— Cadence, se liga nisso aqui!
A garota se levanta de onde estava, escorada no caixa da loja, e olha surpresa para sua chefe. Os trejeitos da mulher diziam que estava agitada com o que quer que tivesse visto, então Cadence não fez perguntas; seguiu-a para dentro da sala de funcionários, onde uma notícia passava na pequena TV em cima da mesa de metal onde tomavam café.
— A polícia diz para não tentar lutar contra ou capturar a criatura, visto que possa se tratar de uma espécie em extinção. Ligue para este número na tela se vir—
— Você viu isso!? — questionou a outra, seus cabelos encaracolados platinados balançando enquanto se movia. Os olhos bem verdes fitavam Cadence com atenção, os punhos na cintura.
— Não, o que foi?
Embora algo passasse em sua mente.
— Avistaram um lobo imenso na área do acampamento, a descrição me deixou tão assustada! Eu não me lembro de ter visto nada assim, você já?
Cadence apoia uma mão no queixo e passa uma mecha alaranjada para trás da orelha, pensativa. Sentia o estômago afundar e a vontade de comer — anteriormente ali — evaporando.
— Não, que loucura. Mas tipo..esse lobo aí que viram, não tem como ter sido outra coisa não? Cê sabe, que nem quando alguém fala que viu o Pé-Grande e tal?
A chefe faz uma careta.
— Não sei, só vi passando a notícia. Você viu alguma coisa que não quer me contar, Cadence?
— Não, não, só tô pensando mesmo.
Parte dela sentia muita culpa por mentir para a sua chefe. Aquela mulher havia lhe oferecido uma oportunidade de conseguir se sustentar, dar o que sua avó precisava e era uma boa amiga. Não era justo que fosse enganada, mas Cadence sentia que ela não receberia bem a notícia de que avistara — e fizera amizade — com o tal lobo.
— A sua avó não mora na floresta!? — a mais velha pontua, levando uma mão à boca. — Tá tudo bem com ela né?
— Tá sim, não se preocupa. — Cadence acena com a mão, acalmando-a. — É bem longe da área de acampamento de toda forma.
— Não sei não, se precisar de qualquer coisa fala comigo, tá? Posso pegar o carro da minha esposa emprestado, não tem problema—
— Não, não, que isso chefinha! Eu peço sim se precisar, tá bom? Obrigada.
Quando ela pareceu mais calma, Cadence piscou uma última vez e pediu permissão para usar o celular por um instante. Como a loja estava vazia, ela pôde ficar à vontade e buscar o número da avó. Pressionou o botão verde na tela e esperou um pouco.
— Cadence! Oi minha filha, tava aqui mexendo com os álbuns de fotografia!
Cadence não contém um sorriso, os olhos se fechando enquanto imagina a cena.
— Oi vó, queria saber se tá tudo bem. Aqui tá tudo bem, só parado.
— Ah aqui tá ótimo, querida, obrigada por ligar. Você viu a notícia na televisão?
O sorriso de Cadence se dissolve. — Vi sim.
— Cuidado quando vier me visitar, viu, meu amor? Sua avó se preocupa muito com você, andando sozinha por aquela trilha velha. Arruma alguém pra vir com você.
— Ta, eu vou ver isso. Não se preocupa, vó.
Como se tivesse alguém que pudesse ir comigo, você é uma figura mesmo, vó.
— Eu liguei pra saber como a senhora tá.
O som de fundo indica que sua avó acabava de se sentar no sofá. — Tô indo, filha, eu só fiquei com medo dessa história aí. Você vem hoje?
Cadence morde o lábio de leve, mexendo em uma mecha do cabelo com um dedo.
— Eu quero, vó. Passo aí um pouco depois do trabalho, tenho certeza que dá pra conversar um pouco antes de escurecer.
— Então vem, minha querida, e toma cuidado! Vovó te ama, viu?
Com um último sorriso tímido, Cadence responde: — Também te amo.
-
Na saída do expediente, Cadence se despede do pessoal e segue para casa com um plano em mente. Tinha o caminho todo na cabeça, num mapa meticuloso e detalhado que visitava a cada segundo — como se a trilha até a casa da avó fosse mudar.
Decidida a ir em uma única viagem — e tomar banho quando chegasse na casa da vovó — ela inicia a caminhada para a floresta. A cidade, quando não tinha música para distraí-la, era um ambiente infernal pelo barulho; não dava para pensar direito se um motor de carro explodisse próximo a ela, ou se algum engraçadinho falasse alto demais. Cadence inveja a avó por um instante; os únicos sons que a circundavam eram os pássaros e o farfalhar de folhas.
