Assim que acordou, a primeira coisa que Cadence viu foram os raios de sol entrarem em seu quarto por uma fresta nas cortinas.
Ela dispersa alguns fios rebeldes de cabelo com um sopro, olha em volta e se senta na cama. Acordara uns poucos minutos antes do relógio despertar.
— Que ótimo, — a moça se espreguiça e boceja, ranzinza com a sensação que vinha toda manhã de que não estava completamente viva e desperta. Pulou da cama e foi para o banheiro, os pés enfiados em meias grossas de lã branca.
Sua blusa larga, que servia de camisola, tornava os movimentos do corpo mais fluídos conforme se aprontava para o trabalho. Ela cuidou de sua higiene pessoal, fez todo o caminho até a cozinha e passou um pouco de café na caneca de louça mais próxima.
Não tinha feito mais nenhuma bacia de docinhos na noite passada, exausta como estava, então teria que retornar à casa da avó com o restante do brigadeiro que tivesse.
A camisa secara no varal improvisado ao lado da janela da sala, e Cadence prontamente a leva ao banheiro para trocar após o banho. A água quente assola a pele de seu braços, pernas e costas da maneira que ela gosta.
Com o cabelo agora preso em um coque alto — e um tanto frouxo, como o da avó no dia anterior — ela engole alguns biscoitos da lata de metal na mesa de jantar e sai de casa com seu celular. Podia jurar que as horas passavam mais depressa quando ela tinha compromissos.
A caminhada até o trabalho foi no automático, a vontade gritante da moça de passar o dia inteiro ouvindo música no headphone preto a maior das tentações.
Cadence não suportava ter que sair de casa, a não ser que o fizesse para visitar a Vovó; na verdade, até mesmo essas belas saídas — que lhe traziam alegria e paz na maior parte das vezes — conseguiam deixá-la exausta ao fim do dia.
Sentia que sair, pensar em cada detalhe do dia e em como se comunicar e agir perto de outras pessoas sugava suas energias, como sanguessugas traiçoeiras. Implacáveis.
Trabalhava em uma pequena loja de ferramentas, preenchendo prateleiras com os produtos que tinham, checando o estoque e atendendo clientes no caixa — embora esse último fosse o trabalho que menos fizesse. A dona do lugar era uma boa chefe, rígida mas gentil, que mal aparecia na loja e nunca deixou nada essencial faltar para seus funcionários.
Diante do quão tedioso aquele dia prometia ser, a mente sagaz de Cadence viaja para longe, imaginando mil cenários com o Lobo. Sentia vontade de entender mais sobre ele, o que quer que fosse, pois uma criatura como ele era exótica demais para não despertar curiosidade.
— Cadence, olha isso aqui no estoque pra mim faz favor!? Tô ocupada aqui.
Sem muitas opções e resmungando baixo, a moça segue até a parte de trás da loja — no instante em que o sininho da porta ressoa — e busca pelo item. Infelizmente, o fracasso em sua busca a faz retornar para a frente ainda mais desgostosa e ranzinza que antes.
— Não achei, acho que—
As palavras são cortadas e morrem na garganta da jovem, estática diante de um dos clientes.
O homem se inclinava sobre algumas prateleiras com cordas de tamanhos e diâmetros variados, tomando seu tempo na análise cuidadosa que aparentava fazer. Usava calças pretas que terminavam dentro de botas grandes escuras — as botas mais estilosas que Cadence já havia visto — e sujas de poeira. A camisa amarelada, que Cadence poderia apostar um dia fora branca, dava-lhe um charme intrigante, como as roupas de um camponês ou comerciante medieval. O peito e costas largos, bem como os braços musculosos, diziam a garota que ele era bem forte.
Ao perceber que estava encarando, Cadence se afasta do homem e vai para perto de sua colega no caixa. Ela se contenta em revirar os olhos com o comentário sarcástico da outra sobre a sua incompetência em encontrar objetos, os olhos indo e voltando do misterioso bonitão que não saía do corredor das cordas. Decidiu ir ver se podia ajudar de alguma forma.
— Oi, posso ajudar? — Cadence diz, rápido o bastante para que não conseguisse se arrepender ou dar para trás. Algo naquele homem despertava desejos nítidos nela, ansias que ela não gostava de ter que esconder ou ignorar; achava natural que sentisse atração e, portanto, uma idiotice ter de torná-la um tabu.
Ele finalmente se vira em sua direção, tirando o ar da jovem. Provavelmente em seus 30 e tantos, aquele homem era exatamente o que ela imaginava quando ouvia músicas românticas e intensas: cabelos curtos, arrumados de maneira que pareciam não estar e escuros como suas roupas; olhos sagazes e castanhos que lembram chocolate-quente recém feito; a pele bronzeada e bela, exposta principalmente pelas mangas da camisa — que foram dobradas para trás. Lindo.
