Capítulo 19 - A Mesa Mais Disputada do Refeitório
06 de Abril – 12:33
A hora do almoço chegou, e o refeitório do Colégio Takemori fervilhava com a energia de centenas de estudantes famintos. Itsuki e Yutaro conseguiram uma mesa em um canto, um pequeno oásis de tranquilidade em meio ao mar de conversas altas. Como de costume, a bandeja de Itsuki estava lotada com o especial do dia – um katsudon generoso –, enquanto a de Yutaro era um modelo de nutrição equilibrada.
Eles comiam em um silêncio confortável, discutindo a última jogada da partida de shogi da noite anterior.
"Se você tivesse avançado o Lanceiro em vez do Bispo...", dizia Yutaro, gesticulando com seus hashis.
"Eu teria caído na sua armadilha de fortaleza. Era óbvio", retrucou Itsuki, antes de dar uma grande mordida em seu katsudon.
Foi nesse momento que uma bandeja foi colocada na mesa com um baque suave. Os dois ergueram os olhos.
Akari Tsukino sorriu para eles. "Posso me sentar aqui? As outras mesas estão muito barulhentas."
Antes que eles pudessem responder, ela já estava sentada ao lado de Yutaro, que quase engasgou com seu chá.
A reação no refeitório foi instantânea e sísmica. As conversas diminuíram. Cabeças se viraram. Dezenas de pares de olhos se arregalaram, fixos naquela mesa no canto.
Akari Tsukino. A bela e popular aluna transferida do terceiro ano. A garota que todos os presidentes dos clubes esportivos estavam tentando recrutar. Sentada. Voluntariamente. Com Yutaro Endou, o nerd tímido, e Itsuki Takeda, o gordinho preguiçoso e problemático.
A cena desafiava todas as leis não escritas da hierarquia social do ensino médio. Era como ver um cisne decidir andar com dois pardais. Os sussurros começaram imediatamente.
"O que ela está fazendo?" "É sério que ela anda com eles?" "Que desperdício..."
Akari ignorou completamente o choque coletivo, agindo como se fosse a coisa mais normal do mundo.
"Então, sobre o que estavam falando?", perguntou ela, pegando seus hashis.
"Shogi", respondeu Yutaro, a voz um pouco trêmula pela proximidade dela e pela atenção que estavam recebendo.
"Ah, claro. O presidente aqui me deu uma bela lição ontem", disse Akari, lançando um olhar divertido para Itsuki. "Me acusou de estar 'em uma missão'."
Itsuki apenas deu de ombros. "Se o sapato serve..."
A conversa deles foi interrompida por outro baque de bandeja na mesa, desta vez mais alto e agressivo.
Ayaka Amamiya estava parada ali, o rosto uma máscara de determinação teimosa.
"Com licença", disse ela, e antes que alguém pudesse protestar, ela se espremeu no banco ao lado de Itsuki, criando uma situação bizarramente simétrica: Yutaro no meio de Akari e Itsuki, e Itsuki no meio de Yutaro e Ayaka.
O queixo de Yutaro caiu. Se a cena anterior havia quebrado as regras, esta as havia pulverizado.
"O que você está fazendo, Amamiya?", perguntou Itsuki, a voz cansada, como a de um homem que só queria comer seu almoço em paz.
Ayaka o fuzilou com o olhar, depois olhou com desdém para Akari, e de volta para ele.
"Ué", retrucou ela, a voz alta e desafiadora. "Se ela pode sentar aqui, eu também posso. Ou este lugar agora tem algum tipo de clube exclusivo para esquisitos?"
Itsuki olhou bem para ela, “aqui Amamiya? tem certeza? Meu Deus!”.
A tensão na mesa era tão espessa que poderia ser cortada com uma faca. O refeitório inteiro agora os observava em silêncio absoluto. A mesa mais improvável do Colégio Takemori havia acabado de se formar, e ninguém, muito menos os quatro sentados nela, sabia o que aconteceria a seguir.
