Dez anos depois.
Carlos Mint concluiu que algumas coisas jamais mudavam.
A fachada principal da Academia Imperial de Ressonância de Astraea continuava excessivamente grande.
As torres laterais ainda pareciam ter sido projetadas por alguém que acreditava que uma instituição de ensino precisava lembrar uma fortaleza.
E a escadaria da entrada continuava tendo degraus demais.
— Eu lembrava disso menor.
Artemis, que caminhava dois passos à frente, virou-se.
— Você está ficando velho.
Carlos parou no meio de um degrau.
— Eu paguei dezesseis anos de alimentação para ouvir isso?
— Quinze. Antes disso eu mamava.
— Não melhora sua situação.
Artemis sorriu e voltou a subir.
Carlos ajustou os óculos e continuou atrás dela.
Ao redor, centenas de pessoas atravessavam a extensa praça diante da Academia.
Famílias.
Estudantes.
Professores.
Militares.
Vendedores.
A tradicional Visita Escolar de Astraea havia crescido bastante desde a época em que Carlos estudara ali.
Naqueles tempos, significava basicamente pais entrando nas salas, professores tentando parecer competentes e alunos tentando esconder qualquer coisa que não deveria estar nos dormitórios.
Agora parecia um festival.
Bandeiras das diversas províncias imperiais balançavam entre os prédios. Barracas ocupavam os jardins externos. Hologramas anunciavam demonstrações, exposições e palestras.
Mais acima, suspenso entre duas torres, um painel gigantesco alternava informações sobre o evento.
BEM-VINDOS À VISITA ANUAL DA ACADEMIA ASTRAEA
Logo abaixo:
DEMONSTRAÇÃO DE ASTRA CLASSE C — ARENA CENTRAL — 14H
Uma criatura alada surgiu no holograma seguinte.
Carlos identificou um Kaiju classe E antes mesmo da legenda aparecer.
A imagem foi substituída por um Astra mergulhando dos céus e atravessando o monstro com uma lança luminosa.
Artemis parou.
— Essa demonstração eu quero ver.
— Você já não passa tempo suficiente olhando essas coisas?
Ela o encarou.
— Pai, eu estudo aqui.
— Exatamente meu argumento.
— Você estudou aqui também.
— E sobrevivi. Portanto tenho autoridade para criticar.
Artemis revirou os olhos.
Carlos sorriu.
Era difícil não fazê-lo.
Ela usava o uniforme azul-escuro de Astraea, ajustado nas mangas e marcado pelo emblema prateado da Academia sobre o peito.
Dezesseis anos.
Carlos ainda lembrava da garota de seis anos dormindo nos braços de Clara.
Às vezes a distância entre aquelas duas imagens parecia impossível.
Outras vezes bastava Artemis franzir o cenho de determinado jeito para ele enxergar a mãe dela novamente.
Principalmente nos olhos.
Azuis.
Clara sempre vencera naquela parte.
— Pai.
Carlos percebeu que Artemis o observava.
— O quê?
— Você fez aquela cara.
Ele imediatamente ficou na defensiva.
— Que cara?
— A cara.
— Isso não significa nada.
— Significa que estava pensando na mamãe.
Carlos ficou em silêncio por um instante.
Artemis não parecia triste.
Apenas sabia.
— Talvez.
Ela sorriu de leve.
— Ela ia reclamar desse lugar estar cheio desse jeito.
— Sua mãe ia reclamar do preço daquele espetinho.
Carlos apontou para uma barraca.
Artemis acompanhou.
A placa anunciava espetinhos de carne de alguma criatura cujo nome Carlos nunca tinha ouvido.
— Você nem sabe o que é isso.
— Esse é metade do encanto.
— Você vai comer uma coisa que não sabe o que é?
— Sua geração perdeu o espírito de aventura.
— Minha geração luta contra Kaijus.
— No simulador.
— Ainda conta.
— Não quando existe botão de reiniciar.
