Ano 0 Durante a Era Sombria
O deserto amarelo se estendia até onde a vista alcançava.
Sob um céu morto, um homem permanecia imóvel diante de um exército envolto em escuridão. Seus olhos vermelhos refletiam as sombras que se moviam à frente — um mar de criaturas que pareciam vestir a própria noite como armadura.
Eram seres de pele branca, marcada por cicatrizes profundas, testemunhos de batalhas antigas. Corpos robustos, moldados pela guerra. Sobre suas armaduras, pinturas feitas de sangue formavam a imagem de um lobo — símbolo de carnificina e caça eterna.
Atrás do homem, erguia-se outro exército.
Homens.
Tronitas vindos de diferentes terras, culturas e reinos. Alguns usavam armaduras simples, outros vestiam aço refinado; havia estandartes distintos, línguas diferentes, crenças opostas. Ainda assim, estavam unidos.
Unidos pelo medo.
Unidos pela necessidade.
Muitos tremiam. Alguns rezavam em silêncio. Outros mal conseguiam segurar suas armas. Mas todos encaravam o mesmo inimigo — o maior mal que o mundo já conhecera.
Então, o homem de cabelos prateados deu um passo à frente.
E depois outro.
Num único movimento, sacou a espada.
No instante em que a lâmina deixou a bainha, chamas envolveram o aço, rugindo como se a própria arma tivesse despertado. A luz do fogo rasgou a escuridão do deserto, refletindo nos olhos aterrorizados dos homens atrás dele.
Sem olhar para trás, ele correu.
O exército humano hesitou por um breve momento — um suspiro de medo coletivo — e então correu também.
Gritos ecoaram pelo deserto.
Do outro lado, o exército demoníaco respondeu.
As criaturas avançaram, urrando, suas sombras se distorcendo enquanto corriam. Quando os dois exércitos se chocaram, o impacto foi ensurdecedor — um som tão violento que, dizem, ecoou além do deserto e foi ouvido pelos deuses.
Naquele dia, o mundo sangrou.
Naquele dia, um homem reuniu os povos da humanidade para enfrentar a escuridão.
Naquele dia, nasceu uma lenda.
Seu nome foi gravado na história, lembrado por aqueles que ainda ousam lutar contra o mal.
Seu nome era Antony Stan.
Tempos atuais
— A história acaba aí? — perguntou uma voz leve, quase curiosa.
— O que veio antes não importa agora — respondeu outra, mais grave, carregada de autoridade.
A sala era pequena e mergulhada na escuridão. Apenas uma vela, solitária, lutava contra as sombras, projetando silhuetas distorcidas nas paredes de pedra. Duas figuras estavam ali.
A primeira era um homem de presença opressora. Seus olhos vermelhos ardiam no escuro, carmesins como sangue recém-derramado. A pele pálida contrastava com uma cicatriz profunda que rasgava seu rosto desde a parte inferior do olho direito até o pescoço. Os cabelos negros e o manto escuro se confundiam com a penumbra, como se ele próprio fosse parte da noite.
Aquele era Aleksand, o Príncipe de Marvet.
— Então me conte desde o início — disse ele, a voz baixa, porém cortante. — Como vocês vieram parar em Aldernys?
A segunda figura, ainda envolta em mistério, moveu-se lentamente. Sentou-se com cuidado, apoiando as mãos no pescoço enquanto observava a mesa de madeira velha, marcada pelo tempo.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— É uma longa história…
Cinco meses antes
O mar se estendia até onde os olhos alcançavam, refletindo a luz do sol sobre seu azul infinito. Entre as ondas, flutuavam destroços de navios — restos de uma frota destruída. Apenas algumas embarcações sobreviventes seguiam lentamente rumo ao leste, feridas, rangendo a cada balanço.
Dentro de um dos navios, Edi estava sentado sobre uma cama velha, em seus aposentos apertados. O balanço constante do mar fazia a madeira gemer. Ele enfaixava o próprio nariz, ainda dolorido — quebrado por Galios dias antes.
O ambiente era miserável. Apenas aquela cama, nada mais. Um contraste cruel com a vida que ele um dia conhecera.
A porta rangeu ao se abrir.
— Como você está, Edi? — perguntou Torki, entrando.
— Já estive melhor — respondeu Edi, sem erguer o olhar.
Torki suspirou, aproximando-se.
— O momento é difícil… mas agora que o rei se foi, você é o herdeiro. Quando chegarmos às Ilhas de Moro, deverá ser coroado antes do seu irmão.
Edi soltou um suspiro pesado, carregado de cansaço.
— Tio… eu não quero mais coroas.
Torki fechou os olhos por um instante, lutando contra os próprios pensamentos.
— Não se trata do que você quer. É o seu dever. Não pode fugir disso.
Edi ergueu o olhar, a frustração evidente.
— Fugir? Rei de quê? Do nada?
— Isso ainda não acabou — disse Torki, firme.
— Deixe meu irmão brincar de ser rei. Ele já está nas Ilhas de Moro mesmo — respondeu Edi, virando o rosto.
A mão de Torki se fechou com força.
— Pare de ser um idiota! Esse é o seu dever! Deixe de ser um covarde! — gritou.
Edi se levantou de um salto, o sangue fervendo.
— Você me chama de covarde? Quando teve a chance de ser rei, fugiu com medo!
O silêncio caiu pesado.
Torki encarou Edi por um longo momento, os punhos cerrados. Sem dizer mais nada, virou-se e saiu, batendo a porta com força.
Edi ficou sozinho. Apertou a mão com tanta força que o sangue começou a escorrer entre seus dedos.
