Capítulo 133 — O Último dos Shinpan-Kan
As pequenas marcas continuavam se espalhando pelo corpo de Ren.
O primeiro traço havia surgido em seu pulso, mas agora outras linhas escuras avançavam por seu antebraço, ramificando-se em direções diferentes. Algumas alcançavam o cotovelo; outras começavam a subir pelo braço, desaparecendo sob as mangas de suas roupas antes de reaparecerem próximas ao ombro.
Ren mantinha os olhos fixos na própria pele.
Ele conhecia aquela sensação.
Não era a primeira vez que sentia aquela presença escondida dentro de si, aquela energia ancestral que parecia ultrapassar os limites de seu próprio corpo. Em outras ocasiões, as marcas haviam surgido e desaparecido sem que ele precisasse fazer nada. Sua consciência permanecera intacta, e ele conseguira observar o fenômeno de perto.
Por isso, acreditou que poderia controlá-lo.
Afinal, se era capaz de permanecer consciente enquanto aquela energia se manifestava, por que não poderia dominá-la?
Ren fechou os dedos lentamente.
— Vamos...
Sua voz mal passou de um sussurro.
Ele concentrou a atenção no braço marcado, tentando compreender de onde vinha aquela força. Não sabia se deveria controlá-la através da respiração, da vontade ou de alguma espécie de comando interno. Não conhecia as regras daquele poder. Ainda assim, tentou impor sua própria vontade sobre ele.
Por um breve instante, nada aconteceu.
Ren sentiu apenas uma pressão sob a pele.
Então, as marcas se multiplicaram.
Um novo traço surgiu próximo ao seu pulso, dividindo-se em três linhas que avançaram pelo antebraço. Outras apareceram nas costas de sua mão, contornando os dedos e subindo em direção ao cotovelo.
Ren arregalou ligeiramente os olhos.
— Espera...
A energia aumentou.
Não de maneira gradual, como acontecera antes, mas de uma só vez. Foi como se algo que permanecera adormecido durante muito tempo tivesse sido despertado à força, sem qualquer consideração pelos limites do corpo que o abrigava.
As marcas atravessaram seu ombro.
Linhas escuras começaram a surgir na lateral de seu pescoço, avançando sob a gola da roupa. Outras apareceram junto à clavícula e se espalharam pelo peito, formando padrões irregulares que pareciam acompanhar o fluxo daquela energia.
Ren tentou interromper o processo.
Concentrou-se novamente, buscando recuperar o controle que acreditava possuir.
Mas, quanto mais tentava dominar aquela força, mais ela parecia escapar de suas mãos.
— Não... para!
Sua respiração tornou-se irregular.
Uma pressão violenta surgiu dentro de sua cabeça. A superfície branca pareceu se inclinar, e os contornos do ambiente perderam a nitidez. Ren piscou repetidamente, tentando afastar a tontura.
As marcas continuaram avançando.
Agora, já não estavam restritas a uma parte do corpo. Pequenos traços apareciam em seu rosto, próximos à mandíbula, enquanto outros subiam pela lateral do pescoço. Seu braço inteiro estava coberto por linhas escuras, e novas marcas começavam a surgir no outro.
Ren cambaleou.
Apoiou a mão na própria coxa, tentando se manter de pé.
Eu consigo controlar isso.
Ele insistiu no pensamento, como se a própria convicção pudesse obrigar aquela energia a obedecê-lo.
Eu só preciso...
Sua visão escureceu nas extremidades.
Ren tentou erguer a cabeça, mas o movimento fez o mundo girar ao seu redor. A foice escorregou de seus dedos e caiu sobre a superfície branca, produzindo um som metálico que pareceu vir de muito longe.
Ele tentou recuperá-la.
Não conseguiu.
Seus joelhos cederam.
Ren caiu de lado, atingindo o chão com o ombro. O impacto não foi suficiente para fazê-lo recuperar a consciência; pelo contrário, sua cabeça tombou, e seu corpo permaneceu imóvel.
As marcas ainda eram visíveis.
Durante alguns segundos, continuaram se espalhando lentamente por sua pele. Então, a energia pareceu recuar para dentro dele, e os traços pararam de avançar.
Ren não se moveu.
A Realidade Branca permaneceu indiferente ao seu desmaio.
