Capítulo 129 — A Primeira Colheita
A caverna dos Ancestrais permanecia silenciosa naquela manhã.
As chamas azuladas que iluminavam as paredes de pedra ardiam sem produzir fumaça, lançando sombras compridas sobre as inscrições antigas espalhadas pelo salão. Algumas daquelas marcas eram tão velhas que nem mesmo os próprios Ancestrais conheciam sua origem. Outras haviam sido gravadas ali por Lily ao longo dos anos, registros de visões, nomes e acontecimentos que, segundo ela, ainda precisavam encontrar seu lugar no mundo.
No centro do salão, diante dos degraus que conduziam ao seu trono, Lily aguardava.
Havia convocado todos.
Ren estava encostado numa coluna, com a foice apoiada contra a pedra e os braços cruzados diante do peito. Seus longos cabelos negros desciam pelas costas, ligeiramente desalinhados, e seu rosto permanecia escondido em parte pela sombra projetada pela coluna. Não parecia particularmente interessado no ambiente, mas seus olhos acompanhavam cada movimento de Lily.
Yorm estava à sua direita, imóvel como uma estátua. Os cabelos vermelhos caíam sobre as vestes negras de sua armadura ancestral, e os olhos ocos estavam direcionados à mulher diante deles. Sua espada não estava em suas mãos naquele momento; como sempre fazia quando não precisava lutar, ele a mantinha recolhida, pronta para ser invocada quando necessário.
Emma permanecia sentada sobre uma rocha próxima à parede, com uma das pernas cruzadas sobre a outra. Os cabelos brancos repousavam sobre seus ombros, e os pequenos chifres projetavam sombras sobre sua testa. Ela observava Lily com um interesse discreto, embora já suspeitasse do motivo daquela reunião.
Syvan, por sua vez, permanecia de pé ao lado de uma das tochas, segurando seu livro branco. O brilho esverdeado de seus olhos contrastava com o rosto juvenil e a boca costurada. Não pronunciava uma palavra, mas sua atenção estava inteiramente voltada para Lily.
Por alguns instantes, a Ancestral das Ilusões observou os quatro.
Então começou a falar.
— Tive outras visões.
Sua voz era calma.
Não havia urgência nas palavras, nem a inquietação de alguém que acabara de descobrir uma ameaça inesperada. Lily falava com a tranquilidade de quem havia passado horas organizando os próprios pensamentos antes de tomar uma decisão.
— Algumas foram difíceis de interpretar. Outras desapareceram antes que eu pudesse compreender tudo o que estavam tentando me mostrar. Mas, nos últimos dias, comecei a perceber um padrão.
Yorm ergueu ligeiramente o queixo.
— A Igreja?
— A Igreja, sim. Mas não apenas ela.
Lily caminhou lentamente pelo salão.
— O continente está atravessando um período de mudanças. As forças militares estão sendo deslocadas, as autoridades de Celestria estão ocupadas tentando reorganizar a própria estrutura e os territórios afastados continuam sofrendo as consequências das decisões tomadas por aqueles que governam a instituição.
Ela fez uma pausa.
— A última limpeza deste ano está consumindo boa parte dos recursos da Igreja. É a operação mais longa que realizaram durante este período, e isso significa que muitos de seus homens estarão longe de suas posições habituais.
Emma descruzou as pernas.
— Você acredita que esse é o momento certo para agir?
— Não acredito. Eu vi.
A resposta fez com que Emma deixasse de sorrir.
Lily voltou para perto dos degraus do trono.
— Minhas visões não são perfeitas. Nunca foram. Mostram possibilidades, acontecimentos que podem se concretizar e caminhos que podem desaparecer se as circunstâncias mudarem. Mas, desta vez, consegui enxergar algo com clareza suficiente para tomar uma decisão.
Seus olhos passaram por Yorm.
Depois, por Ren.
Ela ergueu a mão direita e apontou primeiro para o Ancestral da Verdade.
— Yorm.
Ele respondeu com um movimento discreto da cabeça.
Lily então apontou para Ren.
— Ren.
O homem de cabelos negros descruzou os braços, mas não disse nada.
— Vocês dois partirão hoje à noite em direção a Celestria.
A frase ecoou pelas paredes.
Não houve surpresa exagerada, tampouco perguntas imediatas. Yorm já parecia ter começado a organizar mentalmente os preparativos. Ren, por outro lado, permaneceu imóvel, observando Lily com a mesma expressão indecifrável de antes.
Ela continuou:
— Quero que entrem na cidade sem chamar atenção. Não quero confrontos desnecessários, não quero demonstrações de poder e não quero que nenhum de vocês cometa um erro por acreditar que pode resolver uma situação complicada apenas com força.
Lily caminhou até uma mesa de pedra.
Sobre ela repousavam alguns mapas de Celestria, documentos recolhidos ao longo dos últimos meses e o artefato que haviam recuperado anteriormente.
A mulher pousou os dedos sobre o mapa.
— O objetivo é simples. Vocês irão identificar um soldado de elite da Igreja, eliminá-lo e utilizar o artefato para tomar seu Kai. Depois, retornarão imediatamente para esta caverna.
Yorm olhou para o objeto sobre a mesa.
— Um único alvo.
— Um único alvo — confirmou Lily. — Não quero que procurem os homens mais poderosos da instituição. Não quero que tentem descobrir onde estão os comandantes de maior patente. E, acima de tudo, não quero que se aproximem de qualquer Shinpan-Kan.
Seu tom continuava sereno, mas cada palavra era pronunciada com uma firmeza que não deixava espaço para interpretações.
