Capítulo 135 — Seinaru Hitomi
Kagetsu continuou caminhando.
Aos quinze anos, chegou a uma cidade onde ouviu falar de uma organização independente de caçadores.
Era um grupo formado por guerreiros que se dedicavam a localizar e eliminar Ancestrais. Alguns haviam perdido familiares. Outros tinham jurado proteger suas comunidades. Havia também aqueles que simplesmente acreditavam que alguém precisava enfrentar as criaturas que ameaçavam Kaelthar.
Kagetsu não possuía um grande nome.
Não tinha mestre.
Não possuía uma arma lendária.
Trazia consigo apenas uma katana simples, dinheiro suficiente para algumas semanas e a convicção de que não queria assistir a outra família perder tudo sem que alguém tentasse impedir.
Apresentou-se à organização numa manhã chuvosa.
O responsável pelo recrutamento examinou suas mãos marcadas pelo trabalho, a espada na cintura e o rosto jovem demais para alguém que dizia querer caçar criaturas ancestrais.
— Quantos anos você tem?
— Quinze.
— Já matou um Ancestral?
Kagetsu demorou um instante para responder.
— Já sobrevivi a um.
O homem percebeu a diferença.
— Não foi isso que perguntei.
— Eu sei.
— Por que quer entrar?
Kagetsu olhou pela janela.
Do lado de fora, uma mãe segurava a mão de uma criança enquanto atravessavam a rua.
Ele acompanhou os dois com os olhos até desaparecerem entre as pessoas.
— Porque não quero que outras crianças precisem aprender a sobreviver sozinhas.
O responsável permaneceu em silêncio.
Depois, apontou para o pátio de treinamento.
— Pegue sua espada.
Kagetsu passou no teste por pouco.
Era resistente, conhecia o próprio corpo e não tinha medo de continuar lutando depois de cair. Entretanto, seus movimentos eram irregulares, sua técnica era rudimentar e ele compensava quase todas as falhas avançando sem pensar.
Um dos instrutores o derrubou três vezes em menos de um minuto.
Na quarta, Kagetsu se levantou imediatamente.
— De novo.
O instrutor suspirou.
— Você não entendeu nada do que aconteceu nas últimas três vezes?
— Entendi que preciso tentar uma quarta.
Alguns caçadores riram.
O instrutor esfregou o rosto.
— Esse garoto vai me dar dor de cabeça.
Estava certo.
Mas Kagetsu foi aceito.
E foi ali que conheceu Seinaru Hitomi.
Seinaru tinha a mesma idade de Kagetsu e cabelos negros, lisos, de comprimento mediano, ainda não tão grandes como os dos tempos atuais. Não era o mais alto entre os jovens caçadores, nem o que possuía a maior força física.
Entretanto, havia algo em seus movimentos que chamava a atenção.
Ele não desperdiçava energia.
Não avançava sem observar o adversário.
E, mesmo sem possuir ainda o Kai da Luz que o tornaria conhecido no futuro, era um combatente formidável no corpo a corpo.
Kagetsu o conheceu da pior maneira possível: levando uma rasteira diante de metade da organização.
O garoto havia passado a manhã inteira tentando acertar um golpe num instrutor. Depois de falhar repetidas vezes, resolveu treinar com outros recrutas.
Seinaru estava sentado perto do muro, enrolando as faixas das mãos.
— Ei, você.
Seinaru ergueu os olhos.
— Eu?
— É. Você luta?
Seinaru olhou para a espada de Kagetsu.
— Às vezes.
— Então levanta.
— Estou ocupado.
— Fazendo o quê?
Seinaru ergueu as mãos enfaixadas.
— Terminando de enrolar as faixas.
Kagetsu ficou olhando para ele.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Idiota.
Seinaru terminou de ajustar a última faixa.
— Só quando alguém me interrompe.
Alguns recrutas começaram a rir.
Kagetsu estendeu a mão, desafiando-o.
— Vamos. Só uma luta.
Seinaru suspirou, levantou-se e entrou no círculo de treinamento.
— Uma luta.
Kagetsu sorriu.
— Ótimo.
— Sem armas.
O sorriso de Kagetsu desapareceu.
— O quê?
— Você ouviu.
— Mas eu uso espada.
— E eu uso as mãos.
Seinaru olhou para ele por alguns segundos, esperando por uma resposta.
— Você é mesmo irritante.
Kagetsu jogou sua Katana para longe do círculo de treinamento.
A luta começou.
Kagetsu avançou imediatamente.
Seu primeiro golpe foi forte, mas previsível. Seinaru inclinou o corpo, desviou do punho e atingiu o peito do adversário com a palma da mão.
Kagetsu perdeu o equilíbrio.
Antes que recuperasse a postura, Seinaru passou por seu lado, segurou-lhe o braço e o derrubou de costas no chão.