Ele havia acreditado que a própria consciência era uma prova de que estava pronto para controlar aquele poder. Não compreendera que a manifestação anterior ocorrera justamente porque a energia agia por conta própria, sem exigir qualquer comando consciente de sua parte.
A força não precisava que Ren a dominasse.
Ela parecia ter sido feita para se manifestar independentemente de sua vontade.
E, ao tentar assumir o controle antes de compreender seu funcionamento, Ren havia provocado uma reação que seu corpo ainda não era capaz de suportar.
A energia ancestral continuava dentro dele.
Mas Ren não estava mais consciente para perceber isso.
A alguns metros dali, o choque entre as armas cessou.
Kagetsu permaneceu diante de Yorm.
Estava exausto.
Sua respiração era mais pesada, e os movimentos já não possuíam a mesma precisão do início da luta. Ainda assim, o Shinpan-Kan continuava de pé, com as mãos vazias e os punhos cerrados, recusando-se a demonstrar qualquer sinal de rendição.
Yorm soltou um suspiro.
— Você realmente é persistente.
Kagetsu não respondeu.
O Ancestral inclinou a cabeça, examinando-o com um sorriso desdenhoso.
— Admito que esperava um pouco mais de você. Afinal, pertence aos famosos Shinpan-Kan. Achei que seria necessário um pouco mais de esforço para fazê-lo entender a diferença entre nós.
Ele girou a espada lentamente.
— Mas, veja só. Sua arma desapareceu, suas forças estão comprometidas e você continua tentando encontrar uma maneira de vencer. É quase admirável.
Kagetsu respirou fundo.
Seus olhos permaneceram fixos no adversário.
Yorm estava prestes a continuar quando percebeu algo no canto de sua visão.
Ren.
O Ancestral virou ligeiramente a cabeça.
Seu companheiro estava caído no chão, com a foice ao lado do corpo e os braços imóveis. Mesmo à distância, Yorm conseguiu perceber as marcas escuras que cobriam partes de sua pele.
Por alguns instantes, o sorriso desapareceu.
— Hm?
Ele observou Ren com uma expressão genuinamente confusa.
Aquilo não parecia ser resultado de um golpe de Kagetsu. O Shinpan-Kan estivera ocupado enfrentando-o durante todo aquele tempo.
Yorm estreitou os olhos.
O que foi que aconteceu com você?
Não possuía uma resposta.
Ren havia demonstrado sinais de alguma manifestação de poder, mas Yorm não esperava que seu companheiro simplesmente perdesse a consciência no meio do combate.
Por um breve momento, considerou interromper a luta para verificar seu estado.
Então, olhou novamente para Kagetsu.
O Shinpan-Kan permanecia em posição de combate, embora mal conseguisse esconder o cansaço.
Yorm soltou uma risada baixa.
— Bem... isso é curioso.
Voltou a guardar a espada parcialmente na bainha de energia ancestral e cruzou os braços.
— O que será que aconteceu com ele? Hmmm...
Seus olhos retornaram a Kagetsu.
— Não importa. Pelo menos agora somos só nós dois.
O Ancestral abriu um sorriso.
— Vamos, Kagetsu. Venha. Mostre como um Shinpan-Kan age. Mostre o que ainda é capaz de fazer.
Kagetsu permaneceu calado.
Yorm deu um passo lateral, como se estivesse oferecendo espaço para que o adversário atacasse.
— Estou esperando.
Silêncio.
— Não vai dizer nada? Nenhuma ameaça? Nenhuma declaração sobre a justiça da Igreja ou sobre como vai proteger aquele soldado?
Ele apontou discretamente para Bashiki, que continuava inconsciente sobre a superfície branca.
— Você apareceu aqui todo confiante, exigindo que nos retirássemos. Disse que nos obrigaria a usar a força. E agora?
Yorm ergueu as mãos.
— Onde está toda aquela determinação?
Kagetsu baixou ligeiramente a cabeça.
Por alguns segundos, sua expressão permaneceu escondida atrás dos óculos escuros.
Então, seus dedos se fecharam.
Não havia arma em suas mãos.
Não havia alabarda para girar, nem lâmina para usar como extensão de seus movimentos. Seu corpo continuava enfraquecido pelo decreto anterior, e a perda de Shiroromura havia tornado a situação ainda mais desfavorável.