Adentrando a mata, Cadence observa os arredores sem estar, de fato, focada. Sua capacidade de sonhar acordada era impressionante — e um defeito, pois poderia acabar causando um acidente sério um dia.
— Humana..
A voz de Lobo veio de tão próximo dela, logo ao lado da trilha em meio aos arbustos, que a garota pula no lugar e olha assustada para aquela direção. Lobo deixa seu esconderijo e a fita, atento, sem entender o que via.
E então, um pensamento ocorre a ela: a capa!
— Sou eu, Chapeuzinho. — num reflexo, ela olha para baixo e tem um vislumbre das roupas simples que usava. — Não passei em casa para pegar a capa.
Lobo parece querer dizer alguma coisa, porém ele apenas deixa o caminho livre e a olha.
— Você nunca mais trouxe uma cesta com você.
Um comentário simples, carregando consigo a certeza de que cada detalhe dos encontros deles era lembrado por aquele lobo incomum. É tão estranho para Cadence perceber que alguém, além de sua avó ou sua chefe, se lembrar de coisas sobre ela.
— É uma visita curta.
Lobo parece duvidar daquilo, hesitante por poucos instantes antes de se voltar para a direção da trilha.
— Suba em mim, vou levar você até lá.
— O que!? — Cadence mal podia acreditar na virada de eventos. — Eu não posso, isso é..sei lá, estranho!
— Não quer poupar seus pés para a volta? Deve estar exausta. — o tom dele fora um tanto irritado, impaciente com a demora dela em se decidir.
Mentalmente, Cadence concorda com ele. Carona era algo que faria muito bem a ela, quer achasse a situação estranha ou não. Depois de pensar um pouco, a jovem desiste e escala o animal, jogando uma perna de lado para que pudesse subir — como montar num cavalo.
— Está confortável? — quando ele fala, ela pode sentir as vibrações abaixo dela e das várias camadas de pelo escuro — incrivelmente macio.
— Tô, pode ir.
Ainda sem acreditar, Cadence observa Lobo levá-la pela trilha — abaixando-se para proteger o próprio rosto e tronco dos galhos mais baixos dos pinheiros.
A sensação de montar em Lobo é indescritível para a moça. Enquanto corriam pela floresta, Cadence pode sentir o vento bagunçar seus cabelos e dispersar os pelos dele, provando que estava viva; os dedos apertam firmemente os amontoados de pelo, esbeltos naquele corpo que podia muito bem servir de cama para alguém como ela. Quando Lobo respira, Cadence pode sentir o ar entrar e sair dele, pode ver suas orelhas se moverem para todos os lados, atentas.
Era um novo tipo de liberdade, diferente da que sentia quando andava de carro ou corria pela mata. Como uma viagem a um mundo mágico — mas real, de carne e osso, como o dela.
Aos saltos, Lobo eventualmente chega à outra ponta do caminho. Ele permite que Cadence desça devagar de suas costas, calado o tempo todo, como quem analisa a situação e aguarda a resposta da outra pessoa.
— Muito obrigada, Lobo. Você foi um amigão agora. — a menina sorri para ele, focada nas feições do Lobo quando ouviu aquelas palavras.
Lobo pende a cabeça para o lado, a voz grave reverberando pela garganta até a bocarra.
— Use sua capa. Gosto dela.
E antes que Cadence dissesse outra palavra, virou-se e partiu.
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A visita à casa da Vovó foi curta. Cadence trocou algumas palavrinhas com a boa senhora, discutiram planos para as férias e — após um bom sermão da velhinha sobre como sua neta não devia andar por aí sozinha com um lobo à solta — a jovem inicia o caminho de volta. Vai caminhando devagar, ciente de que correr não mudaria muito a sua situação.
O vento não parecia querer fazer voar as folhas naquele momento. Começava a escurecer e o céu logo ficaria repleto de estrelas cintilantes.
Cadence pensa em Lobo. O fato dele ter trazido ela até ali facilitava sua volta, os pés descansados fazendo a trilha mais suavemente que antes. Ela se permite viajar longe e se colocar no lugar dele; como será que lidava com toda a atenção da cidade, apavorada com a mera aparição dele? Pelo breve contato que tinham, Cadence chutaria que Lobo detestava tudo isso.
O som explosivo e seco de um tiro ressoa pela floresta, arrancando Cadence do chão de um salto. Sem pensar muito, ela corre para sair dali, rapidamente se cansando e sentindo a garganta queimar do esforço.
Pensou em Lobo. Pensou em Jacob, a única pessoa que ela sabia que tinha uma arma por ali, e torceu para que aquele tiro não tivesse alvejado nenhum alvo. Humano ou lobo.
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