Carlos Mint descobriu que havia coisas piores do que entrar numa sala de aula aos quarenta e dois anos.
Entrar numa sala de aula aos quarenta e dois anos e perceber que todos já sabiam quem ele era estava, definitivamente, entre elas.
As conversas diminuíram assim que passou pela porta.
Não pararam.
Isso teria sido melhor.
Diminuíram.
O suficiente para que ele percebesse os cochichos.
— É ele?
— É.
— O pai da Artemis?
— Noventa e três por cento.
— Com a Von Brainer?
— Dizem que...
Carlos continuou andando como se não estivesse ouvindo.
Artemis vinha ao lado.
Parecia estranhamente confortável.
— Você podia ter me avisado.
— Sobre o quê?
— Isso.
Ela olhou ao redor.
— Todo mundo falando de você?
— Sim.
— Achei que tinha percebido no corredor.
Carlos puxou a cadeira ao lado dela.
— Estou começando a me arrepender de pagar sua educação.
Artemis sentou.
— Agora quem paga é o Império.
Carlos ficou em silêncio.
— Golpe baixo.
Ela sorriu.
Franco ocupava a carteira do outro lado de Artemis.
Ou ocupava até aquele momento.
Porque agora Carlos estava ali.
Franco olhou para ele.
Depois para Artemis.
Depois para o espaço entre os dois.
Carlos percebeu.
— Bom dia, senhor Lefion.
Franco endireitou a postura.
— Bom dia, senhor Mint.
Artemis fechou os olhos.
— Vocês vão fazer isso todo dia?
Carlos respondeu:
— Não sei do que está falando.
Franco também.
— Nem eu.
Suzuka, duas fileiras atrás, começou a rir.
A porta da sala abriu.
As conversas morreram imediatamente.
Carlos percebeu por quê.
Vera Kin Jae entrou.
O uniforme docente era elegante demais para ser chamado simplesmente de uniforme, embora tecnicamente fosse.
Cabelos escuros presos.
Passos tranquilos.
Um tablet numa das mãos.
Ela passou os olhos pela turma.
Parou em Carlos.
Por apenas um segundo a mais do que no restante.
— Bom dia.
A turma respondeu.
— Bom dia, professora.
Vera colocou o tablet sobre a mesa.
— Antes de começarmos, temos uma pequena alteração.
Carlos sentiu alguma coisa dentro dele afundar.
Não.
Ela não faria.
Vera olhou diretamente para ele.
Faria.
— Como todos aparentemente já sabem, temos um aluno especial integrando algumas disciplinas deste ciclo.
Carlos olhou para Artemis.
Não.
Artemis já sorria.
Vera continuou:
— Senhor Mint?
Carlos permaneceu sentado.
— Sim?
— Poderia se apresentar?
Carlos fechou os olhos.
Quarenta e dois anos.
Dois empregos.
Uma filha de dezesseis.
Já enfrentei um Kaiju.
E estou sendo obrigado a me apresentar para a turma.
Abriu os olhos.
— É realmente necessário?
Vera inclinou ligeiramente a cabeça.
— Não.
Carlos relaxou.
— Mas quero que faça.
Ele ficou olhando para ela.
Alguns alunos riram.
Carlos levantou.
Virou-se para a turma.
Silêncio.
Havia aproximadamente trinta adolescentes observando.
Inclusive sua filha.
— Certo.
Pensou.
— Meu nome é Carlos Mint.
Artemis cochichou:
— Eles sabem.
Carlos olhou para ela.
— Quer fazer por mim?
Ela sorriu.
Carlos voltou-se para a turma.
— Tenho quarenta e dois anos.
Um garoto no fundo murmurou:
— Caramba.
Carlos apontou.
— Eu ouvi.
Risadas.
— Estudei nesta Academia há vinte e dois anos, formei-me, cumpri serviço militar, fui embora e, contra toda lógica, bom senso e provavelmente alguma lei natural...
Olhou para Artemis.
— ...estou aqui novamente.
Mais algumas risadas.
Vera assistia com uma expressão divertida.
Carlos continuou:
— Trabalho com manutenção e sistemas arcanotecnológicos civis. Sou pai da Artemis...
Franco pareceu particularmente consciente dessa informação.
— ...e aparentemente agora colega dela.
