Se existia uma coisa que Black fazia bem, era beber como se o amanhã fosse um problema distante. Agora ele não bebia por diversão, mas por frustração, por culpa.
A mesa estava cheia. Copos de rum se amontoavam como troféus de uma guerra mal planejada, e as risadas ecoavam altas demais para uma taberna que já tinha ouvido histórias piores. Os amigos de Black falavam todos ao mesmo tempo — apostas sobre corridas, piadas internas, provocações que só funcionavam depois da terceira dose. O Black que ficara meses sem bebidas e apostas, já não existia mais. Não naquela noite.
— Você já bebeu demais — disse capitão da guarda real, empurrando o copo para longe.
Black puxou de volta.
— Você já falou isso.
— O príncipe sabe o estado em que o reino se encontra. É imprudente tomar tal atitude
Ele virou o conteúdo de uma vez, sentindo o álcool queimar a garganta e dissolver qualquer traço de bom senso restante. Foi então que ele notou a outra mesa.
Ali, o clima era diferente. Mais relaxado. Mais focado e sem amigos para lhe dizer o que fazer. Dados rolavam, moedas tilintavam, mãos batiam na madeira em comemoração ou frustração. Um pequeno círculo de pessoas jogava, perdia, ganhava e riam.
E entre elas, uma mulher elegante. Sentada com postura relaxada demais para quem estava cercada de apostas, a mulher observava mais do que jogava. O capuz escuro escondia parte do rosto, mas os olhos nunca saíam do jogo.
Black sorriu e decidiu que queria se juntar aquele grupo.
— Eu volto já — anunciou, levantando-se com um leve desequilíbrio.
— Black, não — disse o guarda real atrás dele. — Não começa—
Mas ele já estava caminhando até a mesa ao lado.
— Posso entrar? — perguntou, apoiando-se na cadeira vazia.
Alguns jogadores se entreolharam. A mulher foi a única que falou.
— Você tem dinheiro?
Black riu, alto. Que tipo de pergunta era aquela?
— Sempre.
Ele puxou do cinto uma trouxinha de moedas de ouro e a jogou sobre a mesa. O som foi suficiente para arrancar alguns olhares interessados.
— Vamos lá — disse ele animado. — O que estamos jogando?
Rodada após rodada, o rum misturava-se à adrenalina. Black ria quando ganhava, xingava quando perdia, apostava mais do que tinha. A trouxinha foi ficando leve. Leve demais até que ficou vazia.
O silêncio caiu pesado quando a última moeda rolou pela mesa.
A mulher recolheu os dados com calma.
— Acabou — disse ela. — Vá embora.
Black piscou, confuso.
— O que disse?
— Você perdeu tudo garoto — respondeu, sem levantar a voz. — Não tem mais o que apostar.
Ele sentiu o calor subir pelo rosto. Não era só o álcool. Era o orgulho.
— Eu não acabei — retrucou. — Posso continuar.
Ela o olhou pela primeira vez de verdade. E havia algo ali que fez o estômago de Black se revirar.
— Com o quê? Suas moedas de ouro acabaram, — perguntou.
Black abriu os braços, teatral gargalhando.
— Eu posso te dá todo o ouro que quiser, não sabe quem eu sou
Ela esperou.
— Eu sou um príncipe — disse ele, elevando a voz. — Posso pagar depois. Posso te dar muito além do ouro. Posso te dar terras, favores. O que você quiser.
— Você tem três rodadas para ganhar — Black abriu um sorriso largo.
— Eu vou recuperar todas as moedas de ouro que eu perdi em apenas uma rodada.
— Não vai me perguntar o que eu quero em troca, se você pedir?
— Não tenho interesse, seja o que for, eu posso dar
Algumas pessoas na mesa se afastaram discretamente. A mulher inclinou a cabeça, avaliando-o como se ele fosse decepcionante.
Primeira rodada perdida
Segunda rodada perdida
Na terceira black estava muito confiante. Sentia que a sorte estava ao seu favor.
— Então é isso — disse ela. — Você perdeu
— O que você quer? — perguntou ele, triunfante. — Ouro? Poder? Um nome importante?
Ela se levantou lentamente.
— Eu não quero seu ouro — disse. — Nem seu poder. Nem sua riqueza.Ela se aproximou o suficiente para que só ele ouvisse.
— Vou tirar sua humanidade e sua liberdade.
O sorriso de Black vacilou.
— O quê?
— Quero que você aprenda — continuou ela — que existem coisas das quais nem um príncipe pode escapar.
Antes que ele pudesse reagir, ela tocou seu peito com dois dedos. As palavras que ela murmurou não pertenciam a nenhuma língua que ele já ouvira antes. O ar ficou pesado. O fogo das velas tremulou. Ela se afastou.
— Quando o sol se for amanhã — disse, já voltando para a sombra — o karma virá cobrar.
