A autorização imperial para uso de um Astra classe A chegou na manhã seguinte.
A máquina, não.
Carlos descobriu isso depois de três horas de simulador, uma aula de Estratégia de Combate Moderno e quarenta minutos particularmente desagradáveis correndo em volta da pista externa.
Valorant o encontrou sentado num banco, tentando convencer os próprios pulmões de que continuar funcionando ainda valia a pena.
— Temos autorização.
Carlos ergueu os olhos.
— Para?
— O Astra A.
Ele endireitou-se.
— Então finalmente vamos testar?
— Em aproximadamente duas semanas.
Carlos voltou a cair contra o encosto.
— Claro.
Valorant sentou ao lado.
— A unidade está numa base militar.
— Não temos nenhuma aqui?
— Temos unidades destinadas a demonstração e treinamento avançado, mas nenhuma preparada para receber uma carga de Ressonância como a de vocês.
Carlos fez uma careta.
— Começo a não gostar da expressão “carga de Ressonância”.
— Os técnicos também.
— O que precisam fazer?
Valorant começou a contar nos dedos.
— Retirar armamento.
— Razoável.
— Sistemas militares classificados.
— Também razoável.
— Módulos de comunicação estratégica.
— Certo.
— Sensores que não convém colocar diante de possíveis observadores estrangeiros.
Carlos olhou para ele.
— Temos tantos observadores assim?
— Oficialmente?
— Tenho medo da resposta.
— Poucos.
Carlos esperou.
— Extraoficialmente?
Valorant sorriu.
— Não sabemos.
— Melhor ainda.
O Regente continuou:
— Também vão instalar sensores adicionais para monitorar vocês durante a ativação.
— Isso parece a parte mais importante.
— E reforçar os circuitos primários.
Carlos fez uma careta.
— Porque destruímos quatro Astras.
— Cinco.
Carlos olhou.
— Foram cinco?
— Três E, um D, um C e um B.
Carlos começou a contar.
— Isso dá seis.
Valorant pensou.
— Então seis.
Carlos ficou olhando.
— O senhor administra esta Academia?
— Delego bastante.
— Começo a entender por quê.
Valorant ignorou.
— O classe A possui uma vantagem importante.
— Não quebra?
— Não iria tão longe.
Carlos fechou os olhos.
— Naturalmente.
— Mas as matrizes de condução permitem interrupção automática.
Carlos abriu um olho.
— Interrupção?
— Um disjuntor arcano.
Carlos levantou-se um pouco.
Aquilo ele entendia.
— Se a carga subir demais...
— O sistema corta a Ressonância antes de queimar.
Carlos apontou.
— Isso.
— Isso?
— Por que ninguém colocou isso nos outros?
— Porque F a B utilizam arquiteturas muito mais simples. O custo e o espaço interno não justificam um sistema independente de isolamento.
Carlos ficou em silêncio.
— Então destruímos seis máquinas porque alguém decidiu economizar.
— Não foi exatamente...
— Quero acreditar nessa versão.
Valorant levantou.
— Duas semanas.
Carlos suspirou.
— Duas semanas de quê?
— Aulas.
— Ah.
— Simuladores.
Carlos fechou os olhos.
— Treino físico.
— Claro.
— E revisão operacional de sistemas classe A.
Carlos inclinou a cabeça para trás.
— Regente.
— Sim?
— A traição ainda está juridicamente disponível?
Valorant foi embora sem responder.
________________________________________
As duas semanas seguintes transformaram-se numa rotina.
Carlos descobriu que o cérebro humano conseguia odiar um despertador com intensidade crescente a cada manhã.
Seis e quinze.
Levantar.
Café.
Uniforme.
Artemis reclamando que ele ocupava o banheiro tempo demais.
Carlos respondendo que pessoas acima dos quarenta possuíam direitos adquiridos.
Aula.
Mais aula.
Treino físico.
Simulador.
Estudo.
Às vezes treinamento em dupla com Lara.
Geralmente terminando em discussão.
Não grandes discussões.
Pequenas.
Constantes.
Sobre tempo de resposta.
Sobre direção.
Sobre quem havia antecipado errado determinado movimento.
Sobre quem deveria ter controle prioritário.
Lara insistia que, por ter mais treinamento atual, deveria assumir a condução ofensiva.
Carlos insistia que uma máquina não poderia possuir dois pilotos se apenas um deles tivesse permissão de decidir qualquer coisa.
