Carlos Mint permaneceu olhando para Valorant Baugarten.
O Regente continuava segurando o tablet contra o peito.
Calmo.
Sereno.
Com a expressão de alguém que sabia exatamente qual bomba estava prestes a soltar e pretendia apreciar cada segundo.
— Talvez tenha entendido alguns pontos erroneamente — repetiu.
Carlos estreitou os olhos.
— Quais pontos?
— Alguns.
— Quantos?
Valorant pensou.
— A maioria.
Carlos fechou os olhos.
Artemis levou a mão à boca.
Não estava rindo.
Ainda.
Lara permaneceu alguns passos adiante junto da família.
Aldergard observava a conversa com atenção, aparentemente satisfeito por, pela primeira vez naquela manhã, o problema imediato pertencer mais a Carlos do que aos Von Brainer.
Carlos apontou para o tablet.
— Vamos simplificar. Eu venho aqui, treino, faço as avaliações, piloto com ela...
Apontou vagamente para Lara.
Ela não gostou do gesto.
— ...e vou embora.
Valorant balançou a cabeça.
— Não.
Carlos esperou.
— Não o quê?
— Não funciona assim.
— Poderia funcionar.
— Não poderia.
— Podemos tentar.
— Senhor Mint...
— Carlos.
Valorant ergueu uma sobrancelha.
— Perdão?
— Quando alguém está prestes a destruir minha vida, prefiro um tratamento menos formal.
Artemis finalmente soltou uma risadinha.
Carlos virou para ela.
— Não ajude.
Valorant consultou o tablet.
— Sua última certificação acadêmico-militar foi concluída há vinte e dois anos.
— E estava excelente quando deixei aqui.
— Há vinte e dois anos.
— Continua sendo meu diploma.
— Ninguém está questionando isso.
Carlos relaxou ligeiramente.
— Ótimo.
— Estamos questionando todo o resto.
O relaxamento desapareceu.
— Que resto?
Valorant deslizou o dedo pela tela.
— Protocolos modernos de combate. Novos sistemas de sincronização. Interfaces neurais assistidas. Matrizes arcanas de quarta e quinta gerações. Regras de operação conjunta. Sistemas de segurança implantados depois da revisão de 2311...
Carlos ergueu a mão.
— Tudo bem.
Valorant continuou:
— Reclassificação de Kaijus. Legislação militar atualizada. Novas doutrinas de evacuação. Combate urbano revisado. Operação de Astras modernos...
— Já entendi.
— Ainda não cheguei à metade.
Carlos olhou para Artemis.
Ela já estava sorrindo.
— Pare de gostar disso.
— Não estou gostando.
— Está quase brilhando.
Valorant continuou:
— Além disso, há a questão física.
Carlos voltou-se lentamente.
— Que questão física?
Valorant olhou para ele.
Carlos olhou para si mesmo.
— Estou bem.
Artemis tossiu.
— Você fica ofegante subindo a escada de casa.
— Nossa escada é mal projetada.
— São doze degraus.
— Muito inclinados.
Valorant manteve uma expressão profissional.
— A operação de um Astra exige condicionamento cardiovascular, resistência muscular, reflexos e tolerância elevada às cargas de Ressonância.
Carlos colocou uma mão na cintura.
— Eu trabalho.
— Não duvido.
— Trabalho bastante.
— Também não duvido.
— Faço manutenção pesada.
— Senhor Mint.
Carlos apontou.
— Carlos.
— Carlos. Subir numa escada com uma caixa de ferramentas não equivale a treinamento militar.
Artemis virou o rosto.
Os ombros tremiam.
Carlos olhou para ela.
— Pode rir.
Ela riu.
Suzuka e Franco, que ainda estavam ali porque evidentemente tinham decidido que aquela era a melhor atração de toda a Visita Escolar, acompanharam.
Até Kime pareceu esconder um sorriso.
Lara não riu.
Mas Carlos percebeu que o canto de sua boca havia se movido.
Não comentou.
Tinha problemas maiores.
— Certo — disse Carlos. — Então faço algumas atualizações.
Valorant assentiu.
— Exatamente.
Carlos pareceu aliviado.
— Algumas aulas, treinamento físico, simulador...
— Sim.
— Ótimo.
— Como aluno especial da Academia Astraea.
Silêncio.
Carlos continuou olhando para ele.
Valorant continuou olhando para Carlos.
— Como o quê?
— Aluno especial.
Artemis parou de rir.
Lara também prestou mais atenção.
Carlos apontou para si.
— Eu?
— Sim.
— Aluno?
— Sim.
