A subida da encosta em direção à Vila Núbia foi marcada por um contraste curioso.
O passo pesado e pensativo de Nakht, o saltitar incansável de Akhmose e a leveza quase sobrenatural de Enkidu.
O camelo do viajante seguia atrás com uma elegância silenciosa, enquanto os lagartos pareciam estátuas vivas sobre seus ombros.
— Você disse que quer tornar Gilgamesh um rei decente — comentou Nakht, tentando quebrar o silêncio enquanto chutava uma pedra. — Mas como se muda o coração de alguém que se sente um deus? Meu pai diz que homens poderosos só entendem a linguagem do aço e do sacrifício.
Enkidu olhou para o horizonte, o cabelo prateado brilhando como madrepérola sob o sol poente.
— O aço apenas corta o que é físico, Nakht. A verdadeira mudança vem do encontro. Gilgamesh é como uma tempestade sem destino; ele precisa de um porto, ou de outra tempestade que o enfrente. Às vezes, para humanizar um monstro, você só precisa mostrar a ele que ele não está sozinho na sua força.
Akhmose, que tentava fazer o gato de Enkidu aceitar um carinho, interveio:
— Você vai lutar com ele? Você parece muito bonito para lutar, Enkidu.
Enkidu soltou uma risada cristalina, um som que parecia acalmar o próprio vento.
— A beleza também pode ser uma arma, pequeno. Mas eu lutarei se for necessário. A terra geme sob os passos dele, e a terra de certo modo e minha mãe.
Ao chegarem à porta da casa de adobe, a tensão voltou a tomar conta de Nakht. Ele ainda carregava o peso da ausência de Madoc, e trazer um estranho tão exótico para casa parecia um risco.
Tuya estava no pátio, recolhendo os panos de linho que secavam ao sol. Quando ela ergueu os olhos e viu a comitiva, os tecidos escaparam de suas mãos. Seus olhos se arregalaram. Ela já vira soldados, mercadores e sacerdotes, mas nunca alguém que exalasse a aura que Enkidu carregava.
— Mãe! — gritou Akhmose, correndo para ela. — Trouxemos um viajante! Ele tem lagartos coloridos e vai ensinar um rei a ser bonzinho!
Tuya permaneceu estática por um segundo, os olhos fixos na figura de cabelos perolados.
— Nakht... quem é este? — ela sussurrou, a voz carregada de uma mistura de cautela e maravilhamento.
Nakht deu um passo à frente, sentindo-se desajeitado.
— Este é Enkidu, mãe. Ele estava no rio e vai para o leste. Akhmose o convidou para fugir dos escorpiões da margem. Eu... eu achei que não faria mal.
Enkidu deu um passo à frente e fez uma reverência profunda, uma inclinação que parecia honrar não apenas Tuya, mas a própria casa.
— Peço perdão pela intrusão, senhora deste lar. Sua hospitalidade é um bálsamo para um caminhante que só conhece o pó das estradas. Prometo que meu camelo e eu não seremos um fardo.
Tuya rapidamente recuperou a compostura, embora suas bochechas estivessem levemente coradas pela presença magnética do convidado.
— Qualquer viajante com propósitos nobres é bem-vindo sob este teto, Enkidu — disse ela, recompondo-se e pegando os linhos do chão. — Especialmente um que traz luz em um dia tão... sombrio para nós.
Ela olhou para Nakht com um breve aceno de aprovação, percebendo que a presença do estranho poderia distrair o filho da dor da traição de Madoc.
— Entrem. O guisado ainda está quente, e há tâmaras frescas. Nakht, ajude nosso convidado com o camelo e as bagagens. Akhmose, traga água fresca para o gato e para os pequenos dragões.
Já dentro de casa, sob a luz suave das lamparinas, o ambiente parecia ter mudado. A melancolia que Madoc deixara para trás parecia recuar diante da curiosidade que Enkidu despertava.
— Sua casa tem um cheiro de coragem — observou Enkidu, sentando-se com as pernas cruzadas sobre a esteira, o gato aninhando-se em seu colo. — Mas há uma sombra recente aqui. Um vazio que ainda não foi preenchido.
O comentário fez o silêncio cair sobre a mesa. Tuya parou de servir as tigelas e Nakht baixou o olhar para o pão.
— Meu pai partiu para a guerra hoje — disse Nakht, a voz baixa. — Ele foi enfrentar demônios no norte.
Enkidu olhou para Nakht com uma profundidade que parecia enxergar através de sua carne.
— Demônios... eles são criaturas de excessos. Eles se alimentam do que os homens deixam apodrecer em seus corações. Mas não tema, jovem guerreiro. Às vezes, o que parece uma partida é, na verdade, uma preparação.
— Preparação para quê? — perguntou Nakht, amargo.
— Para o dia em que você não será apenas o filho que ficou para trás — respondeu Enkidu com um sorriso enigmático —, mas o homem que irá buscá-lo.
Tuya serviu a Enkidu a maior porção de peixe, sentindo que, de alguma forma, os deuses haviam enviado aquele ser de cabelos de lua para garantir que a esperança não morresse naquela noite.