Valorant assistia.
Anotava.
E, irritantemente, quase nunca interferia.
— Ele gosta de nos ver discutir — comentou Carlos certa vez.
Lara nem olhou.
— Talvez esteja esperando que um de nós desista.
Carlos pensou.
— Se for isso, ele não conhece nenhum dos dois.
Ela olhou de lado.
Aquilo provavelmente era concordância.
O mais próximo que chegaram naquela manhã.
________________________________________
Carlos também descobriu outra coisa.
Lara estava quase sempre na Academia.
Não apenas durante as aulas.
Era uma quarta-feira quando percebeu pela primeira vez.
Tinha ficado até tarde no laboratório com Brenda revisando algumas alterações de circuitos de quinta geração.
Quando saiu, o céu já estava escuro.
As torres de Astraea brilhavam em azul e dourado.
A maioria dos estudantes estava nos alojamentos, no refeitório ou em alguma atividade social.
Carlos atravessava a ala esportiva quando ouviu impactos.
Parou.
Mais um.
Depois outro.
Vinha do ginásio secundário.
Carlos aproximou-se.
A porta estava entreaberta.
Lara treinava sozinha.
Sem uniforme acadêmico.
Roupa física.
Cabelos presos.
Um bastão de treino nas mãos.
Movimento.
Golpe.
Giro.
Defesa.
Ataque.
Outra vez.
Carlos ficou olhando por alguns segundos.
Não porque fosse particularmente fascinante.
Mas porque ninguém estava ali.
Nenhum professor.
Nenhum colega.
Nenhum pai.
Nenhum irmão.
Nenhum bajulador.
Só Lara.
Golpeando um alvo mecânico repetidamente.
O sistema projetou uma nota.
96,7.
Ela respirou.
Reiniciou.
Carlos franziu o cenho.
Novamente.
Movimento.
Ataque.
Defesa.
97,1.
Reiniciou.
Carlos quase entrou.
Não entrou.
Seguiu pelo corredor.
Naquela noite não pensou muito sobre aquilo.
Mas percebeu novamente dois dias depois.
Biblioteca.
Quase dez da noite.
Carlos estava procurando uma referência porque Artemis insistira que “copiar o resumo dela não contava como estudar”.
Encontrou Lara numa mesa no último andar.
Sozinha.
Quatro tablets.
Dois livros físicos.
Anotações.
Ela parecia tão concentrada que não percebeu quando ele passou.
Carlos reduziu o passo.
Olhou o relógio.
Dez e onze.
Voltou a olhar para ela.
Continuou andando.
Não era exatamente surpresa.
Lara tinha as melhores notas do ano.
Aquilo não acontecia por acaso.
Mas começava a perceber a quantidade de esforço escondida atrás da facilidade aparente.
E aquilo combinava com outras coisas.
O comentário no corredor.
A Von Brainer fracassada.
Kime.
Sempre Kime.
Cinquenta e sete por cento.
Noivado.
Carreira militar praticamente garantida.
Carlos lembrava bem daquela época.
Na Academia, notas impressionavam professores.
Família impressionava adultos.
Dinheiro impressionava quase todo mundo.
Mas entre alunos que sonhavam com Astras...
compatibilidade era outra coisa.
Era destino em forma de número.
Carlos tivera trinta e dois por cento com Clara.
Nunca fora espetacular.
Nunca precisara lidar com expectativas.
Lara nascera Von Brainer.
Talvez aquilo fosse pior.
Todos esperavam alguma coisa.
E durante anos os aparelhos continuaram respondendo:
vinte e um.
dezenove.
vinte e quatro.
vinte e dois.
Nunca o bastante.
Até Carlos.
Noventa e três.
Ele começou a entender por que aquele número parecia incomodá-la tanto quanto impressionava todo o resto do mundo.
________________________________________
Na semana seguinte, Vera terminou a aula alguns minutos mais cedo.
— Revisem os exercícios da página cento e oito. Na próxima aula começaremos sincronização de resposta em ambientes de interferência.
Carlos olhou para Artemis.
— Isso existia quando você nasceu?
— Sim.
— Então por que parece inventado ontem?
Artemis guardou o tablet.
— Porque você é velho.
— Estou arrependido de pagar sua criação.
— Já usamos essa piada.
— Continua válida.
Suzuka apareceu entre as carteiras.
— Vamos estudar hoje?
Artemis assentiu.