Black caiu na cadeira, o coração acelerado.
— Ei espera, quem é você?
Mas ela já havia desaparecido.
Os amigos o encontraram minutos depois fora da taberna, pálido demais para alguém tão bêbado.
— Você tá bem? — perguntou um deles.
Black forçou uma risada.
— Claro. Só… só uma mulher estranha.
Mas, no fundo, ele sabia que algo havia acontecido. E quando a noite seguinte chegasse, ele saberia as consequências das suas atitudes.
Black saiu pela floresta tropeçando nos próprios passos. O ar frio da noite bateu em seu rosto como um tapa necessário, mas insuficiente para afastar completamente o torpor do álcool. O cheiro de rum ainda grudava em suas roupas, misturado à fumaça e ao suor. Ele passou a mão pelo cabelo, rindo sozinho.
Ótima ideia, pensou. Beber como se não houvesse amanhã. E fazer novas apostas
A floresta o engoliu pouco a pouco. O silêncio não era vazio, era atento. Black conhecia aquele bosque melhor do que gostaria de admitir. Já tinha caminhado por ali outras vezes, fugindo de noites que prometiam mais do que entregavam.
Ali havia uma fogueira acesa, algum viajante passou por aqui. Algum tempo depois ele ouviu passos.
Não pesados. Não decididos. Passos inseguros.
Black parou imediatamente.
Mau sinal.
A mão foi instintivamente até o punhal, mas ele não o puxou. Em vez disso, observou. Entre as sombras, uma silhueta menor surgia, claramente tentando não fazer barulho e falhando miseravelmente.
Não é um bandido, concluiu rápido. Nem caçador.
Black deu alguns passos para trás tentando ir embora despercebido. Quando a voz saiu da garganta do estranho, tensa, quase um sussurro
— Quem está aí?
Um garoto.
Ele suspirou e saiu das sombras antes que a situação piorasse.
— Se continuar pisando desse jeito, vai acordar até os mortos.
O garoto virou-se num pulo com faca erguida. Black levantou as mãos em falsa rendição, divertido apesar de tudo.
— Calma, camponês — disse, avaliando-o com rapidez e guardando seu punhal na cintura. — Você segura uma faca como quem nunca cortou nem pão.
O garoto não respondeu de imediato, mas a tensão no corpo denunciava o medo. Ainda assim, havia algo ali uma firmeza improvisada.
— E você fala demais para quem está sozinho no meio do bosque.
Black arqueou uma sobrancelha.
— Justo.
O silêncio caiu entre eles, pesado como a fumaça que subia da fogueira quase apagada na clareira.
— Está fugindo de alguém? — perguntou, direto.
A hesitação foi clara demais.
— Estou apenas viajando.
Mentiroso, pensou Black. Mas não julgou. Todo mundo fugia de alguma coisa. Ele mesmo estava ali por ter fugido de suas responsabilidades.
— No meio da noite? — continuou. — Sem cavalo? Com sapatos que não foram feitos pra isso?
O garoto seguiu o olhar dele até os próprios pés e se amaldiçoou em silêncio. Black se aproximou um pouco mais da luz da fogueira e então sentiu cheiro de pão e de tecido limpo.
— Você está bêbado? — perguntou o garoto, desconfiado.
Black soltou um meio sorriso.
— Não mais. Acho que a caminhada ajudou. — Não só a caminhada. O efeito do álcool passou, assim que ele ouviu as palavras daquela mulher.
Uma sensação estranha veio quando os olhos deles se encontraram com mais atenção. Black não soube explicar. Um aperto leve no peito. Curiosidade demais para um estranho.
— Qual é o seu nome? — perguntou, sem pensar muito.
O garoto demorou um segundo a mais do que o normal.
— Lyn.
— Só isso? — provocou.
— E qual é o seu?
Black hesitou. Não gostava de dizer o próprio nome. Nomes carregavam coisas. Expectativas. Problemas. E dizer que era um príncipe já lhe causou problemas demais por hoje.
— Pode me chamar de B.
O cenho franzido do garoto quase o fez sorrir.
— Só isso? B?
— Prefere algo mais dramático? — brincou. — Bruxo sombrio? Lobo da meia-noite?
O quase sorriso que surgiu no rosto de Lyn valeu a provocação.
Black sentou-se, apoiando o braço no joelho, acendendo novamente a fogueira que estava quase se apagando. observando-o com atenção descarada. Havia algo naquele garoto que não combinava com a floresta. Nem com o medo. Nem com a noite.
— Vai ficar escondido nesse capuz a noite inteira? — perguntou.
O vento respondeu antes que Lyn pudesse.
A rajada veio forte, puxando o tecido para trás. Black não teve tempo de se preparar. Os cabelos dourados se espalharam com as faíscas do fogo sob a luz das chamas. Ele congelou.