Artemis baixou a cabeça sobre a mesa.
Carlos sorriu.
— Acho que é isso.
Vera apoiou o queixo sobre a mão.
— Bastante eficiente.
— Tenho experiência com reuniões.
— Imagino.
Carlos sentou.
Vera continuou olhando para ele por mais um instante.
Não era exatamente interesse pessoal.
Ainda não.
Parecia curiosidade.
Carlos Mint não combinava com o que ela imaginara ao ouvir sobre um homem de quarenta e dois anos com noventa e três por cento de Ressonância.
Parecia...
Normal.
Talvez isso fosse justamente o interessante.
A porta abriu novamente.
Lara Von Brainer entrou.
No horário.
Exatamente no horário.
O sino ainda não havia tocado.
Ela fez uma breve inclinação para Vera.
— Professora.
— Senhorita Von Brainer.
Lara caminhou até sua carteira habitual.
Primeira fileira lateral.
Sozinha.
Colocou a bolsa sobre a mesa.
— Não aí.
Ela parou.
Olhou para Vera.
— Perdão?
Vera apontou.
Carlos sentiu um arrepio.
— Ao lado do senhor Mint.
Carlos virou-se.
Lara também.
— O quê? — disseram simultaneamente.
Vera consultou o tablet.
— Determinação do Regente Baugarten. Nas disciplinas compartilhadas, sempre que possível, o par estratégico deverá permanecer próximo para atividades de observação e avaliação.
Lara olhou para o lugar indicado.
Era exatamente do outro lado de Carlos.
Carlos estava entre Artemis e a cadeira vazia.
— Isso é necessário? — perguntou Lara.
— Aparentemente.
Carlos ergueu uma mão.
— Professora...
— Ordens do Regente.
Carlos baixou a mão.
— Claro.
Lara pegou a bolsa.
Caminhou até eles.
Sentou-se ao lado de Carlos.
Artemis olhou.
Lara olhou de volta.
Nenhuma das duas pareceu particularmente satisfeita.
Franco, porém, viu uma oportunidade.
Com Lara ocupando o outro lado de Carlos, Artemis precisaria talvez se afastar...
Carlos puxou a própria cadeira alguns centímetros para perto da filha.
Franco desistiu.
Suzuka observava tudo com profundo interesse científico.
Vera bateu levemente os dedos na mesa.
— Agora que nossa reorganização social terminou...
Carlos ouviu Artemis rir baixo.
— ...podemos começar.
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Quarenta minutos depois, Carlos Mint começou a suspeitar que havia viajado para outro universo.
Vera desenhava estruturas no painel.
Símbolos apareciam.
Conexões.
Campos.
Abreviações.
Algumas Carlos reconhecia.
Outras pareciam ter sido inventadas por alguém particularmente irritado com a humanidade.
— Portanto — explicava Vera — quando o vetor de compensação probabilística ultrapassa a margem de retroalimentação da matriz Nessel-Kron, aplicamos o princípio de reversão Helmann-Suzhou antes da estabilização de quarta camada.
Carlos olhava para o quadro.
Piscou.
Olhou para Artemis.
Ela anotava.
Olhou para Lara.
Também anotava.
Voltou para o quadro.
Nessel o quê?
Vera continuou:
— Isso evita que uma divergência de intenção produza saturação assimétrica nos condutores secundários.
Carlos ergueu lentamente a mão.
Vera percebeu.
— Senhor Mint?
— Uma pergunta.
— Naturalmente.
Carlos apontou para o quadro.
— Quando inventaram isso?
Alguns alunos riram.
Vera sorriu.
— Qual parte?
— Tudo depois de “portanto”.
Mais risadas.
— A matriz Nessel-Kron foi formalizada há dezenove anos.
Carlos ficou em silêncio.
— Certo.
— A reversão Helmann-Suzhou, há doze.
Carlos assentiu devagar.
— Claro.
Vera continuou.
Carlos tentou acompanhar.
Cinco minutos depois apareceu uma nova expressão.
Acoplamento Vetorial de Intenção Paralela.
Carlos escreveu.
Depois riscou.
Escreveu novamente.
Olhou para Artemis.
— Isso existia?
Ela respondeu baixo:
— Desde o primeiro ano.
— Não na minha época.
