Dois dias depois, a Academia Astraea parecia estar esperando um espetáculo.
Carlos Mint achava aquilo profundamente irritante.
O hangar de treinamento principal tinha arquibancadas retráteis.
Normalmente, eram abertas durante avaliações finais, demonstrações militares ou torneios acadêmicos.
Naquela manhã, estavam lotadas.
Alunos.
Professores.
Oficiais.
Representantes do Ministério da Defesa.
Algumas pessoas que Carlos não reconhecia e que tinham claramente recebido autorização para estar ali.
Outras que provavelmente tinham conseguido autorização porque conheciam alguém que conhecia alguém.
Havia até drones de transmissão flutuando perto do teto.
— Isso é um teste de calibração — disse Carlos.
Marika, ao lado dele, consultou seu tablet.
— Oficialmente, sim.
Carlos apontou para as arquibancadas.
— Eles sabem?
— Tecnicamente.
— Não parece.
Artemis apareceu atrás deles.
— Pai!
Carlos virou.
Ela vinha acompanhada de Suzuka e Franco.
— Vocês também?
— Todo mundo veio.
— Excelente.
Franco parecia bastante empolgado.
— Senhor Mint, ouvi dizer que vão usar um modelo E-12.
Carlos olhou.
— Você sabe até o modelo?
— É o principal Astra de treinamento do segundo ciclo.
— Claro que sabe.
Suzuka apontou para as arquibancadas.
— Dizem que gente de fora da Academia está acompanhando.
Carlos olhou novamente.
— Quanto de fora?
Marika respondeu antes dos estudantes.
— O suficiente.
— Isso não é uma medida.
Ela abaixou a voz.
— Existem representantes militares estrangeiros credenciados.
Carlos piscou.
— Por quê?
Marika hesitou.
— Noventa e três por cento.
Carlos passou a mão pelo rosto.
Claro.
Os três Astras SS sobreviventes pertenciam a três nações diferentes.
O Império possuía Fenrir.
A República de Elysia preservava Seraph.
E o Reino de Vhalgard mantinha Asterion sob proteção militar quase paranoica.
Um par de noventa e três por cento não era apenas fofoca escolar.
Era política internacional.
Carlos não gostou nem um pouco dessa percepção.
— Eu só vou andar dez metros.
Marika assentiu.
— O Regente disse exatamente isso.
— Entrar, ligar, alguns passos, voltar.
— Exatamente.
Carlos respirou melhor.
— Ótimo.
— Se tudo funcionar.
Ele olhou para ela.
— Por que acrescentou essa parte?
— Nada.
— Marika.
— Preciso verificar os sensores.
Ela fugiu.
Carlos observou.
— Estou começando a identificar um padrão nessa Academia.
Artemis sorriu.
— Qual?
— Toda vez que alguém diz “nada”, alguma coisa ruim acontece.
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O traje de pilotagem era outra coisa que havia mudado.
Carlos segurava o conjunto diante de si.
Olhou.
Depois olhou para o técnico.
— Isso é meu?
— Sim.
— Tem certeza?
— Medidas biométricas do senhor.
Carlos esticou o tecido.
O material retornou imediatamente à forma original.
— Isso parece roupa de mergulho.
— Polímero condutor de Ressonância.
— Na minha época usávamos macacão.
O técnico assentiu.
— Os sistemas modernos exigem maior contato dérmico para leitura neuromuscular.
Carlos continuou olhando.
— Então decidiram humilhar os pilotos.
— Tecnicamente, melhoraram em onze por cento a velocidade de resposta.
Carlos suspirou.
— Claro.
Alguns minutos depois, saiu do vestiário.
O traje era confortável.
Esse era o problema.
Confortável demais.
Ajustava-se ao corpo praticamente sem folga.
Carlos puxou inutilmente a lateral.
— Isso é indecente.
Uma voz veio atrás.
— Se olhar para o meu corpo, eu te mato.
Carlos virou.
Lara estava parada alguns metros adiante, usando a versão feminina do traje.
Ele imediatamente ergueu os olhos para o rosto dela.
— Não estava planejando.
— Melhor.
Carlos puxou novamente o próprio uniforme.
— Estou ocupado demais tentando descobrir onde esconderam metade do tecido do meu.
Lara cruzou os braços.
— Só estou avisando.
Carlos suspirou.
— Se eu fizer isso, você tem minha autorização para me matar.
