Capítulo 126 — O Sangue da Igreja
A caverna permanecia mergulhada em um silêncio quase absoluto.
Lá fora, o vento cortava as montanhas congeladas e fazia a neve bater contra a entrada como uma chuva interminável de pequenos cristais. O frio daquela região parecia existir para além do próprio clima; era como se as montanhas guardassem, há séculos, alguma coisa que não deveria ser encontrada.
Dentro da caverna, porém, não havia vento.
Apenas o eco distante de pequenas gotas de água caindo entre as rochas.
Ren permanecia alguns passos atrás dos outros.
O capuz cobria parcialmente seu rosto, deixando apenas uma parte de seus cabelos negros escapar pela lateral. Sua foice estava presa às costas, imóvel, enquanto seus olhos percorriam lentamente os ancestrais reunidos.
Lily estava diante dos quatro tronos.
Yorm permanecia de pé, com os longos cabelos vermelhos caindo sobre os ombros. Syvan estava sentado em seu trono, mantendo o misterioso livro de energia branca apoiado sobre uma das pernas. Emma permanecia com os braços cruzados, observando Lily com uma expressão impaciente.
— Então estamos esperando o quê? — Emma perguntou.
Sua voz ecoou pela caverna.
— Já sabemos o que queremos. Já sabemos quem são nossos inimigos. Já sabemos que a Igreja está mais vulnerável do que esteve em muito tempo. Quanto mais tempo passarmos aqui, mais tempo eles terão para reconstruir suas forças.
Syvan fechou lentamente o livro.
— Ela tem razão em uma coisa.
Seus olhos verdes se voltaram para Lily.
— Passamos anos escondidos. Agora temos uma oportunidade que talvez nunca volte a aparecer.
Yorm soltou uma pequena risada.
— Vocês dois estão com pressa demais.
— E você está tranquilo demais — Emma respondeu.
Yorm abriu um sorriso.
— Eu não estou tranquilo. Só não estou desesperado.
Lily permaneceu em silêncio durante toda a discussão.
Então levantou lentamente uma das mãos.
Os três se calaram.
Até Ren percebeu que havia algo diferente no olhar dela.
— A primeira ação ainda está sendo planejada.
Lily caminhou lentamente pelo centro da caverna.
— O que estamos preparando não será apenas um ataque. Será o primeiro movimento de uma retomada.
Ela parou.
— O mundo de Kaelthar pertenceu aos Ancestrais antes que a Igreja decidisse que somente aqueles que se curvassem diante dela poderiam viver em paz.
Seus olhos percorreram cada um deles.
— Não vamos simplesmente destruir Celestria. Não vamos apenas matar alguns soldados e desaparecer nas sombras. O que faremos precisa produzir um impacto grande o bastante para obrigar todos os nossos inimigos a reagirem.
Emma descruzou os braços.
— Então ainda não está pronto.
— Ainda não.
Lily então virou o rosto.
Diretamente para Ren.
— Mas enquanto planejamos, não podemos ficar parados.
Ren permaneceu imóvel.
Lily estendeu a mão.
— Ren. Venha até aqui.
Ele caminhou lentamente até o centro.
Os passos ecoaram pela pedra.
Quando ficou ao lado dela, Lily continuou:
— Você irá com Yorm.
Yorm levantou uma sobrancelha.
— Nós dois?
— Sim.
Ela voltou o olhar para Ren.
— Quero que vocês investiguem as movimentações da Igreja. Não quero confrontos. Não quero demonstrações de poder. Não quero que descubram que estamos observando.
Ren assentiu.
Lily continuou:
— Quero informações. Quantos soldados estão deixando Celestria. Para onde estão indo. Quais regiões estão sendo patrulhadas. Quais cidades estão sendo protegidas. Quais estão sendo abandonadas.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu consigo enxergar algumas coisas.
Uma pequena corrente de energia percorreu o ambiente.
As sombras nas paredes pareceram se mover por um segundo.
— Mas minhas visões não são mapas.
Sua voz ficou mais baixa.
— Eu vejo fragmentos.
Lily abriu os olhos.
— E o que tenho visto não me agrada.
Ren permaneceu atento.
— O que você viu?
Lily olhou para ele.
— Fogo.
Silêncio.
— Em todas as direções.
Ela respirou lentamente.
— Cidades. Estradas. Campos. Pessoas correndo. Soldados marchando. E sangue sendo derramado onde antes existia apenas vida.
Yorm perdeu o sorriso.
Emma ficou séria.
Syvan fechou novamente o livro.
Lily então voltou a falar:
— Não sei exatamente o que está acontecendo em cada lugar. É por isso que preciso de vocês.
Ela apontou para os dois.
— Vão. Observem. Descubram. Voltem.
Yorm soltou o ar pelo nariz.
— Certo.
Ele ergueu uma das mãos.
A espada negra que segurava começou a se desfazer.