— Da Academia?
Valorant olhou ao redor.
— Esta.
Carlos ficou alguns segundos absolutamente imóvel.
Depois olhou para o lugar onde o holograma imperial havia desaparecido.
— A ligação ainda funciona?
Valorant franziu o cenho.
— Por quê?
— Estou reconsiderando a traição.
Artemis arregalou os olhos.
— Pai!
— Só quero saber quais são exatamente as consequências.
— Pai!
— Dependendo da pena, talvez seja negociável.
Valorant respirou fundo.
— Não recomendo.
— Prisão?
— Entre outras possibilidades.
Carlos pensou.
— Quanto tempo?
— Carlos!
Ele olhou para a filha.
— Estou fazendo uma análise de custo-benefício.
Artemis passou a mão pelo rosto.
— Eu não acredito nisso.
Valorant continuou como se aquela conversa fosse absolutamente normal.
— O senhor não repetirá toda a formação.
Carlos virou imediatamente.
— Isso melhora.
— Será feita uma análise curricular.
— Melhor ainda.
— As disciplinas cuja estrutura permaneceu essencialmente igual serão dispensadas.
Carlos assentiu.
— Perfeito.
— Nas disciplinas alteradas parcialmente, poderá realizar provas de suficiência.
— Excelente.
— Caso seja aprovado, também ficará dispensado.
Carlos apontou para ele.
— Está vendo? Finalmente estamos falando a mesma língua.
Valorant sorriu.
— Nas disciplinas novas ou substancialmente modificadas, deverá frequentar as aulas normalmente.
Carlos baixou a mão.
— Quantas?
Valorant olhou para o tablet.
— Ainda estamos montando sua grade.
— Aproximadamente.
— Bastantes.
— Isso não é número.
— Entre dez e quatorze, dependendo das equivalências.
Carlos ficou imóvel.
— Matérias?
— Sim.
— Dez a quatorze matérias?
— Distribuídas ao longo do ciclo letivo.
— Eu tenho quarenta e dois anos.
— Essa informação continua constando no cadastro.
Carlos virou para Artemis.
— Ele está fazendo isso de propósito.
Ela tentou parecer solidária.
— Talvez.
— Você está adorando.
— Um pouco.
Carlos apontou.
— Eu sabia.
Valorant continuou:
— Além das disciplinas regulares, haverá treinamento físico específico e atividades operacionais.
Carlos colocou as mãos no rosto.
— Eu fui à escola.
Ninguém respondeu.
— Eu terminei a escola.
Artemis mordeu os lábios.
— Pai...
— Eu tenho diplomas.
Valorant assentiu.
— Ninguém os está confiscando.
— Eu fiz provas.
— Fará outras.
— Trabalhos em grupo?
Valorant pensou.
— Provavelmente.
Carlos olhou para o teto.
— Clara, se estiver vendo isso, saiba que eu te culpo parcialmente.
Artemis riu.
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Aldergard finalmente interveio.
— Imagino que nada disso altere a formação de Lara.
Valorant voltou-se para ele.
— Academicamente, muito pouco.
Lara pareceu relaxar.
— Ela seguirá a grade normal de sua turma?
— Sim.
— As disciplinas permanecem as mesmas?
— Permanecem.
Aldergard assentiu.
— Então ao menos essa questão está resolvida.
Valorant demorou um segundo a responder.
Carlos percebeu.
Aquele segundo era perigoso.
— Academicamente — repetiu o Regente.
Aldergard franziu o cenho.
— Sim.
— Operacionalmente, não.
Lara olhou para ele.
— Como assim?
Valorant consultou novamente o tablet.
— A partir da classificação formal do par, todas as atividades relacionadas à pilotagem, sincronização, treinamento de Ressonância e formação operacional da senhorita Von Brainer deverão ser realizadas em conjunto com o senhor Mint.
Carlos levantou a cabeça.
— Todas?
Lara falou ao mesmo tempo:
— Todas?
Valorant assentiu.
— Sempre que tecnicamente possível.
Lara pareceu ofendida.
— Até simulador?
— Especialmente simulador.
Carlos perguntou:
— Treinamento físico?
— Parte individual. Parte conjunta.
— Estratégia?
— Exercícios aplicados, sim.
— Campo?
— Sim.
— Avaliações?
— As operacionais, sim.
Lara cruzou os braços.
— Isso é absurdo.
Carlos concordou.
— Completamente.
Dessa vez ninguém implicou com o outro.
Era absurdo demais para desperdiçar energia numa discussão paralela.
Aldergard não respondeu imediatamente.