Ela estreitou os olhos.
Carlos passou por ela.
— Pirralha.
Lara respondeu quase no mesmo instante:
— Velhote.
Os dois pararam.
Olharam um para o outro.
Carlos decidiu não comentar.
Lara fez o mesmo.
Seguiram em direção ao hangar.
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O Astra E-12 estava ajoelhado sobre a plataforma.
Carlos havia visto muitos Astras em sua juventude.
Mesmo assim, estar diante de um novamente era diferente.
A unidade tinha pouco mais de nove metros.
Estrutura branca e cinza.
Armadura leve.
Sem armamento real.
Os módulos militares haviam sido substituídos por sistemas de treinamento e contenção.
A cabine ficava no tórax.
Duas estações lado a lado.
Não exatamente lado a lado.
Ligeiramente inclinadas uma para a outra.
Carlos subiu pela plataforma.
Lara veio atrás.
Valorant aguardava perto da escotilha.
— Relembrando.
Carlos assentiu.
— Entramos.
— Sim.
— Ligamos.
— Se possível.
Carlos fez uma careta.
— Alguns passos.
— No máximo dez metros.
— E voltamos.
— Exatamente.
Carlos apontou.
— Sem heroísmo.
Valorant sorriu.
— Eu ia dizer isso para a senhorita Von Brainer.
Lara pareceu ofendida.
— Eu sei seguir instruções.
Carlos entrou na cabine.
— Isso ainda precisa ser demonstrado.
— Senhor Mint.
— Estou entrando.
A escotilha fechou.
Silêncio.
Por alguns segundos, Carlos apenas observou.
Aquilo era muito diferente dos modelos de sua época.
Painéis holográficos.
Interfaces flutuantes.
Sensores.
Nenhuma alavanca física principal.
O assento moldou-se automaticamente às costas dele.
— Odeio tecnologia moderna.
Lara ocupou a outra estação.
— Você tem quarenta e dois, não cento e quarenta.
— Espere chegar aqui.
— Espero não reclamar tanto.
Carlos olhou.
— Você vai.
Uma voz surgiu no comunicador.
— Cabine, confirmação.
Valorant.
Lara respondeu:
— Piloto um pronto.
Carlos demorou.
— Piloto dois...
Olhou para os controles.
— Provavelmente pronto.
Lara bufou.
— Profissional.
Carlos ignorou.
— Iniciar calibração — ordenou a central.
Luzes auxiliares acenderam.
O sistema reconheceu Lara.
ASSINATURA UM CONFIRMADA.
Depois Carlos.
ASSINATURA DOIS CONFIRMADA.
A cabine ficou silenciosa.
Carlos percebeu a própria respiração.
Do outro lado do vidro reforçado, centenas de pessoas observavam.
— Pronta? — perguntou.
Lara assentiu.
— Sim.
Carlos colocou as mãos nos sensores.
Ela fez o mesmo.
— Iniciar Ressonância.
Nada.
Carlos esperou.
Nada.
Nenhum painel principal.
Nenhum ruído do núcleo.
Nenhuma vibração.
Nem uma luz.
Ele olhou para Lara.
Ela olhou para ele.
— Você fez certo?
Carlos ergueu uma sobrancelha.
— Eu ia perguntar a mesma coisa.
— Central? — chamou Lara.
Silêncio breve.
Depois:
— Aguardem.
Carlos olhou para o painel apagado.
— Impressionante.
— Cale a boca.
— Noventa e três por cento.
— Cale a boca.
Cinco minutos depois abriram a cabine.
Vinte minutos depois continuavam examinando o Astra.
Quarenta minutos depois Carlos já havia trocado de roupa.
Uma hora depois, as arquibancadas ainda estavam parcialmente ocupadas.
Duas horas depois, trouxeram outro Astra E.
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— Desta vez vai funcionar — disse um técnico.
Carlos olhou para ele.
— Você tem certeza?
O técnico hesitou.
— Estamos confiantes.
— Então não tem certeza.
Lara passou ao lado.
— Entre logo.
Carlos subiu novamente.
O segundo Astra também os reconheceu.
Assinatura um.
Assinatura dois.
Ressonância.
Nada.
Nem uma luz.
Carlos ficou olhando para a tela apagada.
Lara soltou o ar.
— Isso é impossível.
— Estamos ficando bons nisso.
Ela virou.
— Não tem graça.
Carlos percebeu.