— Preciso de corda e de algumas coisas para a caixa de ferramentas. Pregos, martelo.. — o estranho, notou Cadence, falava tão baixo que poderia muito bem estar recitando para si mesmo. — essas coisas.
— Tudo bem, vou providenciar.
Ao mesmo tempo que Cadence separava as coisas para ele, ela se permitia lançar olhares frequentes, permitindo que o feitiço dele a puxasse cada vez mais baixo. Bebericando de sua atenção e beleza, como se fosse a mais doce das bebidas.
— Seu nome? — a voz grave do homem envia leves arrepios pela espinha de Cadence, que sorri de leve.
— Cadence. Só isso?
— No momento eu estou bem, Cadence, obrigado.
— Eei, tudo certo aqui!? — a colega do caixa se aproxima, igualmente interessada no sujeito, e dá a desculpa perfeita para Cadence terminar seu trabalho em silêncio.
A moça pensa em possibilidades sobre aquele cara tão charmoso, as mãos ligeiras enquanto empacotava e colocava os itens dele em sacolas.
Se vovó visse ele, me diria que estou ficando doida..como se ainda estivesse nessa transição, aiai.
— Ai isso é ótimo sabe porque eu fico morrendo de medo desses bichos selvagens que aparecem no quintal da casa dos meus parentes. Você nem deve sofrer com essas coisas né? — a risada da outra soa tão artificial e desconfortável que Cadence não pode evitar olhar para o cara.
Ele dá de ombros. — Gosto de morar perto da floresta, não me incomoda tanto assim.
— Que loucura né, Cadence!? — ouvir seu nome a trás de volta aos olhos da colega. — O Jacob é caçador, tipo, daqueles de verdade!
— Nossa. É, bem louco mesmo.
Os dois trocam olhares breves no instante que a mulher se vira para pegar algo na sua bolsa, alguma prova do quão insuportável deviam ser os tais encontros com a vida selvagem, e Jacob ergue uma sobrancelha para Cadence. Já ela trata de completar as partes do quebra-cabeças em sua mente, juntando coragem e vergonha na cara para invadir mais ainda a privacidade dele.
— Mora aqui há pouco tempo, Jacob? — questiona, decidida de que essa pergunta revelaria menos as suas intenções. — Eu não tenho uma memória incrível, mas eu acho que me lembraria se já tivesse te visto.
Jacob coça o queixo, a barba começando a surgir pelo rosto bem definido.
— Cheguei ontem, precisava de algumas coisas e vim buscar antes da neve cair.
Cadence abrira a boca para perguntar mais uma coisa, só que a sua colega de trabalho passa a ser o centro das atenções de novo. Deixando as sacolas no balcão do caixa, Cadence sai para usar o celular nos fundos. A barriga começa a roncar, denunciando a má ideia que era comer apenas uns poucos biscoitos antes do trabalho.
— Caçador, huh? Queria que ele me caçasse.
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No almoço, Cadence passa por um restaurante e devora um prato bem cheio no menor tempo que consegue. Queria poder passar em casa e pegar a capa antes de fazer o que queria fazer.
Ela se move com pressa, até que comece a correr; a liberdade que sentia todas as vezes era intoxicante — a mais linda das drogas. Aspectos de sua vida e do mundo deixaram de importar tanto enquanto corria, sempre em frente e nunca hesitando.
Chega à floresta e sua trilha. A boca seca, o peito pesado do esforço e os cabelos se rebelando na cabeça. Cadence ri baixo ao caminhar para dentro, uma mistura de nervosismo com satisfação e empolgação. Mal podia explicar o porquê de estar daquele jeito; parte dela só precisava ser livre.
Olha para os lados. Tirando alguns pássaros muito simpáticos — que compartilhavam seus belos cantos com ela —, Cadence parecia estar sozinha. Mas não estava. A cada passo que dava, a sensação de vigilância retornava com toda força, deixando seus pelos arrepiados.
Um rosnado grave fora o bastante para congelá-la no lugar. Virou-se devagar, em parte esperando ver o Lobo novamente.
Mas este não era seu Lobo.
O animal tinha pelos completamente castanhos quase ruivos; seus olhos, grandes e vidrados nos dela de maneira que deixavam claro quem ali tinha o poder. O coração de Cadence martela no peito, chegando como pulsação aos seus ouvidos. Ela permanece parada, a olhar o lobo estranho.
As mesmas sensações de quando encontrara o Lobo pela primeira vez percorriam seu corpo, ativando cada instinto de sobrevivência da garota. Aquele lobo não tinha anunciado sua presença com uma fala humana; ele apenas avançou um passo, e o corpo de Cadence treme.
Encararam-se por alguns minutos, imóveis e atentos ao que o outro faria. Cadence podia sentir que aquele lobo, por menor que fosse se comparado ao anormalmente grande Lobo, olhava de cima para ela — quase como um desafio, uma provocação silenciosa na direção dela. Cadence sente medo, claro, mas também raiva. Vontade de mandá-lo para um lugar bem ruim.
