Capítulo 134 — Kagetsu Arashi
Antes de vestir o enorme manto branco dos Shinpan-Kan, antes de empunhar Shiroromura diante dos soldados de Celestria, antes que seu nome se tornasse conhecido entre aqueles que serviam à Igreja, Kagetsu Arashi foi apenas um garoto que aprendeu cedo demais que o mundo nem sempre oferecia às pessoas uma segunda chance.
Ele não nasceu em Celestria.
Não nasceu sob a proteção da Igreja, tampouco cresceu sonhando em ocupar uma posição de autoridade. Durante boa parte da infância, sequer teve o luxo de imaginar como seria seu futuro. Seus dias eram preenchidos por tarefas que uma criança jamais deveria precisar realizar, e suas noites terminavam com o mesmo pensamento: desde que conseguisse trazer comida para casa, o dia seguinte ainda seria possível.
Kagetsu tinha dez anos quando seus pais foram embora.
Naquela época, ele tinha quatro irmãos mais novos: Mio, Akio, Renji e Toma.
Mio era a única menina, uma criança de oito anos que, apesar da pouca idade, possuía uma estranha facilidade para perceber quando o irmão mais velho estava triste. Akio tinha seis anos e era incapaz de permanecer quieto por mais de alguns minutos. Renji, com quatro, era mais tímido e costumava se esconder atrás de Kagetsu quando alguém desconhecido aparecia. Toma tinha apenas dois anos e ainda pronunciava algumas palavras de maneira incompreensível.
Os cinco viviam numa casa pequena, afastada de uma vila que mal aparecia nos mapas de Kaelthar.
Seus pais não eram pessoas poderosas. Não possuíam terras, riquezas ou qualquer habilidade especial que lhes permitisse sobreviver com facilidade. Durante alguns anos, fizeram o possível para alimentar os filhos, mas a fome tornou-se cada vez mais frequente, e a miséria passou a consumir o pouco que ainda restava naquela família.
Até que, numa manhã fria, decidiram que não tentariam mais.
Kagetsu se lembraria daquela manhã pelo resto da vida.
— Kagetsu.
O garoto ergueu os olhos.
Estava sentado perto da lareira apagada, tentando consertar uma alça de couro que utilizava para carregar pequenos animais durante as caçadas. A mãe permanecia junto à porta, vestida com um casaco gasto. O pai, atrás dela, segurava uma bolsa de viagem.
Kagetsu olhou para os dois.
Depois, para a bolsa.
— Vocês vão sair?
Nenhum dos dois respondeu imediatamente.
Mio estava sentada no chão, brincando com um pedaço de madeira que havia transformado num boneco. Akio tentava convencer Renji a acompanhá-lo até o riacho, enquanto Toma permanecia no colo da mãe, segurando um dos dedos dela.
— Precisamos ir — respondeu o pai.
Kagetsu franziu a testa.
— Pra onde?
— Para longe daqui.
O garoto esperou que ele explicasse melhor.
Não explicou.
Kagetsu deixou a alça de couro sobre os joelhos.
— E a gente?
A mãe desviou o olhar.
Foi um movimento pequeno. Quase imperceptível.
Mas Kagetsu viu.
— Vocês vão voltar antes de escurecer?
— Kagetsu... — ela começou.
— Porque eu posso ir caçar hoje. Ontem eu consegui pegar dois coelhos. Se eu for mais longe, talvez consiga trazer mais. E tem um homem na vila que disse que paga por carvão. Eu posso trabalhar lá também.
O pai apertou a alça da bolsa.
— Não adianta.
— Como assim?
— Não temos condições de continuar criando vocês.
As palavras foram pronunciadas sem gritos, sem raiva e sem qualquer demonstração de crueldade ostensiva.
Talvez fosse justamente isso que as tornasse tão difíceis de compreender.
Kagetsu ficou olhando para o pai, esperando que ele completasse a frase com alguma coisa que fizesse sentido.
Uma explicação.
Uma promessa.
Qualquer coisa.
— Mas... somos seus filhos.
A mãe fechou os olhos por um instante.
— Nós sabemos.
— Então por que vocês estão indo embora?
Dessa vez, o pai não respondeu.
Foi Mio quem se levantou.
— Mãe?
A mulher olhou para a filha.
