A luz do sol começa a desaparecer, dando lugar ao luar que entra timidamente pela única janela da sala, iluminando a mesa no canto. As bestas nos recintos permanecem em silêncio absoluto — até mesmo os goblins —, receosos de atrapalhar o ser que ali está.
A sala continua a mesma da manhã, apenas com a iluminação reduzida, agora banhada pela luz suave de frascos de vidro fixados nos cantos. Dentro deles, insetos bioluminescentes brilham — uma solução comum e econômica usada em toda a torre.
Kain, sentado à escrivaninha, escreve habilmente densas anotações em seu caderno.
Sobre a mesa, além do livro em uso, há uma pequena pilha de outros três volumes, exibindo o desgaste do tempo e as capas marcadas com o título: "Guia Básico de Criaturas Mágicas, por Kain".
Após escrever a última linha, satisfeito, ele reclina-se na cadeira e observa o recinto. Seu olhar pousa no ogro gigante, imóvel nas sombras do canto, e seus lábios se curvam num meio sorriso.
— Golias, as técnicas que lhe ensinei parecem surtir efeito. Seu corpo se adaptou às modificações?
Surpreendentemente, o ogro, antes estático, acena com a cabeça e responde com uma voz rouca, pausada, como se articular palavras exigisse esforço físico:
— Sim... Mestre.
Kain foca o olhar em Golias, avaliando a musculatura e a estabilidade da pressão de mana, antes de assentir levemente.
— Bem, grandão, mantenha o treino nas técnicas de cavaleiro. Eu as adaptei especificamente para a sua fisiologia. Elas devem ajudá-lo a alcançar o limiar de Pseudo-Transcendente.
Golias acena silenciosamente e retorna à sua vigília. Kain corre os olhos pela sala, verificando os espécimes, e volta a atenção para o caderno, revisando o conteúdo, perdido em pensamentos.
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Relatório dos Recintos de Bestas
1. Goblin Cavernoso
Quantidade: 4 espécimes.
Classificação: Básico (Ápice da espécie).
Potencial: Baixo. Os indivíduos capturados são meros batedores expulsos da tribo; não possuem margem para desenvolvimento genético.
Status: Descartáveis. Seria necessário encontrar variantes com linhagem superior, mas são raros.
Notas: Goblins são pragas onipresentes, de reprodução rápida, porém frágeis. Variantes fortes, como Xamãs, são o núcleo das tribos e difíceis de capturar. A subespécie cavernosa raramente vê a luz do dia, tornando a chance de encontrar um espécime de alto potencial estatisticamente nula.
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2. Larva Parasita
Quantidade: 2 espécimes.
Classificação: Iniciante.
Potencial: Variável (Intermediário a Alto), dependendo do hospedeiro. Sem auxílio externo, não conseguem parasitar existências acima do nível básico.
Objetivos: Analisar o método de parasitismo, reprodução e indução de mutações úteis.
Notas: Larvas da "Borboleta da Morte". Não possuo dados da forma adulta. O ciclo de vida exige hospedeiros vivos; elas os devoram de dentro para fora em meses, assumindo controle motor no processo. O ciclo encerra com a explosão abdominal da vítima para liberar a forma adulta. Inofensivas sozinhas, letais se ingeridas.
Um tique nervoso repuxa o olho de Kain ao reler os dados das larvas, imaginando a natureza macabra da borboleta que nasce de tal horror. Ele respira fundo e continua a leitura.
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3. Morcego de Sangue
Quantidade: 3 espécimes.
Classificação: Intermediário.
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4. Rato Cinzento
Quantidade: 5 espécimes.
Classificação: Iniciante.
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5. Sapo Verrugoso
Quantidade: 1 espécime.
Classificação: Avançado (Ápice da espécie).
Potencial: Alto. Adultos atingem o nível avançado naturalmente.
Objetivos: Domesticação, implante de marca de comando e modificação genética.
Notas: Predadores de emboscada solitários, comuns nas poças ácidas do pântano. Possuem alta defesa física e resistência mágica, mas baixa mobilidade. As verrugas dorsais filtram e armazenam ácido, liberando-o como nuvem defensiva. O ataque principal é a língua, que também é seu ponto fraco; puxá-la causa atordoamento. Embora considerados simples para o nível avançado, o rompimento das verrugas libera gás letal, e sua força de tração ao puxar presas para o ácido é perigosa.
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Kain encerra a leitura e apoia a testa na mão, esfregando as têmporas enquanto formula hipóteses.
— O sapo é útil, mas precisa de massa muscular. Talvez aplicar um gene de gigantismo? — murmura para si mesmo. — Precisaria de mais espécimes... aplicar o gene durante a fecundação dos embriões seria o ideal.
Seu olhar recai sobre os goblins. Decidido a dar-lhes alguma utilidade, levanta-se e caminha até o vidro. Entra no recinto, fazendo as criaturas encolherem-se de pavor.
— Hora de contribuírem para a ciência, rapazes.
Sem cerimônia, Kain ergue dois deles pelo pescoço usando a Mão de Mana. Sai, tranca o recinto e caminha até a jaula das larvas. Com um movimento frio, arremessa os goblins lá dentro e mantém a magia ativa para imobilizá-los, facilitando o trabalho das larvas ainda jovens.
Kain observa impassível. As larvas, detectando carne fresca, arrastam-se instintivamente até as presas. Os goblins tentam se debater contra a magia invisível, em vão.
Os parasitas forçam a entrada pelas vias orais e, após alguns minutos de agonia silenciosa, a luta cessa. Os goblins se levantam, cambaleantes, o olhar vazio semelhante ao dos zumbis.
Satisfeito, Kain retorna à mesa. Abre o caderno na seção das larvas e preenche o espaço em branco com detalhes do processo de invasão e as flutuações de mana observadas. Ao final, anota: "Em observação: Monitorar o tempo de incubação e degradação dos hospedeiros."
Ele fecha o livro e o alinha perfeitamente com os outros três. Aquela pilha continha anos de sangue e suor. Relaxa na cadeira, colocando os pés sobre a mesa e encarando o teto de pedra, buscando um momento de paz.
A tranquilidade, porém, dura pouco.
Uma pontada aguda de dor atravessa sua mão. Ele a ergue e vê a marca em forma de estrela brilhar intensamente sob a pele. A voz de seu mestre ecoa diretamente em sua mente, fria e imperiosa.
A expressão relaxada de Kain desaparece, dando lugar a uma sombra grave.
— Droga... os planos precisarão ser acelerados.