Primeiro, a lâmina perdeu sua forma.
Depois o cabo.
Tudo virou uma corrente de energia escura que desapareceu dentro da palma de sua mão.
— Apenas investigar.
Ren assentiu.
— Sim.
Syvan levantou o olhar.
— Tomem cuidado.
Emma completou:
— A Igreja sabe reconhecer a presença de Ancestrais poderosos. Se sentirem alguma coisa errada, não lutem.
Yorm deu um sorriso de canto.
— Vocês dois realmente gostam de estragar a diversão.
Emma estreitou os olhos.
— Não estamos brincando.
Yorm levantou as mãos.
— Entendido.
Lily apenas observou os dois.
Ren virou-se.
Yorm começou a caminhar ao lado dele.
E juntos deixaram a caverna.
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O frio os atingiu imediatamente.
A neve caía lentamente.
Yorm caminhava com as mãos atrás da cabeça, completamente diferente da postura séria que havia demonstrado dentro da caverna.
Ren seguia alguns passos à frente.
Silencioso.
Yorm olhou para ele.
— Você é sempre assim?
Ren não respondeu.
— Quieto desse jeito?
Nada.
— Interessante.
Yorm continuou andando.
— Lily confia bastante em você.
Ren olhou de canto.
— Por quê?
Yorm riu.
— Essa é justamente a minha pergunta.
Ele passou uma mão pelos cabelos vermelhos, afastando alguns fios que haviam caído sobre o rosto.
— Você apareceu aqui praticamente do nada. Lily não costuma confiar nas pessoas tão rápido.
Ren permaneceu calado.
Yorm insistiu:
— Então?
Depois de alguns segundos, Ren respondeu:
— Talvez porque eu seja um deles.
Yorm parou.
Por alguns segundos, apenas o vento respondeu.
Então ele começou a rir.
Primeiro baixo.
Depois mais alto.
Ren virou o rosto.
— O que foi?
Yorm levou uma mão ao rosto.
— Você está falando sério?
Ren estreitou os olhos.
— Sim.
Yorm voltou a caminhar.
— Não seja bobo.
— Então o que eu sou?
Yorm olhou para ele.
— Um humano.
Ren ficou imóvel por um instante.
Yorm continuou:
— Um humano que, por algum motivo, teve a sorte grande de nascer com um poder que se aproxima do nosso.
O silêncio entre os dois mudou.
Ren não demonstrou raiva.
Mas seus dedos se fecharam lentamente.
Yorm percebeu.
— Não precisa ficar ofendido.
Ele sorriu.
— Eu não estou dizendo que você é fraco.
Yorm parou novamente.
— Na verdade, estou dizendo justamente o contrário.
Ele olhou para Ren de cima a baixo.
— Você tem algo que humanos normais jamais deveriam possuir.
Ren continuou encarando-o.
Antes que Ren respondesse, um som distante atravessou as montanhas.
Um grito.
Os dois pararam.
Outro veio logo depois.
Dessa vez, mais distante.
Mas inconfundível.
Yorm perdeu completamente o sorriso.
— Você ouviu?
Ren já estava olhando para o horizonte.
— Sim.
Os dois dispararam.
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A paisagem mudou conforme avançavam.
A neve começou a desaparecer.
O branco absoluto das montanhas foi dando lugar a manchas de terra.
Depois grama.
Depois árvores.
Até que os dois chegaram ao topo de uma gigantesca montanha.
Yorm parou.
Ren também.
Abaixo deles existia uma pequena aldeia.
Era uma região muito diferente das montanhas.
Havia casas simples.
Campos.
Animais.
Pequenos caminhos entre as construções.
Era um lugar que, à primeira vista, parecia tranquilo.
Mas naquele momento...
Estava em chamas.
Fumaça subia para o céu.
Pessoas corriam pelas ruas.
Soldados ocupavam a aldeia.
Alguns carregavam espadas.
Outros armas antigas.
E em suas armaduras havia um símbolo que Ren conhecia muito bem.
Uma cruz.
A Igreja.
Yorm ficou imóvel.
Ren observou.
Um soldado derrubou um homem que tentava proteger sua família.
Outro grupo cercava moradores que tentavam fugir.
Não havia batalha.
Não havia exército inimigo.
Não havia guerra.
Era apenas uma aldeia.
Yorm cerrou os dentes.
— Agora você vê, Ren?
Ren não respondeu.
Yorm apontou para baixo.
— Olhe.
Sua voz ficou pesada.
— Você consegue enxergar alguma ameaça ali?
Ren continuou olhando.
— Eles não estão atacando ninguém.
Yorm assentiu.
— Exatamente.
Ele respirou fundo.
— Não estão destruindo cidades da Igreja. Não estão planejando uma guerra. Não estão atacando soldados.
Yorm apertou os punhos.
— Eles estavam vivendo.
Ren permaneceu imóvel.