— Não queremos os níveis mais altos ainda. Não nesta primeira missão. A Shinpan-Kan possui indivíduos que não podem ser tratados como soldados comuns, e chamar a atenção deles antes de compreendermos completamente as capacidades do artefato seria uma estupidez.
Emma soltou um pequeno suspiro.
— Então vamos começar pelos soldados de elite e avançar gradualmente.
— Exatamente.
Lily assentiu.
— Não estamos tentando conquistar Celestria esta noite. Não estamos tentando derrubar a Igreja em uma única operação. Estamos dando o primeiro passo de um plano que levará tempo para se concretizar.
Ela olhou diretamente para Yorm.
— Quero que se lembre disso.
— Eu me lembrarei.
— E você, Ren?
Os olhos de Lily encontraram os dele.
Ren não respondeu imediatamente. Seu olhar passou pelo mapa, depois pela mesa e, por fim, voltou para a Ancestral.
— Entendi o objetivo.
Lily o observou por mais um segundo.
— Ótimo.
Ela apontou para uma das regiões do mapa.
— A limpeza mantém a maior parte do exército ocupada. Isso não significa que Celestria esteja desprotegida. Haverá patrulhas, guardas e soldados espalhados por diferentes setores da cidade. Alguns estarão responsáveis por proteger instalações importantes, enquanto outros continuarão realizando tarefas de rotina.
Seu dedo percorreu uma das estradas marcadas.
— Mas a distribuição das forças estará diferente do habitual. É uma oportunidade rara para entrar, observar e sair sem que nossa presença seja percebida.
Yorm aproximou-se da mesa.
— E quanto à identificação do alvo? Temos informações sobre os soldados de elite que permaneceram em Celestria?
— Temos algumas informações, mas nenhuma lista completa e confiável. Não quero que escolham alguém apenas por sua posição ou aparência. Observem o comportamento, a maneira como os outros soldados reagem à sua presença e os sinais de que o indivíduo possui um nível de Kai acima do comum.
Lily retirou a mão do mapa.
— Quando tiverem certeza, ajam. Sem prolongar a operação. Sem deixar rastros desnecessários. E sem permitir que a busca por um alvo perfeito os faça perder a oportunidade de cumprir a missão.
Yorm assentiu lentamente.
— Identificar. Eliminar. Utilizar o artefato. Retornar.
— Sim.
— Não nos envolveremos com um Shinpan-Kan.
— Não.
— Não tentaremos avançar para outros alvos.
— Exatamente.
Yorm inclinou a cabeça.
— Entendido.
Logo depois, virou-se para a entrada do salão, já se preparando para organizar o que seria necessário levar. Seu comportamento era direto, quase mecânico. A missão estava definida, e não via qualquer motivo para continuar discutindo algo que já havia compreendido.
Ren, entretanto, não se moveu.
Continuou olhando para Yorm por alguns segundos.
Depois, seus olhos desceram lentamente até o artefato nas mãos de Lily.
O objeto estava envolvido por uma estrutura escura, marcada por inscrições que pareciam mudar ligeiramente conforme a luz das tochas incidia sobre sua superfície. Não era grande, mas carregava uma presença difícil de ignorar.
Ren conhecia o motivo pelo qual aquele objeto era tão importante.
Sem ele, o plano dos Ancestrais precisaria seguir outro caminho. Com ele, poderiam começar a retirar da Igreja uma das coisas que sustentavam sua superioridade: o poder de seus guerreiros.
Ainda assim, havia algo naquela operação que não lhe agradava completamente.
Talvez fosse a simplicidade com que Lily falava sobre eliminar um homem e tomar aquilo que o tornava poderoso.
Talvez fosse a lembrança de que, pouco tempo antes, ele próprio havia estado do outro lado daquela disputa.
Ou talvez fosse apenas a consciência de que aquele seria o primeiro passo de algo que, uma vez iniciado, dificilmente poderia ser interrompido.
Ren não expressou nenhuma dessas coisas.
Apenas observou o artefato.
Lily percebeu seu silêncio.
— Ren.
Ele ergueu os olhos.
— Sim?
— Não estou pedindo que goste da missão. Estou pedindo que compreenda sua importância.
Ren sustentou o olhar dela.
— Eu compreendo.
— Então não permita que pensamentos desnecessários interfiram no que precisa ser feito.
Ele não respondeu.
Lily também não insistiu.
Depois de alguns instantes, a Ancestral das Ilusões levou uma das mãos à testa. Seus dedos permaneceram ali por um breve momento, pressionando a região acima dos olhos.
A mudança foi pequena, mas Yorm a percebeu antes dos demais.
— Lily?
Ela abaixou a mão.
— Estou bem.
A resposta veio depressa demais.
Emma levantou-se da rocha.
— Você está dizendo isso há dias.
Lily olhou para ela.
— Porque não há motivo para transformar meu cansaço em uma preocupação maior do que ele realmente é.
— Você mal consegue manter as visões estáveis — retrucou Emma. — E, quando tenta enxergar acontecimentos mais distantes, fica horas sem conseguir se recuperar.
Syvan baixou ligeiramente o livro.
Lily soltou uma respiração lenta.
— É justamente por isso que preciso descansar.
A voz dela perdeu parte da firmeza anterior.
— Meus poderes estão começando a falhar. Não estou falando apenas de visões fragmentadas ou de imagens que desaparecem antes que eu consiga compreendê-las. Estou falando da minha capacidade de distinguir o que realmente estou vendo daquilo que pode ser apenas uma possibilidade.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Se continuar forçando minha mente, posso acabar interpretando tudo de maneira equivocada. E não pretendo colocar este plano em risco por me recusar a reconhecer meus próprios limites.
