Capítulo 127 — As Regras do Mundo
O vento soprava sobre as estradas que cortavam as regiões afastadas do continente.
Era uma manhã fria.
Nuvens pesadas cobriam parte do céu, deixando a luz do sol fraca, quase sem força. A vegetação dos campos se movimentava lentamente com a passagem do vento, enquanto o som ritmado de dezenas de cavalos ecoava pela estrada de terra.
TUM. TUM. TUM.
As patas dos animais golpeavam o chão em perfeita sequência.
Uma longa formação de cavaleiros avançava pelo continente.
Todos vestiam armaduras pertencentes à Igreja.
Peças metálicas claras cobriam seus corpos, algumas decoradas com pequenas cruzes, enquanto capas escuras balançavam atrás deles. Espadas permaneciam presas às cinturas. Alguns carregavam lanças; outros, armas de fogo antigas.
Não havia conversa.
Apenas o som dos cavalos.
No centro da formação, entre os soldados, cavalgava Aoi.
Seu cabelo estava preso em um coque simples, deixando apenas algumas mechas escaparem pelo rosto por causa do vento.
Sobre o kimono negro que vestia, havia uma armadura religiosa leve, adaptada para permitir movimentos rápidos durante o combate.
Sua katana repousava em sua cintura.
A bainha negra possuía pequenas luas desenhadas ao longo de sua superfície.
Aoi mantinha os olhos na estrada.
Desde que havia retornado para Celestria, muitas coisas haviam mudado.
Depois de ver Ren novamente e depois de descobrir que uma única família comandava praticamente toda a estrutura da Igreja...
Ela já não conseguia olhar para aquela organização exatamente como antes.
Ainda assim, continuava ali.
Ainda carregava o símbolo da Igreja.
Ainda era uma guerreira deles.
E, talvez por isso, tentava compreender.
À frente da formação, o comandante levantou uma das mãos.
— Atenção!
A voz dele percorreu toda a fileira.
Os soldados imediatamente ficaram atentos.
— Estamos nos dirigindo para a região oeste do continente. Nossa primeira parada será a vila de Eldermere. Depois seguiremos para outras seis regiões.
Alguns soldados assentiram.
O comandante continuou cavalgando.
— Esta será a nossa sétima limpeza deste ano.
Aoi franziu levemente a testa.
A palavra ficou presa em sua cabeça.
Limpeza.
Ela olhou para os soldados ao redor.
Nenhum deles parecia incomodado.
Para eles, aquilo era apenas mais uma missão.
Aoi acelerou um pouco seu cavalo até ficar próxima do comandante.
— Comandante.
Ele virou ligeiramente o rosto.
— Sim?
Aoi hesitou por um instante.
— O senhor disse... "limpeza"?
O homem soltou uma pequena risada pelo nariz.
— Você é a filha de Kanzaki, não é?
Aoi ficou em silêncio.
— Sim.
Ele voltou os olhos para a estrada.
— Hm.
Por alguns segundos, continuou cavalgando.
— Então realmente existem muitas coisas que você ainda não sabe.
Aoi esperou.
— As limpezas são operações realizadas para garantir a segurança dos territórios pertencentes à Igreja. Procuramos invasores, ancestrais, criminosos e pessoas que estejam ocupando regiões sem autorização.
Ele fez uma pausa.
— Nosso continente não pode simplesmente permitir que qualquer pessoa entre e estabeleça uma comunidade onde quiser.
Aoi ouviu atentamente.
— Mas... e essas pessoas?
O comandante olhou para ela.
— Que pessoas?
— As que vivem nessas vilas.
Ele soltou outra risada curta.
— Se forem cidadãos autorizados, nada acontecerá com elas.
Aoi permaneceu calada.
O comandante continuou:
— Você não precisa se preocupar. Faça seu trabalho, proteja os soldados e siga as ordens. É simples.
Aoi olhou novamente para a estrada.
É simples...?
Ela não respondeu.
A formação continuou.
---
Horas depois...
A paisagem começou a mudar.
As árvores ficaram mais densas.
O terreno descia suavemente até uma região cercada por colinas verdes.
E então a vila apareceu.
Eldermere.
Era pequena.
Casas de madeira e pedra estavam espalhadas ao redor de uma praça simples. Pequenas plantações cercavam as residências. Havia galinhas andando próximas às cercas, algumas vacas em campos abertos e crianças correndo entre as casas.
