O eclipse que cobria o céu de Kush parecia tremer diante da presença de Rá. Dahaka, o homem que se autoproclamou como o Carrasco dos Vivos, ainda mantinha o punho contra o queixo do Faraó, mas a expressão de triunfo em seu rosto transformou-se em puro pavor.
Rá moveu a mão com uma lentidão insultuosa e fechou os dedos em torno do pulso de Dahaka. No momento em que o contato ocorreu, o som de carne fritando ecoou.
— Você ousou tocar o Sol, Dahaka — a voz de Rá era uma ressonância de mil vozes. — Sinta o preço de sua ousadia.
Kanak apertou. O som de ossos se transformando em pó de obsidiana sob a pressão divina foi mascarado apenas pelo grito agônico do monstro. Dahaka tentou puxar o braço, tentou usar sua energia abissal para corroer a mão de Rá, mas a escuridão simplesmente evaporava antes de tocar a pele luminosa do Faraó. Sob a força esmagadora, as pernas do gigante cederam, e ele caiu de joelhos na areia, subjugado pela primeira vez.
— Ajoelhe-se — ordenou Rá, os olhos brilhando com uma luz branca fria. — Não diante de um rei, mas diante da própria Ordem que você tentou desfigurar.
Sem dar tempo para resposta, Rá agarrou Dahaka pelos cabelos e o ergueu, apenas para batê-lo contra o solo com uma força que abriu uma cratera. O Faraó começou a usá-lo como um boneco de trapos, arremessando-o contra o chão repetidamente. Dahaka, em um último espasmo de resistência, tentou um chute lateral, mas o pé atingiu a aura de Rá e ricocheteou como se tivesse batido em uma muralha de diamante.
Com um movimento seco, Rá o lançou para longe. Antes que Dahaka pudesse sequer tocar o chão a milhas dali, o Faraó já o aguardava.
A sequência que se seguiu foi uma obliteração da dignidade. Rá desferiu uma chuva de socos que não visavam apenas ferir, mas desmantelar.
Cada golpe arrancava pedaços da pele avermelhada e dilacerava a musculatura de Nephilim. O clímax veio com um chute potente e certeiro no meio das pernas de Dahaka, um golpe carregado de desprezo que esmigalhou qualquer resquício de orgulho que um dia Dahaka poderia ter.
— Você queria o Egito? — Rá perguntou, arrastando Dahaka pelo rosto através da areia quente, deixando um sulco de sangue negro e terra revolvida. — Pois eu vou lhe mostrar o que restou da sua linhagem nas minhas terras.
Rá parou o rastro de destruição exatamente onde o cadáver de Malphas, agora uma massa de carne sem vida e obsidiana partida, jazia. Com uma mão, ele ergueu a cabeça de Dahaka e, com a outra, começou a socar o Carrasco contra o cadáver do próprio filho. O impacto transformou os restos mortais em uma polpa indistinguível.
Em um ato de crueldade divina, Rá forçou o rosto de Dahaka contra aquela massa.
— Coma o fruto do seu ódio, Carrasco. Saboreie o destino que você trouxe para o seu próprio sangue.
Dahaka, cujos olhos estavam inchados e a mandíbula pendia por um único tendão, soltou um som gorgolejante. Suas mãos tremiam, arranhando inutilmente a areia.
— Mate... mate-me... por favor... acabe com isso... — o sussurro era um rastro de desespero de alguém que descobrira que existiam destinos piores que o inferno.
Rá o soltou. O Faraó limpou a mão luminosa na própria aura, olhando para o ser patético aos seus pés.
— Morte? — Rá riu, um som que trouxe um breve amanhecer falso ao horizonte. — A morte é uma libertação que você não merece. Eu vou deixar você viver, Dahaka. Vou deixá-lo rastejar de volta para os buracos de onde saiu, com o gosto dos seus filhos na boca e o peso da sua impotência na alma.
Rá deu um passo à frente, e a pressão espiritual fez Dahaka tossir mais sangue.
— Vá embora. E lembre-se que a partir deste dia, você não é mais um conquistador. Você é o lembrete vivo de que o sol nunca se põe para Kemet. Enquanto eu respirar, você nunca tocará em um único grão de areia deste império. Viva com a sua humilhação, pois ela será sua única companheira até o fim dos tempos.
Com um aceno de mão, uma explosão de energia solar arremessou o corpo quebrado de Dahaka para além das fronteiras do Sul, um rastro de luz que desapareceu na escuridão profunda.
Rá permaneceu parado, sua luz finalmente começou a diminuir para uma forma mais estável. O silêncio voltou a Kush, mas foi um silêncio de vitória total. Ele se virou para onde Madoc e Anúbis observavam, à sombra de Apófis começando a se dissolver sem o comando de seu mestre.