A poeira subiu.
O pátio ficou em silêncio.
Seinaru soltou o braço dele.
— Acabou.
Kagetsu permaneceu olhando para o céu.
Depois, sentou-se.
— Como você fez isso?
— Você anunciou cada movimento antes de executar.
— Não anunciei nada.
— Seu ombro se mexe antes de você atacar. Seu peso vai para a frente. Você aperta a mandíbula. Dá para saber o que pretende fazer antes de você fazer.
Kagetsu olhou para o próprio ombro, como se tivesse sido traído por ele.
Seinaru começou a sair do círculo.
— Espera.
Ele parou.
Kagetsu se levantou, limpou a poeira das roupas e apontou para ele.
— De novo.
— Não.
— Por quê?
— Porque você acabou de perder.
— E daí?
Seinaru ficou olhando para o garoto.
Então soltou uma risada curta.
— Você realmente não sabe quando parar, né?
— Nunca aprendi.
A resposta saiu sem humor.
Seinaru percebeu.
Durante um instante, os dois ficaram em silêncio.
Então o garoto de cabelos negros voltou para o centro do círculo.
— Está bem. De novo.
Kagetsu abriu um sorriso.
Naquela tarde, perdeu onze vezes.
Na décima segunda, conseguiu tocar o ombro de Seinaru antes de ser derrubado.
Saiu do treinamento com um hematoma no rosto e uma satisfação absurda.
Seinaru caminhava ao seu lado.
— Você comemora muito para alguém que perdeu doze vezes.
— Eu acertei você.
— Tocou meu ombro.
— Exatamente.
— Não conta como vitória.
— Conta para mim.
Seinaru balançou a cabeça.
— Você é um caso perdido.
Kagetsu riu.
— E você é um péssimo perdedor.
— Mas eu ganhei todas.
— Detalhes.
Foi assim que começou.
Não com uma declaração de amizade.
Não com um juramento.
Mas com um garoto teimoso que não aceitava perder e outro que, apesar de reclamar o tempo inteiro, sempre encontrava um motivo para voltar ao treinamento.
Nos meses seguintes, os dois se tornaram inseparáveis.
Seinaru ensinava Kagetsu a observar o adversário antes de atacar. Kagetsu ensinava Seinaru a não hesitar quando uma decisão precisava ser tomada.
Os dois discordavam de quase tudo.
Seinaru acreditava que uma luta deveria ser decidida antes do primeiro golpe. Kagetsu acreditava que, se ainda fosse possível ficar de pé, ainda seria possível vencer.
Seinaru planejava os treinamentos.
Kagetsu aparecia com uma ideia nova que quase sempre terminava em confusão.
Seinaru organizava os equipamentos.
Kagetsu esquecia onde havia deixado a própria espada.
Seinaru reclamava.
Kagetsu ria.
E, no dia seguinte, tudo começava novamente.
Mas a amizade deles não foi construída apenas nos pátios de treinamento.
Foi construída nos momentos em que um deles não tinha forças para fingir que estava bem.
Certa noite, depois de uma missão particularmente difícil, Kagetsu estava sentado sozinho nos fundos do alojamento. Mantinha a katana sobre os joelhos e observava o fio da lâmina refletir a luz de uma pequena lanterna.
Seinaru encontrou-o ali.
— Você vai ficar olhando para essa espada até ela falar com você?
Kagetsu não ergueu a cabeça.
— Talvez ela tenha alguma coisa interessante para dizer.
Seinaru sentou-se ao seu lado.
— Duvido. Você fala demais por ela.
Kagetsu soltou uma risada fraca.
Depois voltou ao silêncio.
Seinaru percebeu que alguma coisa estava errada.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Você é um péssimo mentiroso.
Kagetsu olhou para ele.
Por um instante, quase sorriu.
A frase lembrava alguém.
Alguém que ele não conseguia pensar sem sentir um peso no peito.
Seinaru esperou.
Não pressionou.
Não tentou preencher o silêncio.
E foi justamente por isso que Kagetsu acabou falando.
Contou sobre os irmãos.
Sobre os pais que partiram.
Sobre os dias trabalhando até não conseguir sentir as mãos.
Sobre a casa.
E sobre Mio.
Não contou tudo de uma vez. Às vezes parava no meio de uma frase, apertava os dedos contra o cabo da espada ou desviava o olhar para a escuridão.
Seinaru não o interrompeu.
Quando Kagetsu terminou, o vento havia apagado uma das lanternas do pátio.
Por algum tempo, nenhum dos dois disse nada.
Então Seinaru perguntou:
— Você acha que ela sabia o que estava fazendo?
Kagetsu apertou os lábios.
— Não sei.
— Acha que ela queria machucar vocês?
