Por alguns segundos, ninguém disse nada.
O pequeno orbe continuava aceso entre Carlos e Lara.
93%.
Carlos olhou para o número.
Depois para Lara.
Depois novamente para o número.
Lara foi a primeira a falar.
— Está quebrado.
Carlos assentiu.
— Com certeza.
Afastou a mão do aparelho.
Lara fez o mesmo.
O círculo luminoso desapareceu.
Artemis ainda segurava outro dos orbes que havia recolhido do chão.
— Noventa e três?
Carlos levantou-se.
— Não.
Ela apontou para o aparelho.
— Pai, eu também vi.
— Ele caiu no chão.
— E?
— E aparelhos que caem no chão quebram.
Marika, ajoelhada alguns metros adiante, levantou discretamente a cabeça.
— Eles possuem proteção contra impacto...
Carlos olhou para ela.
Marika hesitou.
— ...mas não é impossível.
— Obrigado.
Voltou-se para Artemis.
— Viu?
Aldergard se aproximou.
Seu olhar estava preso ao aparelho.
— Deixe-me ver.
Valorant entregou-lhe o orbe.
Aldergard examinou a superfície.
Virou-o uma vez.
Depois observou Lara.
— Você nunca apresentou qualquer leitura próxima disso.
— Não.
— Seu maior índice foi vinte e quatro vírgula oito.
Lara apertou os lábios.
— Eu sei, pai.
Aldergard entregou o aparelho de volta.
— Então a leitura é inconsistente.
Carlos apontou imediatamente para ele.
— Exatamente.
Por algum motivo, concordar com Aldergard lhe causou um pequeno desconforto.
Mas naquele caso estava disposto a suportar.
Kime aproximou-se.
— Noventa e três seria...
Aldergard o interrompeu.
— Um resultado defeituoso.
Kime ficou em silêncio.
Carlos gostou daquela conclusão.
— Pronto.
Valorant permanecia observando.
Quieto demais.
Carlos conhecia aquele olhar.
O velho estava pensando.
Nunca era bom quando Valorant Baugarten começava a pensar sobre alguma coisa envolvendo outras pessoas.
— Repitam — disse ele.
Carlos respondeu quase imediatamente:
— Não.
Lara também:
— Não.
Os dois se olharam brevemente.
Nenhum pareceu particularmente satisfeito por terem concordado.
Valorant ergueu uma sobrancelha.
— Curioso.
Carlos cruzou os braços.
— Não há nada de curioso. O aparelho caiu.
— Exatamente.
— Então repetirmos um resultado obviamente errado não vai mudar nada.
Lara assentiu.
— Concordo.
Carlos pensou que aquela talvez fosse a primeira opinião da garota que não lhe causava vontade de discutir.
Valorant olhou para ela.
— Senhorita Von Brainer?
— Meu índice é conhecido. Esse valor é impossível.
Carlos murmurou:
— Finalmente alguma sensatez.
Lara ouviu.
— Não pedi sua avaliação.
Carlos apenas ergueu as mãos.
Era cedo demais para discutir com uma adolescente Von Brainer.
Valorant pegou outro orbe do chão.
— Então não deve haver qualquer problema em confirmar.
Carlos olhou para o aparelho.
— Há.
— Qual?
— Falta de interesse.
Lara respondeu:
— Concordo.
Valorant observou os dois.
— Muito bem.
Carlos relaxou.
— Ótimo.
— Podemos simplesmente registrar que ambos se recusaram a confirmar um resultado de noventa e três por cento.
Carlos estreitou os olhos.
— Regente.
— Senhor Mint?
— Eu sei o que está fazendo.
— Não faço ideia do que esteja falando.
— Está tentando nos provocar.
Valorant abriu as mãos.
— Apenas estou registrando os fatos.
Carlos soltou o ar pelo nariz.
Velhote.
Mas não cairia naquela.
Tinha quarenta e dois anos.
Uma filha adolescente.
Dois empregos.
Contas.
Problemas reais.
