Uma nova vida estava começando.
O entardecer caía sobre as casas coloridas da vila, e um menino e seu pai observavam o céu do alto de um terraço de adobe.
O gigantesco globo alaranjado do sol escondeu-se por trás das colinas rochosas de granito, enquanto um eclipse começava a projetar uma luz estranha sobre o vale.
A primeira noite chegou à Vila Núbia com uma penumbra profunda, a sombra da lua rastejando sobre as margens férteis e as águas escuras do Nilo.
O calor acumulado nas paredes de tijolos de barro irradiava rapidamente para o céu limpo.
A temperatura caiu bruscamente, e o vento seco da noite soprou, trazendo o som do rio batendo nas pedras e o balançar das palmeiras ao redor das casas
O vento soprava forte, gelando o homem e seu filho. A falua o pequeno barco a vela ancorado na margem logo abaixo deles balançava com a brisa do Nilo. As cordas de cânhamo esticadas e a madeira velha do casco rangiam em sintonia com os gritos de parto dolorosos que vinham de dentro da casa de adobe.
O menino olhou para trás, para a construção. Um refúgio rústico de tijolos de barro e teto de palha de tamareira, erguido sobre a rocha de granito, era seu único lar contra a imensidão implacável do deserto.
A porta entreaberta projetava um losango de luz trêmula das lamparinas sobre o solo seco, suavizando a aspereza das pedras da vila.
Como se provocada pelo olhar, a porta foi fechada por alguém lá dentro, cortando a luz quente.
As grossas paredes de barro abafaram os gritos apenas um pouco.
O pai do menino também olhou para trás, depois o abraçou com mais força, puxando-o para perto.
— Ela vai ficar bem — disse o homem. — Sua mãe é forte. Seu irmão chegará em breve.
O menino era grande o suficiente para deduzir que as palavras tinham a intenção de tranquilizar o pai, não a ele.
O corpo de seu pai estava devastado pelas sequelas de uma vida de trabalho exaustivo sob o sol escaldante e pelas marcas de antigas batalhas nas fronteiras do sul.
Rugas profundas, como as fendas nas rochas do Nilo, marcavam suas bochechas.
Seus lábios estavam cobertos de crostas de pele, castigados pela secura extrema do Saara.
Em meio à barba por fazer, um trio de úlceras brilhava, pequenas feridas causadas pelo sol e pela água salobra, como flores vermelhas em uma pele exausta.
Uma espessa juba de cabelo castanho, salpicada de fios grisalhos prematuros e áspera pelo sedimento do rio e pela areia, emoldurava seu rosto. Havia falhas negras em seu sorriso amarelado.
Com pouco mais de trinta anos, o homem já era velho, sentindo-se muito além de seu auge após décadas de labuta sob o sol implacável.
Seu amuleto de proteção era uma herança de família inestimável, feita de vidro polido e âmbar escurecido pelo tempo que repousava em seu peito sobre as vestes, enquanto as marcas de sol em seu rosto revelavam uma pele mais clara ao redor dos olhos, onde o tecido do turbante costumava protegê-lo.
Apesar de todas as crueldades da terra e da vida dura que ela lhe impôs, em seus olhos perfeitos e cor de mel residiam humor e um terno amor por seu filho. A escassez era tudo o que ele conhecera, mas sua humanidade não sofrerá por isso.
— Afaste-se da beirada, Nakht você pode cair — disse o homem suavemente.
Suas mãos rachadas e calejadas ajustaram o linho áspero ao redor do rosto do menino, formando um triângulo perfeito sobre a ponte do nariz para protegê-lo do vento cortante.
Ele sorriu e tocou a testa do filho com o nó do dedo.
Longas vestes de algodão escuro e pesado os envolviam da cabeça aos pés, fundindo-os à silhueta das rochas núbias
O silêncio do deserto era interrompido apenas pelo assobio do vento nas fendas das rochas de granito.
Nakht apertou a mão do pai, sentindo a textura do couro de sua pele.
De repente, um som diferente cortou a noite, vindo das entranhas da casa de adobe: um choro agudo, novo e vigoroso, que parecia desafiar a vastidão estéril ao redor.
O pai de Nakht paralisou por um instante, o corpo tenso relaxando aos poucos como se um fardo pesado tivesse sido erguido de seus ombros.
A porta de madeira pesada se abriu novamente, projetando a luz das lamparinas de óleo de rícino sobre a areia.
Uma mulher idosa, a parteira da vila, apareceu na soleira, limpando as mãos em um pano de linho. Ela não precisou dizer nada; o brilho em seus olhos cansados era o sinal.
— Vamos, Nakht — disse o pai, a voz agora firme e carregada de uma rara alegria. — O ciclo recomeça.
Eles caminharam em direção à luz.
Ao entrar, o calor do fogão de barro e o cheiro de ervas secas envolveram o menino. Sua mãe, embora pálida e exausta, repousava sobre as esteiras de palha, segurando um pequeno vulto envolto em tecidos limpos.
O bebê tinha a pele avermelhada e os punhos cerrados, lutando contra o ar frio que entrava pela porta.
O homem ajoelhou-se ao lado da esposa, tocando-lhe a testa com a mesma ternura que dedicava ao filho lá fora.
Nakht aproximou-se, observando o irmão mais novo. Ali, entre as paredes que os protegiam do deserto implacável e sob a sombra do eclipse que já se dissipou, ele entendeu que, apesar das cicatrizes de seu pai e das dificuldades da terra, a vida era persistente como a abundância do Nilo.
A noite não era mais um vazio de sombras e sim um berço de uma nova história. O menino sorriu, sentindo que, pela primeira vez, o futuro não era apenas uma promessa de sobrevivência, mas um presente vivo em seus braços.