Yorm voltou-se completamente para ela.
— Quanto tempo precisa?
— Três dias.
Emma franziu a testa.
— Três dias inteiros?
— Três dias para recuperar minhas energias. Durante esse período, entrarei em retiro de poder. Não quero ser interrompida, a menos que aconteça algo que realmente ameace a segurança desta caverna.
Ela voltou o olhar para Yorm e Ren.
— Quando eu acordar, espero que vocês tenham completado a missão.
Yorm assentiu.
— Teremos retornado antes disso.
— Espero que sim.
Lily virou-se para Emma e Syvan.
— Vocês ficarão aqui. Quero a caverna protegida enquanto eu estiver no retiro. Não sabemos se alguém percebeu nossas movimentações recentes, e não pretendo descobrir da pior maneira possível que deixamos uma abertura em nossa própria casa.
Emma cruzou os braços.
— Pode descansar. Eu cuidarei de qualquer um que tente se aproximar.
Syvan assentiu em silêncio.
Lily observou os dois com uma expressão ligeiramente mais suave.
— Obrigada.
Então voltou a atenção para os outros.
Por um momento, pareceu reunir as forças necessárias para concluir a reunião.
Quando falou novamente, sua voz recuperou a firmeza.
— Aproveitem esta oportunidade. A maioria do exército estará ocupada com a última limpeza do ano. Ela será longa, e isso nos dará tempo para agir. Mas não confundam tempo disponível com permissão para agir de maneira descuidada.
Ela olhou diretamente para Yorm.
— Sejam rápidos.
Depois, para Ren.
— Sejam discretos.
Por fim, voltou a encarar os dois.
— E não falhem.
Yorm inclinou a cabeça.
— Não falharemos.
Ren permaneceu em silêncio por mais um instante, antes de assentir.
Lily então pegou o artefato com ambas as mãos.
O objeto parecia absorver parte da luz ao redor, e as inscrições sobre sua superfície adquiriram um brilho fraco, quase imperceptível.
Ela caminhou até Yorm.
— Tome.
Yorm estendeu as mãos.
Lily colocou o artefato em suas palmas, mas não o soltou imediatamente.
Seus olhos permaneceram fixos nos dele.
— Você será responsável por isso. Não o perca, não o utilize de maneira precipitada e não permita que a missão se transforme em algo maior do que deveria ser.
Yorm olhou para o objeto.
— Compreendo.
— Não estou falando apenas da importância do artefato. Estou falando das consequências. Se ele cair nas mãos da Igreja, perderemos uma das poucas vantagens que temos. Se for danificado, talvez não consigamos substituí-lo. E, se vocês forem descobertos durante a operação, poderemos atrair exatamente a atenção que estamos tentando evitar.
Lily finalmente soltou o objeto.
— Seja responsável, Yorm.
O Ancestral da Verdade fechou os dedos ao redor do artefato.
— Não falharei com você.
Por um momento, Lily pareceu satisfeita.
Depois, afastou-se e retornou aos degraus do trono.
— Então está decidido.
Yorm guardou o artefato junto à estrutura de sua armadura ancestral, ajustando-o cuidadosamente para que permanecesse firme durante a viagem. Verificou o encaixe, passou a mão sobre a proteção que o mantinha preso e só então se virou para Ren.
— Precisamos preparar nossas coisas.
Ren olhou uma última vez para Lily.
A Ancestral das Ilusões já havia começado a subir os degraus.
— Sim — respondeu ele.
E, pela primeira vez naquela manhã, afastou-se completamente da coluna.
O plano havia começado a se mover.
E nenhum deles sabia ainda quais seriam as consequências do primeiro passo.
As horas passaram lentamente.
O movimento dentro da caverna diminuiu à medida que cada um se ocupava com suas próprias tarefas. Emma verificou os acessos ao salão principal, examinou as inscrições próximas à entrada e conferiu se as tochas que iluminavam os corredores continuavam acesas.
Syvan permaneceu próximo ao salão interior, com seu livro branco aberto diante de si. De tempos em tempos, virava uma página, observava alguma inscrição e voltava a permanecer imóvel.
Yorm passou boa parte da tarde preparando-se para a viagem. Separou o necessário, verificou a condição de sua armadura e examinou cuidadosamente o local onde havia guardado o artefato.
Ren, por sua vez, permaneceu mais silencioso do que o habitual.
Não procurou conversar com Emma. Não fez perguntas a Syvan. Tampouco voltou a procurar Lily.
Apenas conferiu sua foice, verificou as tiras que a mantinham presa às costas e organizou o manto que utilizaria para atravessar a neve.
Quando a noite finalmente começou a se aproximar, Lily já havia se retirado para a câmara mais profunda da caverna.
Era um lugar reservado aos períodos de recuperação dos Ancestrais. O salão circular era iluminado por cristais pálidos incrustados nas paredes, e símbolos antigos cobriam o chão em círculos concêntricos. No centro, havia um trono de pedra escura, cercado por pequenas colunas que pareciam formar uma espécie de proteção ao redor dele.
Lily estava sentada no trono.
Sua postura permanecia ereta, embora seu corpo estivesse completamente imóvel.
Um pano escuro, marcado por símbolos desconhecidos, repousava sobre seu rosto, cobrindo inteiramente seus olhos. Os desenhos eram delicados, mas complexos, formando padrões que pareciam se entrelaçar uns aos outros sem nunca se repetir.
Seus cabelos claros desciam pelas laterais do trono.
Suas mãos repousavam sobre os braços de pedra.
