— Você não tá nem aí pra nada, né?
O gato abriu um olho preguiçosamente, e me avaliou em um olhar de desinteresse um tanto quanto ofensivo. Em seguida, voltou ao que estava fazendo. Com a língua, deslizou o pelo do peito, mais devagar, com toda a calma do mundo.
Senti uma ponta de inveja.
Ao terminar, o gato bocejou, deixando à mostra os dentes pequenos e afiados, e se enroscou ali mesmo, como uma bola morna contra o vidro da janela. A cauda se mexeu uma última vez antes de parar.
Decidi acariciá-lo, então me aproximei. Antes que a minha mão pudesse tocá-lo, no entanto, o gato reagiu de forma abrupta. Seus pelos eriçaram ao assumir uma postura defensiva, o que prontamente o fez interpretar meu gesto como uma ameaça em potencial.
— Epa! — Rapidamente recuei. — Nem queria mesmo.
Relaxou gradualmente, mas mantinha um olhar vigilante, como se não estivesse completamente convencido de que eu não representava perigo.
Considerei não forçar a situação e virei as costas, murmurando:
— Por isso que prefiro cachorros…
Logo ele se tornará um querido afilhado exclusivo da família, basta Kate ou minha própria mãe encontrá-lo.
— Calma aí…
Olhando para trás, todavia, notei que o animal havia desaparecido assustadoramente da janela. Minha surpresa foi ainda maior pelo fato de que não havia nenhuma maneira evidente dele descer.
“Como foi que esse bicho subiu até aqui?”
Pus essa dúvida instigante de lado a fim de pegar meu celular na cama para verificar as horas.
[11h34]
— Bem que ela disse.
Não havia tempo a perder porque o horário se esgotava. A situação era urgente, e ainda assim não consegui resistir à necessidade de checar as mensagens, concentrando-me em uma pessoa em particular.
— E-eita… Deu ruim.
A preocupação aumentou imediatamente quando vi suas mensagens, enviadas há duas horas.
“Ooi, bom dia, dorminhoco! ♡”, enviado às 9h12.
“E aí, ainda tá na soneca?”, enviado às 9h22.
“Ah, tá bom, me avisa quando decidir levantar da cama”, enviado às 9h30.
Meu coração estava batendo forte. Por um momento, senti-me culpado por ter demorado tanto para responder.
“E aí, desculpa, acabei dormindo demais (ꏿ﹏ꏿ;)”
“Espero que não esteja bolada com isso”
“Uhm… Tô indo pra escola, aula hoje, tô sem muito tempo. Deixa alguma mensagem depois, tá?”
Embora eu estivesse feliz por ter respondido a tempo, eu tinha apenas 15 minutos até o fechamento dos portões da escola, e o fator rapidez era essencial.
Corri em direção às escadas, no entanto, ao olhar para meu ombro, percebi que havia esquecido algo.
— Minha mochila, caramba!
Cerrando os dentes de frustração, voltei rapidamente para pegá-la.
Talvez meu cérebro estivesse me sabotando, fazendo uma faxina rápida e, acidentalmente, excluindo minhas necessidades básicas. Se essa não fosse a explicação, eu não saberia como lidar com a situação.
— É sério isso? Outra coisa que gostaria de esquecer ou fazer, cérebro?
— Me divertir.
A voz, arrepiante como um presságio sombrio, soou em meus ouvidos, envolvendo minha mente em um calafrio terrível.
O susto, tão inesperado, quase me fez perder o equilíbrio enquanto descia as escadas precipitadamente.
Por pouco evitei uma queda, que poderia ter resultado em um acidente grave, agarrando-me desesperadamente ao corrimão.
— Isso de novo…
Examinei cautelosamente meus arredores, mais perceptivo do que um predador em perigo, sem conseguir identificar o que explicava a voz aterrorizante que ecoava em minha cabeça.
Com passos hesitantes, continuei seguindo em frente, repleto de perguntas sem resposta.
Em direção à sala, Kate estava sentada no sofá, os olhos fixos na tela da televisão
— Isso não tem graça, viu? — disse, enfurecido.
Ela praticava um afundo com elevação de joelho enquanto assistia um vídeo no Youtube de exercícios físicos. Parou quando me ouviu falar.
— Como assim? — perguntou, com a testa franzida.
Desviei o olhar. Eu sabia que era só paranoia.
— Esquece. — murmurei, andando em direção à porta. — Tô saindo.