— Lá no apartamento.
Franco surgiu quase imediatamente.
— Eu posso ir.
Carlos olhou.
Franco corrigiu:
— Se vocês quiserem.
— Naturalmente — respondeu Artemis.
Carlos não comentou.
Estava evoluindo.
Talvez.
Suzuka começou:
— Podemos pedir comida depois.
Artemis animou-se.
— Aquela pizza da ala sul.
Carlos fez uma careta.
— Aquilo não é pizza.
— É.
— Tem molho doce.
— É bom.
— Isso não torna pizza.
Franco aproximou-se.
— Eles têm uma versão com frango picante.
Carlos ficou mais interessado.
— Isso melhora um pouco.
Foi quando viu Lara.
Ela estava guardando o material sozinha algumas mesas adiante.
Nenhuma das garotas que costumavam circular ao redor dela estava ali.
Carlos pensou no ginásio.
Na biblioteca.
No corredor.
Na expressão dela ao ouvir “fracassada”.
Não pensou muito.
Talvez justamente por isso falou.
— Von Brainer.
Lara ergueu os olhos.
— Senhor Mint?
— Vamos estudar hoje.
Ela continuou olhando.
Carlos apontou para Artemis, Suzuka e Franco.
— Algumas matérias novas. Depois vamos comer alguma coisa extremamente pouco saudável e provavelmente nos arrepender amanhã.
Artemis virou lentamente a cabeça para o pai.
Suzuka fez o mesmo.
Franco ficou absolutamente imóvel.
Lara olhou para o grupo.
Depois para Carlos.
— E?
— Quer vir?
Silêncio.
Artemis continuava encarando o pai.
Carlos percebeu.
Ignorou.
Lara colocou o tablet na bolsa.
— Não acho necessário.
Carlos deu de ombros.
— Certo.
Nenhuma insistência.
Nenhum discurso.
Lara fez uma pequena inclinação de cabeça e saiu.
Carlos voltou a guardar o próprio material.
Artemis permaneceu olhando.
— O quê?
Ela cruzou os braços.
— Você convidou a Lara.
— Convidei.
— Para nossa casa.
— Tecnicamente é apartamento do Império.
— Pai.
— Para estudar.
— A Lara.
— Você já falou o nome dela três vezes.
Suzuka observava a conversa com crescente interesse.
Franco decidiu permanecer muito quieto.
Artemis inclinou a cabeça.
— Você está pensando alguma coisa diferente sobre ela?
Carlos parou.
Olhou para a filha.
Depois para a porta por onde Lara havia saído.
Voltou para Artemis.
— Ela tem idade para ser minha filha.
Artemis não piscou.
— Sim.
Carlos esperou.
— Ela tem exatamente a mesma idade da sua filha.
Silêncio.
Carlos olhou para Artemis.
Artemis olhou para Carlos.
Os dois perceberam simultaneamente o quão absurda tinha sido a formulação.
Carlos começou a rir.
Artemis também.
Suzuka levou a mão à boca.
Franco olhou de um para outro sem entender completamente.
Carlos passou a mão pelo rosto.
— Certo. Essa frase saiu pior do que eu pretendia.
— Bastante.
— Quero dizer que não estou pensando nada.
— Eu sei.
— Ótimo.
Artemis ainda ria.
— Só foi engraçado.
— Muito.
Suzuka finalmente comentou:
— Eu ia ficar quieta.
Carlos olhou.
— E resolveu não ficar.
— Vocês tornam isso difícil.
Artemis apontou para o pai.
— Então por que convidou?
Carlos terminou de guardar os materiais.
O sorriso diminuiu.
— Porque acho que ela não tem amigos.
Artemis também ficou um pouco mais séria.
— Lara?
— Gente em volta não significa amigo.
Suzuka não disse nada.
Talvez tivesse percebido a mesma coisa.
Carlos continuou:
— Tenho visto ela treinando sozinha. Estudando até tarde. E já ouvi algumas coisas no corredor.
Artemis fez uma careta.
— Sobre a compatibilidade?
Carlos assentiu.
— Sobre o irmão também.
Ela ficou em silêncio.
— Não estou dizendo que você precisa gostar dela.
— Ainda bem.
— Ela continua arrogante.
— Muito.
— E irritante.
— Bastante.
Carlos pegou a bolsa.
— Mas vocês têm a mesma idade. Vão passar anos treinando juntos. E agora, por tabela, eu vou passar anos treinando com ela.
