A noite na Vila Núbia havia se tornado um manto de veludo pontilhado por estrelas que pareciam pulsar em sincronia com o hálito da terra.
Dentro da casa de adobe, o calor residual do dia trazia um sono pesado e restaurador para Tuya e os meninos. O riso de Akhmose, encantado com as histórias de Enkidu, e a tensão nos ombros de Nakht haviam finalmente cedido ao torpor. Enkidu, no entanto, não compartilhava da fragilidade do sono humano. Ele permaneceu sentado à mesa por um longo tempo, observando as chamas das lamparinas minguarem até o último suspiro de óleo.
Com um movimento fluido, ele se levantou e saiu para o pátio, acomodando-se sobre uma rocha de granito que ainda retinha o calor do sol. O gato de pelos cinzentos saltou para o seu colo, enquanto os dois lagartos, o vermelho e o branco, posicionaram-se como sentinelas em seus ombros. O silêncio da noite foi subitamente quebrado por uma voz que não vinha do ar, mas de dentro da mente de Enkidu.
— O tabuleiro está se movendo, Merlin. As peças de Kemet marcham para o sul, mas as sombras de Dahaka já sentiram o gosto do aço deles.
Enkidu fechou os olhos, sua consciência expandindo-se para além das fronteiras de Kemet, conectando-se através de um elo invisível com uma presença distante, oculta entre as névoas de um lago que não pertencia àquele deserto.
— Eu já disse para não me chamar por esse nome, Nimuë — respondeu ele mentalmente, sua voz interior carregada de um cansaço milenar. — Aqui, eu sou apenas um viajante. Um sopro de vento entre as dunas.
— Pode mudar seu nome e sua face, mas sua essência cheira a profecia e travessura — a voz da fada Nimuë ecoou, divertida. — Estou observando o exército do Faraó. O homem que você chama de Madoc possui uma aura interessante, mas ele caminha para uma armadilha de prana demoníaca. Você vai interferir?
Enkidu abriu os olhos, mas eles não eram mais cinzas, pois eles brilhavam com uma luz etérea, refletindo séculos de conhecimento.
— O destino é uma teia, não uma linha reta — disse Enkidu, desta vez em voz alta, sua voz mudando para um tom mais profundo e ressonante.
— O destino é uma chatice, se quer saber minha opinião — interrompeu o gato em seu colo, bocejando e revelando uma fileira de dentes excessivamente afiados. Cath Palug não era um felino comum, a sua voz era ácida e aristocrática. — Merlin, por quanto tempo vamos fingir que somos simples mascotes? Este camelo cheira a esterco há três mil quilômetros. Deveríamos ter ido voando para Uruk desde o começo, sabia?
— Tenha paciência, Cath — sibilou o lagarto vermelho no ombro direito. Gales moveu a cauda, que soltou pequenas faíscas de calor.
— O mestre sabe que o tempo humano é curto. A diversão está apenas começando.
— Eu só quero ver o sangue de Dahaka congelar — murmurou o lagarto branco no ombro esquerdo, Albion, sua voz soando como o quebrar do gelo. — Ele está brincando com energias que não compreende. A Espiriturgia dele é um insulto a criação.
Merlin ou Enkidu, como preferia ser chamado agora acariciou a cabeça de Cath Palug. Suas quatro criações, extensões de seu próprio poder místico moldadas em formas familiares, eram as únicas que conheciam a verdade por trás da máscara de "sábio brincalhão".
— Dahaka é apenas um sintoma, Albion — disse Merlin, olhando para as estrelas. — O verdadeiro problema são os demônios que manipulam o excesso dos sentimentos que os homens deixam em seus corações. Nimuë, continue observando Madoc. Ele é o pilar que sustenta o futuro daqueles meninos que dormem lá dentro. Se ele cair antes da hora, o equilíbrio de Kemet se perderá.
— Como desejar, meu mago — a voz da fada sumiu como uma brisa.
Merlin suspirou, sentindo o peso do nome que tentara deixar para trás.
Ele olhou para a porta da casa, onde Nakht e Akhmose descansavam. Ele os vira como sementes de algo maior, especialmente o pequeno Akhmose, cuja afinidade com o Prana puro era um eco de talento de tempos que Merlin preferia esquecer.
— Vamos, meus pequenos monstros — sussurrou Merlin, voltando a assumir a feição suave de Enkidu. — O amanhecer se aproxima. Temos um rei para domar em Uruk, e o Egito terá que aprender a lutar suas próprias guerras por enquanto, a menos que o destino mude de ideia. E ele costuma mudar quando eu estou por perto.