Artemis abriu a boca para responder.
— Artemis!
Ela imediatamente virou.
Uma garota de cabelos negros curtos atravessava a multidão quase correndo.
— Suzuka!
As duas se encontraram num abraço.
Carlos reconheceu Suzuka Nonato pelas chamadas de vídeo e pelas incontáveis vezes em que ouvira o nome dela em casa.
Atrás dela vinha um rapaz carregando três copos.
— Eu disse para esperar!
Suzuka apontou para ele.
— Franco, esse é o pai da Artemis.
O garoto parou.
Carlos observou.
Dezesseis anos.
Cabelos castanhos claros.
Bom porte.
Uniforme bem arrumado.
E uma expressão que mudou quase imperceptivelmente quando seus olhos encontraram Artemis.
Carlos estreitou os olhos.
Franco percebeu.
Algo ancestral aconteceu entre os dois.
Artemis suspirou.
— Pai.
— O quê?
— Pare.
— Não fiz nada.
— Ainda.
Franco limpou a garganta.
— Senhor Mint.
— Senhor Lefion.
O rapaz piscou.
— Você sabe meu sobrenome?
— Sei muitas coisas.
Artemis fechou os olhos.
— Ele não sabe muitas coisas.
— Sei as importantes.
Suzuka levou um dos copos à boca para esconder o sorriso.
Franco estendeu outro para Artemis.
— Trouxe aquele chá que você gosta.
Carlos olhou para o copo.
Depois para Franco.
Depois novamente para o copo.
Artemis arrancou a bebida da mão do colega.
— Obrigada.
— De nada.
— Muito gentil — comentou Carlos.
Franco pareceu não saber se aquilo era elogio ou ameaça.
— Pai.
— Só estou elogiando seu amigo.
— Você fala “amigo” como se estivesse interrogando um suspeito.
— Impressão sua.
Suzuka já não tentava esconder o divertimento.
— Seu pai é exatamente como você descreveu.
Carlos olhou para Artemis.
— Como você me descreveu?
— Vamos conhecer a Academia.
— Artemis.
— Pai, olha! Um Astra!
E saiu andando.
Carlos ficou parado.
Suzuka seguiu atrás dela.
Franco hesitou.
Carlos colocou a mão sobre o ombro dele.
— Senhor Lefion.
— Sim?
— Quarenta e seis por cento, não é?
O rapaz arregalou os olhos.
— Como...
— Artemis comenta das avaliações.
— Ah.
Carlos deu dois tapinhas em seu ombro.
— Número interessante.
Sorriu.
— Vamos acompanhar as meninas?
Franco assentiu rapidamente.
— Claro.
Carlos seguiu.
Atrás dele, Franco murmurou:
— Isso foi uma ameaça?
Suzuka respondeu:
— Foi.
________________________________________
O coração da Academia permanecia reconhecível.
Os prédios, não.
Carlos se lembrava de estruturas baixas conectadas por corredores externos.
Agora havia passarelas suspensas.
Elevadores transparentes.
Jardins verticais.
Cristais de energia embutidos nas paredes dividindo espaço com circuitos eletrônicos.
Pequenos drones atravessavam os corredores levando material entre laboratórios.
A tecnologia mudara.
A magia também.
Ou, talvez, tivesse apenas aprendido a vestir roupas novas.
O grande pátio central continuava ali.
No centro, uma estátua representava dois pilotos diante de um antigo Astra.
Carlos parou diante dela.
— Essa não existia.
Artemis apontou para a placa.
— Centenário da Batalha dos Dez Dias. Foi inaugurada dezessete anos atrás.
Carlos leu os nomes gravados na base.
Havia muitos.
Mais do que lembrava das aulas de história.
Vinte e três Astras SS.
Centenas de pilotos de classes inferiores.
Milhares de soldados.
Uma nação desaparecida dos mapas.
Carlos ergueu os olhos para a imagem do Kaiju esculpida atrás dos pilotos.
