Debuff “Noite em Claro”
Na manhã seguinte, Ren chegou na escola parecendo um personagem que passou a madrugada inteira lutando contra um boss invisível chamado Ansiedade.
Olheiras. Postura torta. Passo lento. A alma dele parecia estar carregando uma mochila extra, só que por dentro.
Do lado dele, Selena estava radiante.
Ela caminhava com os braços enganchados no dele como se aquilo fosse o modo padrão de existência. Cabeça erguida, sorriso leve, e aquela energia de “hoje vai ser um ótimo dia para expandir a party”.
Ren tentou soltar o braço.
Selena apertou um pouco mais.
Ren desistiu.
(Pensamento do Ren: Eu não dormi. Eu não tenho força. Eu sou só carne e café.)
No corredor, olhares acompanharam os dois. Sussurros nasceram, cresceram, se multiplicaram. Era como se a escola inteira tivesse instalado uma atualização nova:
Ren: versão lenda.
[Nota do narrador: atualizaram sem pedir permissão. Como sempre.]
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A sala: Caio e Davi ativam o interrogatório
Assim que Ren sentou, Caio e Davi chegaram.
Caio puxou uma cadeira, encostou o rosto no dele com uma expressão de “conta tudo”.
-- Ren… você não parece nada bem. Pra quem tá com uma namorada fofa dessa.
Davi apenas observou. A sobrancelha dele subiu um milímetro, e aquilo já era um discurso inteiro.
Ren tentou manter a dignidade, mas o rosto dele estava entregando tudo.
-- É que… eu não dormi muito bem.
Do outro lado, Lívia estava com as amigas, fingindo olhar o caderno. A caneta dela não mexia. O ouvido, em compensação, estava trabalhando em modo radar militar.
Selena, educada e colaborativa com a conversa… fez o que sempre fazia.
Aumentou o dano.
-- É. Ele rolou a noite toda na cama.
As conversas paralelas cessaram.
Foi imediato, como alarme de invasão de monstros.
Uma caneta caiu.
Uma cadeira rangeu.
Alguém puxou o ar como se tivesse tomado um crítico.
Ren sentiu o coração parar e voltar com atraso.
(Pensamento do Ren: NÃO. NÃO. NÃO. NÃO.)
Lívia virou devagar, os olhos arregalados, a voz tropeçando:
-- C-co… co-co… como assim… você sabe disso?
Selena piscou, pura inocência.
-- Porque nós dormimos juntos.
A sala explodiu.
QUEEEE?!
QUEEEE?!
QUEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE?!
Os rapazes reagiram como se tivessem testemunhado um evento mítico. Dois fizeram caretas de choque, um quase caiu pra trás. Outro agarrou a carteira como se precisasse de apoio espiritual.
Caio virou para Ren como se Ren tivesse ascendido.
-- KAMISAMA!!!
Um cara do fundo gritou com reverência genuína:
-- MESTREEEE!
Ren queria evaporar.
As garotas ficaram vermelhas num efeito dominó. Metade cobriu a boca. A outra metade arregalou os olhos.
Lívia… Lívia tremia.
Tremia de verdade. O rosto dela ficou vermelho até as orelhas e a mente dela parecia estar fazendo cálculos proibidos:
Dormindo… juntos…
Eles já têm esse tipo de relação?
Então era isso… ele gosta desse tipo de garota…
Eu… eu… eu perdi sem nem saber que tava jogando…
Ren levantou as mãos, desesperado, tentando apagar incêndio com um copo d’água.
-- Não é nada disso que vocês estão pensando! A gente só… não conseguiu dormir!
Silêncio.
Por meio segundo, pareceu que ele tinha conseguido.
E então Selena, prestativa, decidiu explicar melhor.
-- Ren não parava de se mexer. Eu achei que ele não iria aguentar. Ele repetia a noite toda… “controle-se, controle-se… amanhã tem mais…”
Ren sentiu a alma saindo do corpo em parcelas.
Selena bocejou, lembrando do esforço:
-- Até fiquei cansada.
A sala inteira fez caretas diferentes, cada uma pior que a outra.
Um “UHHH” coletivo nasceu, como se a turma tivesse virado plateia de novela.
Lívia levantou num pulo, apontando para Ren com a mão tremendo, o rosto em combustão:
-- REN… seu… seu… seu…
Ela travou na palavra certa e então cuspiu a palavra que a escola mais gostava:
-- PERVERTIDO!
Ren afundou na carteira.
Davi fechou os olhos e balançou a cabeça, como quem assiste o universo cumprir o próprio contrato.
Caio bateu no ombro do Ren com respeito quase religioso.
-- Mestre… ensina-nos vosso conhecimento.