Era um lugar comum.
Pacífico.
Vivo.
Quando os primeiros cavalos apareceram no horizonte, algumas pessoas pararam o que estavam fazendo.
Uma mulher que carregava uma cesta ficou imóvel.
Um homem que trabalhava em uma plantação levantou a cabeça.
As crianças começaram a correr para perto dos adultos.
Pouco depois, dezenas de moradores estavam observando a chegada da cavalaria.
O comandante puxou as rédeas.
O cavalo parou.
Os soldados desceram praticamente ao mesmo tempo.
CLAC.
Botas tocaram o chão.
Espadas começaram a ser retiradas das bainhas.
Aoi desceu por último.
Ela olhou ao redor.
Algo estava errado.
Os moradores não pareciam criminosos.
Não havia guerreiros.
Não havia símbolos de grupos inimigos.
Não havia sequer alguém segurando uma arma.
O comandante caminhou para frente.
— MORADORES DE ELDERMERE!
Sua voz ecoou pela praça.
Todos ficaram em silêncio.
— Recebemos autorização para retirar vocês desta região. Esta área pertence oficialmente à Igreja e vocês não possuem permissão legal para permanecer aqui.
Um homem idoso saiu lentamente da multidão.
Ele possuía cabelos completamente brancos e caminhava apoiado em um pedaço de madeira.
— Permissão?
O comandante olhou para ele.
— Sim.
— Nós estamos aqui há anos.
— E continuam sem autorização.
O velho franziu a testa.
— Mas por quê?
O comandante respirou fundo.
— Porque este território pertence à Igreja.
— E daí?
Alguns moradores ficaram assustados com a ousadia do velho.
Ele continuou:
— Nós plantamos nossa comida. Criamos nossos animais. Não roubamos de ninguém. Não atacamos ninguém. Não incomodamos ninguém.
O comandante permaneceu imóvel.
— Isso não muda a lei.
— Então qual é o problema de continuarmos aqui?
O homem respondeu friamente:
— Vocês não podem morar no continente sem autorização oficial ou sem seguir as determinações religiosas da Igreja.
Uma jovem mulher deu um passo à frente.
— Nós não temos para onde ir!
Aoi olhou para ela.
A jovem estava claramente nervosa.
— Nossa antiga vila foi destruída por ancestrais. Perdemos nossas casas. Perdemos parentes. Viemos para cá porque era o único lugar onde conseguimos viver novamente.
Ela apontou para as casas.
— Nós não estamos tentando tomar nada de vocês. Só queremos continuar vivos.
O comandante fechou os olhos por um instante.
— Infelizmente...
Ele abriu novamente.
— Isso não é problema da Igreja.
A jovem ficou paralisada.
— Como assim...?
— Se vocês não podem viver aqui, deverão sair.
— Mas para onde vamos?
— Para fora do continente.
Um silêncio pesado caiu sobre a praça.
Aoi apertou discretamente as rédeas.
Aquilo não parecia certo.
O velho deu outro passo.
— Não.
O comandante ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Nós não vamos embora.
O velho olhou para os soldados.
— Não vamos abandonar nossas casas outra vez.
O comandante respirou fundo.
— Último aviso.
— Eu já disse que—
SHING!
A espada foi retirada da bainha.
O movimento seguinte foi rápido.
O velho caiu de joelhos, segurando o braço ferido.
Os moradores gritaram.
As crianças começaram a chorar.
Aoi arregalou os olhos.
— COMANDANTE!
Ela correu até ele.
— O senhor ficou louco?!
O homem limpou a espada calmamente.
— Ele recebeu uma ordem.
— Ele é um civil!
— E desobedeceu.
Aoi ficou incrédula.
— Isso não justifica atacar alguém que não estava oferecendo perigo!
O comandante finalmente virou o rosto para ela.
Seu olhar era frio.
— Você está esquecendo quem é.
— Não.
Aoi levou a mão até a katana.
— Acho que quem está esquecendo é o senhor.
O comandante estreitou os olhos.
— Você é apenas uma guerreira da Igreja.
Aoi puxou a katana.
SHING!
A lâmina brilhou sob a luz do sol.
— Não enquanto eu estiver aqui.
Os soldados imediatamente reagiram.
— Protejam o comandante!
Três avançaram.
