O sol da tarde ainda castigava as margens do Nilo quando Nakht e Akhmose desceram até as águas baixas do rio.
O silêncio entre os irmãos era palpável, Nakht carregava a khopesh de madeira com uma força desnecessária, seus pensamentos ainda emaranhados na traição do pai. Contudo, ao contornarem um afloramento de rocha de granito, o cenário mudou.
Perto de um camelo que descansava serenamente à sombra de uma palmeira, estava uma figura que parecia ter saído de um sonho ou de um mito antigo.
Era um viajante de uma beleza perturbadora e andrógina, cujos traços eram tão delicados que, por um momento, Nakht hesitou, confundindo-o com uma mulher. Seus cabelos eram de um branco prateado, quase acinzentado com um brilho perolado que refletia a luz do sol de forma hipnotizante.
No ombro do estranho, um gato de olhos atentos observava o movimento, enquanto dois lagartos — um de um vermelho vibrante e outro de um branco nival — rastejavam tranquilamente por suas vestes de seda fina.
— Quem é você? — Nakht perguntou, a voz ainda rouca, colocando-se instintivamente à frente de Akhmose.
O viajante ergueu os olhos e sorriu. Havia uma paz selvagem em seu semblante.
— Apenas um caminhante buscando o frescor das águas de Kemet antes de uma longa jornada — respondeu ele. Sua voz era melódica, calma como o fluir do rio. — Meu destino é o leste. Vou para a terra entre os rios, para a grande Uruk.
Nakht franziu o cenho, surpreso.
— Uruk? Pelas areias, quem seria louco o suficiente para cruzar o deserto em direção àquela cidade agora? Os boatos dizem que o rei de lá, Gilgamesh, é um tirano depravado que não conhece limites para sua própria arrogância. Ele é mais um monstro do que um homem.
O viajante soltou uma risada leve, enquanto acariciava o lagarto vermelho em seu pulso.
— É justamente por isso que vou para lá. Ouvi dizer que ele precisa de alguém que o olhe nos olhos e o lembre do que significa ser humano. Pretendo resolver essa depravação e torná-lo um rei decente, ou pelo menos um que valha a pena servir.
Nakht soltou uma risada amarga.
— Você fala como se fosse domar uma fera. Boa sorte. Muitos tentaram e o que restou foram ossos sob o sol da Suméria.
— O prazer é meu — disse o estranho, levantando-se com uma graça felina. — Eu me chamo Enkidu.
Akhmose, que observava os lagartos com os olhos arregalados de admiração, deu um passo à frente, ignorando a cautela do irmão. A presença de Enkidu emanava uma bondade que parecia desarmar qualquer medo infantil.
— Seus lagartos são mágicos? — perguntou o menino, estendendo a mãozinha.
Enkidu agachou-se, permitindo que o lagarto branco deslizasse para a ponta de seus dedos.
— Eles são apenas companheiros de estrada, meu jovem. Como eu, eles apreciam uma boa sombra e um pouco de paz.
— Você vai dormir aqui na areia? — Akhmose continuou, olhando para o camelo e para as roupas finas do viajante. — Minha mãe diz que os escorpiões da margem são bravos à noite. Por que você não vem para nossa casa? Temos guisado e um teto de adobe!
Nakht sentiu o sangue subir ao rosto.
Ele abriu a boca para protestar, pensando na tensão que já pairava em sua casa e na partida repentina de Madoc, mas ao olhar para o entusiasmo do irmão e para a serenidade inabalável de Enkidu, a negação morreu em sua garganta. Ele não podia ser rude com um viajante, especialmente um que parecia tão desprovido de malícia quanto aquele homem-mulher prateado.
— Akhmose tem razão — Nakht disse, embora ainda meio sem jeito, coçando a nuca. — Nossa casa é simples e meu pai... bem, meu pai não está, mas minha mãe não negaria hospitalidade a um viajante com propósitos tão... ambiciosos. Seria uma honra tê-lo conosco até o amanhecer, Enkidu.
Enkidu inclinou a cabeça, os cabelos prateados caindo sobre os ombros. O gato em seu ombro soltou um miado suave, como se aprovasse a ideia.
— O convite de uma criança é uma ordem da natureza — disse Enkidu, sorrindo para os dois. — Aceito com gratidão.
Enquanto caminhavam de volta para a vila, Akhmose bombardeava Enkidu com perguntas sobre o camelo e os desertos distantes, enquanto Nakht, observando o estranho de soslaio, sentia que a chegada daquele viajante era o primeiro sinal de que o mundo, embora cheio de sombras e demônios, também guardava mistérios que nem mesmo seu pai poderia prever.