Era escovado demais para ser manipulado por uma provocação tão infantil.
— Óbvio que não estou com medo.
Carlos fechou os olhos.
Lara.
Naturalmente.
Quando tornou a abri-los, ela já havia pegado outro orbe.
— Vamos, coroa.
Carlos a encarou.
Lara estendeu o aparelho.
— Ou vai ficar aí?
Carlos olhou para Valorant.
O Regente parecia inocente demais.
Eu não caí na provocação.
Olhou novamente para Lara.
Ela caiu.
Suspirou.
— Só para acabar com isso.
Estendeu a mão.
Lara fez o mesmo.
O orbe despertou.
Linhas luminosas surgiram.
O círculo se completou.
E o número apareceu novamente.
93%.
Lara ficou imóvel.
Carlos franziu o cenho.
Aldergard tomou o aparelho das mãos da filha.
Examinou.
— Outro da mesma caixa.
Carlos assentiu imediatamente.
— Exato.
Artemis olhou para o pai.
— Dois aparelhos?
— Da mesma caixa que acabou de cair.
Aldergard concordou.
— O impacto pode ter afetado todo o lote.
Valorant fez uma pequena inclinação de cabeça.
— É possível.
Carlos abriu as mãos.
— Então resolvido.
Valorant pegou um terceiro orbe.
— Confirmaremos.
Carlos olhou para ele.
— Não.
Lara respondeu quase junto:
— Não é necessário.
Aldergard também interveio.
— Regente, já estabelecemos uma causa plausível.
— Estabelecemos uma hipótese.
— Bastante plausível.
Valorant assentiu.
— Concordo.
Carlos olhou desconfiado.
Não gostava quando Valorant concordava.
O Regente continuou:
— Então um terceiro teste poderá encerrá-la definitivamente.
Carlos respirou fundo.
— Não.
Lara cruzou os braços.
— Também não.
Valorant observou os dois durante alguns segundos.
Depois disse, com absoluta tranquilidade:
— Naturalmente.
Fez menção de guardar o aparelho.
— Afinal, seria um desperdício insistir quando ambos estão tão seguros de que o resultado está errado.
Carlos reconheceu a armadilha.
Lara também pareceu reconhecer.
Dessa vez ninguém falou.
Valorant acrescentou:
— Particularmente depois de duas leituras idênticas.
Carlos permaneceu imóvel.
Lara também.
O silêncio começou a incomodar.
Carlos pensou:
Não.
Valorant esperou.
Não vou cair nessa.
Lara estendeu a mão.
— Me dê.
Carlos virou lentamente a cabeça.
Valorant entregou o orbe a ela.
Lara segurou o aparelho.
— Pela última vez.
Carlos respirou fundo.
— Você percebe que ele venceu, não percebe?
— Não estou fazendo isso por ele.
— Claro.
Ela lhe estendeu o orbe.
Carlos tocou.
Lara também.
Luz.
Círculo.
Leitura.
93%.
Dessa vez ninguém encontrou uma resposta imediata.
Artemis olhou para o pai.
Kime olhou para Lara.
Aldergard manteve o rosto fechado.
Carlos retirou a mão.
— A caixa inteira está quebrada.
Lara assentiu rapidamente.
— Evidentemente.
Aldergard ainda observava o aparelho.
— Três unidades expostas ao mesmo impacto.
Então ergueu os olhos para Valorant.
— Ainda não vejo motivo para tratar isso como algo além de falha de equipamento.
Carlos pensou que talvez nunca tivesse gostado tanto de Aldergard Von Brainer.
Valorant apenas respondeu:
— Felizmente, não precisamos depender dos orbes.
Carlos sentiu o coração afundar um pouco.
— Claro que não.
________________________________________
A Antiga Câmara de Medição ficava numa ala da Academia que Carlos quase havia esquecido que existia.
O grupo deixou o festival para trás e entrou em corredores progressivamente mais silenciosos.
Artemis e seus amigos acompanharam.
Os Von Brainer também.
