O aroma do peixe grelhado com ervas e limão preenchia o interior da casa de adobe, mas para Madoc e Tuya, o cheiro era carregado por uma nota amarga de despedida.
O guisado de lentilhas e legumes, especialmente preparado para Nakht, repousava em uma tigela de cerâmica pintada. As ervas que Madoc entregara a Tuya já haviam se dissolvido ali, invisíveis e fatais para a vigília do jovem.
Os meninos entraram rindo, Akhmose orgulhoso por carregar uma perca prateada quase do seu tamanho.
— Veja, pai! — exclamou o pequeno, os olhos brilhando. — Hori disse que este peixe lutou como um guerreiro, mas Nakht o pegou firme!
— Um bom presságio — Madoc forçou um sorriso, embora o coração pesasse. — Sentem-se. A noite é curta e o corpo precisa de sustento.
Eles se acomodaram sobre as esteiras de palha ao redor da mesa baixa. Nakht estava radiante. A euforia de ter desafiado o pai e, em sua mente, conquistado o direito de marchar ao seu lado, transformara o adolescente em um homem falante.
— Quando chegarmos à capital, pai — dizia Nakht, mergulhando o pão no guisado —, você acha que o Faraó nos dará armas de bronze temperado? Ouvi dizer que as lâminas de Mênfis são capazes de cortar o vento.
Madoc observava cada colherada que o filho levava à boca. A culpa era um veneno tão potente quanto o lótus azul.
— O aço é importante, Nakht — Madoc respondeu, sua voz calma e grave —, mas o homem por trás dele é o que decide a batalha. Não tenha pressa de carregar o peso do metal. Ele cobra um preço da alma que você ainda não conhece.
— Eu não tenho medo do preço — rebateu Nakht, os olhos âmbar fixos nos do pai. — Se for para proteger esta casa e seguir seus passos, eu pagaria qualquer tributo.
Tuya mal conseguia comer. Ela mantinha a cabeça baixa, servindo água a Akhmose com mãos que tremiam levemente. A ironia daquela cena era cruel: uma família celebrando uma união que, em poucas horas, seria quebrada pelo engano.
À medida que a refeição avançava, o vigor de Nakht começou a minguar. Seus movimentos tornaram-se lentos, o brilho nos olhos deu lugar a uma névoa de exaustão profunda. Ele balançou a cabeça, tentando espantar a sonolência que subia por seus membros como a maré do Nilo.
— Eu... eu acho que o treino de hoje me cobrou mais do que eu pensava — balbuciou Nakht, as palavras começando a se arrastar.
— É natural — disse Madoc, levantando-se e contornando a mesa. — O espírito quer marchar, mas a carne precisa de repouso antes da jornada. Venha, meu filho. Deixe que eu te ajudo.
Madoc passou o braço de Nakht sobre seus ombros. O jovem era pesado, quase um homem feito, mas naquele momento, entregue ao sono forçado, parecia novamente a criança que se escondia atrás das pernas do pai durante o eclipse. Madoc o levou até a esteira de dormir no canto mais fresco da casa.
Enquanto ajeitava o corpo do filho, Madoc sentiu um aperto na garganta. Ele removeu as sandálias de Nakht e cobriu-o com um lençol de linho áspero. Nakht tentou abrir os olhos uma última vez, a mão tateando debilmente o braço do pai.
— Amanhã... — sussurrou o jovem, já mergulhado no torpor. — Ao amanhecer... pai...
— Descanse, Nakht — Madoc sussurrou de volta, beijando a testa do filho com uma ternura desesperada. — Que os deuses me perdoem, pois eu sei que você não o fará.
Madoc permaneceu ali, agachado, observando a respiração do filho tornar-se profunda e rítmica. Akhmose já dormia no outro canto, exausto de sua pequena aventura. No centro da sala, Tuya apagava as lamparinas uma a uma, até que restasse apenas o brilho das estrelas entrando pelas pequenas frestas no alto das paredes.
O silêncio da Vila Núbia era absoluto, mas no coração de Madoc, a guerra já havia começado. Ele se levantou, olhou para sua esposa e, sem dizer uma palavra, começou a preparar sua bolsa de viagem. O amanhecer traria o exílio para um e a solidão para outro, enquanto as sombras do norte aguardavam, famintas, pelo retorno do guerreiro.