Artemis suspirou.
— Então quer que eu tente me enturmar com a pirralha arrogante.
Carlos olhou para ela.
— Eu jamais usaria essa expressão.
Artemis ergueu uma sobrancelha.
Carlos corrigiu:
— Na frente dela.
Suzuka riu.
Artemis pensou por alguns segundos.
— Está bem.
Carlos piscou.
— Está?
— Vou tentar.
— Sem obrigação.
— Eu sei.
Ela pegou a bolsa.
— Mas se ela começar a agir como se fosse superior a todo mundo...
Carlos apontou.
— Permissão concedida para abandonar o projeto.
— Excelente.
Suzuka colocou-se entre os dois.
— Só quero registrar que vocês acabaram de fazer uma reunião familiar para decidir socializar uma pessoa que não pediu para ser socializada.
Carlos pensou.
— Colocando assim parece estranho.
— Porque é estranho.
Artemis concordou.
— Bastante.
Carlos começou a andar.
— Vamos comer alguma coisa.
Franco finalmente falou:
— Então ainda vai ter pizza?
Os três olharam para ele.
— O quê? — perguntou.
Suzuka balançou a cabeça.
— Prioridades.
________________________________________
O assunto Lara ficou esquecido nos dias seguintes.
Havia material suficiente para Carlos se preocupar.
Ele estava melhor nas aulas.
Não muito.
Mas melhor.
Já conseguia acompanhar Vera sem terminar cada explicação questionando a existência da terminologia moderna.
Sandro parecia determinado a transformar cada aula num acerto de contas de vinte anos.
Brenda, aos poucos, começava a ocupar a sala de maneira diferente.
Ainda ficava vermelha quando interrompida.
Ainda derrubava alguma coisa quase diariamente.
Mas falava mais alto.
Corrigia alunos quando necessário.
E Carlos notou, com certa satisfação, que já não precisava fazer perguntas artificiais para puxá-la de volta ao conteúdo.
Treino físico continuava sendo uma violação de direitos humanos.
Simuladores haviam aumentado para quatro horas em determinados dias.
Lara continuava sendo irritantemente boa.
Carlos continuava sendo irritantemente teimoso.
E o Astra A continuava numa base militar sendo desmontado, reconfigurado, recheado de sensores e protegido contra a capacidade aparentemente sobrenatural dos dois de transformar circuitos caros em material queimado.
Restavam três dias.
Então veio o alerta.
________________________________________
O refeitório estava particularmente cheio naquela tarde.
Carlos almoçava com Artemis, Suzuka e Franco.
Lara estava algumas mesas adiante.
Kime também estava presente, acompanhado de Mikka e alunos do último ciclo.
Carlos discutia com Artemis sobre alguma coisa absolutamente irrelevante relacionada ao molho da massa quando todas as telas do ambiente apagaram simultaneamente.
O som cessou.
Conversas diminuíram.
Um tom grave atravessou o refeitório.
Carlos parou.
Conhecia aquele som.
Todos conheciam.
ALERTA DE INCIDENTE KAIJU.
O brasão da Coalizão apareceu.
Depois um mapa.
Uma região no extremo oriental do antigo continente imperial foi destacada.
A voz automática surgiu:
— Emergência de classe C confirmada. Portal ativo na região metropolitana de Kadesh. População civil em processo de evacuação. Forças regionais mobilizadas.
O refeitório ficou silencioso.
Franco olhou para a tela.
— Classe C?
Suzuka franziu o cenho.
— Quando foi a última vez?
Artemis respondeu:
— Quinze anos?
Carlos pensou.
— Dezesseis.
Ela olhou para ele.
— Tem certeza?
— Lembro da notícia.
A transmissão mudou.
Imagens aéreas apareceram.
Uma criatura enorme atravessava prédios.
Quadrúpede.
Pele escura.
Estruturas cristalinas saindo das costas.
Carlos estimou talvez trinta metros.
Um Astra D atacava pela lateral.
Outro recuava.
Drones militares cercavam a região.
A voz do apresentador substituiu o sistema automático.
— Unidades da Coalizão conseguiram impedir o avanço do Kaiju para o centro de Kadesh. A criatura foi repelida para o setor industrial oeste, porém os danos iniciais foram severos.
Números começaram a aparecer.
Carlos deixou o garfo sobre a bandeja.
— As estimativas preliminares apontam mais de três mil vítimas civis entre mortos e feridos.