Mio apertou o pequeno boneco de madeira contra o peito.
— Você vai voltar?
O silêncio que veio depois foi a resposta mais cruel que aquelas crianças poderiam receber.
O pai abriu a porta.
O vento entrou na casa.
— Kagetsu — disse ele, sem olhar para trás. — Você é o mais velho. Cuide deles.
E saiu.
A mãe permaneceu por alguns segundos junto à entrada, como se ainda estivesse tentando decidir alguma coisa. Então colocou Toma no chão, beijou sua testa e atravessou a porta atrás do marido.
Kagetsu levantou-se tão depressa que derrubou a cadeira.
— Esperem!
Correu até a entrada.
Os pais já estavam se afastando pela estrada de terra.
— PAI!
Nenhum dos dois parou.
— MÃE!
Kagetsu deu alguns passos para fora, sentindo o frio atingir seu rosto.
— EU VOU CONSEGUIR! EU JURO! EU POSSO TRABALHAR! EU POSSO CUIDAR DELES!
A mãe diminuiu o passo.
Por um instante, pareceu que olharia para trás.
Mas continuou andando.
Kagetsu permaneceu na estrada até que os dois desapareceram entre as árvores.
Não chorou imediatamente.
Voltou para dentro da casa, fechou a porta e encontrou seus quatro irmãos olhando para ele.
Akio foi o primeiro a perguntar:
— Eles vão voltar amanhã?
Kagetsu olhou para o irmão.
Depois, para Mio.
Para Renji.
Para Toma, que ainda tentava compreender por que a mãe o havia deixado no chão.
O garoto de dez anos respirou fundo.
— Vão.
Foi a primeira mentira que Kagetsu contou aos irmãos.
E, durante muito tempo, seria também a mais dolorosa.
Nos primeiros dias, Kagetsu tentou esperar.
A cada ruído do lado de fora, levantava a cabeça. Sempre que alguém passava pela estrada, corria até a janela.
Ninguém voltava.
A comida acabou antes que a primeira semana terminasse.
Kagetsu começou a sair antes do amanhecer, levando consigo uma faca de caça e uma bolsa velha. Aprendeu a identificar rastros, a preparar armadilhas, a reconhecer plantas comestíveis e a distinguir os sons dos animais na mata.
Quando a caça não rendia o suficiente, caminhava até as proximidades de uma mina de carvão e oferecia seu trabalho aos homens que precisavam transportar sacos, recolher ferramentas ou limpar os depósitos.
Alguns riam quando o viam chegar.
— Você é pequeno demais para esse trabalho, garoto.
— Eu consigo carregar.
— Mal consegue erguer um saco desses.
— Então me dê um menor.
O homem que administrava o depósito observou Kagetsu por alguns segundos antes de apontar para uma pilha de sacos.
— Leve aqueles três para o galpão. Se terminar antes do meio-dia, recebe o pagamento.
Kagetsu terminou antes do meio-dia.
No dia seguinte, voltou.
Depois, voltou novamente.
Suas mãos começaram a criar calos. Os braços doíam quando se deitava. Às vezes, chegava em casa com as pernas tão cansadas que precisava se apoiar na parede para continuar andando.
Ainda assim, nunca deixava de trazer alguma coisa.
Um pedaço de pão.
Alguns vegetais.
Um animal que havia conseguido caçar.
Carvão suficiente para manter o fogo aceso durante a noite.
O que importava era que seus irmãos comessem.
Certa tarde, Kagetsu voltou para casa e encontrou Akio sentado à mesa, encarando um pequeno pedaço de pão.
— Você não comeu? — perguntou.
— Estava esperando você.
— Por quê?
Akio deu de ombros.
— Porque você sempre come depois da gente.
Kagetsu ficou quieto.
Naquele dia, havia conseguido apenas um peixe pequeno e algumas raízes. Ele próprio não comia desde a manhã anterior.
Mesmo assim, colocou o pão de volta nas mãos do irmão.
— Então come logo. Se esperar muito, vai ficar duro.
Akio sorriu.
— Amanhã eu vou com você!
— Não vai, não.
— Por quê?
— Porque você vai ficar reclamando de tudo.
— Eu não reclamo!
— Ontem você reclamou porque a sopa estava quente.
— Porque estava quente!