Abaddon.
Mesmo estilizada, a criatura parecia grande demais.
— Eles exageraram no tamanho — comentou.
Franco balançou a cabeça.
— Pelo que estudamos, reduziram.
Carlos olhou para ele.
— Isso não ajuda.
Suzuka apontou para outro painel.
Uma animação mostrava as classificações atuais de resposta.
Astras de serviço.
Unidades de escolta.
Modelos de combate.
Cada classe representada por uma silhueta.
— A ala de exposição tem um classe B antigo — disse Franco. — Dizem que foi usado numa batalha real no continente oriental.
Carlos reconheceu o entusiasmo.
Ele mesmo tivera aquela idade.
Também achara máquinas de guerra fascinantes quando a guerra era apenas uma coisa em livros.
— Vocês já pilotaram algum?
Artemis fez uma careta.
— Simuladores.
— Então não.
— Pai.
— Quando você entrar em um de verdade vai entender a diferença.
Suzuka ficou curiosa.
— O senhor pilotou?
— Classe D.
Artemis virou imediatamente.
— Você nunca contou isso.
Carlos deu de ombros.
— Não tem muito o que contar.
— Você pilotou um Astra D e nunca contou?
— Sua mãe também.
— PAI!
— O quê? Era obrigatório.
Franco parecia genuinamente interessado.
— O senhor chegou a combater?
Carlos hesitou.
— Uma operação.
Os três jovens ficaram atentos.
— Kaiju? — perguntou Suzuka.
— Classe F.
Artemis arregalou os olhos.
— Você nunca falou disso.
— Porque foi ridículo.
— Você lutou contra um Kaiju!
— Era do tamanho de uma van.
— Ainda era um Kaiju.
— Caiu num depósito de fertilizante, ficou preso e nós basicamente empurramos a criatura para dentro de uma contenção.
Silêncio.
Suzuka começou a rir.
Artemis fechou o rosto.
— Você estragou completamente a história.
— A vida faz isso com frequência.
— Carlos Mint?
A voz veio atrás deles.
Carlos parou.
Demorou um segundo.
Virou.
Um homem alto, de cabelos pretos já tomados por fios grisalhos, estava alguns metros adiante usando o uniforme escuro do corpo docente.
Carlos piscou.
O outro também.
— Sandro?
Sandro Tae Kaj abriu os braços.
— Seu desgraçado.
Eles se abraçaram.
Artemis olhou para Suzuka.
— Professor Sandro?
— Sim.
Carlos afastou-se.
Observou o uniforme.
Depois o distintivo.
Depois o homem.
— Você virou professor?
— Há quinze anos.
Carlos ficou genuinamente consternado.
— Daquela matéria que você colava de mim?
Sandro perdeu o sorriso.
Artemis cobriu a boca.
Suzuka virou o rosto.
Franco falhou miseravelmente em esconder uma risada.
— Eu nunca colei de você.
Carlos apontou.
— Runodinâmica Aplicada. Segundo ano. Prova do professor Giraldi.
— Eu só consultei uma resposta.
— Você copiou até meu erro.
— Eu estava sob pressão.
Carlos colocou uma mão no ombro dele.
— Realmente o nível desta Academia caiu muito.
— Eu posso expulsar visitantes.
— Você pode tentar.
Sandro olhou para Artemis.
— Você deve ser a filha dele.
— Artemis.
— Minhas condolências.
— Professor.
Carlos pareceu ofendido.
— Eu esperava algum respeito.
— De mim?
— Bom argumento.
Sandro observou Artemis por alguns segundos.
O sorriso diminuiu.
— Ela tem os olhos da Clara.
Carlos assentiu.
— Tem.
Houve um instante de silêncio.
Sandro tocou novamente seu ombro.
— Faz tempo.
— Faz.
— Você nunca mais apareceu.
— Tinha outros problemas.
Sandro entendeu.
Não insistiu.
