Uma loucura! Era assim que o castelo se encontrava naquele dia, afinal, teria um jantar importantíssimo naquela noite. Yellow, por outro lado, estava em sua cama, olhando alguns vasos de flores. O garoto não estava nada animado para o jantar daquela noite. Ao sair para tomar seu café pela manhã, viu a animação e os comentários das criadas; isso o deixou muito irritado, sua única opção foi se trancar em seus aposentos.
Agora, como o garoto iria fugir daquela situação? naquele exato momento, foi como se uma lâmpada acendesse em cima de sua cabeça. Eles não iriam casar um príncipe se não houvesse um príncipe.
Ao pôr-do-sol desceu as escadas o mais silencioso possível, foi até a cozinha e roubou algumas peças de roupa para se disfarçar de camponês. Em uma cesta improvisada, separou alguns mantimentos para sobreviver em sua caminhada. Subiu para seus aposentos e escondeu o que havia furtado. Ele iria esperar anoitecer para colocar seu plano em ação.
A lua iluminava um pequeno lago que havia em frente ao palácio, o qual refletia um garoto fugindo de sua vida... Ah, se os lagos falassem. O garoto não sabia aonde estava indo, estava apenas se deixando guiar pela lua minguante que brilhava no céu.
As estrelas iluminavam a noite, o vento forte batia. Ele nunca tivera essa sensação na vida. Pois um príncipe nunca deveria estar ali. Não naquelas circunstâncias.
A essa hora no castelo estava o maior tumulto, os pais do garoto estavam à sua procura, afinal, o futuro rei não podia simplesmente sumir assim.
Yellow já estava cansado. Já havia chegado ao bosque e não aguentava mais andar; seus pés estavam calejados. Nesse momento, sentiu falta do conforto do palácio e de seus criados lhe servindo uma sopa quentinha.
Ah, Yellow… vale mesmo a pena noites de frio e solidão para provar que não é apenas um garoto mimado da rainha?
O bosque parecia diferente à noite. Durante o dia, visto das torres do castelo, era apenas uma mancha verde no horizonte. Agora, cercado por árvores altas e sombras que se moviam com o vento, Yellow sentia-se pequeno. Vulnerável. Um galho estalou atrás dele e seu coração quase saltou pela boca.
— Quem está aí? — sussurrou, segurando com força a pequena faca que havia roubado da cozinha.
Silêncio. O vento soprou outra vez. Yellow respirou fundo, devia ser apenas um animal ou ele queria acreditar que fosse.Continuou andando até que avistou uma pequena clareira. No centro, uma fogueira quase apagada ainda soltava fumaça, alguém havia estado ali e foi recente
Ele deu um passo atrás mas já era tarde demais.
— Se continuar pisando desse jeito, vai acordar até os mortos.
A voz veio das sombras. Yellow virou-se bruscamente, apontando a faca à frente.
Um rapaz saiu detrás de uma árvore, mãos erguidas em falsa rendição. As roupas eram simples, mas havia algo nele que não combinava com um camponês comum. O jeito de ficar de pé. O olhar seguro demais. Os olhos escuros como a noite que refletia o brilho da lua.
— Calma, camponês — disse o estranho, analisando-o de cima a baixo. — Você segura uma faca como quem nunca cortou nem pão — Yellow engoliu seco.
— E você fala demais para quem está sozinho no meio do bosque
— Justo. — O rapaz riu baixo.
Houve um breve silêncio, pesado.
— Está fugindo de alguém? — perguntou o desconhecido.
Yellow hesitou. Não podia revelar quem era. Não ali. Não para um estranho.
— Estou… viajando.
— No meio da noite? Sem cavalo? Com sapatos que claramente não foram feitos para longas caminhadas?
Yellow olhou para os próprios pés e se praguejou mentalmente, o estranho aproximou-se um pouco mais da luz da fogueira. Agora Yellow podia vê-lo melhor. Cabelos escuros levemente bagunçados, traços marcantes, um leve cheiro de bebida misturado à fumaça.
Espera. Cheiro de bebida?
— Você está bêbado? — perguntou Yellow, estreitando os olhos.
— Não mais — respondeu ele, com um meio sorriso. — Acho que a caminhada ajudou.
Aquela voz…Yellow sentiu algo estranho no peito. Uma sensação que não soube nomear.
— Qual é o seu nome? — perguntou o estranho e Yellow pensou rápido.
— Lyn.
Não podia dizer seu verdadeiro nome.
O rapaz inclinou a cabeça.
— Lyn? Só isso?
— E qual é o seu? — devolveu, desconfiado.
O silêncio pairou por um segundo longo demais. O fogo crepitava entre eles, lançando sombras dançantes sobre os troncos das árvores. O rapaz hesitou, por um instante quase imperceptível, Então um sorriso torto surgiu em seus lábios.
— Pode me chamar de… B.
Apenas isso? Só uma letra?.
Yellow franziu levemente o cenho.
— Só isso? B?
— Prefere que eu invente algo mais dramático? — ele arqueou uma sobrancelha. — Espadachim sombrio? Lobo da meia-noite?
Apesar da tensão, Yellow quase sorriu.
