Capítulo 23 - Chá e Sombras
06 de Abril – 20:19
O interior do dojo principal era ainda mais impressionante que o exterior. O ar cheirava a madeira de cedro antiga, incenso e ao ozônio de uma tempestade que se aproximava. Eles se sentaram em almofadas na varanda que dava para um jardim de pedras perfeitamente rastelado. A única luz vinha de lanternas de pedra, e o único som era o borbulhar de uma pequena fonte de bambu.
Genji Takeda serviu o chá com movimentos lentos e deliberados. Ele ofereceu a primeira xícara para Reina, a convidada de honra. Itsuki permaneceu em silêncio, observando a interação como se fosse uma partida de shogi de alto nível.
"Espero que o chá esteja do seu agrado, Kurokawa-dono", disse Genji, usando um honorífico arcaico e formal que imediatamente elevou o nível da conversa.
"Está delicioso, Takeda-sama", respondeu ela, a voz igualmente formal. "Agradeço a hospitalidade, sou apaixonada pela história do Japão, então ser recebida aqui é muito gratificante."
Eles beberam em silêncio por um momento. Então, Genji fez seu primeiro movimento.
"Kurokawa...", disse ele, pensativo, como se estivesse se lembrando de um sonho distante. "Lembro-me de ter ouvido esse nome há muito tempo. Associado a uma família formidável da região de Iga. Eram conhecidos por suas... táticas não convencionais."
Ele não disse a palavra "ninja". Não precisava. A implicação era clara como cristal.
Reina tomou um gole de chá, o rosto uma máscara de serenidade. Ela sustentou o olhar do velho mestre sem vacilar.
"Ah, sim. Também já estudei algo sobre eles", disse ela, usando um apelido histórico para o clã. "Li sobre eles em alguns pergaminhos e documentos antigos. Uma coincidência de nomes fascinantes, não acha?" Ela deu o mesmo sorriso modesto que havia dado a Itsuki. "Como eu disse ao seu neto, minha família é bem mais humilde e vem do interior ,de uma pequena vila a sudeste de Wakayama. Não temos nenhuma ligação com figuras tão... sombrias da nossa história.
A mentira foi executada com uma perfeição impecável. Itsuki observou seu avô. O velho mestre não demonstrou nenhuma reação, mas Itsuki, que o conhecia melhor do que ninguém, viu. Um brilho fugaz de respeito relutante nos olhos de Genji. Ele não acreditou nela por um segundo, mas aceitou a jogada dela no tabuleiro.
"Entendo", disse Genji, com um leve aceno de cabeça. "As voltas que a história dá podem ser, de fato, muito curiosas."
Agora era a vez de Reina. Ela mudou o foco, virando o ataque.
"Mas falar de clãs obscuros é menos interessante", disse ela, o olhar se enchendo de admiração ensaiada. "A história do seu clã, Takeda-sama, é a matéria das lendas. As grandes batalhas em Kawanakajima, a bravura de seus guerreiros... É uma verdadeira honra estar na presença de alguém que carrega tal legado."
Era uma bajulação habilidosa, um teste para ver se o orgulho do velho mestre o faria revelar algo.
Mas Genji Takeda era um mestre em mais do que apenas jujutsu. Ele desviou do golpe com a mesma facilidade com que desviaria de um soco.
Ele soltou uma risada baixa e cansada. "A senhorita é muito gentil. Mas isso é o passado. As lendas pertencem aos livros e aos museus." Ele olhou para suas próprias mãos, enrugadas pela idade. "Hoje, sou apenas um velho que ensina um neto teimoso a não perder o equilíbrio no tatame. Apenas um mestre de artes marciais, nada mais."
A resposta foi o espelho perfeito. Uma negação humilde que dizia claramente: Eu não vou revelar os segredos do meu clã, assim como você não vai revelar os do seu.
Itsuki observou a troca, fascinado. Aquilo não era uma conversa. Era um duelo. Uma demonstração de poder e controle, onde cada palavra era uma finta e cada silêncio, uma guarda. Ele estava na presença de dois mestres, cada um governante de seu próprio mundo oculto. E ele estava bem no meio.
A conversa terminou ali. Um xeque-mate duplo, onde ambos os reis permaneceram em seus lugares, intocados. Reina se levantou, fazendo uma reverência impecável para o velho mestre.
"O chá estava esplêndido, Takeda-sama. Agradeço imensamente por sua hospitalidade e pela conversa agradável", disse ela, cada palavra polida e perfeita, “mas preciso ir agora”.
"A noite é sempre mais interessante com uma boa companhia", respondeu Genji, os olhos enrugados em um sorriso que não revelava nada. "Itsuki, acompanhe nossa convidada até o portão."
"Sim, senhor", disse Itsuki.
Ele e Reina caminharam em silêncio pelo jardim de pedras, os sapatos dela fazendo um leve ruído no cascalho. A tensão da sala de chá ainda pairava entre eles, mas era uma tensão diferente agora, uma de reconhecimento mútuo.