CAPÍTULO 3 — O Desafio Começa
Shin caminhava em direção à entrada principal da academia. Em suas costas, o bastão parecia atrair todos os olhares tortos do pátio. Os sussurros começaram quase que imediatamente.
— Olha lá, o cara com a relíquia de museu — debochou um aluno, apontando abertamente. — Ele realmente insiste em trazer isso em vez de uma espada ou uma lança de combate. Que tipo de guerreiro luta com uma arma que caiu em desuso há um século?
— Vai ver ele quer lutar como os antigos — caçoou uma garota logo ao lado, soltando uma risada abafada. — Todo mundo sabe que o fluxo de fogo moderno foi feito para o gume de uma lâmina. Quero só ver como ele vai guiar o calor usando uma arma ultrapassada que ninguém mais usa.
Shin manteve os olhos fixos no caminho, fechando as mãos em punhos dentro dos bolsos. Ouvir que sua escolha era ridícula só porque não seguia a moda da academia testava sua paciência todos os dias.
— Ei! Shin!
Uma voz firme cortou os murmúrios. Shin ergueu a cabeça e respirou aliviado ao ver Sumi se aproximando. Ela parou ao seu lado e lançou um olhar gélido para o grupo que cochichava. O pátio imediatamente mergulhou em silêncio. Ninguém ali tinha coragem de encarar a garota mais forte da turma.
— Ignora esses idiotas — disse Sumi, abrindo um sorriso para ele enquanto caminhavam para o campo. — Eles são obcecados por tendências. Acham que só porque todo mundo hoje usa espada, o bastão perdeu o valor. Quem define o valor da arma é o coração do guerreiro, não o século em que ela foi criada.
— Valeu, Sumi. É só que cansa um pouco ouvir que estou andando com uma antiguidade velha todo santo dia — Shin confessou, ajustando a alça do bastão nas costas.
— Deixa eles falarem — Sumi piscou para ele, confiante. — No final das contas, o que importa é o treino. Vamos ver o que o Instrutor Vance preparou para hoje.
No campo de treinamento, os alunos se alinharam diante de grandes pilares de pedra com uma marcação vermelha no centro. O Instrutor Vance caminhava diante deles com os braços cruzados.
— Hoje testaremos a condução e a precisão elemental — anunciou Vance, com sua voz firme de veterano. — Como vocês fazem parte da ala de combate corpo a corpo, o foco aqui é bem diferente dos arqueiros e atiradores. Qualquer tolo com um pingo de energia consegue criar uma explosão de chamas descontrolada. Mas um verdadeiro Guerreiro de Elite precisa de controle. Vocês devem canalizar o fogo ao redor de suas armas de forma contida e desferir um ataque curto e direto que atinja exatamente o centro vermelho do alvo. Sem desperdício. Apenas foco puro. Sumi. Demonstre.
Sumi deu um passo à frente com leveza. Ela sacou sua espada em um movimento fluido e concentrou sua energia. Linhas de chamas azuis e brilhantes correram pela base da lâmina, envolvendo a arma perfeitamente. Com um corte rápido, ela projetou a energia.
Tei!
A rajada de fogo azul cruzou o ar e atingiu o centro exato da marca vermelha, deixando uma queimadura negra perfeita no pilar. A turma bateu palmas.
— Excelente, Sumi. Condução limpa e precisão cirúrgica — anotou Vance. — Próximos!
Os testes continuaram. Alguns alunos conseguiram raspar no alvo, enquanto outros perderam a concentração e viram o fogo apagar antes mesmo de deixar a ponta de suas armas. Minutos depois, Vance olhou para a lista.
— Shin. Sua vez.
Um risinho maldoso correu pela fila dos fundos. Rogan cruzou os braços e elevou o tom de voz de propósito para a turma ouvir.
— Vamos ver se a relíquia do vovô serve para alguma coisa ou se vai travar as costas dele — Rogan caçoou, rindo alto com seus amigos. — Cuidado para o bastão não quebrar de velhice, Shin!
O Instrutor Vance parou de escrever na prancheta imediatamente. Ele virou o rosto lentamente na direção de Rogan, com os olhos semicerrados e uma expressão que fez o sorriso do valentão sumir na hora.
— Rogan. Próxima vez que abrir a boca para falar asneira na minha aula, você vai passar o resto da semana limpando as cinzas da arena com uma escova de dentes — a voz de Vance foi baixa, mas cortante como uma lâmina. — Se você acha que o seu domínio de espada compensa a sua falta de modos, dê um passo à frente e me mostre. Se não, cale a boca e observe.
Rogan engoliu em seco, vermelho de vergonha, e deu um passo para trás, encarando o chão.
— Vá em frente, Shin — ordenou Vance, voltando-se para o pilar.
Shin caminhou até a marcação e empunhou o bastão. Ele se posicionou diante do alvo e tentou puxar a energia do fogo de seu corpo para a arma.
Fush...
Shin tentou empurrar a energia de uma vez só. Uma chama fraca e trêmula surgiu no meio da arma, mas, por ser uma estrutura cilíndrica tradicional, a energia se dispersou para os lados sem rumo. O fogo tossiu no ar e apagou antes de avançar um palmo.
Alguns alunos abafaram o riso, olhando de relance para Vance com medo de serem punidos. Shin sentiu o rosto queimar. A dúvida tentou se instalar em sua mente, mas ele olhou para o lado. Sumi mantinha um olhar firme, assentindo com a cabeça em total confiança.