Dessa vez ela realmente não estava irritada com ele.
Estava frustrada.
Do lado de fora, os espectadores também.
O burburinho começou.
Carlos não precisava ouvir para saber.
Um terceiro Astra foi preparado no fim da tarde.
Classe E novamente.
Outra unidade.
Outro núcleo.
Outro conjunto de circuitos.
Carlos entrou.
Lara sentou.
Ativação.
Nada.
O teste foi encerrado.
Quando saíram do hangar, as primeiras piadas já circulavam.
Carlos ouviu uma delas.
— Era noventa e três ou zero vírgula noventa e três?
Risadas.
Outro aluno respondeu:
— Talvez o aparelho estivesse mostrando a chance de dar errado.
Carlos deu de ombros.
Adolescentes eram adolescentes.
Na época dele tinham feito as mesmas coisas.
Só mudavam os alvos.
Lara, alguns passos à frente, ouviu.
Seus ombros ficaram rígidos.
Ela não virou.
Carlos percebeu.
Não comentou.
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O problema foi descoberto naquela noite.
Carlos estava no apartamento tentando entender uma sequência de exercícios quando o comunicador tocou.
Valorant.
— Boa noite, Regente.
— Encontramos a causa.
Carlos largou o tablet.
— Então?
— Os Astras não falharam antes da ativação.
— Não?
— Eles ativaram.
Carlos franziu o cenho.
— Eu estava dentro. Garanto que não.
— Por aproximadamente quatro milissegundos.
Carlos ficou em silêncio.
— Isso conta?
— Foi suficiente.
— Para quê?
Valorant respirou.
— Queimar o circuito principal de condução arcana.
Carlos piscou.
— Nos três?
— Nos três.
— Nós destruímos três Astras sem conseguir ligar nenhum?
— Tecnicamente, sim.
Carlos reclinou a cabeça no sofá.
— Impressionante.
Artemis apareceu na cozinha.
— O que aconteceu?
Carlos tapou o comunicador.
— Nós quebramos três Astras.
Ela arregalou os olhos.
— Como?
— Competência.
Valorant continuou:
— Amanhã tentaremos com uma unidade de classe D.
Carlos voltou ao comunicador.
— Por quê?
— Maior capacidade de condução.
— Isso parece uma escalada perigosamente rápida.
— Também me parece.
— Ótimo. Boa noite.
Desligou.
Artemis ficou olhando.
— Um classe D?
— Amanhã.
Ela sorriu.
— Legal.
Carlos apontou para ela.
— Essa é a reação errada.
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Não houve arquibancada no dia seguinte.
Nem drones públicos.
Nem estudantes liberados das aulas.
Apenas Valorant.
Brenda.
Uma equipe técnica.
Alguns oficiais.
Carlos.
Lara.
E um Astra D.
Carlos preferia assim.
Entraram.
Preparação.
Assinaturas.
Ressonância.
O painel principal piscou.
Carlos se animou.
— Aí.
Lara também.
— Funcionou.
A interface apareceu por menos de um segundo.
Apagou.
Silêncio.
Carlos respirou.
— Não fala.
Lara manteve os olhos à frente.
— Não ia.
Do lado de fora, uma coluna de fumaça fina surgiu de um módulo lateral.
Carlos fechou os olhos.
— Claro.
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Dois dias depois, um classe C.
Dessa vez, o Astra ligou.
Inteiro.
As interfaces apareceram.
O núcleo respondeu.
As luzes do hangar refletiram sobre a armadura quando a máquina ergueu lentamente a cabeça.
Carlos sentiu o coração acelerar.
— Conseguimos.
Lara olhou os indicadores.
— Estável.
Quinze segundos.
Vinte.
Trinta.
Carlos começou a acreditar.
Quarenta.
A interface avisou:
SATURAÇÃO DE CONDUÇÃO.
Lara franziu o cenho.
— O que é isso?
Carlos abriu o canal.
— Central?
Quarenta e sete segundos.
FALHA DE MATRIZ.
Cinquenta.
Tudo apagou.
Carlos permaneceu sentado no escuro.
— Estamos melhorando.
Lara bufou.
— Cinquenta segundos.
— Ontem foi menos de um.
— Isso não é progresso.
— Tecnicamente é cinquenta vezes mais.
Ela virou para ele.
— Você sempre é assim?
— Infelizmente.
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Os rumores cresceram.