Kagetsu soltou uma risada.
Foi uma risada curta, cansada, mas verdadeira.
Mio apareceu perto da mesa, carregando Toma nos braços.
— Você também precisa comer, idiota.
Kagetsu ergueu uma sobrancelha.
— Como é que é?
— Você ouviu.
— Olha a maneira como fala comigo. Eu sou o irmão mais velho.
— E daí? Você continua sendo idiota.
Akio começou a rir.
Renji, que normalmente ficava quieto, soltou uma risadinha ao perceber a expressão indignada de Kagetsu.
O garoto colocou as mãos na cintura.
— Muito engraçado. Amanhã vocês vão ver.
Mio sorriu.
— Amanhã você vai trazer comida de novo.
A frase foi simples.
Uma criança dizendo que confiava no irmão.
Kagetsu não percebeu naquele momento, mas aquele seria um dos últimos períodos de sua vida em que ainda conseguiria acreditar que o amanhã estava garantido.
Durante dois anos, Kagetsu sustentou a pequena família como pôde.
Aprendeu a cozinhar porque ninguém mais faria isso. Aprendeu a remendar roupas porque não havia dinheiro para comprar outras. Aprendeu a lutar porque alguns homens da região descobriram que um garoto sozinho, responsável por quatro crianças, era um alvo fácil.
A primeira vez que tentaram roubar sua caça, Kagetsu recebeu um golpe no rosto e caiu na lama.
O homem pegou a bolsa.
— Crianças como você deveriam aprender a ficar no seu lugar.
Kagetsu limpou o sangue do canto da boca.
Olhou para a bolsa.
Depois, para o homem.
— Devolve.
O sujeito riu.
— O quê?
— A comida.
— Ou o quê?
Kagetsu avançou.
Foi uma péssima decisão.
Era menor, mais fraco e não possuía treinamento adequado. Apanhou até mal conseguir ficar de pé. Mas, quando o homem tentou ir embora, Kagetsu agarrou sua perna e o derrubou, recuperando a bolsa no processo.
Voltou para casa mancando.
Mio correu até ele.
— Kagetsu! O que aconteceu?!
— Nada.
— Seu rosto está sangrando!
— Eu caí.
— Você não sabe mentir!
Ela o obrigou a sentar, buscou um pano e começou a limpar o ferimento.
Kagetsu fez uma careta quando ela pressionou o tecido contra sua bochecha.
— Ai!
— Para de reclamar.
— Você acabou de dizer que eu sou idiota!
— E você continua sendo!
Ele tentou sorrir, mas o ferimento doeu.
Mio ficou séria.
— Foi por causa da comida?
Kagetsu não respondeu.
Ela abaixou a cabeça.
— Você não precisa fazer tudo sozinho.
O garoto olhou para a irmã.
Quis explicar que precisava, sim.
Que, se ele não fizesse tudo, ninguém faria.
Que não havia outro adulto para quem pudessem correr.
Mas Mio era apenas uma criança. Ela não deveria precisar entender aquilo.
Então Kagetsu apenas colocou a mão sobre a cabeça dela.
— Eu sei.
— Promete que vai tomar cuidado?
Ele hesitou.
— Prometo.
Naquele dia, Kagetsu aprendeu outra coisa: algumas promessas não eram feitas porque alguém tinha certeza de que conseguiria cumpri-las.
Eram feitas porque a pessoa diante de você precisava ter alguma coisa em que acreditar.
Quando Kagetsu completou doze anos, a casa já não parecia tão pequena.
Não porque tivesse crescido.
Mas porque ele havia aprendido a preencher cada canto com o pouco que conseguia trazer para dentro dela.
Havia madeira empilhada perto da parede, ervas secando junto à janela e uma mesa que ele mesmo consertara. Mio aprendera a preparar algumas refeições. Akio começara a ajudá-lo com as armadilhas. Renji ainda era tímido, mas já conseguia cuidar de Toma por alguns minutos sem chamar o irmão a cada instante.
Kagetsu não possuía muito.
Mas possuía os quatro.
E, por mais difícil que fosse admitir, começava a pensar que talvez aquilo fosse suficiente.
Na manhã da tragédia, ele acordou antes do sol.
