Kain mantém o foco em seu livro, ignorando a tensão que preenche a sala.
Golias começa a caminhar.
Lerona, que antes exibia um sorriso brincalhão, assume um olhar de interesse genuíno. Os passos pesados do gigante ecoam pela sala; as bestas nos recintos tremem e choramingam, a memória da dor vindo à tona. Apenas os goblins, de olhares vazios, continuam o trabalho mecanicamente.
Kain suspira, sem levantar os olhos:
— Golias, resolva rápido e silenciosamente.
Ao escutar o comando, o gigante controla seus passos. As veias em seus braços e pernas saltam, pulsando com uma energia sinistra. Seu tamanho colossal projeta uma sombra densa sobre o rosto delicado de Lerona.
O gigante ergue o punho e desce com violência. O som do impacto rasga a tranquilidade do ar.
O soco atinge o chão reforçado, criando uma cratera profunda na pedra, enquanto teias de rachaduras se espalham pelo impacto.
Lerona, tendo desviado no último segundo com um passo fluido para trás, suspira dramaticamente, limpando uma poeira imaginária do ombro.
— Quase, irmãozinho. Por pouco você não perde sua visita.
Kain desvia o olhar do livro, uma sobrancelha erguida.
— Você aprendeu truques novos.
"Ela não era tão rápida meses atrás. O que aquele velhote ensinou a ela?", Kain pensa. Suas sobrancelhas se unem em reflexão enquanto ele analisa a postura relaxada, porém letal, de Lerona.
...
— Por que, Lerona?
Uma voz jovem soa na memória, ecoando na sala silenciosa. Um garoto de cabelos pretos está ajoelhado no chão, de cabeça baixa.
— Por que, Kain? Porque somos fracos. Porque você é fraco. Porque não protegemos o Gael.
A jovem da memória, com traços idênticos aos do garoto, sai da sala sem olhar para trás. Um velho a espera lá fora, com roupas limpas e organizadas.
— Muito bem, minha querida aprendiz.
A risada rouca e seca do velho ecoa pelo ambiente. O jovem ajoelhado treme, mordendo os lábios até o sangue escorrer.
...
Kain balança a cabeça, livrando-se das memórias amargas como se espantasse uma mosca.
— O que o Pilar da Mecânica quer comigo? — pergunta ele, a voz gélida.
O desprezo de Lerona ainda está presente, mas agora com uma camada de diversão.
— Kain, você acha mesmo que consegue enfrentar o Mentor? Ainda está preso nessas ilusões infantis de vingança?
Balançando a cabeça negativamente, a voz cansada de Kain preenche a sala:
— O que uma fraca consegue entender? — Ele se levanta da cadeira, a amargura transbordando. — Mentor? Aquele velhote sabe que eu o desprezo.
Ele caminha, passando por Golias e parando diante da jovem, observando-a com pena.
— Somos cordeiros criados para o abate, Lerona. Uma hora o fazendeiro virá para a colheita. Se você não vê isso, já está morta.
Lerona escuta com seu desprezo visível.
— Você continua paranoico e mesquinho como sempre, Kain. Mesmo depois de tantos meses... vim aqui à toa, aparentemente.
Ela se vira abruptamente, o manto girando, e caminha em direção à saída.
Ao passar pela porta, dois ogros de guarda tentam bloquear sua passagem. Num piscar de olhos, ouve-se apenas um som metálico abafado, thump-thump.
Kain observa enquanto ela desaparece no corredor. Os dois ogros na porta permanecem de pé por um segundo, antes de deslizarem lentamente para o chão, com lanças metálicas finas cravadas precisamente em seus corações, os olhos vazios encarando o nada.
Kain caminha até o local onde Lerona estivera parada. Há um pequeno pedaço de papel no chão.
Ele o apanha. Em letras pequenas e elegantes, lê-se: "Prepare-se".
...
Notícias se espalham como fogo na torre. Boatos correm pelos corredores de pedra: o Pilar da Biomancia está recrutando subordinados. Estranhamente, os preços das criaturas vendidas na loja gerenciada por Kain despencaram, atraindo a atenção de todos.
Uma fila de aprendizes, desde iniciantes até intermediários, forma-se no corredor do quinto andar. Pequenas confusões ocorrem quando aprendizes avançados surgem; eles furam a fila sem cerimônia, empurrando os mais fracos, que abaixam a cabeça em sinal de submissão.
As portas agora são vigiadas pelo próprio Golias e por uma nova figura: uma ogra, poucos centímetros menor que o gigante. Ela veste peles que formam um manto rústico e segura um crânio que pulsa com uma luz azul etérea.
Sussurros correm pela fila como um veneno; até mesmo os aprendizes avançados observam com um medo visível.
— Uma Xamã ogra... como é possível?
— Achei que não existissem, ogros são burros demais para canalizar mana...
— Essa pressão mágica... não é normal.
Os sussurros cessam bruscamente com o som de passos pesados vindo de dentro da sala. Kain surge à vista de todos. Ainda parece exausto, com olheiras profundas, mas sua coluna está ereta como uma lança e o rosto, gélido.
— Quero pessoas úteis. Não lixo — diz ele, a voz baixa, mas perfeitamente audível.
Em seguida, sem aviso, ele libera sua mana.
Não é um feitiço, é pura pressão atmosférica. Uma onda de intenção assassina e poder bruto varre o corredor.
A reação é imediata. A maioria dos aprendizes cai pesadamente, como marionetes que tiveram os fios cortados. O corredor é preenchido pelo som de corpos atingindo a pedra, bocas espumando e membros se contraindo em espasmos incontroláveis. Apenas alguns poucos conseguem se manter de joelhos, lutando para respirar.
— Frida, vigie a fila com Golias. Deixe entrar apenas os que ainda estão conscientes. Um por vez.
— Tudo bem, senhor. Frida entende.
A ogra responde com uma voz grossa, mas inegavelmente feminina.
Kain dá as costas e retorna para a escuridão de seu laboratório, o som de seus passos abafado pelos gemidos dos aprendizes agonizando no corredor.