— Eu não sei, Seinaru.
Sua voz saiu mais alta do que pretendia.
Ele fechou os olhos e respirou fundo.
— Desculpa.
— Não precisa pedir desculpas.
Kagetsu ficou olhando para as mãos.
— Às vezes, penso que devia ter sido mais rápido. Talvez pudesse ter encontrado alguém. Talvez pudesse ter feito alguma coisa diferente.
Seinaru virou o corpo na direção dele.
— Você tinha doze anos.
— E era o irmão mais velho.
— Isso não transforma uma criança em alguém capaz de resolver tudo.
Kagetsu permaneceu calado.
Seinaru continuou:
— Você fez o que conseguiu fazer com o que tinha naquele momento. Não sei o que aconteceu com sua irmã. Não sei se algum dia vamos descobrir. Mas sei que você não pode passar o resto da vida se condenando por algo que nem sequer compreende.
Kagetsu apertou o cabo da espada com tanta força que os dedos ficaram brancos.
— E se eu não tivesse saído naquele dia?
Seinaru demorou a responder.
— Então você teria os salvado.
Kagetsu ergueu os olhos.
— Como pode ter tanta certeza?
— Porque você teria tentado até não conseguir mais.
A simplicidade da resposta o atingiu com mais força do que qualquer discurso.
Seinaru apoiou os braços sobre os joelhos.
— Não vou dizer que entendo sua dor. Seria mentira. Mas você não precisa fingir que ela não existe comigo.
Kagetsu virou o rosto.
As lágrimas começaram a cair.
Ele tentou escondê-las, mas Seinaru já havia percebido.
Dessa vez, não fez piada.
Apenas permaneceu sentado ao lado do amigo.
E ficou ali até Kagetsu conseguir falar novamente.
Dois anos depois de entrar na organização, Kagetsu já era um caçador muito diferente daquele garoto que havia chegado com uma espada simples e mais determinação do que técnica.
Ainda era impulsivo.
Ainda avançava quando deveria esperar.
Ainda acreditava que poderia resolver metade dos problemas do mundo com as próprias mãos.
Mas agora sabia lutar.
Sua resistência tornara-se extraordinária, sua força física impressionava os instrutores e sua capacidade de continuar combatendo mesmo depois de sofrer ferimentos era motivo de preocupação para os companheiros.
Seinaru, por sua vez, aperfeiçoara o combate corpo a corpo até transformar seus golpes em luz, despertando seu Kai e ainda aprendendo a dominá-lo.
Juntos, os dois começaram a participar de missões mais perigosas.
E, pela primeira vez desde a tragédia, Kagetsu descobriu algo que não esperava encontrar.
Um lugar ao qual pertencia.
Não porque todos ali compreendessem seu passado.
Não porque tivesse deixado de sentir saudade dos irmãos.
Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, havia pessoas que o esperavam quando ele voltava.
Seinaru era o primeira a reclamar quando Kagetsu chegava atrasado.
Também era o primeira a perceber quando ele não voltava no horário.
E Kagetsu, embora jamais admitisse em voz alta, passou a considerar a presença do amigo uma das poucas coisas capazes de tornar o mundo menos pesado.
A organização, porém, estava prestes a desaparecer.
A Igreja de Celestria havia começado a consolidar sua influência sobre os territórios de Kaelthar. Sua liderança defendia que a existência de grupos independentes de caçadores representava uma ameaça à ordem e à autoridade religiosa.
Os responsáveis pela organização receberam uma ordem.
Dissolver o grupo.
Entregar os registros.
Abandonar as operações independentes contra os Ancestrais.
A justificativa oficial era a necessidade de unificar os esforços de proteção sob uma única autoridade.
Para muitos caçadores, aquilo não parecia absurdo. A Igreja possuía recursos, soldados, instalações e informações que nenhum grupo independente poderia reunir sozinho.
Mas Kagetsu e Seinaru conheciam outra realidade.
Conheciam aldeias que esperavam semanas por ajuda.
Conheciam famílias que precisavam abandonar suas casas porque ninguém chegava a tempo.
Conheciam pessoas que não podiam esperar por uma autorização para serem protegidas.
Quando a ordem foi anunciada, Kagetsu ficou de pé.
— E se uma aldeia for atacada amanhã?
O representante da Igreja, sentado à cabeceira da mesa, respondeu sem alterar a voz:
— Os procedimentos de assistência serão avaliados conforme a situação.
— Avaliados?
Kagetsu apoiou as mãos sobre a mesa.
— Uma criança não pode esperar que alguém avalie a situação enquanto um Ancestral destrói a casa dela.
— A Igreja possui protocolos para lidar com essas ocorrências.
— E se os protocolos não forem suficientes?
O homem o encarou.
— Não cabe a você decidir isso.