Esta me observou por um instante, antes de ceder num suspiro.
— Então tá. Só… toma cuidado na rua, ok? Ouvi no noticiário que tem uns caras estranhos rondando por aí.
— Sem problemas. — respondi, sem olhar para trás. — Eu sei me virar.
Falei isso no automático. Era o que todo mundo dizia antes de dar errado, não era?
Com um clique seco, fechei a porta atrás de mim. Um momento de quietude. Em seguida, o mundo.
O ar fresco da manhã tocou meu rosto, como um impacto frio e sujo, um sinal de que o dia havia acordado de mau humor. O vento tinha uma força incomum, um zumbido quase inaudível que deixava a pele em estado de alerta. Porém, eu ignorei e comecei a caminhar.
As ruas estavam pouco movimentadas naquele horário. O sol filtrava-se por entre os prédios, e sua luz pálida se derramava sobre o asfalto. No ar, competiam o cheiro de café recém-passado e a fumaça de escapamento.
Passei pelo açougue da esquina, onde o dono organizava os cortes de carne atrás do vidro embaçado. O cheiro forte escapava para a calçada, excessivamente pesado desde cedo, e se misturava ao asfalto quente e ao café velho que vinha de algum lugar.
Segui em frente até quase trombar com um grupo parado na esquina. Pessoas distribuíram panfletos coloridos, forçando sorrisos no rosto enquanto repetiam slogans com fervor. Bandeiras balançavam presas a cabos improvisados.
— É agora ou nunca! — gritou um homem de boné vermelho, erguendo o punho. — O país precisa ser limpo!
Atravessei no meio deles, tentando não chamar atenção. Uma mulher estendeu um panfleto na minha direção.
— Informação é resistência. — disse, me encarando nos olhos.
O peguei impulsivamente. Não li, mas o dobrei e guardei no bolso.
As capas dos jornais na banca estavam chamativas pelas manchetes veiculadas em tamanho excessivo e em tipografia excessivamente exuberante.
“PAÍS DIVIDIDO ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO.”
“RETÓRICA EXTREMISTA GANHA FORÇA.”
“PRESIDENTE É ACUSADO DE ECOAR IDEOLOGIAS NAZISTAS.”
O vento fazia as folhas balançarem e baterem umas nas outras, semelhante a um jogo de gato e rato, em que cada folha tentava adivinhar qual seria o próximo medo a chegar. Fizeram promessas e acusações.
Só que nada disso não passava de palavras ditas ao vento, sem pensar, que já foram ditas antes mesmo de serem lidas.
Senti o clima mudar enquanto continuava andando. A questão não se resumia à política, era tensão. O excesso de pessoas querendo ser ouvidas e a falta de disposição para escutar.
O país inteiro se prepara para algo, e as pessoas não sabiam o que estava por vir. E eu só tentava chegar à escola sem pensar demais em como tudo aquilo estava perto demais.
Na beira da rua, alguém discutia política em volume alto e gritos de campanha se sobrepunham. Tudo soava como um coro desajustado, insistente e impossível de ignorar.
Quando o sinal abriu, comecei a atravessar a rua com as outras pessoas.
A rua Tremont Street ficava mais barulhenta do que o normal, ou talvez fosse só minha cabeça cansada de absorver tanta coisa ao mesmo tempo.
Meu peito se apertou.
“Só um pouco de silêncio.”
Instintivamente, levei a mão ao bolso da calça à procura do celular. Mas não estava lá. Passei a mão no outro bolso, e, mais uma vez, nada. Meu incômodo se transformou em alerta.
— Não acredito…
Parei no meio da travessia e procurei de novo dentro dos bolsos da mochila.
Um homem esbarrou no meu ombro.
— Anda, moleque.
— Ah, cacete. — resmunguei, sentindo a frustração subir como febre. — Eu juro que coloquei ele aqui…
Suspirei, na tentativa de digerir a irritação, mas ela ficou presa no peito.
Foi então que ouvi o rugido de um motor.
Levantei a cabeça e, por um segundo que pareceu se alongar como uma fita esticada até arrebentar, vi o carro.
Ele vinha rápido. Muito rápido.
O brilho do capô refletiu o sol diretamente nos meus olhos. O carro devia estar a uns oitenta quilômetros por hora. O motorista não teve tempo para frear. Não sobrou tempo para absolutamente nada. Apenas o momento — límpido, cristalino, congelado.
— Merda…
O meu corpo respondeu antes que a minha mente pudesse compreender. O braço se elevou, com a palma aberta, como se isso pudesse deter algo.
