A madeira maciça da porta principal lascou com um estrondo. Passos pesados e vidro quebrando subiram pelo andar de baixo.
Me encolhi mais fundo no conduto de ar esculpido na parede, o coração batendo contra as costelas enquanto móveis eram derrubados lá embaixo. A lâmina curta estava ao meu lado, na pedra fria. A espada longa ficara na biblioteca, onde não cabia nem ia me servir.
— Eles entraram — sussurrei.
Os passos se afastaram, subindo em marcha rápida para a ala oeste. Não ia durar. Se fossem executores do Alto Comando, trariam cães treinados para farejar Raken, e a única luz que eu tinha no escuro era a faísca instável vazando da manopla fraturada no meu colo, somada ao meu próprio Raken. A manopla que eu roubei me entregando.
Não importava. Eu já tinha atravessado uma cripta inteira atrás daquele livro. Se ia morrer naquele buraco por causa dele, queria saber se aquilo que eu procurava estava nas páginas.
Abri o diário sob a luz azul. A página que se soltou do sangue tinha a letra endurecida pelo frio.
Comecei a ler.
Dia 7. A nevasca apagou as estrelas.
Escrevo isto dentro de uma fenda nas raízes, ao lado de um homem morto. Preciso deixar registrado enquanto a mão ainda obedece.
Ando desde que deixei a Estalagem da Rota Quebrada, ontem ao amanhecer, pelos vales baixos. A tempestade me alcançou no meio da tarde de hoje. Melhor assim: neve fechada apaga pegadas. A manopla vibra a cada passo. Já me acostumei.
O frio é a pior parte. Ele adormece as pernas e convence o corpo a deitar. Para não ceder, forcei a cabeça para o único lugar quente que me resta. Pensei em Mara, no Festival das Luzes do ano passado, nós dois no telhado de casa, ela rindo com o vinho e as lanternas subindo sobre Solarion. Funcionou. O sangue voltou a circular.
Foi nessa hora que senti. Não foi barulho. Foi o formigamento na base do pescoço, o aviso de que há olhos nas minhas costas. Parei. Havia um corvo no alto de um pinheiro, parado na tempestade, com olhos leitosos como de peixe morto.
Eu já tinha visto aquele corvo. Estava no beiral da janela da estalagem quando contei a Garrick o que carrego. Corvo não escuta conversa. Aquele escutou.
Fingi que não tinha notado. Saí da trilha e entrei nos pinheiros mais fechados, mancando de propósito. Quem quer que o tivesse mandado vinha atrás de mim, e eu queria levá-lo para um lugar sem testemunhas.
Achei esta fenda. Fiquei no escuro, com a mão no cabo da espada, ouvindo os passos chegarem. O medo tentou tomar minhas mãos. Fechei os olhos e pensei no meu irmão. Ele é o melhor Moraken que a academia já formou, e eu sou só um soldado tentando copiar o que ele faria. Ele não atacaria às cegas. Ele calcularia o espaço, deixaria o inimigo dar o primeiro passo, absorveria o golpe na armadura e o esmagaria contra a pedra. Ouvi a voz dele me dizendo isso, como nos treinos da academia. O medo passou.
O homem entrou em silêncio, com duas adagas curvas de obsidiana. Fiz exatamente como o meu irmão ensinou. Bloqueei o primeiro golpe, deixei o segundo riscar a placa do peito e joguei meu peso contra ele até a parede parar o corpo dele.
Prendi a garganta dele com a manopla. A faísca do Raken iluminou o rosto. No pescoço, queimada na pele, havia uma porta entreaberta com sangue escorrendo pelas bordas.
A Porta que Sangra. A história de recruta sobre um culto sem rosto existia.
Perguntei quem o mandou. Ele sorriu. Apertei até ele parar de respirar e soltei só o suficiente para falar.
— Você chegou tarde — disse ele, com a voz rachada.
Perguntei se era o Círculo. Ele riu, e a risada virou tosse.
— O Círculo... procura com as mãos. Nós... com os olhos.
Apertei de novo. Soltei. Perguntei que olhos. Ele virou o rosto para a entrada da fenda, onde o corvo devia estar, e não respondeu. Entendi sozinho. O pássaro não tinha me seguido por acaso. Tinha sido feito para isso.
Perguntei o que queriam comigo. Ele olhou para a minha mochila.
— Você não importa. O que você leva... importa.
Apertei. A faísca do Raken queimava a pele do pescoço dele e o cheiro encheu a fenda, mas o homem não mostrava dor. Mostrava outra coisa, parecida com fé. Soltei.
— Desde antes de Varin — sussurrou. — Nós vimos tudo.
O corvo só estava na estalagem. Não explicava Varin. Havia mais de um par de olhos sobre mim, e eu não sabia quais.
Perguntei quem mandava. Ele ficou quieto por tanto tempo que achei que não diria nada. Então os olhos dele subiram para o escuro acima de nós.
— Seris — disse ele, como quem reza. — Seris nos vê.
Os lábios dele começaram a se mexer, rápidos, numa língua que não era a nossa. O encantamento vinha de um lugar mais fundo que a traqueia, e a pressão da minha manopla não o detinha. O ar esfriou de uma vez. A faísca da manopla piscou e começou a morrer. A sombra dele na parede se soltou da pedra e esticou, como se alguma coisa do outro lado a estivesse puxando.
Não havia mais o que perguntar. Quebrei o pescoço dele.
O estalo cortou o encantamento no meio. A sombra desabou. Lá fora ouvi um baque na neve. O corvo estava caído, duro como pedra.
Não sei o que carrego nesta mochila. Sei agora que alguém chamado Seris sabe, e que há gente disposta a morrer sem dizer mais que meia dúzia de palavras para não me contar. Não estou fugindo só do Círculo.
Vou andar antes que amanheça.
Fechei o diário. A neve sumiu da minha cabeça e voltou o silêncio da biblioteca, com o gosto metálico do medo na boca.
A luz da manopla tremia no meu colo. Eu tinha passado por três câmaras e por guardiões de pedra que ainda sabiam lutar para chegar àquele altar. Não tinha feito isso por curiosidade. Sabia o que procurava. O que não sabia era que outros também estavam procurando, e que poderiam estar à minha frente.
Um urro inumano soou no andar de cima. Passos pesados desabaram pelas escadas, voltaram ao andar de baixo e vieram direto contra a parede falsa.
Não era o Círculo. Nenhum cão do Alto Comando faria aquele som. Algo tinha seguido o que eu trouxe da cripta, ou alguém tinha mandado seguir.
A manopla chiou. A luz azul disparou pela fresta e foi engolida.
A parede foi atravessada num estrondo de pedra e metal. Um feixe de luz vermelha e distorcida inundou o buraco. Agarrei a lâmina curta, sentindo o Raken subir pelo braço, porque eu também sou um Moraken e não pretendia morrer encolhido.
Um rosnado faminto saturou o duto. A criatura saltou na minha direção, no último instante antes de a escuridão engolir tudo.