Carlos considerou reclamar.
Depois decidiu que já havia perdido aquela manhã de qualquer maneira.
Desceram uma escadaria.
Depois outra.
As paredes mudaram.
O metal polido e os painéis modernos deram lugar a pedra, inscrições antigas e estruturas arcanas incorporadas diretamente à arquitetura.
Franco observava tudo com evidente fascínio.
— Eu nem sabia que essa ala era acessível.
Valorant continuou caminhando.
— Normalmente não é.
Suzuka perguntou:
— Por quê?
— Porque não há motivo.
Carlos murmurou:
— Até alguém derrubar uma caixa.
Marika, que os acompanhava alguns passos atrás, baixou a cabeça.
Artemis deu uma cotovelada leve no pai.
— Não precisa piorar.
— Não estou piorando. Estou documentando.
A porta final era enorme.
Valorant colocou a mão sobre um painel moderno instalado ao lado.
A estrutura reconheceu sua identificação.
Travas antigas se moveram.
A porta abriu.
Carlos parou.
A sala era circular.
Três anéis metálicos gigantescos ocupavam o espaço central, suspensos em torno de uma plataforma com dois assentos.
Cristais azulados estavam encaixados nas estruturas.
Runas percorriam as paredes.
Cabos modernos dividiam espaço com mecanismos que pareciam ter sobrevivido a duas eras tecnológicas diferentes.
Artemis abriu os olhos.
— Isso é antigo.
— A estrutura original tem mais de dois séculos — explicou Valorant.
Carlos olhou para ele.
— E vamos confiar justamente nessa?
— Ela foi modernizada.
— Quantas vezes?
— Diversas.
— Uma resposta maravilhosamente imprecisa.
Uma mulher surgiu do outro lado da plataforma.
Brenda Assunção carregava um tablet.
— Regente?
Então percebeu Carlos.
Depois Lara.
Depois praticamente metade da família Von Brainer.
— Aconteceu alguma coisa?
Valorant entregou-lhe um dos orbes.
Brenda leu.
Parou.
Leu novamente.
— Noventa e três?
Carlos apontou.
— Está quebrado.
Brenda olhou para Valorant.
— Quantos testes?
— Três.
Ela devolveu o aparelho lentamente.
— Então realmente seria melhor usar a Câmara.
Carlos suspirou.
— Todos vocês trabalham juntos para tornar minha vida mais difícil?
Brenda pareceu não saber se ele brincava.
Valorant apontou para a máquina.
— Antigamente todos os estudantes eram avaliados aqui. Quando o número de alunos aumentou, os sistemas portáteis foram desenvolvidos.
Artemis aproximou-se um pouco.
— Então essa máquina é mais precisa?
Brenda assentiu.
Agora estava em terreno conhecido.
— Muito mais. Os orbes analisam parâmetros suficientes para estimar a compatibilidade com altíssima precisão. A Câmara mede todo o padrão de Ressonância e acompanha diversos ciclos de interação.
Lara perguntou:
— Qual é a margem de erro?
Brenda consultou o painel.
— Aproximadamente três milésimos.
Carlos olhou para Lara.
— Ainda pode dar noventa e dois vírgula alguma coisa.
Ela fitou-o.
— Você acha que isso mudaria alguma coisa?
Carlos pensou.
— Psicologicamente, talvez.
Lara quase fez uma careta.
— Inacreditável.
Carlos ouviu.
— Imagine para mim. Descobrir que tenho noventa e três por cento com uma Von Brainer.
Ela ergueu o queixo.
— Imagine para mim. Com um coroa.
Carlos assentiu.
— Justo.
Aldergard não pareceu apreciar nenhuma das duas observações.
— Façam o teste.
Carlos olhou para ele.
— Gostei mais de você cinco minutos atrás.
Aldergard ignorou.
Carlos sentou-se.
Lara ocupou o outro lugar.
Brenda ajustou os sistemas.
— Mãos sobre as placas.
Ambos obedeceram.
— Não precisam fazer nada. Apenas permaneçam imóveis.