Seu olhar passou de Lara para Carlos.
Vinte e tantos anos atrás, outra garota de família importante atravessara aqueles corredores ao lado daquele mesmo homem.
Clara Milisé.
Na época, Carlos Mint era apenas um rapaz comum.
Compatibilidade de trinta e dois por cento.
Pouco potencial militar.
Pouquíssima ambição aristocrática.
Nenhum sobrenome relevante.
E mesmo assim Clara escolhera ficar ao lado dele.
Aldergard lembrava perfeitamente.
Aulas.
Treinamentos.
Missões acadêmicas.
Horas acumuladas em simuladores.
Refeições.
Estudos.
Discussões.
A convivência entre pares era intensa por uma razão simples: Astras exigiam intimidade operacional.
Aprender ritmo.
Reação.
Hábitos.
Medos.
Confiar a própria vida ao outro.
Era por isso que tantos pares terminavam formando casais.
Não por alguma propriedade mágica da Ressonância.
Por convivência.
Aldergard conhecia aquela história melhor do que gostaria.
E agora sua filha seria obrigada a passar os próximos anos realizando praticamente toda a formação operacional junto de...
Carlos Mint.
Aldergard torceu o nariz.
Carlos percebeu.
— O quê?
— Nada.
— Você fez uma cara.
— Não fiz.
— Fez.
— Pai — disse Artemis.
— O quê?
— Talvez não seja o momento.
Carlos olhou para Aldergard.
Depois para Lara.
Depois deu de ombros.
— Por mim, podemos diminuir essa convivência ao mínimo possível.
Lara assentiu.
— Finalmente algo razoável.
Aldergard não pareceu particularmente tranquilizado.
Iara, ao lado dele, observou o marido.
Ela talvez tivesse entendido exatamente o que passara por sua cabeça.
Não comentou.
Apenas disse:
— Lara cumprirá suas obrigações.
A garota olhou para a mãe.
— Claro que cumprirei.
Seu tom deixou evidente que cumprir não significava gostar.
Carlos simpatizou brevemente com a situação.
Muito brevemente.
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Valorant conduziu todos para uma pequena sala administrativa próxima à Câmara.
Marika reapareceu alguns minutos depois carregando bebidas e uma quantidade preocupante de formulários.
Carlos olhou para a pilha.
— Isso tudo é meu?
— Parte.
— Traição.
— Senhor Mint...
— Ainda estou avaliando.
Artemis sentou ao lado dele.
Os Von Brainer ocupavam a outra ponta da sala.
Valorant começou a explicar.
— Como aluno especial, sua matrícula será vinculada diretamente ao programa estratégico.
Carlos assinou o primeiro documento.
— Certo.
— Não haverá cobrança acadêmica.
— Excelente.
Segundo documento.
— Uniformes serão fornecidos.
A caneta parou.
— Uniformes?
Artemis imediatamente olhou para ele.
Carlos manteve os olhos no papel.
— Não.
Valorant continuou:
— Dois conjuntos de uso diário, uniforme físico e conjunto operacional.
— Não.
— Carlos...
— Tenho quarenta e dois anos.
— Já estabelecemos isso.
— Não vou usar uniforme escolar.
Artemis estava começando a rir novamente.
— Pai...
— Não.
Valorant fez uma pequena anotação.
— Nesse caso posso registrar recusa de equipamento obrigatório.
Carlos ficou em silêncio.
— Isso entra naquela parte de traição?
— Não.
Carlos relaxou.
— Ótimo.
— Apenas infração disciplinar.
A caneta voltou a se mover.
— Me dê os uniformes.
Artemis apoiou a testa na mesa.
Lara olhava para o outro lado.
Carlos tinha quase certeza de que ela também estava segurando o riso.
— Próximo.
Valorant deslizou outro documento.
— Moradia.
Carlos levantou os olhos.
— Isso também era para mim?
— Naturalmente.
Carlos piscou.
Até então presumira que a referência imperial a alojamento dizia respeito principalmente às necessidades acadêmicas de Artemis.
— Não preciso morar aqui.
— Não obrigatoriamente em tempo integral.
— Então pronto.
— Contudo, os horários de treinamento começam cedo e podem terminar tarde. Considerando sua distância residencial e a nova carga acadêmica, recomendamos residência durante a semana.
Carlos olhou para Artemis.
— Você fica no alojamento feminino?
— Durante a semana.
— Então eu fico...
Parou.
Pensou.
— Não.
Valorant esperou.
— Não vou morar em dormitório masculino com adolescentes.
Franco pareceu pessoalmente ofendido.
— Nem todos...