Em menos de uma semana, o “Par 93” havia se tornado uma espécie de piada acadêmica.
Carlos pouco ligava.
Já tinha quarenta e dois anos.
Passara da idade em que precisava da aprovação de corredores cheios de adolescentes.
Lara não possuía a mesma vantagem.
Carlos percebeu isso numa tarde.
Saíra mais cedo de uma aula para buscar um material no laboratório.
Quando virou um corredor, viu Lara alguns metros adiante.
Ela ainda não o havia percebido.
Do outro lado, dois estudantes conversavam perto de uma janela.
— Aposto que nem chegam ao Fenrir.
— Claro que não.
— O irmão dela pelo menos tem cinquenta e sete com a Eustakis.
— E deve passar dos sessenta antes de se formar.
O outro riu.
— Imagina ser uma Von Brainer e não conseguir nem vinte e cinco com ninguém.
Carlos diminuiu o passo.
— Nota perfeita não pilota Astra.
— Pois é. No fim é a Von Brainer fracassada.
O primeiro garoto percebeu Lara.
Ficou branco.
O segundo acompanhou seu olhar.
Silêncio.
Lara não disse nada.
Passou pelos dois.
Queixo erguido.
Passos firmes.
Como se não tivesse ouvido.
Carlos conhecia aquilo.
Não Lara.
Aquilo.
A Academia podia ter hologramas, circuitos de quinta geração e Astras mais modernos.
Adolescentes continuavam adolescentes.
E vinte e dois anos antes também havia existido uma hierarquia silenciosa.
Notas importavam.
Família importava.
Talento importava.
Mas compatibilidade...
Compatibilidade dizia com quem você poderia pilotar.
Até onde poderia chegar.
Qual classe de Astra pisaria.
Que carreira militar poderia ter.
Carlos observou Lara desaparecer no corredor.
Naquela manhã ouvira outro comentário.
Comparação com Kime.
Sempre Kime.
O irmão perfeito.
Cinquenta e sete por cento.
Noivado anunciado.
Carreira praticamente escrita.
Lara tinha notas melhores.
Avaliações individuais melhores.
Mais talento acadêmico.
E, para muitos, isso valia menos que um número.
Carlos não foi atrás dela.
Não saberia o que dizer.
E ela provavelmente o mandaria cuidar da própria vida.
Mas alguma coisa mudou.
Muito pouco.
Pela primeira vez, quando pensou em Lara Von Brainer, “arrogante” não foi a única palavra que apareceu.
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A autorização para o Astra B chegou três dias depois.
Aquilo causou outra pequena comoção.
Modelos B praticamente nunca eram utilizados por alunos daquela idade.
Na Academia, a progressão era simples.
F e E formavam a base dos primeiros ciclos.
D e C surgiam nos anos seguintes.
Unidades B eram reservadas aos alunos mais avançados.
Normalmente pares de dezenove ou vinte anos com índices excepcionais.
Carlos olhou para a máquina.
Era muito maior.
Mais pesada.
Quase quinze metros.
Armadura militar de verdade, embora o armamento tivesse sido removido para o teste.
— Isso é uma péssima ideia — comentou.
Valorant estava ao lado.
— Concordo.
Carlos olhou.
— Então por que estamos fazendo?
— Porque as ideias melhores queimaram.
Carlos não conseguiu argumentar.
Lara apareceu já uniformizada.
Olhou para o Astra.
Pela primeira vez em dias, pareceu impressionada.
— Classe B.
Carlos assentiu.
— Finalmente encontramos alguma coisa cara o suficiente para talvez não destruirmos.
Um técnico atrás deles tossiu.
— Por favor, não diga isso.
Carlos olhou.
— Desculpe.
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O Astra B ligou.
Sem fumaça.
Sem falha.
Sem painel apagando.
O núcleo respondeu com um ruído grave que Carlos sentiu no peito.
Interfaces surgiram.
Sistemas auxiliares.
Sensores.
Equilíbrio.
Ressonância.
Tudo verde.
Carlos abriu um sorriso.
— Funcionou.
Lara estava olhando os próprios indicadores.
— Funcionou.
Durante um instante, os dois esqueceram que não gostavam um do outro.
— Unidade B estável — informou Brenda pela central. — Leituras dentro da margem.
Valorant respondeu:
— Vamos iniciar locomoção básica.
Carlos olhou para Lara.
— Dez metros.
— Eu sei.
— Sem heroísmo.