Os anéis começaram a girar.
Carlos sentiu um formigamento conhecido subir pelos braços.
Fazia muitos anos.
Mas não havia esquecido completamente.
Ressonância.
Com Clara era como reconhecer uma voz numa sala escura.
Aquilo era diferente.
Forte.
Muito forte.
Por um instante, Carlos abriu os olhos.
Lara também.
Os dois se encararam brevemente.
Nenhum comentou.
Os anéis aceleraram.
Luzes percorreram as runas.
Depois pararam.
Um painel surgiu acima da plataforma.
Linhas.
Gráficos.
Números.
Então:
93,184%.
Silêncio.
Brenda ficou imóvel.
Valorant também.
Aldergard observou o resultado.
Iara não demonstrou reação.
Kime, porém, parecia não conseguir desviar os olhos.
Carlos soltou lentamente o ar.
— Certo.
Lara levantou-se.
— Está confirmado.
Aldergard olhou para ela.
— Sim.
Carlos saiu da cadeira.
— Ótimo.
Valorant ergueu uma sobrancelha.
— Ótimo?
— Agora sabemos que os orbes não estavam quebrados.
Artemis olhou para o pai como se esperasse alguma conclusão maior.
Carlos ajustou os óculos.
— Podemos voltar ao festival?
Lara pareceu concordar imediatamente.
— Também não vejo motivo para permanecer aqui.
Aldergard voltou-se para a família.
— Então seguimos.
Carlos apontou para ele.
— Exatamente.
Artemis piscou.
— Vocês vão simplesmente...
— Sim.
Carlos passou um braço pelos ombros dela.
— Noventa e três por cento. Curioso. Raro. Excelente história para contar daqui a vinte anos.
Lara já caminhava em direção à porta.
— E absolutamente irrelevante.
Aldergard não discordou.
Para ele, aparentemente, tratava-se apenas de um dado excepcional.
Nada que alterasse a vida da filha.
Carlos gostou daquela interpretação.
— Viu? Todo mundo de acordo.
Valorant não se moveu.
Carlos percebeu.
Parou.
— Regente?
— Um instante.
Aldergard também parou.
Valorant retirou um comunicador do bolso.
Carlos franziu o cenho.
— O que está fazendo?
— Meu trabalho.
— Que inclui?
— Informar uma ocorrência desta natureza.
Aldergard fez uma expressão de leve desagrado.
— É realmente necessário?
— Sim.
Carlos observou enquanto Valorant manipulava o aparelho.
— Informar quem?
Valorant não respondeu.
Um símbolo apareceu acima do comunicador.
Primeiro pequeno.
Depois maior.
Carlos perdeu o sorriso.
Artemis também.
Uma coroa cercada por três estrelas.
O Selo Imperial.
Carlos ficou imóvel.
Havia coisas que uma pessoa via a vida inteira em documentos, transmissões oficiais, moedas, prédios públicos.
E havia coisas que nunca esperava ver projetadas a dois metros de distância porque alguém estava ligando diretamente para quem usava aquele selo.
Artemis segurou discretamente o braço do pai.
— Pai...
— Eu sei.
Sua voz saiu mais baixa do que pretendia.
Ao lado deles, a reação dos Von Brainer foi completamente diferente.
Aldergard apenas corrigiu a postura.
Iara fez o mesmo.
Kime pareceu atento, mas não surpreso.
Até Lara, apesar da tensão, adotou imediatamente uma posição formal.
Carlos percebeu aquilo.
Para ele e Artemis, falar com o Imperador era uma daquelas coisas que aconteciam com outras pessoas.
Para aquela família...
talvez não fosse exatamente rotina.
Mas também não era inconcebível.
O holograma se formou.
Um homem surgiu diante deles.
Cabelos escuros marcados por fios grisalhos.
Uniforme imperial.
Postura serena.
O Imperador.
Carlos esqueceu momentaneamente o que deveria fazer.
Artemis puxou-lhe discretamente a manga.