Artemis pareceu perceber a mudança de clima e tomou a iniciativa.
— Professor, meu pai disse que pilotou um Astra D.
Sandro olhou para Carlos.
— Ele contou isso?
— Ela arrancou de mim.
— Pergunte sobre o pouso.
Carlos apontou para ele.
— Cuidado.
Artemis imediatamente se animou.
— Que pouso?
— Sandro.
— O pouso em que seu pai...
— Quer que eu conte como você ficou preso no banheiro feminino durante o Festival de Primavera?
Sandro fechou a boca.
Artemis olhou de um para o outro.
— Definitivamente quero estudar a história de vocês.
— Não — disseram ambos ao mesmo tempo.
Suzuka soltou uma gargalhada.
Uma voz feminina veio de uma passarela acima.
— Professor Tae Kaj!
Todos olharam.
Uma jovem de óculos segurava uma pilha de tablets contra o peito.
— A demonstração do laboratório mudou para a sala quatro?
Sandro ergueu a cabeça.
— Sala seis, professora Assunção!
— Seis?
— Mudaram novamente.
Ela fechou os olhos.
— Claro que mudaram.
Desceu a escada rapidamente.
Carlos a observou ajustar os tablets antes que escorregassem.
Sandro fez as apresentações.
— Brenda Assunção. Professora de Arquitetura Arcanoenergética. Brenda, este é Carlos Mint, antigo colega.
Ela arregalou ligeiramente os olhos.
— O Carlos Mint?
Carlos olhou para Sandro.
— O que você anda falando de mim?
— Nada bom.
Brenda corou.
— Não, não é isso. Eu li um artigo técnico seu sobre estabilizadores civis de terceira geração.
Carlos ficou genuinamente surpreso.
— Aquilo?
— A correção de fluxo por redundância manual era simples, mas muito elegante.
Artemis imediatamente olhou para o pai.
Carlos coçou a nuca.
— Foi uma gambiarra.
Brenda pareceu quase ofendida.
— Tecnicamente era uma solução emergencial baseada em...
— Professora.
— Sim?
— Gambiarra.
Ela hesitou.
Depois sorriu.
— Talvez.
Sandro olhou para Carlos.
— Ainda trabalha com manutenção?
— Durante o dia.
— E à noite?
— Depende da noite.
Artemis não comentou.
Não precisava.
Sandro percebeu.
Brenda também.
Antes que alguém dissesse algo, um grupo de estudantes surgiu no corredor.
O comportamento deles mudou instantaneamente.
Endireitaram uniformes.
Diminuíram as vozes.
Um deles quase bateu numa coluna.
Carlos acompanhou os olhares.
Uma mulher caminhava na direção contrária.
Alta.
Cabelos escuros presos num coque elegante.
Uniforme do corpo docente ajustado com uma precisão que parecia pouco acidental.
Carlos reconheceu o rosto.
— Aquela não é...
Sandro sorriu.
— Vera Kin Jae.
— A modelo?
— Ex-modelo.
Vera aproximou-se.
— “Ex” apenas porque pagam melhor aqui.
Sandro riu.
— Você ouviu?
— Eu sempre ouço meu nome.
Ela olhou para Carlos.
Por um instante, pareceu avaliá-lo.
— Visitante?
— Antigo aluno.
Sandro fez a apresentação.
— Carlos Mint.
— Mint...
Vera inclinou ligeiramente a cabeça.
— Já ouvi esse sobrenome hoje.
Artemis ergueu uma mão.
— Eu.
— Claro. Artemis Mint.
Vera sorriu.
— Excelente desempenho em Fundamentos Estratégicos.
Artemis imediatamente ficou mais ereta.
— Obrigada, professora.
Carlos olhou para a filha.
— Você nunca me contou isso.
— Porque você perguntaria a nota.
— Qual foi?
— Vamos embora.
Vera riu.
Carlos notou que aproximadamente sete rapazes próximos observavam a professora sem qualquer tentativa de fingir discrição.
