O campo de batalha, outrora um inferno de gritos, tornou-se um templo de silêncio reverente.
A luz de Rá não era mais a labareda agressiva do combate, mas um brilho âmbar suave como o sol que se despede no horizonte. Ele caminhou em direção à massa de sombras que era Apófis.
A serpente do caos recuou, sibilando com o sofrimento de dez mil almas. Rá estendeu a mão, e o calor que emanava dela não queimava, ele acalmava. Ele via através da escuridão que formava Apófis era a cicatriz do Egito, o acúmulo de cada injustiça, de cada camponês esquecido e de cada soldado que morreu sem nome em Kursh.
— Você não é meu inimigo — sussurrou Rá, sua voz ressoando no âmago da besta. — Você é a minha dor. E eu não vou mais ignorar.
O plano era uma heresia para os lógicos, mas uma necessidade para o divino. Rá iniciou o selamento, envolvendo a serpente em cadeias de Prana solar. Ele levaria Apófis consigo para os reinos superiores. Levaria séculos, talvez milênios, mas ele filtraria o ódio de cada alma ali contida, transformando o veneno em proteção, até que o caos servisse à ordem.
Ao longe, Anúbis mantinha o corpo de Madoc em seus braços de metal. O Vizir, agora uma entidade eterna, olhava para a cena com desconfiança.
— É um erro, Kanak... — a voz metálica de Anúbis ecoou. — O caos não se cura. Ele se destrói
Rá não respondeu de imediato. Ele se aproximou de onde Imotepe tentava, em vão, usar medicinas tradicionais no peito imóvel de Madoc. O Faraó-Sol olhou para o irmão sacerdote e, com uma solenidade que gelou o sangue de Imotepe, declarou.
— Chegou a hora, Imotepe. O Egito precisa de um novo Faraó.
Imotepe levantou-se bruscamente, a túnica branca manchada de sangue e poeira. Seus olhos brilharam com uma irritação intelectual.
— Um novo Faraó? Você não pode estar sugerindo a sucessão agora! Eu não assumirei o trono para cuidar de linhagens e procriação. O conceito de unir minha mente à inferioridade de uma mulher para gerar herdeiros é um desperdício da minha existência. Prefiro o abraço da morte ao fardo de uma família.
Rá sorriu, um sorriso triste e onisciente.
— Eu sei. Por isso, a coroa não é sua.
Ele apontou para o corpo devastado de Madoc.
— O trono pertence a ele. E a todos os que vierem de seu sangue.
Imotepe paralisou. Madoc, o meio-irmão guerreiro, o homem que agora parecia ter oitenta anos devido ao sacrifício de sua essência.
— Ele deu tudo, Imotepe — continuou Rá. — Deu a beleza de sua juventude, a força de seus anos e o futuro de sua paz por este reino. E fez isso por mim, como seu irmão. Se o tempo dele for curto, que seja cercado pelo luxo, pela dignidade e pelo amor que um rei merece. Eu serei o Sol que vigia sua descendência. Eu serei o fogo que protegerá cada filho de Madoc como se fosse meu.
Rá então voltou seu olhar para Anúbis. O gigante de ouro e ébano inclinou a cabeça de chacal.
— Vizir... meu mentor. Você me ensinou a governar quando eu era apenas um jovem com uma coroa pesada demais. Agora, você é imortal. Peço que seja egoísta, meu velho amigo. Proteja este Egito não por dever, mas por mim. Seja o guardião que caminha entre os homens quando eu estiver além das nuvens.
Anúbis não chorou, pois não tinha canais lacrimais, mas um zumbido de reverência emanou de seu núcleo.
— Imotepe — Rá chamou pela última vez. — Seja o pilar. Sustente o reino de Madoc. Quando a espada dele falhar pelo cansaço, que seja a sua mente a segurar o céu.
Rá deu as costas aos mortais. Ele caminhou em direção ao portal de luz que se abria no horizonte, arrastando consigo as sombras contidas de Apófis. A serpente agora não lutava, pois ela seguia o calor.
— Eu não sou mais o seu Rei — a voz de Rá ecoou por todo o vale do Nilo, alcançando cada aldeia e cada templo. — Eu sou a sua luz e a luz jamais será ofuscada pela escuridão do maligno.
O deus-sol partiu. O eclipse terminou com um clarão dourado que curou as feridas superficiais dos sobreviventes. No campo de batalha, Madoc soltou um suspiro profundo, o coração voltando a bater com uma força renovada, embora seus cabelos permanecessem brancos.
O Egito ficara sob a guarda dos homens e de um imortal solitário, enquanto acima deles, no ponto mais alto do céu, uma nova estrela brilhava, pois nessa estrela havia o olho eterno de um irmão que se tornou deus para que seu povo pudessem, sobreviver ao mal.