Lara falou sem desviar os olhos do quadro:
— Talvez porque sua época tenha terminado antes da nossa começar.
Carlos virou lentamente.
Lara continuou anotando.
Ele pensou:
Pirralha.
Vera continuava.
Outra fórmula.
Outro conceito.
Outro nome.
Carlos tentou encontrar alguma coisa conhecida.
Havia.
Debaixo de camadas e mais camadas de terminologia moderna, havia conceitos que conhecia.
Mas era como reconhecer uma cidade onde todos os prédios haviam sido substituídos.
O terreno era familiar.
Todo o resto, não.
Quando o sino tocou, Carlos permaneceu imóvel.
Os alunos começaram a guardar o material.
Artemis se levantou.
— Pai?
Carlos olhava para as anotações.
— Pai?
Ele ergueu os olhos.
— Que porra é esse tema?
Artemis arregalou os olhos.
Alguns alunos próximos começaram a rir.
Carlos apontou para o quadro.
— Quem criou esses nomes?
Vera, ainda organizando seus materiais, ouviu.
Carlos continuou:
— Nessel-Kron? Helmann-Suzhou? Acoplamento vetorial de não sei o quê? O que vocês estão estudando aqui?
Artemis começou a rir.
— Fundamentos Estratégicos de Ressonância.
— Isso não é fundamento. Isso é vingança.
Lara guardou o tablet.
— É matéria do segundo ciclo.
Carlos olhou para ela.
— Obrigado. Isso piorou bastante.
Artemis tocou seu ombro.
— Eu posso te ajudar.
Carlos virou.
— Você?
Ela ficou ofendida.
— Sim.
— Você vai me ensinar?
— Se precisar.
Carlos olhou para a própria filha.
Dezesseis anos.
Uniforme escolar.
Oferecendo reforço para o pai.
— Isso é profundamente errado.
Artemis sorriu.
— Bem-vindo à Academia.
Carlos largou a cabeça sobre os braços.
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A segunda aula foi menos traumática.
Não boa.
Menos traumática.
Carlos reconheceu aproximadamente metade do conteúdo.
Na terceira, descobriu que dois sistemas de classificação haviam mudado.
Na quarta, foi informado de que um procedimento que utilizara durante serviço militar agora era considerado “historicamente relevante”.
Não gostou da expressão.
Pouco antes do almoço, chegou a aula de Sandro.
Carlos entrou já cansado.
Sandro estava diante da mesa.
Quando o viu, sorriu.
Carlos parou.
— Não.
— Eu ainda não disse nada.
— Conheço essa cara.
Sandro pegou a lista de presença.
— Mint, Artemis.
— Presente.
— Nonato, Suzuka.
— Presente.
— Lefion, Franco.
— Presente.
Seguiu alguns nomes.
Então:
— Mint...
Pausa dramática.
Carlos fechou os olhos.
— Carlos.
A turma começou a rir antes mesmo da resposta.
Sandro ergueu os olhos.
— Aluno Carlos Mint?
Carlos apertou os dentes.
— Presente.
— Não ouvi.
Carlos apontou.
— Tae Kaj.
Sandro largou a lista.
— Professor Tae Kaj.
— Quer mesmo brincar disso?
— Nesta sala, sim.
Carlos se inclinou para trás.
— Certo.
Sandro sorriu satisfeito.
— Excelente.
Começou a aula.
Cinco minutos depois, Carlos levantou a mão.
Sandro olhou.
— Sim, aluno Mint?
— Professor, essa explicação está incompleta.
Sandro parou.
— Como?
— Está usando o modelo de compensação direta, mas ignorou variação de retorno.
Sandro estreitou os olhos.
— Porque ainda chegaremos nela.
Carlos assentiu.
— Então tudo bem.
Sandro continuou.
Dois minutos.
Carlos levantou a mão.
Sandro respirou fundo.
— Sim?
— Você desenhou o vetor ao contrário.
A sala inteira olhou.
Sandro virou.
Olhou para o quadro.
Silêncio.
Apagou.
Corrigiu.
— Obrigado.
Carlos sorriu.
— Disponha, professor.
Sandro apontou para ele.
— Mais uma e conto sobre o incidente do refeitório.
Carlos baixou a mão imediatamente.
Artemis virou.
— Que incidente?
— Nenhum.
Sandro sorriu.