Ele percebeu que os Von Brainer já haviam se inclinado.
Imitou.
Agora a porra ficou séria.
— Majestade — disse Valorant.
— Regente Baugarten.
A voz era exatamente como Carlos ouvira em pronunciamentos públicos.
Aquilo tornou a situação ainda mais surreal.
O Imperador olhou para Aldergard.
— General Von Brainer.
— Majestade.
Não havia hesitação na resposta.
Quase parecia uma reunião militar qualquer.
Depois o olhar imperial chegou a Carlos.
— Senhor Mint.
Carlos demorou uma fração de segundo.
— Majestade.
Artemis permaneceu próxima ao pai.
Muito quieta.
O Imperador perguntou:
— A medição foi confirmada?
Valorant respondeu:
— Quatro vezes. Três sistemas portáteis e a Câmara de Ressonância.
— Resultado?
— Noventa e três vírgula cento e oitenta e quatro por cento.
O Imperador permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Carlos esperava surpresa.
Não houve.
Aquilo foi pior.
— Senhorita Von Brainer.
— Majestade.
— Senhor Mint.
— Majestade.
Carlos começou a achar estranho dizer aquilo tantas vezes.
— Imagino que nenhum dos dois esperasse esse resultado.
Lara respondeu primeiro.
— Não.
Carlos quase riu.
Aquilo era um resumo generoso.
— Definitivamente não.
O Imperador assentiu.
— Então explicarei de forma direta. Resultados iguais ou superiores a noventa por cento estão sujeitos ao Decreto Imperial de Salvaguarda de Ressonância.
Carlos franziu o cenho.
— Nunca ouvi falar.
Valorant respondeu:
— Pouquíssimas pessoas teriam motivo para ouvir.
Aldergard olhou para ele.
— Que decreto?
Carlos percebeu.
Até ele não sabia.
Isso reduziu ligeiramente sua preocupação.
Valorant respondeu:
— Promulgado há cento e setenta e nove anos. Nunca revogado.
Aldergard ficou sério.
O Imperador continuou:
— Um par com compatibilidade confirmada igual ou superior a noventa por cento é automaticamente classificado como Recurso Estratégico Imperial de Ressonância.
Carlos não gostou.
— Recurso?
— Terminologia jurídica.
— Uma péssima terminologia.
O Imperador fez uma pequena pausa.
— Concordo.
Carlos não esperava aquilo.
— O decreto estabelece treinamento obrigatório, preservação operacional da dupla e disponibilidade ao Império em circunstâncias estratégicas.
Lara cruzou os braços.
— Então somos obrigados a trabalhar juntos?
— Operacionalmente, sim.
Carlos passou a mão pelo rosto.
— Isso está ficando cada vez melhor.
Aldergard avançou meio passo.
— Majestade, minha filha tem dezesseis anos.
— Seus direitos enquanto menor permanecem integralmente preservados. O vínculo previsto é exclusivamente militar e operacional.
Iara permaneceu em silêncio.
Mas Carlos percebeu que sua atenção estava totalmente voltada para a conversa.
Lara perguntou:
— E se eu recusar?
A sala mudou.
Pouco.
Mas mudou.
Aldergard virou-se para a filha.
Valorant ficou imóvel.
Carlos percebeu que até Kime segurou a respiração.
O Imperador respondeu sem elevar a voz.
— A partir da confirmação oficial da leitura, a recusa deliberada a uma convocação decorrente do Decreto de Salvaguarda é classificada como traição ao Império.
Silêncio.
Carlos sentiu Artemis apertar seu braço.
Não era necessário explicar mais.
Todo cidadão imperial sabia o que significava uma acusação de traição.
Lara perdeu parte da cor no rosto.
Aldergard ficou absolutamente imóvel.
Até para os Von Brainer aquilo não era pequeno.
O Imperador continuou:
— Não digo isso como ameaça, senhorita Von Brainer. É justamente por considerar a redação antiga excessivamente severa que pretendo garantir condições razoáveis para ambos.
