A névoa da manhã agarra-se ao pântano, tornando a visibilidade dos caminhos de pedra entre as árvores retorcidas e o solo úmido um desafio para olhos destreinados.
Aqui e ali, poças de líquidos esverdeados borbulham, liberando vapores que levariam qualquer mortal à inconsciência em segundos. Nos arredores dessas poças, ossos humanos e de outras criaturas jazem espalhados, branqueados pelo ácido constante.
A calmaria da água esverdeada de uma das poças é subitamente interrompida. Quando um inseto do tamanho de uma pequena maçã sobrevoa a superfície, uma língua longa dispara da lama num borrão para capturar a presa. Porém, antes que a língua consiga retornar, uma flutuação de mana distorce o ar. O apêndice viscoso é interceptado por uma mão invisível e puxado com violência, revelando o que a poça escondia.
Uma criatura é arrastada para fora: um sapo do tamanho de um cachorro de grande porte, coberto de verrugas que expelem uma névoa levemente ácida. A besta é arremessada contra o chão firme e, de trás das árvores, três humanos surgem.
— Lorde Kain ficará muito satisfeito com esse Sapo Verrugoso. Eles são raros por aqui e o Lorde tinha postado a missão há meses sem sucesso — diz o homem à esquerda, um sujeito musculoso e careca, com a voz animada.
— Sim, Lorde Kain é conhecido por ser generoso, e esse sapo feio é de nível avançado. Vale muito — completa o homem à direita, magro e de rosto encovado, com ralos fios de cabelo.
— Silêncio, vocês dois. Temos que imobilizar a criatura e levá-la logo. Vocês sabem que não podemos atrair mais aprendizes ou bestas para cá. É perigoso e podemos perder a mercadoria — repreende o homem do meio. Ele é o mais baixo do trio, mas, quando fala, os outros se calam imediatamente.
Os três, com esforço conjunto e canalizando mana em feitiços de contenção, imobilizam o sapo, que tenta se debater em vão. Depois de preso, carregam-no com dificuldade seguindo o caminho de pedra, enquanto o homem baixo segue na retaguarda, vigiando os arredores com cautela.
...
Após algumas horas de marcha, eles chegam à torre. É uma estrutura impressionante erguida numa clareira artificial dentro do pântano, livre das poças de ácido, onde se ouve apenas o som de passos apressados. Vários aprendizes entram e saem da estrutura; lançam olhares curiosos para o grupo e a criatura capturada, mas, ao sentirem a flutuação de mana de Nível Avançado dos três, desviam o olhar respeitosamente.
O trio mantém o ritmo e sobe a torre em direção ao quinto andar, parando diante de uma porta de metal reforçado. Na placa, lê-se:
"Área de criação de bestas. Não entrar sem autorização. Sobrevivência não garantida."
Eles batem e aguardam. Logo, a porta se abre. Um homem surge, aparentando cerca de 24 anos, com cabelo curto, sobrancelhas grossas e um olhar frio e calculista. Uma pressão de mana, superior à de um Aprendiz Avançado e beirando o limite mortal, emana dele.
— Lorde Kain, conseguimos cumprir a missão que o senhor postou no centro de tarefas — o mais baixo dos homens fala, curvando-se respeitosamente.
— O espécime está em bom estado. Muito bem, achei que ninguém fosse ser útil nesta torre. — Kain vira as costas e finaliza: — Sigam-me, mas controlem a curiosidade e não toquem em nada. Tragam a mercadoria.
Sem esperar resposta, Kain caminha para o interior. Os três homens hesitam por um instante, mas decidem entrar. Diante deles, surgem várias áreas de contenção distribuídas por um salão amplo.
O local abriga diversas criaturas: morcegos de sangue, zumbis, alguns goblins tremendo em suas jaulas e larvas do tamanho de uma abóbora, entre outros espécimes frequentemente encontrados no pântano. Os homens olham ao redor, impressionados, mas lembrando-se das palavras na porta e do aviso do dono do local, seguem em silêncio absoluto.
Eles chegam ao centro do local, onde encontram uma bancada de cirurgia manchada com sangue seco, uma prateleira repleta de órgãos de animais e outras substâncias que não parecem pertencer a bestas, além de uma pequena mesa no canto com um caderno cheio de anotações. Os três param e observam, tremendo ao notar, imóvel em um canto escuro, um ogro de três metros. Uma aura opressora, superior à dos três juntos, emana da criatura.
Kain para e ordena:
— Deixem o sapo na área de contenção vazia, a número quatro. Depois voltem aqui, vamos conversar sobre a recompensa.
Enquanto os homens se apressam em cumprir a ordem, Kain observa silenciosamente, mergulhado em reflexões.
"Dez longos anos desde que vim parar neste maldito mundo...", pensa ele, sentindo o peso da sobrevivência. "Quase morri várias vezes. Agora tenho um pouco de poder, mas o mentor está apressado, temeroso comigo e com os outros pseudo-magos. Ele ficará mais vigilante e paranoico."
Ele desvia o olhar por um momento e observa a própria mão, onde uma marca em forma de estrela sob a pele pulsa com uma luz tênue e sinistra. Kain suspira baixinho, num tom quase inaudível:
— Espero que o plano para me livrar dessa marca funcione...
Os homens retornam, interrompendo o breve momento de introspecção. Kain caminha até a mesa lateral e apanha três bolsas de couro que tilintam suavemente.
— Aqui está o pagamento: trinta pedras mágicas de baixo nível para cada um. E um bônus de cinco pedras para o líder, pelo estado impecável do sapo.
— Lorde Kain é realmente generoso! — exclama o musculoso, apanhando sua parte com as mãos trêmulas.
— Sumam daqui — Kain corta o entusiasmo de forma gélida. — Tenho trabalho a fazer e as bestas aqui não vão ser estudadas sozinhas. Se eu tiver novas missões, elas estarão no mural como de costume.
Os aprendizes se retiram apressadamente. Quando a porta de metal se fecha, Kain se vira para o recinto quatro. O Sapo Verrugoso coaxa fracamente, ainda exausto da viagem.
Kain se aproxima do vidro e fala para o anfíbio, sussurrando:
— Calma, amiguinho. Se você sobreviver, se tornará uma nova criatura.
O sapo, sem entender, treme ao sentir o olhar e a aura pesada de Kain