E sua respiração era tão lenta que, à primeira vista, poderia parecer que estava simplesmente adormecida.
Mas Lily não estava dormindo.
Havia entrado no retiro de poder.
Durante os próximos três dias, sua mente permaneceria afastada das visões, enquanto seu corpo e suas capacidades se recuperariam do esforço acumulado.
Nenhum som perturbava aquela câmara.
Nenhuma voz chegava até ela.
E, pela primeira vez em muitos dias, Lily não tentava enxergar o futuro.
Não tentava acompanhar os movimentos da Igreja.
Apenas descansava.
Com o rosto completamente coberto pelos símbolos antigos, a Ancestral das Ilusões permaneceu imóvel sobre o trono, enquanto, muito acima dela, dois de seus companheiros se preparavam para partir em direção à cidade onde tudo começaria.
A partida
Já era quase noite quando Ren e Yorm chegaram à saída da caverna.
O céu estava escuro, e a neve caía com intensidade suficiente para encobrir boa parte do terreno. O vento soprava entre as formações rochosas, levantando pequenos redemoinhos brancos que desapareciam poucos metros adiante.
A temperatura era baixa.
Do lado de fora, as montanhas pareciam completamente desertas.
Ren estava de costas para a entrada, ajustando a foice sobre os ombros. A arma permanecia presa por tiras resistentes, posicionada de maneira que pudesse ser retirada rapidamente caso fosse necessário.
Ele puxou o manto para cima e colocou o capuz sobre a cabeça.
Seus longos cabelos negros balançaram com a passagem de uma rajada de vento antes de desaparecerem parcialmente sob o tecido escuro.
Ren verificou as tiras uma última vez.
Então olhou para a estrada coberta de neve.
Celestria ficava a uma distância considerável dali. Mesmo utilizando os meios mais rápidos de deslocamento que tinham à disposição, precisariam atravessar parte da região montanhosa e evitar os caminhos mais movimentados.
Se tudo corresse como planejado, chegariam à cidade durante a madrugada.
Yorm surgiu ao seu lado.
Por um instante, o Ancestral da Verdade observou a paisagem.
Depois, ergueu uma das mãos.
Uma energia negra começou a se formar em seus dedos.
A princípio, era apenas um brilho fraco, semelhante a uma sombra iluminada por dentro. Mas a energia cresceu rapidamente, reunindo-se numa forma alongada até adquirir o contorno de uma espada.
O fio escuro refletiu a luz das tochas da entrada.
Yorm fechou a mão ao redor do cabo e examinou a lâmina por um breve instante.
Então a energia se dissipou.
A espada desapareceu de suas mãos, recolhida novamente em sua forma ancestral, e Yorm ajustou a bainha junto à armadura.
Tudo estava pronto.
Ele olhou para Ren e sorriu discretamente.
— Vamos. Não podemos nos atrasar.
Ren virou o rosto para ele.
— Você parece bastante tranquilo.
— E você parece bastante determinado a encontrar alguma coisa para se preocupar.
— Não estou preocupado.
— Naturalmente.
Yorm soltou uma pequena risada.
Ren voltou a olhar para a neve.
— Só estou pensando na missão.
— Então pense enquanto caminhamos.
Yorm começou a andar em direção à saída.
— Quanto mais cedo chegarmos a Celestria, mais cedo poderemos identificar nosso alvo. Lily foi bastante clara. Não precisamos de uma batalha, não precisamos provar nada e não precisamos transformar esta noite numa história que os soldados da Igreja contarão durante o resto de suas vidas.
Ren acompanhou-o.
— Você fala como se eu fosse o problema.
— Não disse isso.
Yorm lançou-lhe um olhar de lado.
— Mas, considerando tudo o que aconteceu nos últimos meses, achei melhor deixar a possibilidade bem clara.
Ren não respondeu.
Yorm sorriu novamente.
— Excelente. Já estamos aprendendo a trabalhar juntos.
Os dois se aproximaram da saída.
Emma estava esperando por eles perto da entrada da caverna. Syvan permanecia um pouco mais atrás, segurando o livro branco contra o peito.
Emma aproximou-se alguns passos.
— Lily explicou exatamente o que espera de vocês. Identifiquem o soldado, cumpram o objetivo e voltem. Não inventem uma missão diferente no meio do caminho.
Yorm assentiu.
— Faremos como ela pediu.
Emma continuou olhando para Ren.
— E você?
Ren ajustou o capuz.
— Também.
— Quero acreditar nisso.
— Então acredite.
Emma estreitou os olhos.
Por um instante, pareceu prestes a responder. No fim, soltou um suspiro e balançou a cabeça.
— Inacreditável.
Yorm soltou uma risada baixa.
— Não se preocupe. Eu estarei com ele.
— É exatamente isso que me preocupa — retrucou Emma.
Syvan aproximou-se silenciosamente.
Seus olhos verdes passaram de Yorm para Ren. Então, com um movimento cuidadoso, fechou o livro que carregava.
A boca costurada permaneceu imóvel, mas ele inclinou a cabeça em sinal de despedida.
Yorm retribuiu o gesto.
— Voltaremos antes que Lily desperte.
Syvan assentiu.
Emma cruzou os braços.
— Sejam responsáveis. Não se esqueçam do que ela disse e, pelo amor de tudo o que ainda resta neste mundo, não tragam a Igreja inteira atrás de vocês quando voltarem.
Yorm sorriu.
— Faremos o possível.
— Não quero que façam o possível. Quero que façam exatamente o que foi pedido.
— Está bem, Emma.
Ren permaneceu quieto.