Ren, quase chorando:
-- Eu vou mudar de planeta.
[Nota do narrador: ele não consegue nem mudar de lugar na sala sem alguém comentar. Mas a esperança é bonita.]
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Intervalo: a cantina vira taverna
No intervalo, Selena caminhou até a cantina como se estivesse entrando numa taverna lendária.
Ela olhou as vitrines, analisou o fluxo de alunos, farejou o ar com a seriedade de uma caçadora.
-- Este local… abastece mana?
Ren, com a alma fora do corpo:
-- É só comida.
Selena apontou para os salgados como quem escolhe itens de cura.
-- Eu preciso… de muitos.
Ela pegou tanta coisa que a atendente ficou com a cara de quem viu um desastre econômico se formando.
Ren teve um flash da barra de ouro e quase morreu ali mesmo, mas Selena pagou com um cartão de aproximação, “normalmente” e isso foi, por si só, um milagre.
[Nota do narrador: quando o “normal” vira evento raro, você já sabe que a campanha saiu do controle.]
-- Onde você conseguiu essa cartão? Questionou Ren.
-- A "Mami" me deu, falou que era pra comida e afins.
(Pensamento do Ren: Tô realmente achando que perdi a mãe)
Selena sentou e começou a comer como se estivesse repondo HP de uma raid.
-- Impressionante, comentou ela, olhando a cantina. Mas… onde ficam as masmorras deste mundo?
Davi, agora mais relaxado, soltou um meio sorriso.
-- Masmorras?
Caio riu.
-- Ela não sai do personagem, né?
Selena olhou para eles, séria.
-- Eu não tenho personagem. Eu tenho missão.
Caio achou isso incrível.
-- Tá. Respeito.
Davi apontou com a cabeça, brincando:
-- Se você quer “masmorra”… tem o porão do prédio antigo. Dizem que é assombrado.
Caio completou:
-- Ou o laboratório de química. Aquilo é uma dungeon de verdade.
Selena arregalou os olhos.
-- Laboratório… alquimia.
Ela virou para Ren com entusiasmo.
-- Vamos então, Ren.
Ren piscou devagar.
-- Vamos… pra onde?
Selena levantou, já animada.
-- Para a masmorra.
Ren se levantou no automático, como um zumbi obediente.
(Pensamento do Ren: Eu já desliguei. Eu só sigo o fluxo. Meu cérebro pediu férias.)
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Recrutamento: “precisamos de um grupo”
Selena cruzou os braços, avaliando Caio e Davi como se fossem NPCs candidatos a classe.
-- Antes, precisamos de um grupo.
Caio apontou para si mesmo, empolgado.
-- Eu topo! Mas eu sou novato, hein.
Davi deu de ombros.
-- Se isso for uma brincadeira… ok.
Selena sorriu. Mas não foi o sorriso inocente de antes.
Foi um sorriso… com canto levantado.
Um sorriso malicioso.
-- Ótimo. Podemos treiná-los.
Ren sentiu um arrepio.
(Pensamento do Ren: Isso não é uma boa ideia.)
[Nota do narrador: quando você sente “arrepio”, normalmente é o roteiro assinando seu nome sem você ler.]
Caio riu.
-- Treinar como? Tipo… flexão?
Selena olhou para ele, serena.
-- Sobrevivência.
Ren engoliu seco.
E então aconteceu o pior.
Lívia, que estava ouvindo tudo sem perceber, se aproximou quase sem pensar. As bochechas ainda vermelhas, o orgulho tentando se recompor.
-- Eu… eu também quero participar.
A turma ao redor fez aquela careta coletiva de “IH”.
Ren quis cair no chão e virar carpete.
Selena virou para Lívia, analisando como se estivesse escolhendo build.
-- Você…
Selena olhou para os braços dela, postura, olhar, e fez uma leitura completamente dela mesma:
-- Parece uma classe de suporte. Talvez… curandeira. Ou barda.
Lívia piscou.
-- Barda?
Caio cochichou:
-- Eu sabia. Ela é a healer.
Davi comentou baixo:
-- Isso tá ficando sério demais.
Selena bateu palma uma vez, decidida.
-- Precisamos testar a força do grupo antes de entrar na masmorra.

Ren, por dentro, já era só poeira:
(Pensamento do Ren: Eu não sei que masmorra é essa. Eu não sei que teste é esse. Eu só sei que isso cheira a problema.)
Selena apontou para o pátio como quem aponta para um campo de batalha.
-- Primeiro teste… agora.
Ren queria dizer “não”.
Mas a boca dele não funcionou.
Ele apenas seguiu o fluxo, derrotado, enquanto o destino preparava a próxima cena com um sorriso cruel.
Quest 05 em progresso: cheiro de problema detectado.