Mas ele ainda possuía seu Kai.
E ainda podia lutar.
Kagetsu ergueu o rosto.
A expressão que apareceu em sua face fez o sorriso de Yorm diminuir ligeiramente.
A serenidade anterior havia desaparecido.
Não havia mais qualquer tentativa de negociar ou convencer os adversários a desistirem. O Shinpan-Kan agora olhava para Yorm com uma seriedade absoluta, como se tivesse finalmente aceitado que não sairia daquele lugar sem levar o combate até o fim.
Yorm percebeu a mudança.
— Ah?
Kagetsu flexionou os dedos da mão direita.
As chamas brancas surgiram ao redor de seus nós dos dedos.
Inicialmente, eram apenas pequenas labaredas, quase discretas. Mas, em poucos instantes, envolveram sua mão inteira, concentrando-se em uma camada densa de fogo que iluminou seu rosto.
Ele deu um passo à frente.
Yorm acompanhou o movimento.
— O que pretende fazer? Vai tentar me acertar com as próprias mãos?
Kagetsu não respondeu.
Deu outro passo.
As chamas se intensificaram.
— Você realmente não sabe quando desistir — comentou Yorm.
O Shinpan-Kan baixou o centro de gravidade, firmando os pés na superfície branca.
— Kai das Chamas Sagradas: Punho da Incineração!
O fogo explodiu.
A silhueta de Kagetsu desapareceu em uma detonação branca, e a onda de calor se espalhou pelo chão em todas as direções.
Yorm arregalou os olhos.
Não houve tempo para um decreto.
No instante seguinte, Kagetsu estava diante dele.
A distância que os separava havia sido vencida tão rapidamente que o Ancestral mal conseguiu acompanhar o deslocamento. O punho envolvido pelas chamas avançava diretamente em direção ao seu rosto.
Yorm inclinou a cabeça no último instante.
O golpe passou rente à sua face.
Ainda assim, não escapou completamente.
As chamas tocaram sua bochecha esquerda.
Um som breve, semelhante ao de algo sendo queimado, rompeu o silêncio.
Kagetsu completou o movimento e passou pelo adversário, perdendo o equilíbrio por um instante antes de cair sobre um joelho. A explosão que o impulsionara havia consumido boa parte do esforço que ainda conseguia reunir.
Yorm, por sua vez, afastou-se rapidamente.
Deu vários passos para trás, levando a mão livre ao rosto.
Durante alguns segundos, não disse nada.
Passou os dedos pela bochecha esquerda.
Sentiu a pele danificada.
Quando afastou a mão, percebeu o sangue escuro que manchava a ponta de seus dedos. Uma queimadura se estendia pela lateral de seu rosto, e uma linha fina de sangue descia lentamente em direção ao maxilar.
Yorm olhou para a própria mão.
Depois, para Kagetsu.
O sorriso havia desaparecido por completo.
Seus olhos se estreitaram, e os dentes se apertaram com tanta força que sua mandíbula ficou rígida.
Uma sensação desagradável percorreu seu corpo.
Não era a dor da queimadura.
Era a constatação de que aquele homem, mesmo desarmado e enfraquecido, havia conseguido atravessar sua defesa e feri-lo.
Yorm havia permitido que a luta se prolongasse porque acreditava estar no controle.
Havia tratado Kagetsu como um adversário inferior, alguém cuja derrota era apenas uma questão de tempo.
E agora carregava uma marca deixada por ele.
— Você...
Sua voz saiu baixa.
Kagetsu ergueu o rosto.
Ao perceber o sangue no rosto do Ancestral, seus olhos se fixaram na ferida. Por um instante, pareceu surpreso por ter conseguido acertar o golpe.
Então, firmou uma das mãos no chão e começou a se levantar.
Yorm ainda o encarava.
Kagetsu não desperdiçou a oportunidade.
As chamas voltaram a explodir ao redor de seu corpo.
— Não acabou!
Ele disparou novamente.
Dessa vez, não tentou esconder a intenção de seu ataque. Avançou diretamente contra Yorm, concentrando o fogo no punho direito enquanto diminuía a distância entre os dois.
Mas algo havia mudado.