Ele apontou discretamente.
— Seus alunos parecem muito concentrados.
Vera olhou para trás.
Todos imediatamente começaram a observar paredes, chão, teto e uma planta particularmente interessante.
— É um problema recorrente.
Carlos arqueou uma sobrancelha.
— Imagino.
— Tento acreditar que estão interessados no conteúdo.
— Generoso da sua parte.
Os olhos dela voltaram para ele.
Um pequeno sorriso.
— Gostei dele, Sandro.
— Não incentive.
Carlos fez um gesto de despedida.
— Foi um prazer.
Vera continuou caminhando.
Os estudantes retomaram a órbita ao redor dela.
Artemis olhou para o pai.
— Nem pense.
Carlos arregalou os olhos.
— Pense o quê?
— Eu conheço você.
— Artemis, eu literalmente não fiz nada.
Suzuka sussurrou:
— Ainda.
Carlos apontou para ela.
— Você está começando a me preocupar.
________________________________________
O grupo atravessou mais dois prédios antes de chegar à praça de demonstrações.
Ali havia Astras de verdade.
Mesmo Carlos diminuiu o passo.
Uma unidade classe E estava ajoelhada diante do público.
Quase oito metros de altura.
Muito menor que os grandes modelos militares, mas ainda suficiente para fazer crianças olharem para cima de boca aberta.
A carcaça branca possuía várias marcas de uso.
As juntas estavam expostas para que visitantes observassem parte do funcionamento.
Ao lado, técnicos explicavam como circuitos convencionais e conduítes arcanos trabalhavam juntos.
Uma mãe perguntou se um piloto sozinho poderia mover a máquina.
O técnico sorriu.
— Sistemas básicos, sim. Locomoção de emergência também. Mas um Astra de combate depende de Ressonância em dupla. Um piloto fornece intenção. O outro estabiliza e complementa. Quando os dois estão em sincronia, o sistema responde como se fossem uma única unidade.
Carlos percebeu Artemis ouvindo com atenção.
Franco também.
— E quanto maior a compatibilidade... — continuou o técnico — maior a eficiência energética.
Uma criança levantou a mão.
— Cem por cento é possível?
Algumas pessoas riram.
O técnico sorriu.
— Teoricamente.
— Alguém já conseguiu?
— Não nos registros modernos.
Carlos continuou andando.
Artemis o acompanhou.
— Trinta e dois.
Ele olhou para ela.
— O quê?
— Você e mamãe.
Carlos assentiu.
— Trinta e dois.
— Era baixo.
— Era suficiente.
— Você poderia ter tentado encontrar alguém mais compatível.
Carlos sorriu.
— Sua mãe diria que você está fazendo a pergunta errada.
— Qual seria a certa?
— Se eu teria encontrado alguém melhor.
Artemis esperou.
— E?
— Não.
Ela sorriu.
Carlos bagunçou seus cabelos.
— Agora pare de ficar sentimental. Está estragando minha reputação.
— Que reputação?
— Exatamente.
________________________________________
O movimento aumentou perto do meio-dia.
Grupos de estudantes atravessavam a praça.
Músicos tocavam.
Vendedores gritavam promoções.
Um pequeno Astra F utilizado para manutenção carregava crianças em passeios controlados ao redor de uma pista.
Carlos finalmente encontrou o espetinho.
— Não acredito.
Artemis cruzou os braços.
— Você realmente vai comer.
— Claro.
— O que é?
Carlos leu a placa.
— “Carne de dracólio criada em laboratório.”
Suzuka fez uma careta.
— Isso parece ilegal.
— Está dentro da Academia. Portanto deve ser quase legal.
Franco olhou o preço.
— Isso é caro.
Carlos imediatamente recuou.
— Sua mãe tinha razão.
Artemis riu.
— Você acabou de dizer isso sozinho.
— Nunca duvidei dela.
Foi então que a atmosfera mudou.
