O Grande Salão de Guerra estava imerso em uma penumbra estratégica, iluminado apenas por tochas de óleo aromático que projetavam sombras dançantes sobre o imenso mapa de papiro que detalhava as veias do Nilo. A tensão era quase física onde o ar, saturado de incenso e do suor frio dos burocratas, parecia prestes a entrar em combustão sob o peso das notícias que vinham do Sul.
— O Vizir que governava Kush em vosso nome foi encontrado empalado no centro da praça de Kerma — dizia Hori, um dos ministros, a voz trêmula como uma folha ao vento. — E não foi o pior, Majestade. Seus olhos foram costurados com fios de ouro negro, e sua boca... dizem que algo ainda gritava lá dentro, mesmo após a morte. Uma canção fúnebre que enlouqueceu os guardas que o encontraram.
Kanak apertou o braço de seu trono de cedro, os nós dos dedos bronzeados tornando-se brancos. O ouro de seus braceletes rangeu sob a pressão.
— Silêncio, Hori! — rugiu o Faraó, e o eco de sua voz silenciou até o crepitar das chamas. — Eu não convoquei este conselho para ouvir contos de terror. Convoquei-os para saber como retomaremos o que é nosso por direito de conquista. Kush foi erguida sobre os escombros de Kerma para ser o nosso escudo ao sul, não um ninho de abominações.
Madoc, que permanecia imóvel como uma estátua de basalto ao lado do mapa, interveio com a voz rouca:
— Eu nunca imaginei que Kush seria corrompida e usurpada pelos servos dos demônios tão rapidamente. Kerma foi uma vitória árdua de nosso pai, e o povo de lá era orgulhoso, mas humano. O que habita lá agora não conhece a honra.
— Nem eu, Madoc — Kanak respondeu, voltando-se para o irmão com olhos que queimavam como brasas. — Mas isso não durará. Não deixarei que a última grande conquista de nosso pai caia nas mãos dos demônios e seus escravos! O sangue do meu povo foi derramado o suficiente. Eles pensam que podem mexer com o Egito como faziam com os povos nômades antes do Dilúvio? Estão muito enganados.
— Eles têm razão em temer, irmão — uma nova voz, serena mas carregada de um peso espiritual imenso, ecoou da entrada do salão.
Os presentes se inclinaram quando Imotepe aproximou-se. O terceiro irmão compartilhava a mesma estrutura física imponente e a pele bronzeada de Madoc e Kanak, mas sua cabeça estava perfeitamente raspada, sinal de seu sacerdócio supremo. Suas vestes de linho branco eram bordadas com hieróglifos de proteção que pareciam brilhar fracamente no escuro.
— Imotepe — Madoc saudou com um aceno respeitoso. — O que dizem os Oráculos de Heliópolis?
O sacerdote parou diante do mapa, apontando para a região de Kush.
— O homem que tomou o território não é um mero rebelde. Dahaka o Poderoso, o Carrasco dos Vivos, profanou os templos de nossos ancestrais. Ele utiliza uma forma corrompida de Espiriturgia para erguer legiões profanas. Ele não mata soldados; ele os "reivindica", aprisionando suas almas em corpos que não conhecem a dor ou o cansaço.
Imotepe olhou para os nobres e acadêmicos.
— O Egito floresceu porque dominamos o Prana. Nossas academias desvendaram os segredos da alma, permitindo que nossos ancestrais criassem rituais e mantras que moldam a realidade. Nossos guerreiros, como Madoc, aprenderam a converter essa energia espiritual em Aura, fortificando seus corpos e armas além dos limites humanos. Mas Dahaka faz o oposto: ele consome o Prana para alimentar o abismo.
— Então usaremos o triunfo que nosso pai nos deixou — Kanak declarou, levantando-se. — O sistema de Espiriturgia avançada que ele selou.
O salão pareceu esfriar. Todos sabiam a que o Faraó se referia: os Ka-Sahu.
— a manifestação corpórea dos deuses— sussurrou um acadêmico, fazendo o sinal de proteção sobre o peito.
— Sim — continuou Imotepe. — Set, Rá e Osíris. Não são apenas mitos, mas entidades de puro Prana, criadas através da magia familiar mais elevada. Elas residem no plano espiritual, alimentadas continuamente pela oração e energia de milhares de sacerdotes. Mas convocá-las exige um preço, e apenas o sangue real ou o Sumo Sacerdote podem abrir os portais para que essas invocações se manifestem no mundo físico.
Kanak olhou para Madoc.
— Você liderará a vanguarda, Madoc. Seus homens usarão a Aura para cortar a carne dos mortos-vivos. E quando Dahaka liberar seus horrores mais profundos, eu e Imotepe invocaremos o poder de Rá e Set para varrer aquela escuridão da face da terra.
Madoc assentiu, sentindo a própria Aura vibrar sob a pele, um calor familiar que implorava por liberação.
— Se Dahaka quer colher o sofrimento do Egito, ele descobrirá que o trigo de Kemet é feito de ouro e fogo. Ele se diz o Carrasco dos Vivos? Pois bem. Eu sou o homem que ensinara a ele o medo da morte.
Kanak sorriu, um brilho feroz nos olhos.
— Preparem os escribas. Preparem os templos. O Egito marcha para o Sul. E desta vez, não traremos apenas correntes para Kush... traremos o julgamento dos três deuses egípcios!.
Ass do Autor:Yugioh!