Sob o olhar curioso de Kain, a menina se aproxima. Chegando até ele, ela para e o encara, sem desviar o olhar, sem demonstrar o menor sinal de medo.
Kain apoia-se na mesa e coloca a mão no queixo, observando-a, divertido.
— Você não tem medo de mim? Não ouve os boatos que circulam na torre? — Kain finge pensar por um instante e então continua: — Acho que o último nome que me deram foi "Maníaco da Carne"… ou "Louco das Bestas".
A menina ri suavemente e responde:
— Senhor Kain, apenas tolos acreditam em tudo o que idiotas falam. Para mim, o senhor parece mais um mestre da Biomancia.
— E então, por que veio até mim? Não teme se tornar um experimento aqui? Lembro que Magnus e suas poções, ou Thyson e seus esqueletos blindados, também estavam recrutando aprendizes… e eles são considerados mais "sãos".
Kain diz isso com um breve sorriso, descontraído, mas seus pensamentos são afiados:
"Há algo errado com essa garota… É impossível que ela tenha ignorado a pressão da minha aura. Sua resistência psicológica é anormalmente alta…"
A menina fica séria e fala de forma desdenhosa:
— Senhor Kain, não quero ficar fedendo a ervas, nem cavar túmulos com aquele homem com cara de raposa.
— Ha, ha, ha… — Kain ri e se levanta. — Está claro. Você, garota sem nome, tem problemas mentais. Não teme os Pilares.
Aproximando-se, ele ergue o queixo dela para encará-lo nos olhos.
— E eu gosto dos loucos.
A garota sustenta o olhar sem piscar.
— Meu nome é Yara, senhor.
...
Descendo as escadas, John balança a cabeça, atordoado.
— Aquela garota é perturbadora…
Um frio percorre seu corpo ao se lembrar dela parada na frente da fila, aquele olhar vazio e focado…
— Não só a garota… Kain ficou assustador também…
Ele acelera o passo ao pensar nisso.
— Ainda não acredito que os boatos estão certos… Kain… o pequeno Kain… é o Pilar da Biomancia.
O saco, abraçado contra o peito, emite o tilintar metálico das estacas a cada passo.
Logo, ele chega aos alojamentos inferiores. Entra na área dos aprendizes intermediários e procura seu quarto, ignorando os olhares e comentários pelos corredores.
Ele entra, tranca a porta e desaba sentado na cama.
Pega o saco de pano, observa-o por alguns segundos e então o vira sobre o colchão, deixando todo o conteúdo cair. Além das estacas que Kain mostrou, alguns papéis se espalham pela cama.
John, surpreso, é arrastado para o passado.
...
O navio atraca, o baque surdo fazendo as pessoas nas gaiolas se encolherem ainda mais.
Logo, o alçapão se abre. O som de passos descendo a escada ecoa. A luz do sol invade o porão, ferindo olhos acostumados à escuridão.
— Droga, espero que nenhuma das mercadorias tenha morrido.
Uma voz grosseira soa, acompanhando os passos.
— Não se preocupe, Senhor Daniel. Todos estão vivos. Verificamos antes de chegar ao porto.
Logo, um par de botas de couro de uma besta desconhecida surge nas escadas, seguido por botas de metal pesado. Em seguida, os donos das vozes se revelam.
À frente, um homem com um manto bem arrumado, ostentando no peito um broche de uma torre cercada por árvores retorcidas. Seu cabelo dourado brilha sob a luz do sol, e seu rosto mantém uma expressão fechada e profissional.
Atrás dele, um homem gigantesco, uma cabeça mais alto que o anterior, caminha respeitosamente alguns passos atrás, vestindo uma armadura completa amarronzada, marcada pelo desgaste do tempo.
O olhar frio de Daniel passa por todos, avaliando-os como gado.
— Gael, Kain, se nos separarmos, guardem esse sinal. Caso a gente se encontre no futuro…
John observa a cena e fala, ainda com seu tom calmo. Todos acenam, concordando com o pacto silencioso.
...