Não muito.
Apenas o suficiente.
Conversas diminuíram.
Alguns estudantes começaram a olhar na mesma direção.
Suzuka percebeu primeiro.
— Eles chegaram.
Artemis também viu.
A família Von Brainer atravessava a praça.
Aldergard vinha à frente.
Quarenta e dois anos, como Carlos.
Parecia dez anos mais jovem.
Carlos imediatamente considerou aquilo ofensivo.
Uniforme militar impecável.
Condecorações no peito.
Cabelos loiros sem um fio fora do lugar.
Olhos verdes que ainda possuíam exatamente a mesma confiança irritante de duas décadas antes.
Ao lado caminhava Iara Rin Balbuena Von Brainer.
Elegante.
Contida.
Sua postura denunciava uma educação moldada desde a infância para nunca oferecer ao ambiente mais do que pretendia.
Atrás deles estavam os filhos.
Kime Von Brainer, dezenove anos.
Alto.
Loiro.
Uniforme de terceiro ciclo.
O tipo de jovem que sabia perfeitamente que muitas pessoas o observavam.
Ao lado dele, Mikka Eustakis mantinha o braço entrelaçado ao seu.
Então Carlos viu Lara.
Dezesseis.
Cabelos loiros longos presos parcialmente atrás da cabeça.
Olhos verdes.
Postura impecável.
Queixo ligeiramente elevado.
Ela usava o mesmo uniforme de Artemis.
Parecia, de alguma maneira, que o uniforme havia sido feito especificamente para ela.
Dois estudantes caminhavam próximos.
Falando demais.
Rindo demais.
Concordando demais.
Carlos observou por alguns segundos.
— Arrogantes igual ao pai.
Artemis respondeu imediatamente:
— Sim.
Carlos olhou para ela.
— Você conhece?
— Todo mundo conhece Lara Von Brainer.
— Isso não parece elogio.
— Não era.
Suzuka aproximou-se.
— Ela tem as melhores notas do ano.
Franco completou:
— E as melhores avaliações práticas.
Artemis fez uma careta.
— E faz questão de saber disso.
Carlos observou Lara novamente.
— Então realmente puxou o pai.
Aldergard os viu.
Seu olhar permaneceu alguns segundos sobre Carlos.
Não houve surpresa evidente.
Nem qualquer gesto de entusiasmo.
Apenas reconhecimento.
Carlos também não desviou.
Por um instante, nenhum dos dois pareceu disposto a alterar a própria rota.
Então Aldergard mudou discretamente a direção, aproximando-se com a família.
Não seria adequado ignorar um antigo colega.
Mas também não eram amigos.
Aldergard parou diante deles.
— Mint.
Carlos ajustou os óculos.
— Brainer.
Iara ofereceu apenas uma inclinação educada de cabeça.
— Senhor Mint.
— Senhora Von Brainer.
Nada mais.
Não havia hostilidade em sua voz.
Também não havia intimidade.
Era simplesmente o tipo de cordialidade impecável que Carlos lembrava muito bem das famílias nobres da Academia.
Aldergard olhou para Artemis.
Foi a primeira vez que sua expressão mudou.
Muito pouco.
Os olhos azuis da garota parecem tê-lo feito hesitar.
— Sua filha?
— Artemis.
Ela se colocou um pouco mais ereta.
— Senhor.
Aldergard a observou por alguns segundos.
— Os mesmos olhos.
Carlos não perguntou de quem.
Não era necessário.
— Sim.
Aldergard permaneceu em silêncio por mais um instante.
— Clara os tinha exatamente assim.
Artemis olhou rapidamente para o pai.
Carlos apenas assentiu.
— Tinha.
Algo passou pelo rosto de Aldergard e desapareceu antes que pudesse ser identificado.
Iara voltou os olhos para Artemis, mas não fez qualquer comentário.
Aldergard então retomou a formalidade.
— Meus filhos. Kime e Lara.
