Capítulo 21 - A Carona
06 de Abril – 19:38
A sexta-feira chegou ao fim, e com ela, a semana de castigo de Itsuki. Ele deu a última varrida no chão do ginásio, o sentimento de alívio se misturando ao cansaço familiar. Ao trancar o depósito de materiais pela última vez, ele se pegou, quase por reflexo, olhando pela janela em direção ao prédio principal.
Ele esperava ver a mesma cena das últimas noites: a luz solitária da sala da diretora acesa contra a escuridão.
Mas desta vez, a janela estava escura. O prédio inteiro estava mergulhado em um breu impenetrável.
Um sentimento de... vitória? Talvez. Ou talvez apenas alívio. Itsuki deu um pequeno sorriso. Parece que suas perguntas sobre o clã Kurokawa e o "tornozelo esquecido" finalmente a fizeram recuar. Ela percebeu que sua rotina de "café da diretora dedicada" havia se tornado previsível demais, suspeita demais.
Finalmente um pouco de paz, pensou ele. Ela deve ter ido para casa mais cedo para descansar o tornozelo que se curou milagrosamente.
Ele saiu do ginásio e caminhou sem pressa pelo pátio silencioso em direção ao portão principal da escola, ansioso para chegar em casa, tomar um banho e talvez jogar uma partida de shogi online.
Mas a paz, ele deveria saber, era um luxo que não teria tão cedo.
Quando ele se aproximou do grande portão de metal, uma figura se moveu nas sombras perto da guarita do guarda. Uma silhueta esguia, encostada em um sedan preto e discreto que definitivamente não pertencia a nenhum funcionário que ele conhecia.
"Takeda-san."
A voz de Reina Kurokawa cortou a noite.
Itsuki parou, a surpresa o atingiu em cheio. Ele a encarou, completamente pego de guarda baixa. O que ela estava fazendo ali?
"Parabéns por completar sua semana de punição, e a fez com grande mérito!", disse ela, com a voz calma, mas com um tom que ele não conseguiu decifrar. "Espero que tenha sido uma lição produtiva."
"Diretora", respondeu Itsuki, recuperando a compostura. "Pensei que você já tinha ido para casa. Sua sala estava apagada. Você como sempre é um exemplo de disciplina"
"Eu estava apenas finalizando algumas coisas na sala dos professores", disse ela suavemente, sem sequer piscar. "E como meu tornozelo ainda está um pouco dolorido, decidi vir de carro hoje." Ela gesticulou com a cabeça para o sedan preto. "É mais prático."
Ela o encarou, um pequeno sorriso nos lábios. "E já que vamos na mesma direção, seria um desperdício de gasolina e de tempo não oferecer uma carona ao meu aluno mais... proeminente. Não acha?"
Ela caminhou até a porta do passageiro e a abriu para ele.
"Entre. Por favor"
Não foi um convite. Foi uma ordem disfarçada de gentileza.
Itsuki ficou parado, a mente a mil. O café era uma coisa. Era um encontro rápido, em território neutro. Mas isso... entrar no carro dela, um espaço fechado e particular... era um nível totalmente diferente do jogo. Recusar seria o mesmo que admitir sua desconfiança. Aceitar seria entrar voluntariamente na toca do leão.
Ele olhou para o interior escuro do carro, depois para os olhos negros de Reina, que brilhavam sob a luz fraca do poste.
Ele sabia que era uma armadilha. Um teste. Uma jogada de poder.
E ele sabia, com a mesma certeza, que não tinha outra escolha a não ser aceitar o desafio.