Recuperando-se das memórias, John vê no papel aquele símbolo que ensinou ao grupo, nunca imaginando que o veria novamente. Apenas aqueles que estavam na gaiola naquela época sabem o que ele significa.
Um desenho de uma lua azulada, cortada por várias rachaduras.
John pega o papel com as mãos trêmulas e lê as palavras densas escritas ali.
"John, se por trás dessa tremedeira e hesitação ainda existe o antigo John, você terá lido este papel antes do amanhecer. Faça um comentário sobre a lua amanhã para eu entender que você leu e entendeu.
Mestre Vargos está paranoico. Desde a morte de Gael, ele me vigia de perto. Lerona passou para o lado dele naquele dia, o que imagino que você saiba. Em relação a você, achei que estivesse morto.
Amanhã, preciso que você mantenha silêncio absoluto sobre o que vir no pântano. Confiando no que conheço de você, irei testá-lo.
Siga Frida amanhã e obedeça a ela. Finja hesitação e medo no caminho. Vargos irá vigiá-lo até você sair da zona da torre, simplesmente por saber que nos conhecemos no passado."
John termina de ler, respira fundo e tenta guardar o papel.
Mas então, a folha entra em combustão espontânea, queimando em uma chama azulada sem deixar cinzas.
— Pequeno Kain… ainda tão desconfiado…
John recolhe os itens e os guarda novamente no saco, refletindo:
"Larvas parasitas… lembro de tê-las visto no canto sul do pântano. Mas tinha algo errado naquele lugar naquela época. Bem, pelo que observei, a tal Xamã Ogra é forte. Nunca achei que isso pudesse existir nessa raça."
Deitado, olhando para o teto de pedra, ele logo pega no sono, a mente girando com as possibilidades.
As notícias voam com os ventos frios da noite, alcançando todas as áreas principais da torre, principalmente as oficinas dos Pilares no quinto andar.
…
— Aquele louco do Kain, criando tanta confusão…
Um homem de cabelos azulados pragueja na Sala das Runas. Os aprendizes ao redor ficam quietos, não ousando abrir a boca enquanto ele desenha furiosamente. A sala está cheia de livros e tintas especiais que brilham nas prateleiras, as paredes cobertas de diagramas complexos.
…
— Kain, Kain… o que você está planejando? Será que Mestre Vargos já sabe?
Em uma área reservada do Jardim de Ervas, um velho de pé próximo a um grande caldeirão borbulhante murmura para si mesmo. O cheiro de ervas medicinais e venenosas é intenso. Alguns aprendizes tentam prestar atenção em suas ações, mas olham com medo para o líquido que muda de cor no caldeirão.
…
Na Sala de Mecânica, repleta de engrenagens, braços robóticos e pistões a vapor, Lerona está sentada, ouvindo uma aprendiz relatar os eventos do dia.
No rosto de Lerona não há o desprezo de dias atrás.
— Irmãozinho… vamos ver o que você vai fazer.
Um sorriso brincalhão surge em seu rosto, mas, no fundo dos olhos, há um brilho pensativo e calculista.
…
Na Sala de Forja, só se escuta o som ritmado de marteladas no metal incandescente. Risadas roucas e maníacas às vezes soam em harmonia com as batidas, ignorando completamente o mundo externo.
…
As portas da Sala de Criação de Bestas agora se mantêm fechadas. O corredor, antes lotado, encontra-se em um estranho silêncio sepulcral.
Dentro da sala, Kain opera uma besta com um bisturi escuro, seus movimentos precisos e frios.
Na mesa em que ele normalmente se senta, Yara, com o rosto sério, lê os diários de anotações. Suas mãos delicadas passam as páginas com reverência.
No dorso de sua mão, uma marca recém-feita brilha com tinta fresca: uma lua rachada.
Durante a leitura, ela ocasionalmente desvia o olhar para Kain, observando as operações viscerais com um brilho fanático nos olhos.
Ao fundo, Golias e Frida, segurando baldes de metal, alimentam as criaturas nos recintos, jogando pedaços de carne frescas para as sombras famintas.