A neve havia caído durante a noite, cobrindo parte da estrada e dificultando a passagem pela floresta. Mesmo assim, havia combinado de levar carvão até um comerciante que pagava um pouco melhor do que os homens da mina.
Mio estava acordada quando ele começou a preparar a bolsa.
— Você vai voltar antes de escurecer?
Kagetsu olhou para ela.
— Vou.
— Mesmo com a neve?
— Mesmo com a neve.
Ela estreitou os olhos.
— Você sempre diz isso.
— Porque eu sempre volto.
Mio permaneceu em silêncio por um instante.
Depois se aproximou e ajeitou a gola da roupa dele, que estava dobrada para dentro.
— Então volta logo. O Toma está aprendendo a falar seu nome.
Kagetsu sorriu.
— Sério?
— Mais ou menos. Ele fala alguma coisa que parece seu nome quando quer alguma coisa.
— Então está falando meu nome perfeitamente.
Mio revirou os olhos.
— Convencido.
Kagetsu colocou a bolsa sobre o ombro.
Antes de sair, olhou para os irmãos reunidos ao redor da mesa.
Akio estava tentando roubar um pedaço de comida antes do café da manhã.
Renji fingia não perceber.
Toma batia as mãos sobre a madeira.
Mio tentava impedir que os dois transformassem a refeição numa disputa.
Era uma manhã comum.
Uma manhã que Kagetsu acreditou que viveria muitas outras vezes.
Ele abriu a porta.
— Não saiam de casa enquanto eu estiver fora.
— A gente sabe! — respondeu Akio.
— E não deixem o fogo apagar.
— Tá bom! — disse Mio.
Kagetsu ergueu a mão em despedida.
— Até mais tarde.
O trabalho foi mais demorado do que o esperado.
A neve tornou a viagem difícil, e o comerciante discutiu o pagamento durante quase meia hora. Kagetsu precisou ajudar a descarregar uma carroça que atolara perto da estrada e só conseguiu iniciar o caminho de volta quando o céu já estava escurecendo.
Estava exausto.
As mãos doíam, os ombros pareciam carregados de pedras e o frio penetrava nas roupas úmidas.
Ainda assim, havia conseguido o suficiente para comprar farinha, alguns legumes e um pequeno pedaço de carne.
Na volta, imaginou o que Mio faria com aquilo.
Talvez preparasse uma sopa.
Akio provavelmente reclamaria da quantidade de legumes.
Renji tentaria guardar um pedaço de carne para comer depois.
Toma pediria mais antes mesmo de terminar a primeira porção.
Kagetsu sorriu sozinho.
A casa apareceu entre as árvores.
A porta estava fechada.
Não havia fumaça saindo da chaminé.
Ele diminuiu o passo.
Talvez o fogo tivesse apagado.
Acontecia às vezes.
— Cheguei! — anunciou ao entrar.
Nenhuma resposta.
Kagetsu fechou a porta com o pé.
— Mio? Akio?
O silêncio pareceu estranho.
Ele colocou a bolsa sobre a mesa.
— Renji? Toma?
Foi então que percebeu o cheiro.
Não era o cheiro da lenha queimada, nem o da comida esquecida no fogo.
Era um odor metálico, forte, que não combinava com aquela casa.
Kagetsu parou.
Seus olhos começaram a percorrer o chão.
Primeiro, viu um pedaço de madeira quebrado.
Depois, uma cadeira caída.
Havia marcas escuras perto da parede.
E então ele viu Akio.
O garoto de seis anos estava caído no chão, imóvel.
Kagetsu não compreendeu imediatamente o que estava vendo.
Sua mente tentou transformar aquela imagem em outra coisa. Akio dormindo. Akio escondido. Akio brincando de fingir que estava morto para assustá-lo.
Qualquer coisa que ainda permitisse que a realidade continuasse sendo a mesma.
— Akio?
Deu um passo.
Foi quando percebeu Renji.
E, mais adiante, Toma.
Os três estavam mortos.
A bolsa escorregou de seu ombro e caiu no chão. Os alimentos se espalharam pela madeira, rolando para debaixo da mesa.
Kagetsu não ouviu o barulho.
Não ouviu nada.
O mundo pareceu afastar-se dele, como se alguém tivesse fechado uma porta entre sua consciência e tudo o que existia ao redor.
Seus lábios se moveram.
— Não...