Carlos olhou para ele.
Franco reconsiderou.
— É, seria estranho.
— Obrigado.
Valorant assentiu.
— Concordamos.
Carlos ficou surpreso.
— Concordamos?
— Sua situação é excepcional.
— Essa frase está começando a me assustar.
— Por isso providenciamos uma alternativa.
Marika deslizou um tablet sobre a mesa.
Na tela havia a planta de uma pequena unidade residencial.
Carlos olhou.
Dois quartos.
Sala.
Cozinha compacta.
Banheiro.
— O que é isso?
— Apartamento funcional.
Artemis se aproximou.
— Dentro da Academia?
— Na ala residencial dos funcionários e pesquisadores.
Carlos olhou novamente.
— E por que dois quartos?
Valorant respondeu como se fosse óbvio.
— Para o senhor e sua filha.
Artemis piscou.
— Eu?
— Os alojamentos estudantis são separados por gênero. Como seu pai deverá permanecer no campus e vocês constituem núcleo familiar direto, a Reitoria autorizou uma exceção residencial.
Carlos olhou para Artemis.
Ela olhou para Carlos.
— Então vamos morar juntos aqui?
— Durante os períodos letivos em que seu pai optar pela residência acadêmica, sim.
Artemis ficou em silêncio.
Carlos esperou.
— Isso é ruim? — perguntou ele.
Ela fez uma careta.
— Não.
— Essa cara significa sim.
— Não é ruim.
— Artemis.
— É só...
Ela hesitou.
— Eu finalmente tinha saído de casa.
Carlos levou a mão ao peito.
— Depois de tudo que fiz por você.
— Pai.
— Dezesseis anos alimentando.
— Nós literalmente conversamos sobre isso hoje.
— E você me abandona no primeiro alojamento que encontra.
— Eu não abandonei ninguém.
Suzuka ria no canto.
Carlos apontou para ela.
— Não incentive.
Artemis pegou novamente o tablet.
— Tem cozinha?
— Sim — respondeu Marika.
Artemis olhou para o pai.
— Então talvez seja bom.
Carlos estreitou os olhos.
— Por quê?
— Para impedir você de viver de comida pronta.
— Eu cozinho.
Artemis ficou em silêncio.
Marika olhou para o tablet.
Suzuka olhou para o teto.
Franco decidiu beber água.
Carlos abriu os braços.
— Eu cozinho!
— Você aquece coisas.
— Isso é uma forma de cozinhar.
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Os detalhes continuaram durante quase uma hora.
Carlos receberia identificação acadêmica.
Acesso integral aos laboratórios vinculados ao programa.
Avaliações médicas.
Teste físico.
Mapeamento curricular.
Uniformes.
Horários.
Treinamento.
Aulas.
Muitos formulários.
Quando finalmente terminou, parecia mais cansado do que depois de um turno inteiro de trabalho.
Os Von Brainer se levantaram.
Aldergard conversou brevemente com Valorant.
Lara permanecia ao lado dos pais.
Carlos percebeu que ela parecia tão satisfeita com tudo quanto ele.
O que significava absolutamente nada.
Antes de sair, Lara olhou para ele.
— Então amanhã começam as avaliações?
Carlos olhou para Valorant.
— Amanhã?
O Regente assentiu.
— Oito horas.
Carlos fechou os olhos.
— Claro.
Lara apenas fez uma pequena inclinação de cabeça.
— Senhor Mint.
Carlos respondeu.
— Senhorita Von Brainer.
Não havia simpatia.
Também não havia necessidade de acrescentar qualquer coisa.
Ela saiu com a família.
Aldergard foi o último.
Por um instante, olhou para Carlos.
— Mint.
— Brainer.
— Não torne isso mais complicado do que já é.
Carlos franziu o cenho.
— Eu poderia dizer exatamente o mesmo.
Aldergard pareceu considerar alguma resposta.
Não disse nada.
Acompanhou a família.
Carlos observou a porta se fechar.
— Continua insuportável.
Artemis concordou.
— Lara também.
— Família consistente.
Valorant ouviu.
— Amanhã, oito horas.
Carlos apontou para ele.
— Já ouvi.
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Três dias depois, Carlos estava diante de um espelho.
E reconsiderando todas as decisões que havia tomado desde o nascimento.
Artemis apareceu atrás dele.
Parou.
Olhou.
Carlos continuou imóvel.
— Não.
Ela mordeu o lábio.
— Não começa.
Artemis perdeu a batalha.
Começou a rir.
Carlos fechou os olhos.
Vestia o uniforme da Academia Astraea.