— Excelente decisão, aluno Mint.
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O refeitório estava lotado.
Carlos havia esquecido aquela parte da vida acadêmica.
O barulho.
Centenas de conversas.
Talheres.
Bandejas.
Grupos ocupando territórios invisíveis.
Atletas.
Alunos técnicos.
Militares.
Primeiro ciclo.
Segundo ciclo.
Famílias nobres.
Bolsistas.
Tudo misturado.
E, naquele dia, um assunto atravessava praticamente todas as mesas.
Carlos Mint.
Ele percebeu quando entrou.
Conversas diminuíram.
Algumas cabeças viraram.
Outras fizeram esforço excessivo para não virar.
Carlos pegou a bandeja.
— Isso vai durar quanto tempo?
Artemis respondeu:
— Depende.
— De quê?
Suzuka entrou na conversa:
— De você parar de ser interessante.
Carlos olhou para ela.
— Quero isso imediatamente.
Franco apontou para uma mesa.
— Podemos sentar ali.
Carlos seguiu.
Antes que chegassem, Lara apareceu com a própria bandeja.
Duas garotas vinham próximas dela.
Uma falava alguma coisa.
A outra concordava.
Lara claramente não prestava muita atenção em nenhuma.
Então viu Carlos.
Depois Artemis.
Carlos viu o momento exato em que ela percebeu algo desagradável.
Uma notificação apareceu em seu comunicador.
Ela leu.
Fechou os olhos.
Caminhou até a mesa deles.
Artemis fez uma expressão quase idêntica.
— Não.
Lara colocou a bandeja.
— Ordem do Regente.
Carlos olhou.
— Até no almoço?
— “Atividades acadêmicas integradas e períodos de convivência operacional supervisionada.”
Carlos mastigou lentamente.
— Ele escreveu isso?
— Sim.
Carlos olhou para o teto.
— Velhote.
Lara sentou.
As duas garotas que a acompanhavam ficaram paradas.
— Lara...
— Podem ir.
— Mas...
Lara olhou.
As duas foram.
Artemis observou.
Suzuka também.
Franco decidiu concentrar-se na comida.
Carlos percebeu uma coisa.
Lara não tinha exatamente amigos.
Tinha gente ao redor.
Não parecia a mesma coisa.
Guardou a observação para si.
Ao redor, o refeitório continuava cochichando.
Um garoto numa mesa próxima falou alto demais:
— Noventa e três por cento...
Carlos fechou os olhos.
Lara também ouviu.
Pela primeira vez naquele almoço, os dois tiveram exatamente a mesma expressão.
Cansaço.
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À tarde veio o treinamento físico.
Carlos descobriu que o corpo humano possuía músculos que podiam guardar rancor por mais de vinte anos.
A instrutora explicou o circuito.
Corrida.
Obstáculos.
Resistência.
Coordenação.
Carlos observou.
— Parece tranquilo.
Artemis olhou para ele.
— Você não devia falar essas coisas.
— Por quê?
— Sempre dá errado depois.
Quinze minutos mais tarde, Carlos concordava.
Os adolescentes já estavam na segunda parte.
Carlos ainda terminava a primeira.
Respiração pesada.
Camisa grudada nas costas.
Pernas questionando todas as escolhas de sua vida.
Lara passou por ele pela segunda vez.
Sem dificuldade aparente.
— Está bem, senhor Mint?
Carlos tentou responder sem demonstrar que precisava de oxigênio para isso.
— Perfeitamente.
Ela diminuiu um pouco.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Lara olhou para a distância restante.
Depois para ele.
— Ainda faltam três voltas.
Carlos encarou.
Ela seguiu.
— Pirralha irritante.
— Eu ouvi! — respondeu ela sem olhar para trás.
Carlos continuou correndo.
— Essa família inteira tem ouvido demais.
Franco passou.
— Quer que eu diminua o ritmo, senhor Mint?
Carlos olhou.
— Você quer sair com minha filha algum dia?
Franco acelerou imediatamente.
Carlos sorriu.
Vitórias pequenas ainda eram vitórias.
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Quando chegou à última aula, Carlos já não sentia as pernas.
Isso era preocupante.
Sentou-se.
Artemis havia terminado as aulas regulares antes e seguira para outra atividade.
Lara também não fazia aquela disciplina.