— B já está bom.
Black apoiou o braço no joelho, inclinando-se um pouco para frente, estudando-o com curiosidade descarada.
— Então, Lyn… vai ficar aí escondido nesse capuz a noite inteira?
Yellow enrijeceu.
— Isso não é da sua conta.
— Talvez não — B deu de ombros. — Mas está ventando. E você parece que vai tropeçar na própria sombra se continuar sem enxergar direito.
Como se o vento tivesse decidido participar da conversa, uma rajada atravessou a clareira. O capuz escorregou,Yellow até tentou segurá-lo mas era tarde demais. O tecido caiu para trás. Os fios dourados se espalharam com o vento, capturando a luz do fogo. Não era um loiro comum. Era claro, quase etéreo. As chamas refletiam nos fios como se eles próprios emitissem luz.
B ficou imóvel e os olhos escuros acompanharam cada movimento daqueles cabelos dançando ao vento. Ele já tinha visto ouro. Já tinha visto moedas, joias, campos secos refletindo o sol.
Mas aquilo… aquilo parecia diferente.
Por um segundo longo demais, ele se perguntou como aqueles fios ficariam sob a luz do dia. Se o sol os transformaria em puro brilho. Se os raios se prenderiam ali como se tivessem encontrado seu lugar, ele engoliu seco.
— Você… — começou, mas a frase morreu.
Yellow percebeu o olhar fixo e seu rosto esquentou instantaneamente.
— Vai ficar me encarando? — perguntou, tentando manter firmeza.
B piscou, como se voltasse ao próprio corpo.
— Desculpa — murmurou, mas havia algo diferente em sua voz agora. Mais baixo. — É que eu não esperava.
— Não esperava o quê?
— Que alguém fugindo parecesse… assim.
— Assim...?
B sustentou o olhar dele.
— Como se tivesse sido feito para a luz.
O coração de Yellow falhou uma batida. O vento diminuiu. O fogo estalou. Yellow desviou os olhos primeiro.
— Você fala demais — murmurou.
— Só quando fico impressionado.
O silêncio que se seguiu não era mais desconfortável.
Nenhum dos dois sabia quem o outro realmente era. Nenhum dos dois sabia que pertenciam a reinos que estavam prestes a se unir à força. Mas ali, naquela clareira, eram apenas Lyn e B.
Dois nomes incompletos. E algo começando sem que percebessem.
O vento ficou mais frio conforme a noite avançava. A fogueira já não era alta como antes. Restavam brasas vivas, pulsando em vermelho suave. O bosque parecia mais silencioso agora quase atento demais.
B foi o primeiro a perceber.
Seu olhar se deslocou para além da clareira, atento. Como alguém acostumado a ouvir perigos antes que eles aparecessem.
— Eu preciso ir — disse, de repente percebendo que o dia iria chegar em breve.
Yellow ergueu os olhos rápido demais.
— Ir?
B se levantou, apagando o resto da fogueira com o pé.
— Fiquei tempo demais parado. Não é… seguro.
Seguro.
A palavra ficou suspensa entre eles.
— Está fugindo de algo perigoso? — perguntou Yellow, tentando soar casual.
B soltou um meio sorriso.
— Talvez eu seja o perigo.
Yellow revirou os olhos, mas o peito apertou. Ele não queria que aquela conversa acabasse. Não queria voltar a ficar sozinho no meio daquela imensidão escura.
— Você vai simplesmente desaparecer? — perguntou, mais baixo.
B o observou por alguns segundos. Desta vez, sem ironia.
— Não, eu quero te ver novamente.
Ele deu um passo mais perto. O suficiente para que Yellow sentisse o calor dele mesmo com o frio da madrugada.
— Daqui a duas semanas — disse B — haverá lua cheia.
Yellow acompanhou o olhar dele até o céu, onde a lua minguante ainda reinava pequena e distante.
— E…?
— Me encontre aqui — continuou B. — Na mesma clareira.
Yellow hesitou. Aquilo era imprudente, perigoso e impulsivo.
— E se eu não vier? — desafiou.
B inclinou a cabeça, os olhos escuros brilhando à luz fraca das brasas.
— Você vem, porque eu preciso te ver novamente.
O coração de Yellow acelerou traidoramente e B deu um passo atrás, já se afastando.
— Você já tem pra onde ir? o dia já vai chegar
— Sei — Mentiu
O silêncio voltou e Black olhou nos olhos castanhos de Yellow novamente.
— Lua cheia — repetiu Yellow, quase para si mesmo.
— Lua cheia — confirmou B, em seguida deu as costas e começou a caminhar para dentro das sombras do bosque.
— B — chamou Yellow antes que ele sumisse por completo.
O rapaz parou, sem se virar.
— Não desapareça.
Houve um pequeno silêncio.
— Você também não, Lyn.
E então ele sumiu entre as árvores.
Yellow ficou parado por longos segundos, olhando para o lugar onde ele estivera, o bosque parecia maior agora, mas vazio.
O frio voltou a morder sua pele quando o calor da presença de B desapareceu por completo.
Ele respirou fundo e viu os primeiros raios de sol surgirem.