Isso não é comum. Se sentir desse jeito não é comum
Não era só loiro. Era claro demais. Vivo demais. A luz parecia gostar daquilo, se prendendo nos fios como se tivesse encontrado algo familiar. Black engoliu seco, os pensamentos embaralhando.
Como isso ficaria sob o sol?
— Você… — começou, mas não terminou.
Lyn percebeu o olhar e corou instantaneamente.
— Vai ficar me encarando?
Black piscou, voltando a si.
— Desculpa — murmurou. — Eu não esperava.
— Não esperava o quê?
Black sustentou o olhar, sério agora.
— Que alguém fugindo durante a noite parecesse ser feito apenas para a luz.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso. Elétrico.
Perigoso, pensou Black. Ele não deveria estar ali. Não deveria sentir aquilo, mas quando deu por si, já estava conversando como se aquele encontro fosse inevitável. A noite passou, o frio aumentou e as brasas diminuíram.
Black foi o primeiro a perceber o perigo real, havia passado tempo demais aqui.
— Eu preciso ir — disse, levantando-se.
O olhar de Lyn subiu rápido demais.
— Ir?
— Não é seguro — respondeu, apagando o resto da fogueira com o pé.
Nem pra você. Nem pra mim.
— Está fugindo de algo perigoso? — perguntou Lyn.
Black sorriu de lado.
— Talvez eu seja o perigo garoto.
Mas não para ele. Nunca para ele. Não quando seu coração batia descontroladamente em seu peito.
Quando Lyn perguntou se ele simplesmente iria desaparecer, algo dentro de Black se recusou. Ele não queria ir.
— Não — disse, firme. — Eu quero te ver novamente.
As palavras saíram antes que pudesse segurá-las.
— Daqui a duas semanas haverá lua cheia — continuou. — Me encontre aqui.
O desafio nos olhos de Lyn fez seu coração bater mais rápido do que o rum jamais conseguiu. Ainda mais quando o garoto lhe respondeu em tom de desafio.
— Você vem — disse Black, com certeza demais. — Porque eu preciso te ver novamente. — Não era mentira, precisava olhar naqueles olhos castanhos claros novamente.
Quando se afastou, já nas sombras, ouviu seu nome ser chamado.
— B.
Ele parou, sem se virar.
— Não desapareça.
Por um segundo, Black quase riu da ironia. Ele era quem estava mais ansioso pela lua cheia.
— Você também não, Lyn.
E então seguiu adiante, o coração estranhamente leve.
Sem saber que aquela promessa feita sob brasas e silêncio seria uma das poucas coisas que ainda o manteriam humano quando a noite cobrasse seu preço.
Ao chegar no palácio, se trancou no quarto como de costume. Todos sabiam que após uma noite de diversão, o príncipe se trancava em seu quarto e dormia o dia todo.
Black acordou com dor.
Não uma dor comum, ele sentia o lado direito do seu rosto queimar, parecia que seu peito estava sendo rasgado.
— Droga… — murmurou, passando a mão pelo rosto.
A lembrança da noite anterior veio em fragmentos: o rum, os dados, o riso errado, a mulher.
“Quando o sol se for amanhã, o karma virá cobrar.”
Ele olhou pela janela e o sol já havia ido embora. A ardência foi passando o que fez ele sorrir.
— Bruxa maluca
Ele levantou, mas algo estava diferente. A dor e a ardência explodiu novamente
Black caiu de joelhos, os dedos cravando a terra enquanto o corpo parecia se reconstruir à força. A pele queimava. Os ossos rangiam. Ele sentiu o próprio corpo traí-lo quando conseguiu respirar de novo. Uma pessoa entrou no quarto desesperado. Era Petter se ajoelhando em sua frente.
— Pelos Deuses Black — Petter caiu no chão e se afastou assustado.
— O-oque houve... Petter porque você está me olhando assim?
— O que aconteceu com você?
Sem entender nada, black se levantou e foi ate o espelho que ficava em drente a sua penteadeira. A imagem que viu fez suas pernas perderem as forças, fazendo-o cair no chão novamente. Tocou o rosto e sentiu a textura errada do lado direito, áspera. Tirou suas roupas aos poucos e viu que parte do seu braço esquerdo também estava áspero e com aquela tonalidade verde. Era escuro como um pântano. Em cima do seu coração, em suas coxas, em suas pernas, a parte do meio de sua costa formava uma linha verde que não era reta.
— Isso não é real… — sussurrou, a voz rouca demais. Então lembrou do que ela falou
Vou tirar sua humanidade e sua liberdade.
— Black o que aconteceu com você? — Petter voltou a perguntar, se aproximando.
Black não sabia por onde começar, mas precisava do apoio de alguém e Petter era o único em quem ele podia confiar.