O Ancestral não sorriu.
Não provocou.
Não esperou para descobrir o que Kagetsu pretendia fazer.
Seus olhos estavam fixos no adversário, e a espada em sua mão parecia mais pesada do que antes.
— Kai da Verdade: Lei! Você é lento!
As palavras foram pronunciadas com uma frieza absoluta.
A lei foi imposta.
Kagetsu sentiu imediatamente a diferença.
Seu corpo, que um instante antes avançava com uma velocidade colossal, tornou-se subitamente pesado. As pernas perderam parte da agilidade, e o movimento de seus braços pareceu se arrastar, como se o espaço à sua volta tivesse adquirido uma resistência invisível.
Seus olhos se arregalaram.
O punho continuou avançando, mas já não possuía a velocidade necessária para alcançar Yorm.
— O quê...?
Kagetsu tentou acelerar.
Seus músculos responderam, mas os movimentos continuaram lentos. Era como se sua própria velocidade tivesse sido arrancada dele, deixando apenas a intenção de atacar.
Yorm desapareceu de seu campo de visão.
Quando Kagetsu tentou corrigir a trajetória do golpe, já era tarde.
O Ancestral surgiu diante dele.
A espada negra estava erguida.
Kagetsu percebeu a lâmina tarde demais.
Tentou recuar, mas o corpo não obedeceu com rapidez suficiente. Sua defesa estava aberta, o peso de seu próprio movimento o impedia de mudar de direção, e o decreto de Yorm havia transformado aquela fração de segundo em uma desvantagem fatal.
A espada avançou.
E atravessou seu tronco.
O impacto interrompeu o movimento de Kagetsu.
Por um instante, o Shinpan-Kan ficou imóvel, olhando para o Ancestral que estava diante dele. Sua expressão perdeu toda a firmeza, substituída por um espanto silencioso.
A lâmina havia penetrado profundamente em seu corpo.
Kagetsu abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Então, sangue escorreu de seus lábios.
Ele tossiu, e uma quantidade maior de sangue manchou seu queixo e o peito de suas vestes religiosas. O tecido branco começou a ficar vermelho ao redor do ferimento, a mancha se espalhando rapidamente pelo manto.
Yorm permaneceu imóvel, segurando a espada.
Seus olhos estavam fixos no rosto de Kagetsu.
— Eu avisei...
Sua voz não demonstrava satisfação.
Apenas desprezo.
— Você deveria ter parado quando teve a oportunidade.
Kagetsu tentou respirar profundamente, mas a dor o impediu. Seu corpo tremeu, e os dedos se fecharam involuntariamente ao redor do braço de Yorm, como se tentasse afastá-lo.
Não possuía força suficiente.
O Ancestral observou a tentativa sem alterar a expressão.
Esperou alguns segundos.
Então, retirou a espada.
Kagetsu perdeu imediatamente o apoio.
Seu corpo caiu sobre a superfície branca, primeiro de joelhos, depois tombando para a frente. Ele conseguiu apoiar uma das mãos no chão antes que o rosto atingisse o solo, mas o movimento provocou outra onda de dor.
Um som abafado escapou de sua garganta.
Sangue escorreu de sua boca e se espalhou pela superfície imaculada, formando uma mancha vermelha sob seu rosto.
Kagetsu tentou se virar.
O esforço foi suficiente para fazê-lo estremecer.
Sua mão procurou instintivamente o ferimento no tronco, pressionando o tecido encharcado de sangue. A dor fez seus dedos tremerem, e ele precisou interromper o movimento por alguns instantes para recuperar o fôlego.
A ferida continuava sangrando.
Ele tentou pressioná-la com mais força.
Seu braço cedeu.
Kagetsu soltou um som baixo de frustração e tentou novamente, mas seus músculos pareciam incapazes de responder adequadamente. A fraqueza imposta pelo Kai de Yorm ainda pesava sobre ele, e agora o ferimento tornava cada movimento mais difícil.
Ele não conseguia sequer se sentar direito.
A alabarda havia desaparecido.
Seu corpo estava gravemente ferido.
E o adversário continuava de pé diante dele.
Yorm observou a cena em silêncio.
A espada negra repousava ao lado de seu corpo, com a ponta voltada para o chão. A queimadura em sua bochecha ainda sangrava, mas ele parecia não se importar mais com a dor.