Lara assentiu.
Dessa vez sem arrogância.
— Entendo, Majestade.
Carlos não perguntou o que aconteceria se ele próprio recusasse.
Já tinha entendido.
Muito bem.
O Imperador prosseguiu:
— O Império assumirá os custos relacionados à formação e preparação do par.
Carlos prestou mais atenção.
— Será disponibilizada moradia na Academia, alimentação, assistência médica, material acadêmico e remuneração mensal compatível com a classificação estratégica.
Carlos piscou.
Material acadêmico?
Não teve tempo de perguntar.
O Imperador continuou:
— Também fui informado de que sua filha estuda em Astraea.
Carlos olhou para Artemis.
— Sim.
— Sua formação será integralmente custeada pelo Estado até a conclusão.
Carlos ficou parado.
— Integralmente?
— Sim.
— Até ela terminar?
— Sim.
— Mensalidade?
— Integral.
— Material?
— Incluído.
Carlos não respondeu imediatamente.
Artemis também não.
Para Aldergard e Iara, aquela parte da conversa parecia quase burocrática.
Lara sequer reagiu.
Carlos percebeu a diferença.
Para os Von Brainer, o custo de estudar em Astraea provavelmente jamais fora assunto relevante numa mesa de jantar.
Para ele...
Carlos lembrou das contas.
Das horas extras.
Do segundo emprego.
Das noites chegando em casa quando Artemis já dormia.
Das vezes em que a filha perguntara se precisava mesmo daquele material novo.
Das vezes em que dissera que podia abandonar alguma atividade para economizar.
E das vezes em que Carlos respondera que não precisava se preocupar.
Precisava.
Sempre precisara.
Só nunca quis que ela soubesse quanto.
— Pai...
Artemis falou baixo.
Carlos respirou fundo.
— Estou bem.
O Imperador continuou:
— Caso o senhor sofra incapacidade durante atividade militar vinculada ao decreto, as garantias permanecerão.
Carlos ficou sério.
— E se eu morrer?
— Pai.
Ele continuou olhando para o holograma.
O Imperador respondeu:
— Sua filha permanecerá integralmente amparada. Formação, moradia, assistência e pensão enquanto legalmente dependente.
Carlos assentiu devagar.
Aquilo era tudo que precisava saber.
Não mansões.
Não títulos.
Não terras.
Artemis estaria segura.
Olhou para ela.
Os olhos azuis de Clara.
Por um instante, pensou que talvez a vida tivesse escolhido uma maneira bastante estranha de cumprir uma promessa.
— Certo.
O Imperador o observou.
— Posso considerar que aceita as condições iniciais do Decreto?
Carlos pensou, por um instante, se aquilo realmente podia ser chamado de negociação quando a alternativa acabara de ser definida como traição imperial.
Provavelmente não.
Ainda assim...
Olhou novamente para Artemis.
— Aceito.
Ela baixou os olhos.
Carlos sabia o que havia naquele gesto.
Alívio.
E um pouco de culpa por senti-lo.
Ele apertou seu ombro.
O Imperador voltou-se para Lara.
— Senhorita Von Brainer?
Ela olhou para o pai.
Aldergard não disse nada.
A decisão, ainda que limitada pelas circunstâncias, era dela.
Lara respirou fundo.
— Aceito, Majestade.
— Muito bem.
O Imperador voltou-se para Valorant.
— Regente, providencie a documentação e as avaliações necessárias.
— Sim, Majestade.
— Quero um relatório preliminar em quarenta e oito horas.
— Será entregue.
O olhar imperial passou novamente por Carlos e Lara.
— Há ainda outra questão.
Ninguém falou.
— Há cento e dezessete anos, o Império preserva um Astra classe SS sem qualquer dupla capaz de alcançar os parâmetros mínimos de operação.
Carlos conhecia aquela história.
Todo mundo conhecia.
Fenrir.
O nome não foi pronunciado.
Ainda assim, pareceu ocupar a sala inteira.