Com o que Cadence só podia chamar de indiferença no olhar, o lobo castanho se vira e corre, deixando a trilha — e Cadence — para trás. A jovem passa alguns minutos enraizada no chão, a cabeça zonza com a quantidade de pensamentos que iam e vinham, e só sai do transe quando a forma de Lobo aparece diante dela.
— Oi..
Ela não o vira chegando, envolta em choque como estava. Lobo pende a cabeça para o lado, suas orelhas pontudas captando cada som.
— Está com medo, Chapeuzinho?
A pergunta faz o estômago de Cadence despencar e sua face empalidecer sutilmente.
Ele não é o outro, eu não preciso ficar tão..tão...
— Vi outro lobo agora há pouco, achei que era você mas..bom, não era.
Lobo muda sua postura, ganhando uma aparência bem mais animalesca que há segundos atrás. Suas palavras saíram contadas, lentas e firmes.
— Outro lobo? — e pouco depois — Como ele era?
— Grande, com pelos castanho-avermelhados..conhecido seu? — ela abafa uma risada, usando sua arma favorita contra o medo.
Lobo estreita os olhos. Um gesto tão poderoso que causa arrependimento imediato na moça.
— Não. Eu nunca vi outro lobo nesta floresta.
Cadence arregala os olhos, seu maior desejo que houvesse um banco ali para não ter que se sentar no chão de terra. Não sabia se acreditava naquilo, afinal, que floresta tinha um único lobo? Ainda assim, Lobo parecia certo do que dizia — na verdade, era como se tivesse raiva dela por sugerir o contrário.
— Eu sei o que eu vi. Talvez vocês só não tenham se encontrado.
— Não. — a voz de Lobo agora não passava de um grunhido baixo e animalesco que instigava a vontade de fugir dentro de Cadence. — Eu sou o lobo desta floresta, Chapeuzinho Vermelho. E você está de mãos vazias.
O reflexo faz com que Cadence olhe para baixo.
— Eu vim ver se te encontrava. Não fiz planos.
Lobo finalmente se senta, aparentemente mais calmo pela troca de assunto, e pisca devagar.
— Me ver? Não compreendo.
— Bom, — Cadence decide se sentar em uma raiz de uma árvore próxima, as pernas doendo. — eu nunca vi um lobo falante antes. Não é comum, então me interessei.
Lobo move as feições muito humanas no rosto bestial de forma que imite um ergue de sobrancelha, intrigado.
— É comum que humanos retornem ao lar e procurem por tudo que os interessa? — questiona, sério.
Bile sobe até a garganta de Cadence, desconfortável e envergonhada de repente. Antes que dissesse algo, Lobo continua:
— Seu fascínio por minha espécie vem acompanhado de algo mais? Trancar-me em uma gaiola para que outros humanos me olhem intermitentemente, talvez?
— Não! — Cadence nega com a cabeça, a irritação característica de alguém injustiçado aparente em sua voz. — Eu só fiquei curiosa, não achei que te incomodava tanto! Você falou comigo e me assustou, achei que fosse solitário!
Lobo hesita antes de responder, as patas fortes coçando seu corpo peludo antes de se voltar para ela. Um sorriso fraco surge na boca dele.
— Acalme-se, Chapeuzinho. Achei que vocês soubessem reconhecer quando a verdade está — ou não — sendo dita.
Cadence pisca duas vezes, hesitante.
— Então..
— Suas intenções não me incomodam. Na realidade, torci para que retornasse exatamente como fez; sua leitura está correta, eu sou um lobo bastante solitário.
Cadence une os lábios em uma linha fina, os olhos baixos em um olhar triste. Por mais difícil que fosse se identificar com Lobo, ele estava começando a se tornar próximo demais dela.
— Eu sei bem como é se sentir sozinho, mesmo com barulho e vida em volta.
Lobo olha fixamente em sua direção, nos olhos dela, menos um estranho e mais um conhecido.
— Posso vir aqui mais vezes, se for algo que você queira.
— Eu gostaria disso. — Lobo encara o céu por um instante, distante. — Está perto da sua hora de retornar, Chapeuzinho. Virá mesmo me ver?
Cadence assente. — Sempre que eu puder, sim.
Quando se virou e trilhou o caminho de volta, Cadence tem um pensamento muito rápido e cruel: com um caçador estranho na cidade, e Lobo dizendo que não haviam outros como ele naquela floresta, o quão longe a luxúria dela por Jacob poderia ir até que se chocasse com sua mais nova amizade?
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Jacob deixa a doze carregada no canto do quarto de sempre, já enfiado em pijamas e com a barriga cheia de cerveja e uma janta improvisada. Em sua mente, a ida até a loja cria muitos pensamentos preocupantes.
Ele nunca fora um homem supersticioso, ou que desse a mínima para crenças no sobrenatural. Contudo, o arrepiar de seus pelos dos braços e os alertas de anos sendo caçador eram claros.
Devia ficar de olho em Cadence.
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