Pela primeira vez no dia, Carlos estava numa turma sem nenhum dos dois principais lembretes de sua situação absurda.
A professora Brenda Assunção entrou carregando tablets demais.
Um caiu.
Ela pegou.
Outro quase caiu.
Carlos observou.
Brenda chegou à mesa.
Respirou.
— Boa tarde.
Algumas pessoas responderam.
Outras continuaram conversando.
Ela abriu o material.
— Hoje vamos trabalhar atualizações em Arquitetura de Fluxo Arcano de terceira para quinta geração e...
Uma conversa no fundo aumentou.
Brenda tentou continuar.
— Como eu estava dizendo...
Outra risada.
Carlos olhou.
Ela baixou ligeiramente a voz.
Erro.
A turma ficou ainda mais dispersa.
Carlos conhecia aquele tipo de situação.
Não porque fosse professor.
Porque já vira gente competente perder uma reunião inteira por não conseguir conquistar a sala nos primeiros cinco minutos.
Brenda tentou novamente.
— A atualização da terceira geração...
Carlos ergueu a mão.
Ela imediatamente olhou.
— Senhor Mint?
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Ainda usam compensador secundário em paralelo nos sistemas industriais?
Brenda piscou.
A pergunta atingiu exatamente o assunto certo.
— Sim. Mas apenas em configurações de legado ou ambientes com baixa capacidade de reconstrução.
Carlos assentiu.
— Porque na prática retirar o secundário de uma instalação antiga costuma causar retorno instável.
— Exatamente.
A voz dela ficou mais firme.
Alguns alunos olharam.
Brenda continuou:
— Esse foi, inclusive, um dos principais motivos para manter compatibilidade reversa na quinta geração.
Carlos fez outra pergunta.
— Mesmo com matrizes novas?
— Principalmente por causa delas.
Ela se aproximou do quadro.
— Vejam.
Começou a desenhar.
A hesitação desapareceu.
— Se substituirmos diretamente este conjunto...
Carlos sorriu discretamente.
Agora ela estava falando de algo que conhecia.
E quando Brenda falava de algo que conhecia, deixava de parecer a professora tímida de vinte e quatro anos.
Virava especialista.
Em poucos minutos a sala estava prestando atenção.
Carlos também.
Muito.
Alguns conceitos eram novos.
Outros apenas nomes diferentes para problemas antigos.
Ela conectava teoria moderna a situações práticas com uma clareza que ele não esperava.
Quando o sino tocou, Carlos percebeu que aquela tinha sido a primeira aula do dia em que não consultara o relógio.
Brenda desligou o painel.
— Senhor Mint?
Carlos aproximou-se.
Ela pegou um tablet.
— O Regente pediu uma prova de equivalência.
— Hoje?
— Sim. O conteúdo desta disciplina teve atualizações, mas grande parte da base permanece semelhante ao que consta no seu histórico.
Carlos sentou novamente.
— Certo.
Brenda entregou o aparelho.
— Não precisa responder tudo. Se atingir o índice mínimo, será dispensado da disciplina.
Carlos começou.
Primeira questão.
Fácil.
Segunda.
Também.
Terceira.
Conhecia.
Quarta.
Precisava pensar, mas sabia.
Passou os olhos pela prova inteira.
Conseguiria.
Talvez não tirasse nota máxima.
Mas passaria.
Olhou para Brenda.
Ela organizava os materiais sozinha.
Dois alunos saíram conversando sobre algo que ela havia explicado.
Carlos voltou para a prova.
Pensou na aula.
Nas atualizações.
Na forma como alguns conceitos tinham mudado.
Pensou em quantos sistemas civis ainda usavam arquitetura antiga.
Depois olhou novamente para Brenda.
Apagou seu nome.
Não.
Reescreveu.
Precisava pelo menos entregar identificado.
Levantou.
Entregou o tablet.
Brenda conferiu.
Parou.
Olhou para ele.
— Está em branco.
— Está.
— O senhor não sabia responder?
Carlos pegou a bolsa.
— Sabia.
Ela ficou confusa.
— Então...
Carlos ajustou os óculos.
— Acho melhor fazer a matéria.
Brenda piscou.
— Senhor Mint, se passar na equivalência, não precisa...
— Eu sei.
— Então por quê?