Depois de alguns segundos, ele ergueu a mão numa despedida breve.
— Até.
Emma o observou por um instante.
Os dois finalmente se viraram.
A neve os recebeu assim que atravessaram a entrada da caverna. O vento soprou com força, e seus mantos balançaram enquanto desciam pela encosta.
Em poucos instantes, as silhuetas de Ren e Yorm começaram a desaparecer entre os flocos brancos.
Emma permaneceu observando até não conseguir mais distingui-los.
Syvan continuou ao seu lado, imóvel.
— Espero que saibam o que estão fazendo — murmurou ela.
Nenhuma resposta veio.
Lá fora, as duas figuras continuaram avançando pela neve densa, afastando-se da caverna e seguindo em direção à distante Celestria.
A missão havia começado.
E, enquanto Lily descansava sem enxergar o mundo ao seu redor, os dois Ancestrais caminhavam para a primeira noite de um plano que ela esperava ter previsto corretamente.
O mar de Kaelthar
Muito longe das montanhas cobertas de neve, o oceano se estendia até onde os olhos conseguiam alcançar.
O céu estava limpo naquela parte do continente, embora nuvens escuras se acumulassem no horizonte. A luz do fim da tarde atravessava as aberturas entre elas, espalhando reflexos dourados sobre as ondas que se chocavam contra o casco de um navio.
O vento soprava sobre o convés, inflando as velas e fazendo as cordas vibrarem contra os mastros.
O navio dos Kurotsume navegava havia dias, desde que deixara New Moon para trás.
Ainda havia reparos a serem feitos. Algumas partes da estrutura apresentavam marcas da última viagem, e o convés guardava sinais do uso constante. Mesmo assim, a embarcação avançava com firmeza sobre as águas, cortando as ondas enquanto se aproximava de sua próxima parada.
Sunspire.
Na ponta do navio, Bartholomeu D. Kidd observava o horizonte.
O antigo pirata mantinha um sorriso no rosto enquanto o vento agitava seus cabelos e a borda de suas roupas. Uma das mãos repousava sobre a amurada, e seus olhos acompanhavam o movimento das ondas como se não houvesse nada no mundo que merecesse sua atenção naquele momento.
Ao seu lado, Lady Freeda permanecia de braços cruzados.
Sua expressão era séria.
Continuava séria.
Desde que havia aceitado embarcar com Kidd, parecia carregar no rosto a mesma mistura de desconfiança, preocupação e determinação. Não era alguém que demonstrasse facilmente o que sentia, e o tempo passado no navio não havia alterado muito essa característica.
Freeda observou o horizonte durante algum tempo.
Depois, virou o rosto para Kidd.
— Posso te fazer uma pergunta?
Kidd não desviou os olhos do mar.
— Pode fazer quantas quiser, Freeda. Não prometo responder todas.
— Você sempre foi assim?
— Assim como?
— Irritante.
Kidd soltou uma risada.
— Ah! Então você ainda se lembra de mim.
Freeda não sorriu.
— Estou falando sério.
O sorriso de Kidd diminuiu ligeiramente.
Ele finalmente virou a cabeça para ela.
Freeda sustentou seu olhar.
— Você realmente acredita que temos alguma chance contra os homens da Igreja?
O vento soprou entre os dois.
Kidd não respondeu imediatamente.
Por alguns segundos, observou o rosto de Freeda. Não havia ironia em sua pergunta, tampouco qualquer tentativa de provocá-lo. Ela queria uma resposta verdadeira.
E Kidd sabia que não poderia oferecer uma garantia que não possuía.
Seu sorriso desapareceu.
— Se temos chances...
Ele voltou os olhos para o mar.
— Não sei.
Freeda permaneceu quieta.
Kidd respirou fundo.
— Não tenho como te dizer, Freeda. Seria mentira se eu afirmasse que sei como essa história vai terminar. A Igreja tem homens poderosos, recursos que nós não temos e uma estrutura inteira construída para esmagar qualquer um que tente enfrentá-la.
Ele fez uma pausa.
— Já vi o que acontece quando alguém acredita que coragem é suficiente para vencer uma batalha. Já vi homens muito mais fortes do que eu caírem porque estavam convencidos de que não havia ninguém capaz de derrotá-los.
Freeda acompanhou o movimento das ondas.
— Então você sabe que podemos morrer.
Kidd soltou uma risada curta, sem humor.
— Naturalmente. Eu tenho cinquenta anos de experiência sendo um idiota, Freeda. Seria vergonhoso se ainda não tivesse aprendido isso.
Ela olhou para ele.
Kidd voltou a sorrir, mas havia algo diferente naquele sorriso agora.
Não era a expressão despreocupada que costumava exibir diante dos outros.
Era um sorriso mais discreto, sustentado por alguém que conhecia o peso de suas próprias escolhas.
— Mas sabe o que nós temos que aqueles homens perderam há muito tempo?
Freeda não respondeu.
Kidd virou-se completamente para ela.
— Nós temos um motivo.
A expressão da mulher permaneceu séria, mas sua atenção se tornou ainda mais intensa.
— Não somos apenas uma organização, Freeda. Não somos um grupo de homens que recebeu ordens de alguém sentado num escritório, nem soldados que vestem um uniforme porque precisam de um salário ou porque foram ensinados desde crianças que devem obedecer.
Kidd apontou discretamente para o convés.
— Olha para eles.
Freeda acompanhou o gesto.
No centro do navio, os Kurotsume estavam reunidos ao redor de Billy Saul, que gesticulava enquanto contava alguma história. Alguns ouviam atentamente. Outros interrompiam com perguntas ou comentários, e, de tempos em tempos, uma risada se espalhava pelo grupo.