O Ancestral deu um passo na direção de Kagetsu.
Depois outro.
Parou diante do Shinpan-Kan caído.
— É isso?
Kagetsu ergueu lentamente os olhos.
Sua visão estava turva, e o esforço para manter a cabeça levantada fazia seu corpo tremer.
Yorm inclinou a cabeça, como se estivesse genuinamente decepcionado.
— Confesso que esperava mais. A maior força de combate da Igreja, um dos cinco guerreiros mais poderosos de Celestria...
Ele observou o sangue espalhado sobre o chão branco.
— E é isso que você consegue fazer?
Kagetsu tentou responder, mas a garganta estava tomada pela dor. Apenas um som fraco escapou de sua boca.
Yorm continuou:
— Talvez agora eu entenda por que você ocupa a última posição entre os Shinpan-Kan.
Seu olhar tornou-se ainda mais frio.
— Você é fraco.
Kagetsu cerrou os dentes.
Tentou erguer o corpo apoiando-se em um dos braços, mas o movimento falhou quase imediatamente. Seu cotovelo cedeu, e ele voltou a cair sobre o chão.
Yorm acompanhou a tentativa com uma expressão de absoluto desprezo.
— Olhe para você. Mal consegue ficar de pé, perdeu sua arma e agora nem sequer consegue levantar o próprio corpo.
Ele se agachou lentamente, ficando mais próximo do rosto do guerreiro.
— E ainda assim, passou a vida inteira acreditando que fazia parte de algo grandioso.
Kagetsu respirou com dificuldade.
Yorm sorriu.
— Deixe-me contar uma coisa, Arashi Kagetsu.
O Ancestral apoiou a espada sobre o ombro.
— Você realmente acredita que todos aqueles guerreiros da Igreja se importam com você? Que os outros Shinpan-Kan o respeitam como um igual?
Kagetsu continuou encarando-o.
— Eles não precisam de você. Não precisam de um homem que insiste em proteger qualquer desconhecido que encontre pelo caminho. Não precisam de alguém que acredita que pode mudar alguma coisa neste mundo.
Yorm aproximou o rosto um pouco mais.
— Você pensa que gostam de você. Que sua posição significa alguma coisa. Mas, no fundo, é apenas o Número Cinco.
Seu sorriso se tornou cruel.
— O último da lista.
Kagetsu tentou fechar a mão contra o chão.
Seus dedos mal se moveram.
— Ninguém liga para você, Kagetsu. Ninguém se importaria se você desaparecesse amanhã. E, quando descobrirem que morreu aqui, provavelmente vão simplesmente encontrar outro homem para ocupar seu lugar.
O Ancestral se levantou.
— Achei que seria melhor do que isso. Realmente achei.
Ele suspirou, como se a luta tivesse se tornado tediosa.
— Mas vejo que não.
Yorm ergueu a espada diante do próprio rosto.
O brilho vermelho percorreu a lâmina.
— Então, já que não consegue me oferecer um combate digno...
Ele voltou a olhar para o homem caído.
— Vou brincar um pouco com você.
Kagetsu sentiu o coração acelerar.
Tentou mover as pernas.
Não conseguiu.
Tentou se afastar usando os braços, mas o corpo respondeu apenas com um tremor doloroso. O sangue continuava escorrendo pelo tronco, e a cada respiração sua expressão se contraía involuntariamente.
Yorm ergueu a espada.
Letras japonesas vermelhas começaram a surgir diante da lâmina.
Dessa vez, o brilho era mais intenso.
Os caracteres se formaram lentamente, um após o outro, como se o próprio espaço estivesse sendo obrigado a aceitar a sentença que o Ancestral preparava.
Kagetsu observou as letras.
Não conseguia ler o que estava escrito.
Mas compreendia o suficiente para saber que não poderia permitir que outro decreto o atingisse.
Tentou levantar a mão.
Seus dedos se ergueram alguns centímetros e caíram novamente.
— Não...
A palavra saiu fraca.
Yorm concluiu a escrita.
— Kai da Verdade: Julgamento.
A espada desceu ligeiramente.
— Os ossos do seu tronco estão destruídos.
Os caracteres vermelhos dispararam.