Azul-escuro.
Calça formal.
Camisa clara.
Casaco acadêmico com detalhes prateados.
O corte era ligeiramente diferente do utilizado pelos estudantes regulares e havia uma pequena insígnia no peito indicando sua condição de aluno especial.
Isso não ajudava.
Continuava sendo um uniforme escolar.
Carlos ajustou a gola.
— Pare de rir.
Artemis segurou-se na porta.
— Eu estou tentando.
— Não parece.
— É que...
Ela respirou.
Olhou novamente.
Começou outra vez.
Carlos virou.
— Sua formação está garantida pelo Império. Ainda posso negociar para retirar isso.
Artemis parou imediatamente.
— Você não faria isso.
— Experimente.
Ela enxugou uma lágrima.
— Desculpa.
Carlos voltou para o espelho.
Alguns fios brancos apareciam entre os cabelos castanhos.
Óculos.
Quarenta e dois anos.
Uniforme escolar.
— Isso é ridículo.
Artemis surgiu ao lado dele.
Também estava uniformizada.
— Um pouco.
Carlos olhou para o reflexo dos dois.
Pai e filha.
Mesmo uniforme.
Mesma Academia.
Ele soltou um suspiro.
— Sua mãe estaria rindo.
Artemis sorriu.
— Muito.
— Provavelmente tiraria foto.
— Com certeza.
Carlos apontou para ela.
— Nenhuma foto.
Artemis já retirava o comunicador do bolso.
— Artemis.
— Uma.
— Não.
— Para registro histórico.
— Absolutamente não.
Ela levantou rapidamente o aparelho.
Carlos tentou impedir.
O flash aconteceu.
— Artemis!
Ela saiu correndo pelo pequeno apartamento.
— Vou mandar para o tio Sandro!
— NÃO MANDE PARA O SANDRO!
A porta abriu.
Artemis escapou.
Carlos pegou a bolsa acadêmica.
Parou.
Olhou para ela.
Também fornecida pela Academia.
— Bolsa.
Uniforme.
Livros.
Carlos Mint, quarenta e dois anos.
Aluno.
— Traição ainda parece uma alternativa.
Saiu do apartamento.
Artemis o esperava no corredor.
— Vamos, pai.
Carlos fechou a porta.
— Não fique me chamando de pai dentro da sala.
Ela arregalou os olhos.
— Como quer que eu chame?
Carlos pensou.
— Carlos.
Artemis começou a rir novamente.
— Nem morta.
— Então senhor Mint.
— Você enlouqueceu.
— Colega Mint?
— Piorou.
Eles começaram a caminhar.
Do lado de fora, Astraea despertava.
Estudantes atravessavam os jardins.
Drones transportavam equipamentos.
Ao longe, um Astra de treinamento movimentava-se lentamente em direção à arena.
Carlos observou tudo.
Vinte e dois anos antes, deixara aqueles corredores acreditando que jamais pisaria neles novamente como aluno.
Tinha seguido em frente.
Trabalhado.
Casado.
Perdido Clara.
Criado Artemis.
Envelhecido.
E agora caminhava pelo mesmo campus ao lado da filha.
Usando o mesmo uniforme.
Artemis olhou para ele.
— Nervoso?
Carlos bufou.
— Eu já estudei aqui.
— Há vinte e dois anos.
— Continua sendo uma escola.
— Você vai ser o aluno mais velho da Academia.
Carlos parou.
— Obrigado. Eu tinha conseguido esquecer por quase quinze segundos.
Ela sorriu.
— Vai ficar tudo bem.
Carlos voltou a caminhar.
— Fácil dizer.
— Por quê?
— Você não vai ter seu pai sentado na sua sala.
Artemis diminuiu o passo.
Parecia ter acabado de perceber aquilo por um ângulo completamente novo.
— Pai...
Carlos sorriu.
— Agora entendeu.
— Você não vai responder perguntas sobre mim.
— Claro que não.
— Nem contar histórias.
— Jamais.
— Nem falar que trocava minhas fraldas.
Carlos continuou andando.
— Não posso fazer promessas irresponsáveis.
— PAI!
A voz dela ecoou pelo corredor.
Alguns estudantes olharam.
Carlos ajeitou a bolsa no ombro.
Pela primeira vez naquela manhã, sorriu de verdade.
Era absurdo.
Completamente impensável.
Mas ali estava.
Carlos Mint, quarenta e dois anos, pai, viúvo, técnico, ex-piloto e recém-declarado recurso estratégico do Império, caminhava para seu primeiro dia de aula.
Ao lado da própria filha.