Ninguém na mesa falou.
Três mil.
Artemis olhou para o pai.
Carlos não respondeu.
Ao redor, o refeitório perdera completamente o clima habitual.
Até alunos que minutos antes riam permaneciam em silêncio.
Um classe C.
Não um S.
Não um SS.
Classe C.
E três mil pessoas já estavam na conta.
Carlos olhou para Lara.
Ela também observava a tela.
Sem arrogância.
Sem postura.
Apenas uma garota de dezesseis anos vendo aquilo que todos ali treinavam um dia para enfrentar.
Kime levantou-se.
Mikka fez o mesmo.
Vários alunos mais velhos começaram a receber notificações.
Carlos entendeu.
Prontidão.
Mesmo que não fossem enviados, os últimos ciclos seriam colocados em alerta.
Artemis perguntou baixo:
— Você acha que conseguem derrotar?
Carlos olhou para a transmissão.
Três Astras agora cercavam a criatura.
— Sim.
— Tem certeza?
Carlos demorou um pouco.
— Tenho.
Não tinha.
Mas também não havia motivo para dizer isso.
________________________________________
A notícia chegou no meio da tarde.
Carlos estava em sala.
Vera interrompeu a aula quando o aviso apareceu no painel.
Todos olharam.
KAIJU CLASSE C ELIMINADO. PORTAL ENCERRADO.
Alguns alunos respiraram aliviados.
Vera permaneceu olhando para a mensagem.
— A aula de hoje termina aqui.
Ninguém reclamou.
Carlos guardou o material.
O número de vítimas ainda não havia sido atualizado.
Talvez fosse melhor assim.
No corredor, as conversas eram mais baixas.
Havia alívio.
Mas alguma coisa permanecia.
Carlos lembrava dos registros históricos.
Ataques F.
Depois E.
Alguns D.
Agora C.
Coincidência.
Provavelmente.
Esperava.
________________________________________
À noite, o apartamento estava novamente tomado por material acadêmico.
Carlos sentava no chão, encostado no sofá.
Artemis ocupava a mesa.
Suzuka estava estirada no tapete.
Franco usava uma cadeira.
— Então — disse Artemis — se duas intenções entram em conflito durante a resposta...
Carlos apontou para ela.
— O sistema deveria priorizar a estabilização.
— Nos modelos antigos.
— Claro.
Suzuka continuou:
— Nos atuais, ele tenta determinar qual intenção apresenta maior coerência com o vetor anterior.
Carlos ficou olhando.
— A máquina decide quem está mais certo?
— Basicamente.
Carlos balançou a cabeça.
— Isso explica por que eu e a Von Brainer derrubamos uma parede.
Franco riu.
— Talvez o Astra não tenha conseguido decidir.
— Finalmente alguém entende.
Artemis apontou para a apostila.
— Continua.
Carlos leu.
— “Quando a divergência superar o limiar de...”
Parou.
Olhou.
— Quem escreveu isso?
Suzuka respondeu:
— Doutor Helmann.
Carlos fechou o livro.
— Claro.
Artemis riu.
A tensão da tarde havia diminuído.
Não desaparecido.
Mas ali, entre livros, reclamações e restos de refrigerante, parecia um pouco distante.
Franco estava explicando um gráfico quando a campainha tocou.
Artemis levantou.
— Deve ser o lanche.
Carlos olhou para o relógio.
— Já?
— Você pediu há quarenta minutos.
— Eu estou perdendo noção de tempo.
— Está ficando velho.
Carlos apontou.
— Amanhã você fica sem sobremesa.
Artemis caminhou até a porta.
— O Império paga alimentação.
— Não dentro desta casa.
Ela apertou o painel.
A porta abriu.
Artemis já estava procurando o cartão para confirmar o pedido.
— Pode deixar que...
Parou.
Não havia entregador.
Lara Von Brainer estava do outro lado.
Uniforme casual da Academia.
Uma bolsa sobre o ombro.
Tablet em uma das mãos.
E a mesma expressão de quem ainda não estava completamente certa de por que havia ido até ali.
Artemis ficou olhando.
Lara também.
Atrás delas, Suzuka ergueu a cabeça.
Franco parou de falar.
Carlos virou do sofá.
Silêncio.
Lara levantou ligeiramente o tablet.
— Ainda estão estudando?
Artemis piscou.
E o capítulo terminou antes que alguém respondesse.