Kidd observou-os por alguns segundos antes de continuar.
— Aqueles garotos poderiam ter seguido caminhos diferentes. Poderiam ter procurado algum lugar seguro para viver, poderiam ter abandonado tudo depois do que aconteceu com Veyrion. Ninguém os obrigaria a continuar.
Sua voz ficou mais baixa.
— Mas eles ficaram.
Freeda voltou os olhos para Kidd.
— Porque eram leais ao seu filho?
Kidd demorou um instante para responder.
— Porque meu filho era leal a eles.
Ele olhou novamente para o grupo.
— Veyrion não era perfeito. Tinha a cabeça dura, tomava decisões estúpidas e, quando acreditava em alguma coisa, era praticamente impossível fazê-lo mudar de ideia. Mas ele se importava com aqueles garotos. Não os tratava como ferramentas, nem como pessoas que deveriam segui-lo apenas porque ele era o capitão.
Kidd sorriu de leve.
— Mas acho que ele acreditava que, se alguém escolhesse navegar ao seu lado, então essa pessoa merecia ter alguém ao lado dela quando as coisas ficassem difíceis.
O vento agitou a borda de seu casaco.
— E foi isso que ele deixou para trás.
Freeda permaneceu em silêncio.
Kidd apoiou os dois antebraços sobre a amurada.
— Não sei se temos chances contra a Igreja. Não sei quantos homens precisaremos enfrentar, nem quantas coisas ainda vamos descobrir antes de chegar a Celestria. Não sei se conseguiremos cumprir tudo aquilo que estamos planejando.
Ele virou o rosto para ela.
— Mas sei que não vamos abandonar uns aos outros.
Sua voz ganhou firmeza.
— Nós não estamos fazendo isso porque alguém nos mandou. Não estamos fazendo isso para conquistar terras, receber títulos ou colocar nossos nomes em algum livro de história. Estamos fazendo isso porque temos um motivo para continuar e porque não vamos deixar que aqueles homens decidam que a vida de todos os outros vale menos do que a própria autoridade deles.
Kidd olhou para os Kurotsume mais uma vez.
— Esses garotos lutavam com meu filho. E meu filho lutava por eles. Agora, ele não está mais aqui para fazer isso, então alguém precisa continuar.
Por um instante, seu sorriso desapareceu completamente.
— Se temos chances ou não, eu realmente não sei, Freeda.
Ele endireitou a postura.
— Mas sei que vamos até o final. Custe o que custar.
O silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som das ondas contra o casco.
Freeda observou Kidd.
A expressão séria que mantivera durante toda a conversa começou a mudar lentamente. Primeiro, os músculos ao redor de sua boca relaxaram. Depois, seus olhos perderam parte da rigidez.
E, finalmente, ela sorriu.
Não era um sorriso largo.
Era pequeno, discreto, mas verdadeiro.
— Você ainda é bom em discursos.
Kidd abriu um sorriso enorme.
Freeda soltou uma risada pelo nariz.
Depois, voltou a cruzar os braços e olhou para o horizonte.
— Vamos ver se continua sendo bom em lutar quando chegarmos a Celestria.
Kidd colocou uma mão sobre o peito, fingindo estar profundamente ofendido.
— Essa foi cruel.
— A verdade costuma ser.
— É por isso que nunca gostei muito de você.
Freeda finalmente riu.
Dessa vez, de verdade.
Kidd acompanhou a risada, e por alguns segundos os dois permaneceram ali, diante do oceano, como se aquela conversa tivesse retirado parte do peso que carregavam desde que haviam decidido embarcar.
Mas Kidd não demorou muito para voltar à sua habitual energia.
Virou-se para o centro do navio e ergueu uma das mãos.
— EI!
A voz atravessou o convés.
Alguns dos Kurotsume interromperam a conversa.
Billy virou a cabeça.
Ravik ergueu as sobrancelhas.
Nyra, que estava próxima do leme, olhou por cima do ombro.
Kidd apoiou as mãos na cintura.
— VAMOS FAZER UMA PARADA EM SUNSPIRE! PRECISAMOS DE COMIDA E ÁGUA!
Nyra ajeitou a posição das mãos no leme e avaliou rapidamente a direção do vento.
— Entendido! — respondeu ela. — Parada em Sunspire!
Kidd olhou para o rosto de Freeda ainda sorridente
Ele voltou a rir e, em seguida, deixou Freeda junto à amurada para caminhar até o centro do navio.
Os Kurotsume já haviam retomado a conversa com Billy.
E Kidd, sem perceber, começou a observar cada um deles com uma atenção diferente daquela que dedicava ao mar.
A família que continuava navegando
Billy Saul estava sentado sobre uma caixa de madeira, com um dos braços apoiado no joelho e a outra mão gesticulando diante dos jovens.
Seu rosto carregava a expressão de alguém que havia visto coisas demais para acreditar que o mundo pudesse ser resumido a histórias simples. Ainda assim, falava com entusiasmo, como se cada lembrança fosse uma oportunidade de ensinar alguma coisa que os outros ainda não haviam aprendido.
— O problema de enfrentar um homem mais forte do que você — dizia Billy — é que muita gente começa a luta acreditando que precisa provar que também é forte.
Ravik passou as mãos pelos cabelos, afastando algumas mechas da testa.
As duas pistolas que carregava, ambas preparadas para utilizar balas com Kai comprimido, permaneciam presas à sua cintura.
— E não precisa?
Billy soltou uma risada.
— Claro que precisa! Mas não precisa provar isso nos primeiros cinco segundos, seu idiota.