Carlos fez uma breve inclinação de cabeça.
— Carlos Mint.
Kime respondeu da mesma forma.
— Senhor Mint.
Lara também.
— Senhor Mint.
— Senhorita Von Brainer.
Artemis e Lara trocaram olhares.
Não havia hostilidade aberta.
Mas simpatia também passara longe.
Lara reconheceu Suzuka e Franco.
— Nonato. Lefion.
— Von Brainer — respondeu Suzuka.
Franco acenou.
Artemis limitou-se a:
— Lara.
— Artemis.
Carlos observou os dois filhos.
Depois olhou novamente para Aldergard.
— Realmente puxaram você.
Aldergard estreitou ligeiramente os olhos.
— Como?
— Nada.
Artemis virou o rosto para esconder o sorriso.
Aldergard observou as roupas simples de Carlos.
Os óculos.
Os fios brancos.
— Soube que continua no setor civil.
— Continuo.
— Manutenção arcana?
— Entre outras coisas.
— Sempre achei desperdício.
Carlos deu de ombros.
— Eu não.
— Você tinha potencial para permanecer nas forças.
— Trinta e dois por cento não fazia generais disputarem minha assinatura.
— Nunca falei de sua compatibilidade.
Carlos sorriu.
— Eu sei.
Uma pausa.
Curta.
Aquela velha tensão parecia ter sobrevivido melhor aos anos do que ambos.
Aldergard olhou novamente para Artemis.
Talvez os olhos azuis trouxessem mais memórias do que desejava.
— Clara poderia ter tido uma carreira excepcional.
Carlos perdeu o sorriso.
Não por raiva.
Apenas porque conhecia aquele assunto.
— Poderia.
Aldergard voltou o olhar para ele.
Carlos terminou:
— Ela fez a escolha dela.
Silêncio.
Kime olhou discretamente para o pai.
Lara também.
Era evidente que aquela história existia em algum lugar na família Von Brainer, ainda que talvez nunca tivesse sido contada por inteiro.
Iara interveio com a precisão de quem sabia reconhecer quando uma conversa deixava de ser socialmente útil.
— A demonstração central começará em breve.
Aldergard assentiu.
O assunto estava encerrado.
Foi quando uma voz idosa surgiu atrás deles.
— Senhor Carlos Mint!
Carlos virou.
Um homem caminhava lentamente entre as pessoas.
Baixo.
Magro.
Cabelos totalmente brancos.
Postura ligeiramente curvada.
Mas os olhos continuavam vivos.
Muito vivos.
Carlos reconheceu imediatamente.
— Não acredito.
Valorant Baugarten sorriu.
— Eu poderia dizer o mesmo.
— O senhor ainda está vivo?
Artemis fechou os olhos.
— Pai!
Valorant riu.
— Pergunta perfeitamente razoável. Eu também verifico todas as manhãs.
Carlos apertou sua mão.
— Regente.
— Atualmente, sim.
— Atualmente?
— Tento me aposentar há vinte anos.
— Ninguém aceita?
— Ninguém é estúpido o suficiente para assumir.
Sandro surgiu alguns metros atrás.
— Isso inclui a mim!
Valorant virou a cabeça.
— Especialmente você.
Sandro desapareceu novamente entre a multidão.
Carlos riu.
Valorant cumprimentou Aldergard e Iara com a formalidade adequada aos títulos dos dois.
Depois observou os estudantes.
— A nova geração.
Seus olhos passaram por Artemis.
Franco.
Suzuka.
Kime.
Mikka.
E finalmente Lara.
— Senhorita Von Brainer.
— Regente.
— Ouvi sobre suas avaliações deste semestre.
Lara ergueu ligeiramente o queixo.
— Espero que tenham sido satisfatórias.
Carlos quase riu.
Valorant também pareceu perto disso.
— Mais que satisfatórias.
Aldergard mostrou orgulho.