Ele deu outro passo.
As pernas começaram a tremer.
— Não, não, não...
Então viu Mio.
A irmã estava agachada no meio da sala, de costas para ele.
Seus ombros se moviam lentamente.
Kagetsu ficou imóvel.
Por um instante, uma esperança absurda atravessou sua mente.
Mio estava viva.
Talvez estivesse ferida. Talvez estivesse em choque. Talvez pudesse explicar o que havia acontecido.
Ele deu um passo em sua direção.
— Mio?
Ela não respondeu.
— Mio, sou eu.
Os ombros dela pararam de se mover.
Kagetsu sentiu a garganta apertar.
— O que aconteceu aqui?
A irmã inclinou a cabeça.
Havia alguma coisa errada naquele movimento.
Algo pequeno, quase imperceptível, mas profundamente antinatural.
Kagetsu estendeu uma mão.
— Mio... olha pra mim.
Ela começou a virar o rosto.
E o garoto viu o que restava da pessoa que amava.
Os olhos dela estavam deformados por uma escuridão que não pertencia a nenhum ser humano. A pele havia adquirido uma aparência estranha, marcada por veios escuros que se espalhavam pelo pescoço e desapareciam sob as roupas. A boca estava manchada de sangue.
Ao redor dela, o chão estava coberto pelos restos da refeição que jamais deveria ter existido.
Mio estava comendo o corpo de um dos próprios irmãos.
Kagetsu parou de respirar.
Não conseguiu gritar.
Não conseguiu correr.
Seu corpo simplesmente se recusou a aceitar que aquela criatura, aquela coisa diante dele, era a mesma menina que havia ajeitado sua gola naquela manhã.
A cabeça dela virou um pouco mais.
— ...Kage...tsu?
A voz era fraca.
Por uma fração de segundo, ele reconheceu o som.
Reconheceu a irmã.
— Mio?
Ela tremeu.
Os olhos pareceram se contrair, e os dedos arranharam o chão.
— Ka... getsu...
Ele deu um passo à frente, as lágrimas começando a escorrer antes que percebesse.
— Sou eu. Sou eu, Mio. Olha pra mim. O que aconteceu? Quem fez isso?
A menina abriu a boca.
Um som irregular escapou de sua garganta.
— Dói...
Kagetsu caiu de joelhos.
— Eu vou ajudar você. Tá ouvindo? Eu vou ajudar você!
Ele começou a se aproximar.
— Só fica quietinha. Eu vou buscar alguém. Vou trazer um médico. Eu vou...
Mio soltou um grito.
O som foi tão diferente da voz que ele conhecia que Kagetsu recuou por instinto.
A criatura ergueu o corpo.
As costas se arquearam de maneira impossível, e uma energia escura pareceu distorcer o ar ao redor dela. A madeira sob suas mãos estalou.
Kagetsu ficou olhando.
A irmã começou a avançar.
— Mio...?
Ela atacou.
Kagetsu mal teve tempo de erguer os braços.
O impacto o lançou contra a parede. A madeira rachou às suas costas, e o ar escapou de seus pulmões. Antes que conseguisse recuperar o fôlego, a criatura já estava sobre ele.
Ele rolou para o lado.
As mãos dela atingiram o chão onde sua cabeça estivera um instante antes.
Kagetsu se levantou cambaleando.
— PARA!
A criatura virou-se.
— MIO, PARA!
Por um momento, os olhos dela pareceram vacilar.
Kagetsu viu a irmã ali.
Não a criatura.
A menina que ria quando ele voltava da caça. A menina que o chamava de idiota quando ele esquecia de comer. A menina que prometera esperar por ele naquela mesma manhã.
Ele alcançou sua faca de caça.
— Sou eu...
Ela avançou novamente.
Kagetsu foi atingido no ombro e caiu de lado. A dor percorreu seu braço, mas ele quase não a sentiu. Tentou afastá-la, sem conseguir feri-la de propósito.
— Por favor...
Mio cravou os dedos em sua roupa.
A criatura abriu a boca e soltou um grito tão alto que as janelas tremeram.
Kagetsu percebeu, naquele instante, que não havia mais ninguém naquela casa capaz de ajudá-lo.
Não havia pai.
Não havia mãe.