Alguns dos Kurotsume riram.
Ravik abriu os braços.
— Ah, então a ideia é deixar o sujeito me bater primeiro?
— Não. A ideia é descobrir por que ele acha que pode bater em você.
Billy apontou para ele.
— Se o cara é mais rápido, você não tenta vencê-lo numa corrida. Se é mais forte, não transforma a luta numa competição de força. Se tem mais experiência, não faz exatamente aquilo que ele espera que você faça.
Lorian, sentado a pouca distância, levantou a cabeça.
Ele segurava um pequeno caderno sobre o joelho, e a ponta de um lápis se movia rapidamente sobre a página.
— Então a prioridade é identificar a vantagem do adversário antes de escolher como enfrentá-lo?
Billy olhou para ele.
— Agora você está falando a minha língua.
Lorian anotou mais alguma coisa.
— Identificar a vantagem. Evitar o confronto direto. Forçar o adversário a lutar em condições desfavoráveis...
— E, se possível, descobrir por que ele é tão convencido de que vai vencer — acrescentou Billy. — Homens arrogantes costumam entregar informações de graça.
Lorian registrou a frase.
Ravik espiou o caderno.
— Você está anotando tudo isso?
— Sim.
— Por quê?
Lorian não levantou os olhos.
— Bom, por que você está fazendo perguntas que já foram respondidas três vezes?
Billy explodiu numa gargalhada.
— HA! GOSTEI DESSE GAROTO!
Ravik apontou para Lorian.
— Você está começando a ficar muito confortável comigo.
— Você me perguntou por que estou anotando informações que considero úteis. Apenas respondi. Não vejo onde está o problema.
— O problema é que você está ficando igual ao Lorian de sempre.
— E você continua sendo o Ravik de sempre.
Billy bateu a mão no joelho, rindo ainda mais.
— Vocês dois vão acabar se matando antes de chegarmos a Celestria!
Selka, que acompanhava a conversa, levou uma das mãos à boca.
Seus olhos estavam arregalados, e as seringas médicas presas à cintura balançaram discretamente quando ela se inclinou para a frente.
— Espera... Então você está dizendo que já enfrentou alguém que conseguia prever seus movimentos antes mesmo de você realizá-los?
Billy olhou para ela.
— Sim.
Selka piscou.
— E você venceu?
— Não.
A expressão dela mudou imediatamente.
— O QUÊ?!
Billy começou a rir.
— Calma, menina! Eu disse que não venci aquela luta, não que fui enterrado por causa dela!
Selka continuou olhando para ele, assustada.
— Mas como você sobreviveu?!
— Aprendendo.
— Aprendendo O QUÊ?!
— Que, às vezes, sobreviver é mais importante do que vencer.
A resposta fez Selka permanecer em silêncio.
Billy inclinou-se ligeiramente para a frente.
— Escuta, garota. Você pode passar a vida inteira tentando encontrar uma maneira de vencer todos os inimigos que cruzarem seu caminho. Pode treinar até não conseguir mais ficar de pé. Pode estudar cada estilo de luta, cada tipo de Kai e cada arma existente neste continente.
Ele apontou para o peito dela.
— Mas, se não souber quando recuar, um dia vai encontrar alguém que vai transformar todo esse esforço numa lembrança.
Selka baixou lentamente a mão da boca.
Seus olhos permaneceram fixos em Billy.
— Isso é assustador...
— O mundo costuma ser.
— Você fala essas coisas como se fosse normal!
Billy sorriu.
— Para alguém que viveu tanto quanto eu, acaba sendo.
Do outro lado do convés, Brakk trabalhava em sua mesa de criação.
O ferreiro havia improvisado uma pequena área de trabalho num canto protegido do vento, onde conseguia manter as ferramentas organizadas e realizar reparos sem que as ondas mais fortes atrapalhassem seus movimentos.
Sobre a mesa repousava uma katana.
A lâmina estava cuidadosamente posicionada diante dele, e Brakk passava a pedra de afiar pelo metal com movimentos precisos e constantes.
Shhhk.
Shhhk.
Shhhk.
O som repetitivo se misturava às vozes dos outros Kurotsume.
Brakk não participava da conversa.
Estava concentrado demais.
A katana que afiava pertencia a Isamu. Era uma das duas espadas que o espadachim carregava, e Brakk havia assumido a tarefa de restaurar o fio da lâmina antes que o grupo chegasse a Sunspire.
Ele verificou o ângulo, ajustou a posição das mãos e voltou a trabalhar.
Não queria apenas deixá-la afiada o suficiente para uma luta.
Queria devolvê-la em condições impecáveis.
A poucos metros dali, Drogan carregava duas peças pesadas de madeira pelo convés.
As tábuas seriam utilizadas para reforçar uma parte danificada da estrutura do navio. Ele as apoiou perto da área que precisava de reparos, limpou as mãos na roupa e avaliou o espaço.
Kidd observava tudo a poucos passos de distância.
Não interrompeu as conversas.
Não tentou assumir o controle do grupo.
Apenas permaneceu ali, ouvindo as vozes que se misturavam ao som do mar, observando a maneira como aqueles jovens haviam encontrado espaço para rir mesmo depois de tantas perdas.
E foi então que seu olhar encontrou Isamu.
O espadachim estava afastado dos demais, próximo de uma das amuradas laterais do navio.
Não participava da conversa.
Não parecia estar prestando atenção às histórias de Billy.
Observava o oceano silenciosamente, com o corpo ligeiramente inclinado para a frente e uma das mãos repousando perto do cabo da katana que carregava à cintura.