As exigências do instrutor martelaram na mente de Shin: controle, precisão, sem desperdício. Foi aí que a ficha caiu. Rogan e os outros queriam chamas destrutivas e brutas apenas para aparecer. Mas Shin não queria o poder para destruir ou se exibir; ele queria ser forte para proteger. E, para proteger alguém em meio ao caos, a força não podia ser selvagem. Ela precisava ser precisa, focada, como um escudo exato que não ferisse nenhum inocente.
Entendendo o propósito de sua própria força, o bastão em suas mãos deixou de parecer um desafio técnico e passou a fazer total sentido.
— Instrutor Vance — chamou Shin, mantendo a voz estável. — Posso tentar mais uma vez?
Rogan bufou de longe. Vance avaliou a firmeza na postura do jovem e o foco renovado em seu olhar, ignorando completamente o erro anterior.
— Uma última tentativa, Shin.
Shin fechou os olhos. Ele bloqueou o barulho ao redor. Segurando o bastão firmemente com as duas mãos, relaxou os ombros e respirou fundo. Dessa vez, mudou a estratégia. Em vez de forçar a energia para fora como se fosse um soco, permitiu que seu fogo elemental fluísse como um rio compassado, espalhando-se uniformemente por toda a extensão cilíndrica da arma ancestral, moldando a chama com a calma de quem deseja proteger.
Ao abrir os olhos, o campo emudeceu.
Uma chama viva, alaranjada e intensa cobriu o bastão de ponta a ponta. O fogo girava ao redor da estrutura em alta velocidade, criando um turbilhão perfeito que emitia um zumbido grave no ar. Era pura energia focada.
Com um giro rápido do bastão, Shin desferiu o golpe de cima para baixo.
💥 BUM!
A rajada de fogo vibrante viajou em uma linha reta impecável, atingindo o centro exato da marca vermelha do pilar de pedra. Shin girou o bastão horizontalmente com elegância, recolhendo-o para trás das costas e desativando o fluxo.
O silêncio que se seguiu foi total. Rogan e seus amigos olhavam para o pilar marcado com os olhos arregalados, completamente engasgados. A precisão de Shin havia sido impecável usando uma arma que eles consideravam ultrapassada.
Sumi abriu um sorriso radiante de orgulho, enquanto Vance dava passos à frente para examinar o alvo antes de se virar para o aluno.
— Um controle de fluxo impressionante para uma segunda tentativa, Shin. Você não se deixou abalar pela complexidade técnica de uma arma antiga e provou seu foco. Muito bem feito.
Shin sorriu de canto, sentindo o alívio invadir o peito. O esforço tinha valido a pena.
Antes de liberar a turma, o Instrutor Vance bateu palmas, reunindo todos no centro. O clima sério retornou instantaneamente.
— Escutem com atenção. Tenho um anúncio oficial — disse Vance, olhando para as fileiras. — Daqui a algumas semanas, as fronteiras serão abertas para a realização do grande Torneio das Vilas Elementais. Disputaremos contra os jovens talentos mais promissores de todo o continente.
A turma inteira começou a murmurar em pura empolgação. Era a chance que todos esperavam.
— No entanto — a voz de Vance cortou o burburinho —, a competição será de altíssimo nível. A partir de amanhã, começará uma série rigorosa de testes de desempenho. Seus resultados serão somados em um sistema de pontuação no pátio. E o critério é implacável: apenas os três melhores alunos da classificação geral serão escolhidos para representar a Vila do Fogo no torneio. Apenas três. Estão dispensados.
Assim que o instrutor deu as costas, o pátio explodiu em conversas barulhentas. Shin recolheu o bastão, prendendo-o nas costas, enquanto Sumi se aproximava rapidamente, com os olhos brilhando. Eles se afastaram do tumulto, caminhando em direção à saída do campo de treino.
— Você viu a cara do Rogan quando o Vance deu aquele esporro nele? — Sumi soltou uma risada contida, balançando a cabeça de leve. — Ele quase engoliu a própria língua! E aquele seu segundo ataque... Shin, sério, foi incrível! Você finalmente acertou o jeito de espalhar o calor pelo bastão.
— É, eu tive que parar de lutar contra o formato dele — Shin sorriu, mas sua mente logo voltou para as palavras do professor. — Mas... Sumi, você ouviu o que o Vance disse? Três vagas. Só três para a academia inteira.
— Eu ouvi — a expressão de Sumi ficou um pouco mais séria, embora ela mantivesse a postura confiante de sempre. — Isso muda completamente o jogo. O sistema de pontuação significa que não adianta ir bem em só um teste. Quem vacilar um dia, despenca na classificação.
— Vai ser uma disputa brutal — Shin comentou, olhando para o pátio onde os outros alunos já discutiam estratégias. — Rogan e os outros vão vir com tudo. Eles são fortes e vão jogar agressivo para garantir os pontos.
— Deixa eles virem — Sumi parou e olhou direto para Shin, colocando uma mão no ombro dele. — Uma das vagas vai ser minha, isso eu te garanto. Mas eu não quero ir para esse torneio com o Rogan ou qualquer outro daqueles idiotas egoístas. Quero que você esteja lá comigo. Nós vamos treinar pesado e nós dois vamos pegar essas vagas. Fechado?
Shin sentiu o peito aquecer, não pelo elemento fogo, mas pela lealdade da amiga. Ele olhou para o céu da Vila do Fogo, sentindo a empolgação finalmente esmagar qualquer resquício de dúvida.
— Fechado — Shin respondeu, firmando a voz e exibindo um sorriso determinado. — Eu vou conseguir uma dessas vagas. Custe o que custar.