltar para casa amanhã?
Carlos fechou os olhos.
Clara não.
— Não amanhã.
— Depois?
Ela acariciou os cabelos da filha.
— Eu vou ficar com você de outro jeito.
Artemis fez uma expressão confusa.
— Como?
Clara sorriu.
— Você vai descobrir.
— Não entendi.
— Nem seu pai entende metade do que eu falo.
Carlos respirou fundo.
— Isso porque você não faz sentido.
— Viu?
Artemis soltou uma risadinha.
Clara beijou sua testa.
Depois olhou para Carlos.
Não disseram nada.
Não precisavam.
Alguns minutos depois, Artemis adormeceu novamente junto dela.
Carlos permaneceu sentado.
Segurando a mão de Clara.
O céu começou lentamente a mudar de cor do outro lado da janela.
Azul.
Laranja.
Vermelho.
Então noite.
Clara não voltou a abrir os olhos.
E, por muitos anos, Carlos Mint acreditaria que aquelas haviam sido apenas as últimas palavras de uma mulher tentando convencer o marido a continuar vivendo.
Ele só descobriria muito mais tarde que Clara jamais escolhera suas palavras por acaso.