Carlos olhou para o quadro.
— Porque metade das coisas que você mostrou hoje eu conheço.
Apontou para outra parte.
— A outra metade mudou enquanto eu estava ocupado pagando boletos.
Brenda ficou em silêncio.
Carlos continuou:
— E porque você sabe bastante disso.
Ela pareceu não saber como reagir.
— Obrigada.
Carlos colocou a bolsa no ombro.
— Só precisa falar mais alto.
Brenda ficou vermelha.
— Eu...
— Você conhece o assunto.
— Sim.
— Então aja como se conhecesse.
Ela ficou alguns segundos olhando para ele.
Depois sorriu.
Pequeno.
— Vou tentar.
Carlos apontou.
— Não. Amanhã você faz.
Brenda riu.
— Certo.
— Até amanhã, professora.
Carlos saiu.
Brenda olhou novamente para a prova em branco.
Depois para a porta.
________________________________________
Quando Carlos abriu a porta do apartamento, sentiu o cheiro de comida.
Parou.
— Artemis?
— Na cozinha!
Ele largou a bolsa no chão.
Tirou os sapatos.
Deu três passos.
Despencou no sofá.
Não sentou.
Despencou.
Artemis apareceu carregando uma colher.
— Você está vivo?
Carlos não respondeu.
Ela se aproximou.
— Pai?
Uma voz abafada veio da almofada.
— Não.
Artemis sorriu.
— Primeiro dia foi bom?
Carlos virou apenas o rosto.
— Sua geração destruiu a educação.
— Como?
— Inventaram palavras demais.
Ela começou a rir.
— Nessel-Kron?
Carlos apontou para ela sem levantar a cabeça.
— Não diga esse nome nesta casa.
— Isso aqui é alojamento da Academia.
— Então neste apartamento.
Artemis voltou para a cozinha.
— Estou fazendo jantar.
Carlos ergueu lentamente a cabeça.
— Você?
— Sim.
— Por quê?
— Porque se depender de você vamos comer comida congelada até o fim do ano.
Carlos deixou a cabeça cair novamente.
— Não tenho força para discutir.
— Treino físico?
— Aquela mulher tentou me matar.
— Você correu quatro quilômetros.
— Exatamente.
Artemis riu.
Carlos fechou os olhos.
— A Von Brainer passou por mim duas vezes.
— Lara?
— Quantas Von Brainer de dezesseis anos existem aqui?
— Ela é boa no físico.
— Eu percebi.
— Ela falou alguma coisa?
Carlos ficou em silêncio.
— Pai?
— Nada importante.
Artemis sorriu.
— Falou.
— Pirralha irritante.
Artemis mexeu a panela.
— Você vai sobreviver.
Carlos abriu um olho.
— Não sei.
— Sobreviveu ao primeiro dia.
— Tecnicamente ainda não terminou.
— Faltam umas três horas para você dormir.
— Exatamente.
Artemis colocou dois pratos sobre a pequena mesa.
— Vem comer.
Carlos tentou levantar.
Falhou na primeira tentativa.
Artemis observou.
— Precisa de ajuda?
Ele olhou para ela.
— Ainda sou seu pai.
— Isso não respondeu.
Carlos conseguiu sentar.
Ficou alguns segundos respirando.
Depois se levantou.
— Sabe...
— O quê?
Ele caminhou lentamente até a mesa.
— Estou começando a achar que traição era uma saída honrosa.
Artemis começou a rir.
Carlos sentou.
Doía tudo.
Tinha trabalhos para fazer.
Precisava estudar uma matéria cujo nome mal conseguia pronunciar.
No dia seguinte teria outro treinamento físico.
E, em algum momento muito próximo, ainda precisaria descobrir como pilotar um Astra com Lara Von Brainer.
Carlos pegou o garfo.
Olhou para o jantar.
Depois para a filha.
— Pelo menos está valendo a pena.
Artemis parou.
— O quê?
Carlos apontou para ela.
— A Academia.
Ela sorriu.
Ele começou a comer.
Do lado de fora da janela, as luzes de Astraea brilhavam sobre os prédios.
Carlos ainda não sabia, mas aquele havia sido apenas o dia mais fácil.
Porque até então...
ninguém tinha colocado Carlos Mint e Lara Von Brainer dentro de um Astra.