Aoi girou o corpo.
O primeiro golpe passou diante de seu rosto.
Ela inclinou a cabeça.
WHOOSH!
A lâmina passou no vazio.
Aoi girou sobre o próprio pé e bateu no pulso do soldado, fazendo sua espada voar.
O segundo veio pela lateral.
Ela bloqueou.
CLANG!
As duas lâminas se chocaram.
Aoi deslizou um pé para trás, desviou o golpe seguinte e utilizou a própria força do soldado para fazê-lo perder o equilíbrio.
Ele caiu.
O terceiro tentou atacar por trás.
Aoi percebeu pelo reflexo da lâmina.
Girou.
Sua katana parou a centímetros do pescoço dele.
Silêncio.
O soldado congelou.
Aoi baixou lentamente a espada.
— Eu não sou uma guerreira qualquer.
Ela olhou para todos.
— E vocês estão muito enganados se acham que vou assistir pessoas inocentes serem machucadas apenas porque alguém decidiu chamá-las de "ilegais".
O comandante cerrou os dentes.
Aoi guardou a katana.
— Afastem-se.
Ninguém respondeu.
Mas ninguém atacou novamente.
Os moradores correram para ajudar o velho.
Aoi observou aquilo em silêncio.
Uma senhora se aproximou dela.
— Obrigada...
Aoi olhou para ela.
— Não precisa agradecer.
— Você salvou ele.
Aoi desviou o olhar.
— Eu só fiz o que deveria ter sido feito desde o começo.
A senhora sorriu tristemente.
— Nós vamos embora.
Aoi pareceu surpresa.
— O quê?
— Não queremos mais problemas.
Ela olhou para as próprias casas.
— Vamos voltar para onde viemos.
Aoi não conseguiu responder.
Apenas assentiu.
Os moradores começaram a recolher seus pertences.
Alguns carregavam sacos.
Outros levavam pequenas caixas.
Pais chamavam seus filhos.
Animais eram retirados dos cercados.
Em poucos minutos, aquela vila que antes parecia viva começava a desaparecer lentamente.
Aoi ficou observando.
O comandante passou por ela.
— Você vai se arrepender disso.
Aoi virou o rosto.
— Talvez.
Ele parou.
Aoi continuou:
— Mas não vou me arrepender de ter impedido que vocês machucassem alguém que não podia se defender.
O comandante a encarou por alguns segundos.
Depois simplesmente seguiu.
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A missão continuou.
Mais seis localidades.
Mais estradas.
Mais vilas.
Mais pessoas expulsas.
Mas nenhum ancestral apareceu.
Nenhum inimigo.
Nenhum exército.
Nada.
A Igreja encontrou apenas pessoas tentando viver.
Quando o sol começou a desaparecer no horizonte, a cavalaria finalmente iniciou o caminho de volta para Celestria.
Aoi permaneceu calada durante toda a viagem.
---
Celestria.
A cidade estava iluminada pelas últimas cores do entardecer.
Aoi caminhava sozinha pelas ruas.
Os moradores conversavam, comerciantes fechavam suas lojas e crianças brincavam próximas às construções.
Tudo parecia normal.
Mas Aoi não conseguia esquecer a vila.
Ela caminhou mais alguns metros.
Então viu alguém sentado em um banco de madeira.
Seraphiel.
Ele estava sozinho.
Aoi parou.
— Seraphiel.
Ele levantou os olhos.
— Aoi.
Ela se aproximou.
— Posso conversar com você?
Seraphiel abriu espaço no banco.
— Claro.
Aoi sentou.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Ela olhou para as próprias mãos.
— Você sabia?
Seraphiel não respondeu imediatamente.
— Sabia o quê?
— Sobre as limpezas.
Ele permaneceu quieto.
Aoi continuou:
— Eu fui para uma delas hoje.
Seraphiel lentamente virou o rosto.
Aoi contou tudo.
A vila.
Os moradores.
O velho.
O comandante.
A ameaça.
A espada.
Tudo.
Seraphiel escutou sem interromper.
Quando ela terminou, o silêncio voltou.
Aoi respirou fundo.
— A Igreja realmente faz isso?
Seraphiel olhou para frente.
Uma enorme construção religiosa dominava parte da cidade.
No topo dela havia uma cruz.
A luz do entardecer tocava sua superfície.