A declaração de guerra de Ayaka pairou sobre a mesa. Sua lógica era teimosa, mas, de certa forma, irrefutável. Yutaro parecia querer afundar em sua cadeira. Itsuki apenas soltou um suspiro de quem aceita seu destino trágico de nunca ter um almoço tranquilo.
Foi Akari quem quebrou o silêncio. Ela pousou os hashis, um sorriso brilhante e perigosamente inocente no rosto, e olhou para Ayaka com a cabeça inclinada.
"Ah, entendi", disse ela, a voz doce como mel. "Você sentou aqui com tanta determinação que eu achei que talvez você fosse a namorada de um deles."
Yutaro, que estava prestes a tomar um gole de seu chá, engasgou violentamente.
Akari continuou, o olhar passando de Itsuki para Yutaro e de volta para Ayaka. "Me diga, de qual dos dois você é namorada? Do presidente ou do vice-presidente? Só para eu saber a dinâmica da mesa."
Itsuki completou derrotando de vez Ayaka. ”Eu sabia, você é mesmo minha admiradora Amamiya!”
O rosto de Ayaka, que já estava corado de raiva, passou por vários tons de vermelho até chegar a um tom quase roxo.
"O-O-O QUÊ?! ADMIRADORA! NA-NAMORADA?!", ela gaguejou, a voz falhando em um misto de pânico e fúria. "N-NÃO SEJAM RIDÍCULOS! EU NUNCA... EU SÓ... DE ONDE VOCÊ TIROU UMA IDEIA TÃO IDIOTA?!"
Ela gesticulava, completamente desconcertada, a imagem de valentona durona se desfazendo em tempo real na frente de todo o refeitório.
Itsuki, que até então observava a cena com um espanto genuíno, deu uma mordida calma em seu katsudon, mastigou, engoliu e então se virou para Akari, como se fosse explicar um conceito científico simples.
"Eu acho que ela gosta de mim, já tinha falado isso", disse ele.
A frase foi dita em um tom de voz perfeitamente normal, factual e sem qualquer traço de emoção. Como se ele estivesse comentando sobre o tempo.
O refeitório, que já estava silencioso, pareceu prender a respiração coletivamente. Yutaro olhou para Itsuki com os olhos arregalados, em puro terror e admiração. Akari ergueu as sobrancelhas, um sorriso de genuína diversão se espalhando por seu rosto.
Itsuki pegou outra porção de arroz, impassível. "A análise comportamental dela, incluindo a vigilância constante, as provocações como pretexto para interação e a reação fisiológica a perguntas diretas, indica uma probabilidade de 92% de sentimentos românticos não resolvidos." Ele deu de ombros. "É a única hipótese que explica suas ações inconsistentes."
Aquilo foi o golpe final.
Ayaka se levantou com tanta violência que sua cadeira arrastou no chão com um ruído agudo. O rosto dela era uma supernova de humilhação e fúria.
"EU ODEIO VOCÊS!", ela gritou, a voz ecoando pelo refeitório silencioso. "TODOS VOCÊS!"
Ela agarrou sua bandeja e saiu marchando, quase correndo, para fora do refeitório, deixando para trás um rastro de choque e uma mesa que havia se tornado o epicentro de todo o drama da escola.
O silêncio durou mais um segundo antes de Akari soltar uma gargalhada alta e cristalina.
"Presidente", disse ela, enxugando uma lágrima de riso. "Você é inacreditável."
Itsuki apenas deu outra mordida em seu almoço. "Eu só apresentei os fatos", disse ele. "Não é minha culpa se a verdade é constrangedora."
Ele olhou para seu katsudon agora meio frio, depois para a cadeira vazia onde Ayaka estava sentada, e soltou o mais profundo e cansado dos suspiros.
"E eu...", murmurou ele para ninguém em particular, enquanto pegava mais um pouco de arroz. "...só queria almoçar tranquilo."