Seinaru colocou uma mão no braço do amigo antes que ele respondesse.
Não para impedi-lo de falar.
Apenas para lembrá-lo de que ainda estava ali.
O representante continuou:
— A organização será dissolvida. Aqueles que aceitarem a decisão poderão solicitar integração aos serviços da Igreja. Aqueles que insistirem em atuar independentemente estarão desobedecendo a uma ordem legítima.
Kagetsu soltou uma risada sem humor.
— Então é isso? Passamos anos protegendo pessoas e, agora, temos que pedir permissão para continuar fazendo o que sempre fizemos?
— A questão não está aberta a discussão.
Seinaru finalmente falou:
— Então não há mais nada para conversarmos.
Os dois deixaram a sala.
Naquela noite, vários caçadores decidiram aceitar a ordem.
Outros desapareceram sem se despedir.
Alguns continuaram atuando em segredo.
Kagetsu e Seinaru escolheram permanecer nas estradas.
Não porque odiassem todos os membros da Igreja.
Não porque acreditassem que toda autoridade fosse corrupta.
Mas porque não aceitavam que o direito de proteger alguém dependesse exclusivamente de uma instituição.
A decisão teve consequências.
Os dois passaram a ser considerados desertores e, posteriormente, inimigos da Igreja.
Suas missões tornaram-se mais perigosas. Em algumas regiões, eram recebidos como salvadores; em outras, eram perseguidos por soldados que os consideravam criminosos.
Houve confrontos.
Houve fugas.
Houve noites em que precisaram dormir sob a chuva porque qualquer hospedaria poderia denunciá-los.
E houve momentos em que Kagetsu se perguntou se continuar valia a pena.
Certa noite, depois de uma perseguição que quase terminou com os dois capturados, Seinaru encontrou o amigo sentado perto de uma fogueira.
Kagetsu estava com o braço enfaixado e uma expressão fechada.
— Está pensando em voltar? — perguntou Seinaru.
— Não.
— Então por que essa cara?
— Porque estou cansado.
Seinaru sentou-se diante dele.
— Eu também.
— Ótimo. Então estamos de acordo.
— Em quê?
— Em que estamos cansados.
Seinaru ficou olhando para ele.
Depois começou a rir.
Kagetsu tentou manter a expressão séria, mas acabou rindo também.
Por alguns segundos, a perseguição, os ferimentos e o medo pareceram distantes.
Quando as risadas cessaram, Seinaru ficou observando as chamas.
— Kagetsu.
— Hm?
— Vamos fazer uma promessa?
O amigo virou a cabeça.
— Que tipo de promessa?
Seinaru demorou alguns instantes, procurando as palavras.
— Nunca enfrentar nossos problemas sozinhos. Sempre lembrar que temos um ao outro.
Kagetsu não respondeu imediatamente.
A fogueira estalou entre eles.
— Mesmo quando um de nós fizer alguma coisa idiota? — perguntou.
— Principalmente quando você fizer alguma coisa idiota.
— Ei!
Seinaru sorriu.
— Estou falando sério.
Kagetsu observou o amigo.
A expressão de Seinaru não tinha nada de grandioso. Não havia solenidade, nem a expectativa de que aquele momento mudaria o destino de ambos.
Era apenas um garoto cansado, sentado diante de uma fogueira, oferecendo ao amigo a certeza de que ele não precisaria carregar tudo sozinho.
Kagetsu baixou os olhos.
Durante anos, acreditara que ser o mais velho significava não poder desabar. Que proteger alguém era o mesmo que nunca precisar de proteção. Que, se demonstrasse fraqueza, as pessoas que dependiam dele acabariam perdendo tudo.
Seinaru nunca lhe prometera que o mundo seria justo.
Nunca prometera que conseguiria salvá-lo de todos os perigos.
Prometera apenas que estaria ao seu lado.
E, para Kagetsu, aquilo era muito mais valioso.
Ele estendeu a mão.
— Está bem.
Seinaru segurou-a.
— Está bem?
Kagetsu apertou a mão do amigo.
— Nunca vamos enfrentar nossos problemas sozinhos. Sempre vamos lembrar que temos um ao outro.
Seinaru sorriu.
— Fechado.
Os dois soltaram as mãos.
Kagetsu voltou a olhar para a fogueira.
— Só tem uma coisa.
— O quê?
— Se você morrer antes de mim, vou ficar muito irritado.
Seinaru ergueu uma sobrancelha.
— Essa é sua maior preocupação?
— É. Você me deve dinheiro.
— Eu nunca pedi dinheiro emprestado.
— Ainda.
Seinaru balançou a cabeça.
— Você é impossível.
Kagetsu sorriu.
E, naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, dormiu sem pensar que precisava enfrentar o dia seguinte sozinho.