Seraphiel ficou alguns segundos observando aquele símbolo.
Então falou.
— Aoi...
Sua voz estava diferente.
Mais baixa.
Mais pesada.
— O mundo não é um conto de fadas.
Aoi olhou para ele.
— Eu gostaria que fosse.
Seraphiel continuou olhando para a cruz.
— Eu também.
Ele respirou fundo.
— Mas o mundo em que nascemos não foi construído para ser justo.
Aoi permaneceu em silêncio.
— Eu represento essa Igreja. Eu luto por ela. Já derramei sangue por ela. Já perdi pessoas por ela. E, mesmo depois de tudo isso...
Ele fechou os olhos.
— Eu sei que ela não é pura.
Aoi abaixou lentamente o olhar.
— Sei das decisões erradas. Sei das guerras que poderiam ter sido evitadas. Sei das pessoas que foram sacrificadas em nome de uma ordem maior. Sei que existem homens dentro dessa estrutura que confundem poder com justiça.
Ele apertou as mãos.
— E sei que continuaremos cometendo erros.
Seraphiel olhou para Aoi.
— Porque uma organização construída por homens nunca será perfeita.
Aoi ouviu cada palavra.
— Então por que continuar?
Seraphiel ficou alguns segundos sem responder.
— Porque às vezes...
Ele voltou os olhos para a cidade.
— ...seguir em frente parece mais fácil do que admitir que passamos a vida inteira seguindo o caminho errado.
Aoi ficou imóvel.
Seraphiel continuou:
— Neste mundo, as regras se tornam tradição.
Ele olhou novamente para a cruz.
— A tradição vira lei.
Sua voz ficou ainda mais baixa.
— E a lei, depois de tempo suficiente, começa a parecer verdade.
Aoi apertou as mãos.
— Mas e quando a lei estiver errada?
Seraphiel não respondeu.
Aoi levantou os olhos.
Havia algo diferente neles agora.
Uma determinação que não estava ali antes.
— E quando todos souberem que está errada... e ninguém fizer nada?
Seraphiel olhou para ela.
Aoi se levantou lentamente.
O vento movimentou algumas mechas de seu cabelo.
— Então alguém precisa fazer.
Seraphiel permaneceu sentado.
Aoi olhou para a cruz.
Depois para a cidade.
Depois para as próprias mãos.
— Talvez eu ainda não saiba como.
Ela respirou fundo.
— Talvez eu ainda não seja forte o suficiente.
Sua mão tocou discretamente a bainha da katana.
— Talvez eu ainda nem saiba quem está certo.
Então ela encarou Seraphiel.
Seus olhos estavam firmes.
— Mas eu sei de uma coisa.
Seraphiel não disse nada.
Aoi continuou:
— Se esse mundo realmente foi condenado a ser assim...
Ela deu um passo à frente.
— Se as pessoas simplesmente aceitaram essas regras porque ninguém teve coragem de quebrá-las...
Sua voz ganhou força.
— Então eu vou ser a pessoa que vai quebrá-las.
Seraphiel arregalou levemente os olhos.
Aoi fechou os punhos.
— Eu não quero viver em um mundo onde uma criança precisa ter medo de soldados porque nasceu no lugar errado.
Ela respirou.
— Não quero que pessoas sejam chamadas de inimigas simplesmente porque não obedecem a uma bandeira.
Seus olhos ficaram determinados.
— E não quero passar o resto da minha vida dizendo que não havia nada que eu pudesse fazer.
O vento soprou entre os dois.
Aoi olhou novamente para a enorme cruz.
— Se ninguém vai mudar esse mundo...
Ela voltou os olhos para Seraphiel.
— Então eu vou.
Silêncio.
— Mesmo que eu tenha que começar sozinha.
Aoi colocou a mão sobre a katana.
Sua expressão endureceu.
E então, com uma convicção que fez Seraphiel permanecer em silêncio:
— Eu vou mudar este mundo inteiro. Eu juro.
Seraphiel apenas a observou.
Aoi não percebeu, mas naquele instante, alguma coisa havia mudado.
Não na Igreja.
Não em Celestria.
Mas dentro dela.
Pela primeira vez, Aoi não estava apenas seguindo uma ordem.
Ela havia começado a questionar o próprio mundo.
E, em Kaelthar...
Às vezes, questionar uma regra era o primeiro passo para iniciar uma guerra.