A Heroína Spawnou no Meu Quarto
O castelo do Maou estava desmoronando como se o próprio mundo tivesse decidido encerrar o expediente.
Ren mal sentia os braços. A espada tremia, não de medo, mas de cansaço acumulado em semanas de batalha e decisões difíceis demais para alguém que, honestamente, preferia estar estudando builds e lendo lore.
O Maou caiu de joelhos.
E Ren procurou Selena.
Ela estava ali, de pé, capa rasgada, poeira no rosto, mas com os olhos inteiros, brilhando daquele jeito perigoso, como se o impossível tivesse medo dela. Quando o olhar dela encontrou o dele, tudo que Ren conseguiu pensar foi a promessa muda que carregavam desde antes da última investida:
“Depois disso… a gente fica junto.”
O Maou riu.
Não era riso de vitória. Era riso de quem quer deixar uma última espinha no peito do mundo.
Ele ergueu a mão e o ar rasgou num clarão.
Ren só teve tempo de ver Selena esticando a mão na direção dele, desesperada, como se pudesse puxá-lo de volta pela força do sentimento.
A luz engoliu tudo.
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O apocalipse moderno chamado despertador
BIP. BIP. BIP.
Ren acordou sentado na cama como quem levanta de uma cova.
O quarto era normal demais: pôsteres, livros empilhados, mochila no canto, e aquela meia perdida que ele jurava ter exorcizado meses atrás. O celular vibrava no criado-mudo com a serenidade cruel de quem não faz ideia do drama épico que acabou de interromper.
Ren esfregou o rosto.
— Esse sonho… de novo…
Ele olhou as próprias mãos, esperando encontrar sangue, magia, destino.
Encontrou unha roída.
Foi só um sonho, repetiu por dentro, mas o coração dele parecia discordar: sonho nenhum te deixa com essa sensação de perda no estômago.
[Nota do narrador: ele está certo. E isso não vai ajudar em nada.]
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Rotina escolar: todo mundo viu, menos ele
Ren era um tipo de aluno que existia num lugar estranho do ecossistema escolar: não era popular, mas era “conhecido”. Não era atlético, mas era respeitado. Não era líder, mas era o cara que a turma procurava quando a impressora quebrava, quando o trabalho em grupo virava tragédia, ou quando alguém precisava de uma explicação que não viesse com julgamento.
Ele tinha dois colegas mais próximos:
• Davi, alto e magro, sempre com postura de quem já nasceu cansado. Cabelo escuro caindo um pouco na testa, olhar afiado e uma sobrancelha que comentava mais do que a boca. Falava pouco, mas quando falava era como se soltasse uma sentença.
• Caio, mais baixo que o Davi, expressivo demais para o próprio bem, com cabelo sempre meio bagunçado e um sorriso pronto para virar piada. Gesticulava como se estivesse narrando a vida para uma câmera invisível, e tinha o dom de transformar qualquer detalhe em “conteúdo”.
E tinha também a garota popular:
Lívia.
Lívia era o tipo de pessoa que entrava na sala e o mundo ajustava a iluminação sozinho. Cabelo bem cuidado, comprido, com aquele balanço de propaganda, e um jeito de andar que parecia sempre no tempo certo. Os olhos atentos davam a impressão de que ela entendia as pessoas antes delas terminarem a frase. Ela era gentil, inteligente, e tinha aquele carisma irritante que fazia até professor ficar com voz mais educada.
No corredor, ela apareceu ao lado de Ren como se fosse natural.
— Bom dia, Ren.
Ren respondeu com seu melhor desempenho social:
— Bom dia, Lívia.
Ela ficou andando junto, como se aquilo já fosse rotina. E então, sem rodeios:
— Você pode me ajudar com a lista de exercícios de física? Eu tentei, mas… acho que errei feio na parte do vetor.
Ren, imediatamente em modo “serviço público”:
— Posso, sim. Me manda foto depois.
Lívia sorriu daquele jeito que não era “obrigada”. Era “eu gosto de falar com você”.
— Obrigada… você sempre me salva.
Ren achou que era só educação.
Atrás dele, Caio observou a cena e sussurrou para Davi:
— Ela tá literalmente fazendo side quest pra ficar perto dele.
Davi respondeu:
— E ele tá coletando item de missão achando que é item de cenário.
Ren não ouviu.
— A turma toda tá vendo que a Lívia é caidinha por ele… emendou Caio. Pode alguém ser tão tapado?
[Nota do narrador: Sim. Pode!]