Do lado de fora, Torki apoiou-se no corrimão do navio, observando outra embarcação próxima. Um grande grupo se reunia em oração, clamando à Senhora das Bênçãos, a deusa Marydiana.
— Você não é religioso, Torki — disse uma voz grave atrás dele.
Torki virou-se e viu Loran.
Um homem velho, de pele negra, careca, com o corpo marcado por inúmeras cicatrizes. Usava uma perna de pau e, no lugar da mão direita, uma adaga presa ao braço. Um pano cobria o olho perdido — lembrança de batalhas passadas.
— E você, Loran… como vai?
Loran observou o navio repleto de orações.
— Não acho que, com os navios nesse estado, conseguiremos atravessar as Correntes de Leviatã.
O semblante de Torki se fechou. As Correntes de Leviatã se estendiam do sul ao norte do mundo, as mais violentas do oceano — fortes o bastante para arrastar montanhas.
— Ao anoitecer chegaremos a elas — continuou Loran. — Se não passarmos, nunca chegaremos às Ilhas de Moro.
Torki ignorou o presságio e mudou de assunto.
— E seu filho, Loran?
Um sorriso leve surgiu no rosto do velho.
— Joran está em outro navio, ajudando os feridos.
— Você criou um filho de ouro.
— E sua filha também é sábia, Torki. Devia se orgulhar.
Torki apoiou-se, olhando para o céu carregado de nuvens.
— Taly e Trynity iam se casar… você sabia?
— Joran me contou — respondeu Loran. — Arthur Black destruiu mais do que reinos.
As palavras trouxeram lembranças.
Torki recordou-se do ataque a Talda. Após a queda da vila de Ly, ele se lembrava de um garoto parado entre os escombros, observando os exércitos de Florth. Não havia tristeza em seus olhos.
Havia ódio.
Cabelos negros… muito parecidos com os de Galios.
Por um instante, Torki se perguntou:
Será que aquele garoto havia crescido?
Ao cair da noite
Durante a noite, os navios usavam lamparinas para iluminar o caminho à frente. Torki e todos os outros se preparavam para tentar cruzar as grandes Correntes de Leviatã.
— Estamos chegando, Torki — falou Loran.
— Em situações normais, cruzaríamos com alguma dificuldade — respondeu Torki. — Mas nesse estado, com os navios danificados, é quase impossível.
— Não temos escolha, não é mesmo?
Por um tempo, o mar permaneceu calmo.
Até que olharam à frente.
Ondas gigantescas cortavam o oceano, avançando em direção ao norte.
— Parece que chegamos…
As Correntes de Leviatã eram imensas. A água se retorcia como se estivesse viva. Seres monstruosos pareciam nadar sob a superfície, sombras colossais movendo-se no abismo. Acima delas, uma nuvem negra cobria o céu, rasgada constantemente por relâmpagos que despencavam sobre as ondas.
O coração de Torki acelerou.
Será que sobreviveriam àquilo?
Será que chegariam às Ilhas de Moro?
O destino não lhes deu tempo para dúvidas.
Atrás deles, um som ecoou — semelhante ao trombone de guerra misturado ao grito de um animal à beira da morte.
Ao se virarem, viram vários navios dos Hongs se aproximando.
O sangue de Torki gelou. Sua mão tremeu.
Mas não havia tempo para hesitar.
— TODOS ATRAVESSEM AS CORRENTES! — gritou.
No mesmo instante, os navios avançaram.
A madeira rangia, como se gritasse de dor. Gritos humanos se misturavam ao rugido do mar. Soldados de Florth lutavam para se manter a bordo enquanto mãos deformadas surgiam da água, arranhando os cascos.
Um deles não resistiu.
Foi puxado para o mar.
As pessoas eram arrastadas enquanto algo devorava suas carnes ainda vivas. Seus gritos ecoavam até desaparecerem sob as ondas.
Torki desviou o olhar para o leste, em direção às Ilhas de Moro — mas logo seu coração afundou.
Navios negros surgiam também naquela direção.
Ao olhar para trás, viu mais embarcações dos Hongs fechando o cerco.
Não havia saída.
Foi então que ele fechou os olhos e gritou, com toda a força que tinha:
— SOLTEM AS VELAS! DEIXEM AS CORRENTES NOS LEVAREM!
Por um instante, houve hesitação.
Mas os navios dos Hongs quebravam as correntes com facilidade, avançando como predadores.
— Torki, você tem certeza?! — gritou Loran.
— FAÇA LOGO, LORAN!
Loran não hesitou mais.
Virou o leme para o norte, sendo o primeiro a se deixar levar pelas correntes. Um a um, os outros navios fizeram o mesmo.
Apenas um resistiu, tentando seguir para o leste.
Um relâmpago caiu do céu.
Torki viu o navio ser destruído em um instante. Só pôde observar vidas sendo arrancadas da existência.
— Então vocês deixaram as correntes arrastarem vocês — disse Aleksand, de volta à sala escura.
— Sim… tudo graças ao nosso Senhor da Carnificina — respondeu a figura misteriosa.
Aleksand soltou um suspiro pesado ao ouvir aquele nome.
— Então você está com Blasfemo?
A figura sorriu.
— Acaso você não gosta de Blasfemo?
— Não me importo que a maioria dos reis agora o siga — respondeu Aleksand. — Mas eu não sou obrigado a isso.
A figura misteriosa se ajeitou e retirou de dentro do manto um papiro feito de carne h
umana.
— Ele quer que você leia isto.
Aleksand pegou o papiro, mas o ignorou por enquanto. Uma dúvida maior o corroía.
— Diga-me… como o príncipe Edi morreu?
A figura abriu um sorriso macabro nos lábios.
— Você deve adorar histórias, Aleksand Marvet.