Não havia caçador, guerreiro ou membro da Igreja que pudesse atravessar aquela porta a tempo.
Havia apenas ele.
E a coisa que um dia fora sua irmã.
A faca caiu de sua mão.
Ele a recuperou com dedos trêmulos.
— Desculpa...
Mio avançou.
Kagetsu fechou os olhos por um instante.
E fez o que precisava fazer para continuar vivo.
Cortou a garganta de sua irmã num movimento limpo, acabando com aquela situação.
Quando o silêncio finalmente voltou, ele permaneceu ajoelhado no chão.
A faca escorregou de seus dedos.
Mio estava caída diante dele.
A energia escura desaparecera.
Os olhos haviam voltado ao normal.
Por um momento, Kagetsu esperou que ela se levantasse.
Esperou que reclamasse de sua demora.
Esperou ouvir aquela voz dizendo que ele era um idiota.
Nada aconteceu.
Ele se arrastou até a irmã.
— Mio?
Tocou o rosto dela.
Estava frio.
— Mio... já acabou.
Sua voz falhou.
— Você pode levantar agora.
O garoto tentou sorrir, como se aquilo pudesse desfazer tudo.
— Vamos... você não gosta de ficar no chão.
As lágrimas caíram sobre o rosto da menina.
Kagetsu a abraçou.
E, pela primeira vez desde que os pais haviam partido, chorou sem tentar esconder o som.
Chorou até não conseguir respirar direito. Chorou chamando os nomes dos irmãos, um por um, como se pronunciá-los fosse a única maneira de impedir que desaparecessem completamente.
Naquela noite, uma pequena casa perdeu todos os seus moradores.
E um garoto de doze anos descobriu que sobreviver não significava necessariamente continuar vivendo.
Ninguém soube explicar o que havia acontecido com Mio.
Quando os poucos habitantes da região finalmente chegaram à casa, encontraram Kagetsu sentado no chão, cercado pelos corpos dos irmãos.
Ele não reagiu às perguntas.
Não explicou a criatura.
Não falou sobre a energia escura.
Não contou que, por um breve instante, Mio havia reconhecido seu nome.
Alguns disseram que um Ancestral havia entrado na casa.
Outros acreditaram que a família fora vítima de uma maldição.
Houve quem afirmasse que a menina sempre estivera doente, embora ninguém conseguisse explicar por que uma criança comum teria se transformado numa criatura daquela natureza.
As versões se multiplicaram.
Nenhuma trouxe uma resposta.
Kagetsu ouviu todas elas.
E não acreditou em nenhuma.
Porque, se havia uma coisa que ele sabia, era que Mio não fora assim quando ele saíra de casa naquela manhã.
Ele nunca descobriu o que havia acontecido durante aquelas horas.
Nunca soube por que ela mudara.
E jamais esqueceu a voz que ouvira antes do primeiro ataque.
Dói...
Aquela palavra o acompanharia durante anos.
Não como uma acusação.
Mas como uma pergunta sem resposta.
Nos três anos seguintes, Kagetsu vagou por Kaelthar.
Não possuía uma casa para onde voltar. Não tinha mais ninguém esperando por ele. Os lugares que visitava eram apenas paradas temporárias, espaços onde conseguia dormir, trabalhar e juntar dinheiro suficiente para continuar.
Ainda caçava.
Ainda cozinhava.
Ainda trabalhava nas minas quando precisava.
Mas alguma coisa havia mudado.
Antes, ele fazia tudo aquilo porque queria proteger os irmãos.
Agora, fazia porque não conhecia outra maneira de existir.
Não odiava todos os Ancestrais. Não conseguia transformar a dor que sentia numa regra absoluta sobre o mundo. A criatura que havia matado seus irmãos possuía poderes que não compreendia, mas ele não sabia se ela escolhera aquilo, se fora corrompida ou se havia sofrido algo que ninguém conhecia.
E não podia esquecer que Mio, mesmo transformada, tentara chamá-lo pelo nome.
Se aquela lembrança lhe ensinou alguma coisa, foi que o mundo era muito mais complicado do que as histórias contadas pelas pessoas.
Monstros podiam esconder perguntas.
Humanos podiam cometer atrocidades.
E, às vezes, o pior acontecimento da vida de alguém não vinha acompanhado de uma explicação que permitisse seguir em frente.