Porém Valorant continuou:
— Exceto, naturalmente, pela compatibilidade.
Lara ficou rígida.
Carlos percebeu.
Foi pequeno.
Quase nada.
Mas estava ali.
Aldergard respondeu:
— Ainda há tempo.
— Naturalmente.
Valorant não insistiu.
Carlos olhou para Artemis.
Ela havia comentado alguma coisa.
— Vinte e cinco? — perguntou.
Lara olhou para ele.
— Vinte e quatro vírgula oito.
Carlos piscou.
— Você sabe a casa decimal?
— Evidentemente.
— Certo.
O olhar dela parecia perguntar que tipo de idiota não saberia.
Artemis se aproximou do pai.
— Eu disse que ela era assim.
Lara ouviu.
— Eu ouvi.
— Era para ouvir.
Carlos ergueu as mãos.
— Excelente. Adolescentes.
— Pai.
— Senhor Mint — disse Lara, fria —, sua filha sempre é assim?
Carlos pensou.
— Frequentemente pior.
Artemis arregalou os olhos.
— Traidor.
Por um instante, Lara quase sorriu.
Quase.
Um barulho de alguma coisa batendo no chão interrompeu o grupo.
Depois outro.
E outro.
— Não, não, não, não!
Uma garota um pouco mais velha que Artemis vinha na direção deles carregando uma caixa grande demais.
Ou, mais precisamente, tentando carregá-la.
Marika Shizuma tinha dezessete anos, cabelos castanhos presos de qualquer maneira e a expressão desesperada de alguém percebendo tarde demais que cometera um erro logístico.
Valorant fechou os olhos.
— Marika.
— Está tudo sob controle, Regente!
Uma esfera caiu da caixa.
Quicou.
Depois outra.
Valorant abriu os olhos.
— Marika...
— Eu consigo!
A caixa inclinou.
Carlos reconheceu os objetos.
Medidores portáteis de compatibilidade.
Orbes.
Dezenas deles.
— Marika, pare.
— Só preciso...
O pé dela atingiu a borda de uma placa.
A caixa voou.
— Ah.
Vinte ou trinta orbes espalharam-se pelo chão.
Alguns rolaram para debaixo das barracas.
Outros atingiram os pés dos estudantes.
Um deles passou entre Carlos e Aldergard.
Outro parou perto de Lara.
Marika ficou imóvel.
— Eu...
Valorant respirou fundo.
— Está tudo bem.
— Mas...
— Apenas recolha.
Carlos se abaixou.
— Vamos ajudar antes que alguém pise nisso.
Artemis fez o mesmo.
Franco e Suzuka também.
Até Kime começou a recolher os aparelhos.
Lara olhou para um orbe que rolava lentamente à sua frente.
Abaixou-se.
Carlos estendeu a mão para o mesmo.
Os dedos dos dois tocaram a superfície simultaneamente.
O orbe acendeu.
Lara puxou levemente a mão.
Carlos também.
Mas o aparelho já havia ativado.
Linhas luminosas percorreram sua superfície.
Um círculo arcano surgiu sobre a esfera.
Carlos franziu o cenho.
— Opa.
Lara olhou.
— Você ativou.
— Eu?
— Foi você quem tocou.
— Você também tocou.
— Mas eu...
O círculo completou-se.
Uma pequena projeção surgiu entre eles.
Carlos esperava dois nomes.
Talvez nenhuma leitura válida.
Afinal, tinham tocado no aparelho por acidente.
Em vez disso, surgiu apenas um número.
Carlos ficou olhando.
Lara também.
O som ao redor pareceu diminuir.
Artemis parou com outro orbe nas mãos.
Aldergard deu um passo à frente.
Valorant não se moveu.
Durante um segundo inteiro ninguém disse nada.
Sobre o pequeno medidor, brilhando entre a mão envelhecida de Carlos Mint e os dedos de Lara Von Brainer, apareceu uma leitura que não era registrada havia mais de um século.
93%.