O Palácio de Tebas não era apenas uma construção de pedra e ouro; era o coração pulsante de uma civilização que acabara de testemunhar um milagre. No entanto, para Madoc, o despertar não teve o brilho da glória, mas o peso do chumbo.
Ele abriu os olhos lentamente, sentindo os lençóis de seda egípcia contra sua pele, um luxo que sua carne, acostumada ao couro e à poeira, estranhava. O teto do quarto real era decorado com um afresco do céu estrelado, mas seus olhos demoraram a focar. Ele tentou se sentar, e uma pontada de dor aguda atravessou sua coluna. Suas mãos, antes firmes e calejadas, tremiam levemente. Ele olhou para elas e viu a pele mais fina, as veias mais saltadas.
Ele se arrastou até um espelho de bronze polido ao lado da cama e parou. O reflexo não era o do homem de trinta e poucos anos que partira para Kush. O cabelo era de um branco absoluto, como a neve nos picos mais altos, e rugas de cansaço profundo marcavam os cantos de seus olhos. O sacrifício de sua essência física em troca do poder para matar Malphas havia cobrado seu preço e agora Madoc habitava agora o corpo de um homem de sessenta anos.
— O que eu me tornei? — sua voz saiu rouca, uma oitava mais baixa.
— Um símbolo, Madoc. — A voz de Imotepe veio de um canto sombreado do quarto. O sacerdote aproximou-se, segurando um cálice de tônico revigorante. — E um Rei.
Madoc olhou para o irmão com uma confusão dolorida.
— Rei? Onde está Kanak? Ele...ele venceu, não venceu? Eu vi a luz.
— Kanak não é mais um homem, meu irmão. Ele agora é o Sol. — Imotepe colocou o cálice nas mãos de Madoc. — E antes de partir para o seu domínio eterno, ele o nomeou Faraó. Você não é mais um general do exército. Você é o Senhor das Duas Terras.
Madoc ia protestar, a negação subindo por sua garganta, quando as grandes portas de cedro do quarto se abriram com um estrondo.
— PAPAI!
O pequeno Akhmose correu pelo quarto, seguido por Nakht e, finalmente, por Tuya.
O tempo pareceu congelar. Akhmose parou a poucos metros da cama, a confusão nublando seu rosto de criança. Nakht estancou no lugar, os olhos arregalados, a mão indo instintivamente ao cabo da adaga em seu cinto, como se não reconhecesse o homem ali. Mas foi a reação de Tuya que mais feriu Madoc.
Ela soltou um suspiro entrecortado, as mãos tremendo enquanto cobriam a boca. Ela viu o herói que amava transformado, envelhecido, com o peso de uma vida inteira consumida em uma única tarde de batalha.
— Madoc... — ela sussurrou, as lágrimas transbordando.
— Tuya... eu... — Madoc tentou se levantar, mas a fraqueza o fez vacilar.
Em um instante, ela estava ao seu lado, envolvendo-o em um abraço desesperado, ignorando a coroa que repousava sobre a mesa lateral ou os trajes reais. Ela chorava não pela posição dele, mas pela juventude que ele entregara para que eles pudessem viver.
— Você voltou — ela disse contra o peito dele. — O resto não importa. Você voltou para nós.
Nakht aproximou-se lentamente, tocando o ombro do pai. Havia um novo respeito, misturado com uma tristeza profunda, nos olhos do jovem.
— O Vizir nos contou, pai. Sobre o gigante obsidiana. Sobre o que você fez.
Madoc olhou para sua família, o calor deles sendo o único remédio real para o frio que o poder de Rá deixara em seus ossos. Ele olhou para Imotepe, que observava a cena em silêncio.
— Kanak me deu um fardo, Imotepe — disse Madoc, sua voz agora ganhando a autoridade de quem aceita o inevitável. — Eu não sei ser rei. Eu só sei lutar.
— Então lute pelo seu povo na sala do trono, Faraó Madoc — respondeu Imotepe com uma reverência curta. — Porque as sombras de Kush foram dissipadas, mas os olhos dos povos que seguem as trevas continuam sempre a espreita
Madoc abraçou sua esposa e filhos, sentindo o peso da coroa antes mesmo de colocá-la. O Egito tinha um novo rei, um rei que sabia exatamente o preço de cada grão de areia que protegia.