Ela fez uma careta.
— Pare de falar comigo como criança.
— Você tem dezesseis anos.
— E você está há vinte e dois sem pilotar.
Carlos ficou em silêncio.
— Golpe baixo.
— Verdadeiro.
A voz de Valorant entrou no canal.
— Quando terminarem, perna direita.
Carlos respirou.
— Certo.
A interface compartilhada apareceu.
Era aí que começava o problema real.
Lara direcionou intenção de movimento.
Carlos tentou acompanhar.
O Astra mexeu a perna.
Demais.
— Devagar.
— Eu estou indo devagar.
— Isso não é devagar.
— Você está atrasando o movimento.
— Estou estabilizando.
— Está atrapalhando.
O Astra colocou o pé no chão.
Primeiro passo.
Torto.
Carlos ajustou.
Lara corrigiu ao mesmo tempo.
Em direções opostas.
A máquina balançou.
— Para de corrigir!
— Você que está corrigindo errado!
— Eu sou a piloto principal!
— Quem decidiu isso?
— Eu tenho mais treinamento atual!
— Tenho mais tempo vivo!
— Isso não é qualificação!
Segundo passo.
O Astra quase cruzou as pernas.
Carlos arregalou os olhos.
— Esquerda!
— Eu sei!
— Então usa!
— Estou usando!
— Não parece!
Terceiro passo.
A máquina inclinou.
Alertas começaram a piscar.
Na sala de controle, Brenda provavelmente já estava tendo um ataque cardíaco.
— Sincronizem! — ordenou Valorant.
Carlos respondeu:
— Excelente conselho!
Lara:
— Pare de lutar contra meus comandos!
— Pare você de tentar mandar em tudo!
— Alguém precisa!
Quarto passo.
Cinco metros.
Talvez seis.
O Astra começou a cair para a direita.
Carlos tentou compensar.
Lara tentou compensar.
Novamente ao mesmo tempo.
Novamente diferente.
— Não!
— Eu sei!
A máquina deu um passo gigantesco.
O pé atravessou a linha de segurança.
Carlos viu a parede do hangar aproximando-se pelo monitor.
— Lara.
— Estou vendo!
— LARA!
O Astra caiu.
Quinze metros de máquina militar atingiram o chão.
O impacto sacudiu o hangar inteiro.
Um dos braços atravessou parcialmente a parede lateral.
Concreto e material arcano desabaram.
Alarmes começaram.
Poeira.
Silêncio dentro da cabine.
Carlos estava preso pelo cinto.
Lara também.
Durante alguns segundos nenhum dos dois falou.
Carlos verificou os indicadores.
— Você está bem?
Lara respirou.
— Estou.
— Eu também.
Pausa.
— Foi culpa sua — disse ela.
Carlos virou.
— Minha?
— Você interferiu.
— Você quase colocou a máquina para correr no segundo passo.
— Eu estava corrigindo.
— Você corrige tudo como se estivesse brigando com alguém.
— Porque estou pilotando com você!
Carlos abriu a boca.
A interface apagou.
Os dois olharam.
Um cheiro conhecido surgiu.
Queimado.
Carlos fechou os olhos.
— Não.
Lara olhou para o painel.
— Não pode ser.
Carlos abriu um dos indicadores de diagnóstico.
Vermelho.
FALHA DO CIRCUITO PRIMÁRIO DE RESSONÂNCIA.
Ele largou a cabeça contra o assento.
— Queimamos outro.
Lara ficou em silêncio.
Carlos olhou para a parede destruída através da câmera externa.
— E uma parede.
Ela respondeu seca:
— A parede foi você.
— A parede foi coletiva.
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A reunião técnica daquela tarde não foi animadora.
Brenda projetou os resultados.
— A unidade B suportou a entrada inicial de energia.
Carlos levantou uma mão.
— Até aí parece bom.
— Mas apresentou picos acima da especificação sempre que vocês tentavam corrigir movimentos simultaneamente.
Lara franziu o cenho.
— Então foi falta de sincronia?
— Também.
Carlos não gostou do “também”.
Brenda mudou o gráfico.
— Mas mesmo em repouso a carga ficou muito acima da esperada.
Valorant cruzou os braços.
— Conclusão?
Brenda respirou.
— Um classe B consegue manter os dois conectados por algum tempo.
Carlos assentiu.
— Ótimo.
— Mas não é seguro.
Carlos parou.