— Tinham casas.
A voz de Yorm ficou cada vez mais carregada.
— Famílias.
Ele apontou para os campos.
— Tinham plantações.
Para os animais.
— Tinham animais.
Depois voltou a apontar para as pessoas.
— E ainda assim, para a Igreja, tudo aquilo era suficiente para justificar uma limpeza.
Ren sentiu seu maxilar endurecer.
Yorm continuou:
— Eles não perguntam quem você é.
— Não perguntam o que você quer.
— Não perguntam se você é inimigo.
Ele olhou diretamente para Ren.
— Basta estar no lugar errado.
Yorm voltou os olhos para a aldeia.
— Nós, Ancestrais, não somos santos.
Um pequeno sorriso amargo surgiu em seu rosto.
— Nunca fomos.
Ele respirou.
— Mas existe uma diferença entre lutar contra alguém que ameaça sua existência...
Sua voz ficou fria.
— E destruir uma família simplesmente porque ela não se ajoelhou diante de você.
Ren permaneceu em silêncio.
Abaixo deles, a fumaça continuava subindo.
Yorm fechou os olhos por um momento.
— É isso que eles chamam de ordem.
Ren finalmente desviou o olhar.
Seus dentes estavam cerrados.
— Já temos o suficiente.
Yorm abriu os olhos.
— O quê?
Ren começou a caminhar.
— Eles estão limpando os próprios territórios.
Yorm o acompanhou.
— Continue.
— Os soldados estão espalhados.
Ren olhou para trás uma última vez.
— Celestria deve estar mais vulnerável sem todos eles reunidos.
Yorm assentiu lentamente.
— Isso é verdade.
Ren continuou:
— Não precisamos saber mais.
Ele apertou o capuz contra o rosto.
— Lily precisa saber disso.
Yorm sorriu discretamente.
— Então vamos voltar.
Os dois começaram a atravessar novamente a região congelada.
A aldeia ficou para trás.
Mas aquela imagem permaneceu na mente de Ren.
As casas.
As pessoas.
A cruz nas armaduras.
E a sensação familiar de que, onde quer que ele fosse...
Sempre havia alguém pagando pelo poder de outra pessoa.
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Horas se passaram.
A luz começou a desaparecer.
A noite caiu sobre as montanhas.
Depois de uma longa caminhada, os dois finalmente chegaram à entrada da caverna.
Yorm entrou primeiro.
Ren veio logo atrás.
Syvan permanecia sentado em seu trono.
Emma também.
A luz branca do livro de Syvan iluminava parte das paredes.
Então Lily apareceu.
Não houve passos.
Não houve aviso.
Ela simplesmente surgiu entre as sombras.
As vestes brancas arrastavam pelo chão enquanto ela caminhava calmamente.
— Vocês voltaram.
Yorm assentiu.
— Sim.
Lily olhou para os dois.
— Encontraram alguma coisa?
Yorm caminhou para o centro.
— Encontramos.
Ele contou tudo.
A aldeia.
Os soldados.
A quantidade de tropas espalhadas pelo continente.
A ausência de grande parte das forças em Celestria.
A operação que a Igreja parecia estar realizando.
Lily ouviu sem interromper.
Quando terminou, Yorm concluiu:
— Ren e eu chegamos à mesma conclusão.
Lily inclinou levemente a cabeça.
— Qual?
— A Igreja está espalhando suas forças para limpar seus territórios.
Yorm apontou para a entrada da caverna.
— Isso significa que uma quantidade considerável de soldados está longe de Celestria.
Syvan fechou lentamente o livro.
Emma sorriu.
Lily permaneceu imóvel.
Então...
sorriu.
Um sorriso pequeno.
Quase imperceptível.
Mas diferente do habitual.
— Vocês fizeram muito bem.
Ela caminhou alguns passos.
— Agora temos uma abertura.
Yorm cruzou os braços.
— Foi isso que você estava procurando?
— Uma oportunidade.
Lily parou diante dos quatro.
— Não precisamos atacar Celestria imediatamente.
Seus olhos percorreram os ancestrais.
— Não precisamos chamar a atenção de todos os Shinpan-Kan de uma vez.
Ela levantou lentamente um dedo.
— Podemos começar devagar.
Outro dedo.
— Um membro da Igreja.
Outro.
— Depois outro.
Lily fechou a mão.
— Roubar seus poderes.
Silêncio.
— Guardá-los.
Ela olhou para o artefato.
— E subir.
Sua voz ficou mais firme.
— Do nível mais baixo...
Lily ergueu os olhos.
— Até chegarmos aos mais altos.
Yorm sorriu.
Emma também.
Syvan abriu novamente seu livro.
E Ren permaneceu parado.
Olhando para Lily.
Porque naquele instante ele finalmente compreendeu:
A guerra dos Ancestrais ainda nem havia começado.
Mas a primeira peça já havia sido movida.