O vento quente soprava sobre a Vila Núbia, carregando o aroma de pão fresco e tâmaras, mas a paz daquele fim de tarde foi interrompida pelo som rítmico de cascos e o brilho metálico de uma escolta que se aproximava.
Na frente da comitiva, montado em um camelo branco de linhagem nobre, estava um homem que chamava a atenção de todos. Ele possuía uma pele morena profunda, marcada por uma serenidade antiga, e cabelos grisalhos que caíam em ondas perfeitas sobre os ombros.
Suas vestes eram de um linho tão fino que parecia brilhar, adornadas com joias que indicavam a mais alta nobreza.
Ninguém na vila reconheceria ali o gigante de metal e Prana que lutara em Kush. Aquele era o disfarce humanóide de Anúbis.
A carruagem real, revestida de madeira de cedro e detalhes em ouro, parou exatamente em frente à casa de Tuya. Nakht e o pequeno Akhmose saíram, os olhos arregalados diante da opulência. Tuya veio logo atrás, limpando as mãos no avental, o coração batendo com uma mistura de esperança e medo.
— Senhora Tuya — disse o homem, descendo do camelo com uma elegância que parecia flutuar. Sua voz era aveludada, mas carregava o peso de séculos de sabedoria. — Sou o Vizir Real, enviado pessoalmente pelo Trono.
Tuya curvou-se instintivamente, mas seus olhos buscavam respostas.
— E o meu marido? Madoc... ele está bem?
O Vizir sorriu de forma acolhedora, embora houvesse uma sombra de pesar em seu olhar que ela não pôde decifrar.
— Madoc é um herói, senhora. O maior que este reino já viu. Ele triunfou contra a escuridão do Sul. Mas o destino reservou a ele um fardo ainda maior que a espada.
Nakht deu um passo à frente, protetor.
— O que quer dizer com isso, senhor? Por que a carruagem real está aqui?
Anúbis olhou para o jovem, vendo nele os traços do pai.
— O Egito mudou, jovem Nakht. O Faraó Kanak ascendeu aos céus para nos guiar de longe, e em sua última vontade, ele nomeou o seu pai como o novo soberano das Duas Terras.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Tuya cambaleou, as mãos indo à boca.
— Madoc... Faraó? Mas ele é um soldado, um homem simples...
— Ele era um soldado — corrigiu o Vizir suavemente. — Agora, ele é o pilar de Kemet. Vim para levá-los à Capital. O seu marido os aguarda no Palácio de Tebas. Ele precisa da sua família agora mais do que nunca. O preço da vitória foi alto, e o corpo dele carrega as marcas do sacrifício.
Akhmose puxou a túnica de Tuya.
— Papai vai usar uma coroa, mamãe?
Tuya não conseguiu responder. Ela olhou para a pequena casa onde criaram seus filhos, sentindo que aquele mundo simples estava desaparecendo para sempre.
— Por favor, preparem apenas o necessário — disse Anúbis, gesticulando para os servos que começavam a descer da carruagem. — A jornada é longa, e o Egito anseia por ver sua rainha e seus príncipes.
Enquanto a família entrava apressadamente para arrumar os pertences, Anúbis permaneceu do lado de fora, observando o horizonte. Ele sentia o Prana de Rá pulsando no sol acima, mas também sentia o peso do corpo de Madoc, que ele mesmo carregava em seus braços.
— Você deu a ele um trono, Kanak — pensou o Vizir, seus olhos grisalhos brilhando por um momento com uma luz azul mecânica. — Mas deu a ele também a solidão do topo. Eu os protegerei, como prometi. Mas temo que a coroa pese mais que a Khopesh ao qual Madoc carregava.