A outra espada estava com Brakk, sendo afiada.
A que Isamu mantinha consigo era a primeira que recebera de Lysera.
Muito tempo antes, quando ainda era apenas um forasteiro que havia se aproximado de Aetheryon por sua amizade com Ren, Lysera lhe entregara aquela katana e começara a ajudá-lo em seu treinamento.
Naquele período, Isamu ainda não compreendia completamente o caminho que estava escolhendo.
Era um homem sem raízes firmes, alguém que havia encontrado em Aetheryon um lugar onde poderia permanecer e em Ren uma amizade que o fizera acreditar que ainda havia pessoas pelas quais valia a pena lutar.
Lysera fora uma dessas pessoas.
Ela o ensinara a empunhar uma espada, mas não apenas isso. Mostrara-lhe que força não precisava significar brutalidade, que disciplina não exigia abandonar a própria humanidade e que, mesmo num mundo onde tudo parecia destinado à destruição, ainda era possível encontrar beleza nas coisas que restavam.
Aquela katana carregava o início de sua jornada.
E, durante muito tempo, Isamu acreditara que poderia continuar carregando-a ao lado da pessoa que lhe ensinara tudo aquilo.
Mas Lysera estava morta.
Eryndor a havia matado.
A segunda katana, agora sobre a mesa de Brakk, era a própria espada que Lysera utilizara. Isamu também a carregava desde sua morte, preservando-a como algo muito maior do que uma arma.
Uma pertencia ao início de sua história.
A outra, à pessoa que havia ajudado a moldá-la.
Agora, ambas estavam com ele.
E, embora Isamu raramente falasse sobre Lysera, sua ausência continuava presente em cada uma delas.
O vento soprou sobre o convés, agitando as roupas do espadachim.
Isamu não se moveu.
Seus olhos permaneceram fixos no horizonte.
Kidd observou-o durante algum tempo, sem conhecer os detalhes daquela história. Não sabia quem havia entregado aquelas espadas ao jovem, tampouco compreendia o peso que cada uma carregava.
Mas havia algo em Isamu que chamou sua atenção.
O casaco.
O longo casaco de capitão que o espadachim vestia por cima de suas roupas.
Kidd conhecia cada detalhe daquela peça.
O corte.
O tecido.
A maneira como a gola se acomodava sobre os ombros.
Era o casaco de Veyrion.
Seu filho havia usado aquela peça durante o período em que comandara os Kurotsume. Ela o acompanhara nas viagens, nas batalhas e nos dias em que o grupo ainda era jovem o bastante para acreditar que o futuro poderia ser conquistado simplesmente continuando a navegar.
Agora, estava sobre os ombros de Isamu.
Kidd ficou olhando para o casaco por alguns segundos.
O sorriso que surgiu em seu rosto foi diferente daquele que costumava exibir durante as conversas.
Não havia piada alguma para acompanhar aquele gesto.
Não havia qualquer palavra que precisasse ser dita.
Ele apenas sorriu.
Talvez porque, ao observar aquele grupo, tenha compreendido que Veyrion ainda estava presente de alguma maneira.
Não fisicamente.
Não como alguém que pudesse responder às provocações de Ravik, reclamar do trabalho de Drogan ou discutir com Nyra sobre a rota do navio.
Mas presente naquilo que havia deixado para trás.
Nas pessoas que continuavam juntas.
Nas histórias que ainda eram contadas.
Nas espadas que alguém se recusava a abandonar.
E no casaco que agora era carregado por outro capitão, alguém que continuava navegando mesmo depois de perder uma pessoa importante demais para ser substituída.
Kidd não sabia exatamente por que estava sorrindo.
Só sabia que, pela primeira vez em muito tempo, olhar para aqueles jovens não lhe trazia apenas a lembrança daquilo que havia perdido.
Também lhe mostrava aquilo que ainda existia
Ele olhou novamente para o grupo.
Lorian continuava anotando as experiências de Billy, às vezes interrompendo-o para pedir esclarecimentos. Selka ouvia cada história com os olhos arregalados, ainda tentando compreender como alguém podia falar de situações tão perigosas com tamanha naturalidade.
Brakk permanecia concentrado em afiar a katana de Isamu, enquanto Drogan organizava as madeiras que utilizaria para reforçar o navio.
Ravik passava as mãos pelos cabelos, participando das conversas com a mesma energia de sempre. Suas duas pistolas descansavam na cintura, prontas para serem utilizadas quando necessário.
Isamu continuava observando o mar.
Vestia o casaco de Veyrion e carregava consigo uma das espadas que Lysera lhe dera, enquanto a outra aguardava, sobre a mesa de Brakk, para voltar às suas mãos.
E, no centro de tudo, Billy continuava contando histórias, como se cada uma delas pudesse preparar aqueles jovens para alguma coisa que ainda não sabiam que enfrentariam.
Kidd observou o grupo por mais alguns segundos.
Então voltou os olhos para o oceano.
Ao longe, muito além das ondas que se erguiam diante do navio, uma faixa de terra começava a surgir no horizonte.
Sunspire estava próxima.
Nyra ajustou o leme e manteve a embarcação na direção da costa. As velas continuaram cheias, e o navio dos Kurotsume avançou sobre o mar de Kaelthar, levando consigo homens e mulheres que haviam perdido muito, mas ainda encontravam razões para continuar.
O vento soprou novamente.
Kidd fechou os olhos por um instante, sentindo o ar salgado tocar seu rosto.
Quando voltou a abri-los, seu olhar estava firme.
À frente, Sunspire aguardava.
E, depois dela, Celestria.
Fim do Capítulo 129.