E deteve.
Minha mão tocou o capô, e o som que veio depois foi um estrondo surdo, como um trovão abafado debaixo d’água. O carro girou, rodopiou no ar feito um brinquedo de plástico, antes de cair com um impacto seco a alguns metros de distância.
Ficou ali, tombado na pista. O motor roncou uma última vez antes de cuspir uma nuvem espessa de fumaça cinzenta, subindo pesada até se perder no azul claro do céu.
Eu não me mexi.
“Mas o que…?”
Todo o entorno ficou em polvorosa.
— Você viu isso?!
— Aquilo… Aquilo voou!
— Alguém chama a polícia!
— Não chega perto dele!
Senti dezenas de olhos cravados em mim. Alguns estavam arregalados de medo, enquanto outros estavam em estado de puro choque.
Teve quem retrocedesse ao sentir o cheiro inebriante do perigo. Algumas pessoas levantaram os celulares, com as mãos tremendo, para filmar.
Meu coração ainda batia na garganta. Fiquei ali, a mão ainda suspensa, como se segurasse o fantasma de alguma coisa que não conseguia entender.
Com sirenes que cortavam o ar aceleradamente, a polícia chegara em seguida.
Eu, ainda assim, estava atônito e incapaz de entender o que havia acontecido, especialmente à luz da energia enigmática que interveio por meu intermédio.
As portas dos carros da polícia se abriram em sequência Três, quatro, cinco oficiais surgiram de trás das viaturas com armas em punho.
— Mãos à vista! Agora! — bradou um dos policiais, a voz ampliada por um megafone.
Outros se posicionaram em formação, joelhos semi-flexionados, os dedos firmes no gatilho. Um segundo policial, com o rosto molhado de suor, aproximou-se até que a linha de fogo estivesse fechada.
— Desçam do carro! Devagar! Sem truques! — ordenou, a arma alinhada com o que restava da janela lateral.
Por um instante, achei que ninguém sairia dali. De repente, porém, a primeira figura rastejou para fora pela janela quebrada do banco traseiro. A máscara preta que cobria seu rosto respirava junto com ele, e seus olhos, atrás da fenda, brilhavam sob uma estranha lucidez.
Logo depois, outros três surgiram, arrastando-se pelo metal deformado, indiferentes ao capotamento violento. Suas roupas escuras estavam rasgadas em alguns pontos, mas não havia sangue. Nem um gemido de dor se ouvia. Era… antinatural.
— No chão! Agora! — gritou outro oficial.
Os quatro mascarados ergueram lentamente as mãos, abrindo os dedos em sinal de rendição. Um deles, mais alto que os outros, ainda demonstrava relutância, avaliando as possibilidades.
— Último aviso!
O homem robusto se curvou. Todos se prostraram no pavimento e, no mesmo momento, dois policiais os cercaram pelas costas, algemando-os.
— Estão limpos. — disse um dos agentes, depois de revistá-los. — Sem armas visíveis. Máscaras de combate… nada de documentos.
— Esses caras são do tipo profissional. — disse o sargento. — Quero identificação completa. E alguém liga para a central. Diga que pegamos os quatro.
Enquanto isso, verifiquei meu braço, procurando sinais de danos causados pelo impacto. Entretanto, tudo o que descobri foi uma mancha negra que se desenvolveu na pele, o que só serviu para obscurecer ainda mais uma ocorrência já bizarra.
Um dos policiais me lançou um olhar rápido, o cenho franzido.
— Agora pronto… — murmurei, incrédulo.
— Ei, garoto.
Senti um arrepio percorrer minha espinha, e instintivamente escondi meu braço atrás.
— Foi mal, senhor! Tô bem atrasado! — respondia enquanto caminhava em direção oposta. — Vamos falar sobre isso mais tarde!
— Hã? Ei, espere!
Não tinha ideia do que ele queria, mas estava claro que ele esperava respostas sobre o estranho acontecimento que acabara de testemunhar.
Não havia tempo para uma conversa longa, precisava agir rapidamente.
Já estava longe o bastante, então o homem somente desistiu.
No meio de tudo isso, eu só conseguia pensar em uma coisa:
“O que diabos foi isso? Aquilo nem deveria ter sido possível.”
Detive os ladrões no seu caminho e deparei-me com um efeito de força anormal suscetível à paragem de um automóvel.
Isso era, sem dúvidas, um péssimo sinal.