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A vibração
Naquela noite, Ren acordou inquieto.
O quarto estava silencioso, mas o ar… vibrava, como se o mundo tivesse engolido um trovão e estivesse tentando digerir.
Ren piscou, sentado na cama.
— Tá… não. Não, não, não… eu não aguento mais esse sonho.
E então o chão brilhou.
Um círculo mágico se desenhou no piso, perfeito demais, detalhado demais, impossível demais para ser real. Linhas finas, símbolos girando em camadas, como engrenagens de luz trabalhando em silêncio.
Ren apontou, tremendo, e a mente dele começou a gritar em várias abas abertas ao mesmo tempo:
isso não existe
isso não pode existir
minha mãe vai me matar
eu vou parar no jornal
eu vou parar num laboratório
eu vou parar no inferno
A luz cresceu.
E do círculo… alguém surgiu.
Uma garota.
Não “garota normal de escola”. Era o tipo de beleza que parecia injusta, como se a realidade tivesse passado filtro e ainda aumentado o contraste. Pele clara, traços firmes e delicados ao mesmo tempo, e um olhar intenso, afiado, que parecia já ter visto a morte de perto e decidido continuar mesmo assim.
O cabelo era longo e claro, dourado como um raio de sol, caindo pelos ombros em ondas pesadas, com alguns fios presos para não atrapalhar combate, mas ainda assim bonito demais para ser prático. A franja estava ligeiramente bagunçada, como se ela tivesse atravessado vento e batalha antes de atravessar aquele círculo.
As roupas deixavam claro, sem dúvidas: maga e guerreira.
Ela usava uma túnica curta por baixo, de tecido resistente, marcada por detalhes que lembravam runas e costuras reforçadas, como se cada linha tivesse sido feita para aguentar impacto. Por cima, uma capa de viagem, rasgada em alguns pontos, suja de poeira e fuligem, presa por fivelas metálicas no peito. No antebraço, braçadeiras leves, e nas pernas, peças de proteção misturando couro e metal, gastas pelo uso real, não por cosplay.
Era um conjunto de alguém que lutou. Alguém que sobreviveu.
Ela piscou.
Como se o mundo ao redor fosse estranho demais… e ao mesmo tempo familiar demais.
Uma lágrima desceu.
E então ela correu.
— REN!
O abraço veio com força de colisão emocional, derrubando os dois na cama. Ela apertou como quem confirma uma existência, como se o toque fosse a prova final de que ele não era só um sonho repetido.
Ren tentou falar, mas o cérebro dele escolheu o método mais eficiente para sobreviver:
apagou.
[Nota do narrador: técnica ancestral conhecida como “desligar e rezar”.]
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A manhã: “sonho estranho”… até virar “não foi”
Ren acordou meio tonto.
— Sonho estra…
Ele ficou alguns segundos encarando o teto, tentando entender por que o peito ainda parecia pesado, como se tivesse corrido uma maratona emocional dormindo.
— Tá… isso foi muito real…
Ren esticou a mão, ainda meio no piloto automático, procurando o celular no criado-mudo.
Só que a mão dele não encontrou plástico.
Encontrou… algo macio.
Macio de um jeito alarmante.
Ren congelou.
O cérebro dele abriu um painel de erro:
(Pensamento do Ren: …eu encostei em quê.)
Ele virou o rosto devagar.
E viu.
Uma garota dormindo ao lado dele.
Ren congelou de novo, só que agora com o corpo inteiro.
O cérebro tentou listar hipóteses:
1. Pegadinha.
2. Alucinação.
3. Eu morri.
4. Eu fui abduzido.
5. Sim para todos.
A garota abriu os olhos devagar. Quando viu Ren, sorriu.
Ren se afastou meio centímetro, o suficiente para o pânico respirar.
— Q-quem é você?
Ela o encarou, como se aquela pergunta fosse estranha demais, como se o mundo inteiro tivesse sido só uma ponte para aquele momento.
E então se aproximou e com um sorriso que parecia mais alívio do que qualquer coisa, ela respondeu:
— Eu sou Selena.
E abraçou de novo, como se fosse a coisa mais óbvia do universo.
— Eu te achei.
Ren virou estátua.
— Você… você tá… no meu quarto.
— Sim.
— Na minha cama.
— Sim.
— Na minha casa.
— Sim.
Ela fez uma pausa, e a frase veio com naturalidade assassina:
— Agora nossa casa.
Ren ouviu a movimentação na cozinha, sentiu o sangue sair do rosto.
Lembrou dos pais, o que eles vão pensar.