O Imperador continuou:
— Não faremos qualquer suposição antes das avaliações. Um índice alto não transforma ninguém automaticamente em piloto de um SS.
Carlos ficou bastante satisfeito em ouvir aquilo.
Lara permaneceu séria.
— Por enquanto, cumpram as orientações do Regente.
Ambos assentiram.
— Sim, Majestade.
O holograma desapareceu.
O brasão permaneceu alguns segundos.
Depois também sumiu.
Carlos ficou olhando para o espaço vazio.
Artemis soltou o ar.
— Nós acabamos de falar com o Imperador.
Carlos olhou para ela.
— Sim.
— Com o Imperador.
— Eu estava lá.
Ela passou a mão pelo rosto.
— Isso é surreal.
Carlos apontou discretamente para os Von Brainer.
— Para alguns mais do que para outros.
Aldergard ouviu.
Não comentou.
Iara limitou-se a dirigir algumas palavras baixas ao marido.
Para eles, aquela parte realmente parecia menos extraordinária do que para Carlos.
Artemis então olhou para o pai.
— A Academia...
Carlos assentiu.
— Pois é.
Ela ficou em silêncio.
— Pai...
— Não começa.
— Eu sei quanto você trabalha.
Carlos desviou os olhos.
— Não sabe.
— Sei o suficiente.
Ele olhou novamente.
Artemis deu um pequeno sorriso.
— Você pode diminuir.
— Diminuir o quê?
— O trabalho.
— Artemis...
— Pai, eles vão pagar minha Academia. Você vai receber salário. Talvez não precise fazer dois empregos.
Carlos abriu a boca.
Fechou.
Aquela possibilidade ainda parecia estranha.
Um emprego.
Voltar para casa num horário razoável.
Talvez até ter finais de semana em que não estivesse fazendo algum serviço adicional.
— Talvez.
— Isso significa sim?
— Significa talvez.
Ela sorriu.
Carlos passou a mão pelos cabelos.
Olhou para Valorant.
Depois para Lara.
A garota conversava em voz baixa com Aldergard.
Ainda parecia tão descontente quanto ele com toda aquela história.
Pensando racionalmente...
Talvez realmente não fosse o fim do mundo.
— Sabe...
Artemis ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Talvez não tenha sido tão ruim.
— Você acabou de descobrir que uma lei de cento e setenta e nove anos pode acusar você de traição.
— Sim, essa parte é ruim.
— E vai ter que formar dupla com a Lara.
Carlos olhou discretamente para ela.
— Também não é exatamente uma vantagem.
— Eu ouvi — disse Lara, sem sequer se virar.
Carlos fez uma careta.
— Essa família tem uma audição irritante.
Lara voltou-se.
— Acredite, ter noventa e três por cento de compatibilidade com um coroa também não estava nos meus planos.
Carlos deu de ombros.
— Mesmo se eu tivesse dezesseis, uma Von Brainer seria impensável.
Aldergard olhou para ele.
Carlos decidiu encerrar aquela linha de conversa.
— Enfim.
Voltou-se para Artemis.
— Uma ou duas vezes por semana, venho aqui, faço algum treino com a pirralha arrogante num Astra, assino uns relatórios...
Lara estreitou os olhos.
Carlos ignorou.
— ...e talvez finalmente consiga largar um dos empregos.
Artemis sorriu.
Carlos sentiu algo raro.
Alívio.
Pela primeira vez em muito tempo, o futuro financeiro da filha não dependia exclusivamente de quantas horas ele conseguia trabalhar.
Talvez aquela situação absurda realmente trouxesse alguma coisa boa.
Atrás dele, alguém limpou a garganta.
Carlos fechou os olhos.
Conhecia aquele som.
Virou lentamente.
Valorant segurava um tablet contra o peito.
Sua expressão estava tranquila.
Tranquila demais.
— Senhor Mint...
Carlos sentiu a esperança diminuir.
— Sim?
Valorant sorriu.
— Talvez tenha entendido alguns pontos erroneamente.