O sol começou seu mergulho final em direção às dunas, banhando a Vila Núbia em uma luz de cobre e mel.
O pátio, antes palco de um duelo brutal, agora era um refúgio de quietude.
Madoc passou as últimas horas sentado entre Nakht e Akhmose sob a sombra de uma tamareira, limpando os equipamentos de couro e ouvindo o balbuciar do filho mais novo.
Ele era o retrato de um pai zeloso, rindo das histórias de Akhmose sobre os escaravelhos que encontrara no jardim, mas seus olhos, sempre alertas, buscavam os de Nakht com uma intensidade melancólica.
— Nakht, pegue seu irmão e vá até as margens — disse Madoc, entregando algumas moedas de cobre ao adolescente. — O velho Hori deve estar chegando com a última rede de percas e tilápias. Comprem as maiores. Esta noite teremos um banquete.
O jovem, ainda sentindo o corpo moído pelo treino, assentiu com um respeito renovado. Ele segurou a mão de Akhmose, que saltitava de alegria com a missão, e ambos desceram a ladeira em direção ao brilho prateado do Nilo.
Madoc observou as silhuetas dos filhos até que elas se tornassem apenas vultos no horizonte. Quando o silêncio finalmente se instalou, ele entrou em casa.
Tuya estava perto do fogão de barro, mas não cozinhava. Ela esperava. As sombras das chamas dançavam em seu rosto, revelando uma expressão de dor contida.
— Você não vai levá-lo — disse ela. Não era uma pergunta.
— Não posso, Tuya — Madoc respondeu, sua voz soando como o atrito de pedras. — Eu o vi lutar hoje. Ele tem o coração de um leão, mas o norte... o norte é um matadouro de almas. Se os demônios sentirem o medo dele, ou o amor que ele tem por mim, eles o usarão para me quebrar. E eu não posso falhar nesta missão.
Tuya aproximou-se, as mãos trêmulas.
— Ele nunca vai te perdoar, Madoc. Você viu os olhos dele. Ele acha que finalmente ganhou o seu respeito como homem.
— Prefiro o ódio dele à sua sepultura — Madoc rebateu, tirando de dentro da túnica um pequeno saco de couro curtido. Ele o abriu com cuidado, revelando uma mistura de ervas secas com um aroma doce e entorpecente, uma combinação de lótus azul e sementes de papoila do deserto.
Ele entregou o saco a Tuya. O peso do segredo parecia maior que o próprio papiro do Faraó.
— Coloque isso no guisado dele. Todas. Ele cairá em um sono profundo e sem sonhos, e não acordará antes que o sol de amanhã esteja no topo do céu. Quando ele abrir os olhos, eu já estarei a léguas daqui, cruzando as estradas de areia em direção à capital.
Tuya olhou para as ervas, seu rosto banhado em lágrimas silenciosas.
— E se ele tentar te seguir quando acordar?
— Ele não terá forças nas pernas por horas. E você dirá a ele que esta foi a minha última ordem como pai e como mestre: que ele proteja você e Akhmose. Se ele me ama, ele obedecerá.
Madoc caminhou até a janela, observando o crepúsculo. O mundo lá fora estava se tornando um campo de caça para entidades que a humanidade mal conseguia compreender, onde o sangue era colhido para sustentar mestres sombrios. Ele sabia que, ao enganar o filho, estava salvando sua vida, mas também sabia que estava destruindo o laço que acabara de fortalecer no pátio.
— Prepare a comida, Tuya — sussurrou Madoc, sem se virar. — Os meninos estão voltando. Que esta seja uma noite de paz, pois é a última que terei em muito tempo.
Os gritos alegres de Akhmose subiam a colina. Madoc limpou o rosto, engoliu o nó na garganta e preparou-se para sorrir para o filho que estava prestes a trair por amor.