Uma garota de… sei lá… 15? 16? dormindo no meu quarto?
Eu vou ser deserdado.
Eu vou ser preso.
Eu vou ser uma lenda urbana do bairro.
Do lado de fora, a voz da mãe, alegre e inocente, anunciou o fim:
— Renzinho! Café!
Ren levantou num pulo e entrou em pânico operacional.
— Tá. Você precisa se esconder. Agora. URGENTE.
Selena pegou o celular dele e olhou como se fosse um artefato raro.
— Este espelho pequeno vibra quando te chamam?
— Isso é um celular, NÃO é espelho, e por favor não…
Ela apertou, abriu a câmera frontal, viu o próprio rosto e arregalou os olhos.
— Um espelho que prende almas!
Ren apertou as têmporas.
— Eu vou surtar. Eu vou surtar de verdade.
Ele olhou em volta procurando um lugar.
Debaixo da cama? Não.
Armário? Ela é… heroína, não caberia.
Cortina? Não temos cortina.
Janela? NÃO, NÃO VAI PULAR.
— Fica atrás da porta. Só… fica atrás da porta. E não fala nada. Nada. Por favor. Pelo amor de qualquer divindade administrativa.
Selena assentiu como se estivesse aceitando uma missão de escolta.
Ren respirou fundo e tentou parecer humano.
A maçaneta girou.
A porta abriu.
A mãe entrou primeiro com o sorriso automático de “bom dia” e parou no meio do passo.
O sorriso travou.
Ela olhou para Ren.
Olhou para o quarto.
Olhou para o volume de cabelo claro que, apesar de “atrás da porta”, continuava sendo… muito evidente.
Os olhos dela estreitaram.
Ren sentiu um gelo na espinha.
Pronto. É agora.
Ela vai me repreender.
Ela vai dizer que eu sou um irresponsável.
Ela vai dizer que eu estraguei minha vida.
Ela vai puxar meu ouvido até a 3ª era geológica.
O pai apareceu atrás, cruzando os braços, com cara de fiscal de silêncio.
A irmã surgiu por último, encostando no batente com curiosidade perigosa.
Silêncio.
Ren abriu a boca:
— Mãe, eu posso exp…
A mãe levantou a mão.
— Renato Augusto Barbieri da Silva...
Ren travou.
Ela falou meu nome completo... que o senhor me receba em seus braços..
A tensão durou meio segundo, aquele meio segundo em que a alma já pede desculpa antecipada.
E então… a mãe colocou a mão na boca.
Os olhos encheram d’água.
E ela começou a chorar.
Mas não era choro de bronca.
Era choro de… vitória.
—MEU FILHO TEM UMA NAMORADA.
—MEU FILHO.
—O MEU FILHO.
Eu criei um ser humano funcional.
— Meu Deus… Ren… você trouxe uma garota pro seu quarto… ela… ela dormiu aqui…
O pai pigarreou tentando manter o “ar sério”, mas por dentro ele era fogos de artifício:
Ele não vai ser um nem-nem.
Não vou sustentar esse moleque pelo resto da vida.
Obrigado, universo.
A irmã, que deveria estar chocada… ficou com os olhos brilhando também, mas por outro motivo.
Meu irmão gosta de meninas.
Ele não é “diferente”.
Eu vou ter sobrinhos. Ou pelo menos… potencial.
Ela sussurrou, emocionada, só pra si:
— Ele… ele gosta de meninas…
Selena saiu detrás da porta com tranquilidade real de quem enfrentou demônios e achou fácil.
— Bom dia! Eu sou a Selana.
A mãe soluçou mais forte.
— Ai, que linda… Ren…
O pai assentiu, como se estivesse aprovando uma compra importante:
— Ren.
A irmã deu um sorriso choroso:
— Tá… isso é… isso é grande.
Ren ficou parado, olhando os três chorando como se tivesse caído numa dimensão paralela.
Por que eles estão emocionados?!
Por que ninguém está surtando?!
Por que ninguém está chamando a polícia?!
[Nota do narrador: porque a polícia não resolve o maior medo de um pai. O nen-nen.]
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Café da manhã: a moral, a ética e… o ouro
Na cozinha, Selena sentou como se fosse parte oficial do lar.
A mãe serviu café como se estivesse alimentando um sonho antigo. O pai observava em silêncio, tentando parecer responsável. A irmã ainda estava com aquela cara de “minha vida ganhou uma temporada nova”.