Brenda continuou:
— Precisamos de uma arquitetura com tolerância maior.
Silêncio.
Carlos olhou para Valorant.
Valorant olhou para Brenda.
Lara percebeu primeiro.
— Classe A.
Brenda assentiu.
Carlos ficou olhando.
— Não.
Valorant respondeu:
— Ainda precisamos de autorização militar.
— Excelente. Então neguem.
— Carlos.
— Um classe A não é equipamento escolar.
— Concordo.
— É uma unidade militar.
— Sim.
— Com sistemas que eu não sei operar.
— Exatamente.
Carlos apontou para ele.
— Finalmente alguém entende o problema.
Valorant abriu um pequeno sorriso.
Carlos percebeu tarde demais.
— Por isso aumentaremos suas horas de simulador.
Carlos ficou imóvel.
— Não.
— Consideravelmente.
— Não.
— A partir de amanhã.
Carlos olhou para Brenda.
Ela parecia sentir pena.
Olhou para Lara.
Ela parecia quase satisfeita.
— Não sorria.
— Não estou sorrindo.
— Está por dentro.
Lara não negou.
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Naquela noite, a mesa do apartamento estava coberta de material acadêmico.
Carlos sentava de um lado.
Artemis do outro.
Suzuka ocupava a ponta.
Franco havia recebido autorização para participar do estudo e parecia simultaneamente feliz por estar perto de Artemis e preocupado com Carlos estar a menos de dois metros.
Carlos olhava para uma fórmula.
Depois para o livro.
Depois para Artemis.
— Então isso aqui...
Apontou.
— ...não é a mesma coisa que compensação vetorial?
Artemis balançou a cabeça.
— É parecido.
— Parece igual.
Suzuka explicou:
— Porque a base é a mesma, mas a matriz considera intenção concorrente.
Carlos ficou olhando.
— Intenção concorrente.
— Sim.
— Inventaram isso só para eu reprovar.
Franco respondeu sem pensar:
— O conceito existe há quinze anos.
Carlos olhou para ele.
Franco imediatamente endireitou a postura.
— Mas pode ter sido coincidência.
Artemis riu.
Carlos voltou para o livro.
Tinha passado duas horas extras no simulador naquela tarde.
No dia seguinte teria três.
Depois mais aulas.
Treino físico.
Exercícios.
E agora estudo noturno.
Carlos largou a caneta.
— Eu achei que tinha me livrado das horas extras.
Artemis sorriu.
— Tecnicamente está recebendo por elas.
Carlos olhou para ela.
— Isso não melhora.
Suzuka apontou para a página.
— Vamos. Falta pouco.
— Vocês adolescentes não têm casa?
Suzuka respondeu:
— Tecnicamente estou no campus.
Carlos olhou para Franco.
— E você?
Ele hesitou.
— Estou ajudando a Artemis.
Carlos ficou imóvel.
Franco percebeu o erro.
— Com a matéria.
Silêncio.
— A estudar.
Mais silêncio.
— Em grupo.
Carlos continuou olhando.
Artemis jogou uma borracha no pai.
— Para.
Carlos pegou a borracha.
— Estou apenas ouvindo.
— Com essa cara?
— É minha cara.
— É sua cara de interrogatório.
Carlos devolveu a borracha.
— Estuda.
Franco imediatamente abaixou os olhos para o livro.
Artemis bufou.
Carlos sorriu discretamente.
Pequenas vitórias.
Depois voltou para a apostila.
No topo da próxima página estava escrito:
SISTEMAS TÁTICOS DE ASTRA CLASSE A — INTRODUÇÃO OPERACIONAL
Carlos ficou olhando para o título.
Do outro lado da Academia, técnicos preparavam uma solicitação militar para liberar uma máquina que alunos normais só conheciam através de aulas e demonstrações.
Tudo porque nenhum equipamento menor parecia suportar Carlos Mint e Lara Von Brainer por tempo suficiente.
Noventa e três por cento.
Até então, aquela cifra impressionara um Imperador, mobilizara a Academia e despertara o interesse de nações estrangeiras.
Carlos já começava a desconfiar que havia outra interpretação possível.
Talvez noventa e três por cento não significasse que ele e Lara eram excepcionalmente bons juntos.
Talvez significasse apenas que eram excepcionalmente eficientes em quebrar coisas.
E, considerando a parede do hangar...
estavam demonstrando um talento extraordinário.