Kagetsu tentou se mover.
A palavra o atingiu antes que pudesse reagir.
Por um instante, nada pareceu acontecer.
Então, seu corpo inteiro enrijeceu.
Seus olhos se arregalaram, e a respiração foi interrompida por uma dor súbita e avassaladora. Um som sufocado escapou de sua boca antes que ele começasse a tossir violentamente.
Sangue voltou a sair de seus lábios.
Dessa vez, em quantidade suficiente para manchar o chão à sua frente.
Kagetsu tentou se contorcer para o lado, mas o movimento fez a dor se intensificar. Seu corpo reagiu de maneira involuntária, e os dedos se cravaram na superfície branca, procurando qualquer coisa em que pudesse se apoiar.
Não havia nada.
Apenas aquele espaço infinito.
Apenas a dor.
Ele tentou puxar o ar.
Seu peito mal conseguiu se elevar.
O decreto de Yorm havia imposto uma nova realidade ao seu corpo, e Kagetsu não tinha forças para resistir. A fraqueza que já o consumia tornou-se ainda mais profunda, deixando-o incapaz de executar até mesmo os movimentos mais simples.
Sua mão procurou novamente o ferimento.
Não chegou a alcançá-lo.
O braço caiu ao lado do corpo.
Yorm observou tudo sem qualquer sinal de piedade.
— Agora entende?
Sua voz ecoava sobre a superfície vazia.
— Você não tem arma. Não tem força. Não tem sequer a capacidade de se levantar. Tudo aquilo em que confiava foi reduzido a nada.
Kagetsu permaneceu caído.
Seus olhos tentavam acompanhar os movimentos do Ancestral, mas sua visão começava a falhar. A figura de Yorm parecia se afastar e se aproximar, como se a distância entre os dois estivesse mudando constantemente.
O sangue continuava descendo pelo canto de sua boca.
Ele tentou engolir, mas não conseguiu evitar outra tosse.
Yorm caminhou lentamente ao redor dele.
— E pensar que você acreditava poder me impedir.
O Shinpan-Kan apertou os dentes.
Uma parte dele ainda queria se levantar.
Queria recuperar Shiroromura, voltar a empunhar sua arma e obrigar aquele homem a responder por tudo o que havia feito.
Queria se lembrar de por que se tornara um Shinpan-Kan.
Queria provar que sua posição não era uma piada.
Mas seu corpo não respondia.
A vontade permanecia.
A força, não.
Yorm parou diante de sua cabeça.
— Pela terceira vez, eu digo. Você deveria ter ficado na Igreja, Kagetsu.
O Ancestral olhou para ele de cima, com uma expressão que misturava nojo e indiferença.
— Ao menos teria morrido acreditando que sua vida significava alguma coisa.
Kagetsu tentou erguer os olhos.
Sua visão escureceu por um instante.
Ele piscou, desesperado para recuperar a imagem do adversário, mas a brancura ao redor parecia se dissolver em manchas indistintas. O chão, o espaço vazio e a silhueta de Yorm começaram a perder os contornos.
A voz do Ancestral continuava se movendo ao seu redor.
Kagetsu já não conseguia compreender todas as palavras.
Os sons chegavam distantes, abafados, como se viessem do outro lado de uma porta fechada.
Ele tentou respirar.
O peito se elevou fracamente.
O sangue ainda escorria, manchando suas vestes e se acumulando sob seu rosto.
Seus dedos se contraíram uma última vez contra o chão.
Então, relaxaram.
A consciência começou a abandoná-lo.
Kagetsu tentou manter os olhos abertos, mas suas pálpebras pareciam pesadas demais. A imagem diante dele tornou-se cada vez mais escura, e o mundo branco desapareceu lentamente de sua visão.
A última coisa que conseguiu distinguir foi uma figura parada diante de seu corpo.
Yorm.
Imóvel, segurando a espada negra ao lado da perna.
Kagetsu tentou levantar a cabeça, mas não conseguiu.
Seus olhos perderam o foco.
A voz de Yorm desapareceu por completo.
E, enquanto sua consciência afundava na escuridão, a última imagem que permaneceu diante de seus olhos foi a das botas ancestrais do homem que o havia derrotado, paradas bem à sua frente.
Depois disso, não houve mais nada.