Selena comeu com apetite de uma aventureira. Pão, fruta, bolo, mais pão. A mãe parecia orgulhosa do prato vazio.
— Ela come tão bem… comentou a mãe, chorando e sorrindo ao mesmo tempo.
Selena respondeu com a naturalidade de quem diz a hora:
— Eu preciso manter o mana.
O pai assentiu:
— Claro. Mana.
A mãe, animada:
— E você mora onde, querida?
Selena, sem nenhum pudor:
— Eu vou morar com o Ren.
Ren engasgou de novo.
— NÃO! Quer dizer… calma! Isso… isso não tem nexo!
Ele entrou em modo desespero:
— Mãe, pai, isso não é… isso não é socialmente aceitável. Ela… ela é jovem, eu sou jovem, isso é estranho, isso é antiético, isso dá problema, isso dá… isso dá tudo!
Os pais trocaram um olhar.
O pai pigarreou, e por um segundo Ren viu o homem responsável, o guardião da moral, o fiscal da ética familiar se manifestar.
— Olha… eu… eu entendo. Realmente… isso não seria moral. Nem… ético.
Ren quase chorou de alívio.
Alguém sensato.
Obrigado.
Obrigado, pai.
Ren aproveitou o embalo, desesperado e prático:
— E tem mais! A gente… a gente tem um orçamento apertado! Não dá pra simplesmente… “adotar” alguém do nada! É custo, é comida, é conta, é… tudo!
Selena inclinou a cabeça, como quem finalmente achou o problema real.
— Entendi. Então o obstáculo é… recursos.
Ren apontou com as duas mãos, aliviado:
— ISSO! Recursos! Finalmente ela está entendendo!
Selena abriu a bolsa dela.
Só que não era bem uma bolsa. Era mais um “conceito de bolsa” contendo um pequeno universo.
Ela enfiou a mão e puxou…
TOC.. TOC.. TOC..
Três barras de ouro sobre a mesa.
— Isso ajudaria nos custos?
A mãe arregalou os olhos.
O pai ficou mudo por meio segundo.
E então aconteceu.
A moral dele não só fez barulho de Windows desligando… ela fez barulho de orquestra sinfônica caindo da escada.
Os olhos do pai marejaram. Ele colocou a mão no peito, como se tivesse acabado de receber a notícia mais linda da vida.
— …Minha…
Ele respirou fundo.
— SEJA BEM-VINDA À NOSSA FAMÍLIA, MINHA NORA QUERIDA!
Ren ficou com a boca aberta, olhos estralados, travado no tempo.
(Pensamento do Ren: CADÊ A MORAL??)
A mãe levou as mãos ao rosto, chorando mais forte, agora em modo “sonho realizado e financiado”.
— Ai, meu Deus… tão responsável ela… Ren, olha isso… eu sempre sonhei em ter duas meninas…
Ela se virou para Selena com os olhos brilhando de emoção.
— Pode me chamar de mami se quiser.
Ren sentiu a alma sair do corpo pela segunda vez naquela manhã.
(Pensamento do Ren: ELA SE VENDEU TAMBÉM!)
Selena piscou, séria, como quem recebe um novo título.
— …Mami.
A mãe soluçou de felicidade, como se tivesse vencido uma guerra.
A irmã, que já estava emocional, agora parecia prestes a desmaiar de alegria e caos.
— Isso… isso tá acontecendo mesmo.
Ren apontou para o ouro, horrorizado:
— ISSO É… ISSO É…
O pai tossiu, já completamente reprogramado.
— Isso é… contribuição. Pra casa.
A mãe limpou as lágrimas, decidida:
— Eu vou comprar uma cama de casal pra vocês.
Ren quase caiu da cadeira.
— QUÊ?!
A irmã soltou um risinho emocionado.
— Nossa… ele tá vivendo.
Ren olhou para Selena, com o cérebro derretendo em tempo real.
Selena levantou, foi até ele e abraçou por trás, como se estivesse selando um destino.
— Eu perdi você uma vez. Aqui, eu não vou perder.
Ren ficou mole, a mente dele desmanchando.
O mundo tinha acabado duas vezes em menos de 24 horas.
A diferença é que, na segunda, ele tinha três barras de ouro na mesa… e uma heroína agarrada nele como se o amor fosse lei física.
E Ren, sem entender nada, só conseguiu pensar:
Eu… eu nem sei qual é o tutorial pra isso.
Selena apertou mais um pouco o abraço, vitoriosa.
— Concluído.
[Nota do narrador: a ética foi derrotada por um golpe crítico de ouro.]