Uruk à noite era uma tapeçaria de contrastes violentos.
Nas avenidas principais, as tochas de betume ardiam com uma chama amarelada, iluminando as orgias públicas e o riso ébrio dos nobres. Nos becos, o cheiro de suor e medo impregnava o ar.
Merlin, agora sob a face de Enkidu, caminhava entre os mortais. Sua aparência era a de um viajante de beleza serena, vestindo roupas de lã simples, mas com olhos que pareciam conter o reflexo de estrelas que já haviam morrido. Em sua sombra, invisíveis aos olhos humanos, Cath Palug, Gales e Albion observavam tudo, sentindo o pulso espiritual da cidade.
— A rede de Prana aqui é uma ferida aberta — sibilou Albion na mente de Enkidu. — Gilgamesh está drenando a vitalidade do povo para sustentar seus excessos.
Enkidu não respondeu. Ele parou em frente a uma hotelaria de pedra calcária, um lugar humilde mas limpo, afastado do barulho ensurdecedor do distrito dos prazeres. Ao entrar, foi recebido pelo dono, um homem de ombros caídos pelo peso da idade, e por sua filha, Shamhat.
Shamhat era uma jovem de beleza solar, mas seus olhos carregavam uma melancolia que nenhuma joia poderia esconder. Quando seus olhos encontraram os de Enkidu, o tempo pareceu desacelerar. Ela nunca vira alguém como ele, não havia a brutalidade dos soldados de Uruk, nem a arrogância dos sacerdotes. Havia apenas uma paz que ela não julgava possível existir.
— Seja bem-vindo, viajante — disse ela, sua voz tremendo levemente. — Eu sou Shamhat. Meu pai cuidará de sua montaria, se me permitir guiá-lo ao seu quarto.
Enquanto subiam as escadas de madeira, o silêncio entre eles foi preenchido pela tensão do que estava por vir. Shamhat sentia uma atração magnética por Enkidu, uma paixão súbita que era, ao mesmo tempo, um alento e um tormento.
— Você parece carregar o peso de um templo inteiro em seus ombros, Shamhat — disse Enkidu suavemente, parando no corredor iluminado por uma lamparina solitária.
Ela baixou o rosto, os dedos brincando com a orla de seu vestido.
— Em três dias, serei levada ao palácio. Gilgamesh reivindicou o direito. Meu pai não tem ouro para comprar minha liberdade, e ninguém desafia a vontade do Rei-Deus.
Ela olhou para Enkidu, as lágrimas brilhando.
Enkidu estendeu a mão e tocou o rosto dela com uma delicadeza que parecia mágica.
— O destino é como a argila, Shamhat. Ele parece duro quando seco, mas nas mãos certas, ainda pode ser moldado. Gilgamesh não é um monstro, ele é apenas um homem que esqueceu como é sentir frio.
Enquanto Enkidu plantava sementes de esperança em uma hotelaria humilde, o topo do Zigurate Real ardia em luxúria.
Gilgamesh estava reclinado em um trono de lápis-lazúli, cercado por nuvens de fumaça de ópio e corpos que se entrelaçavam ao som de harpas dissonantes. Seu rosto, embora perfeito, estava nublado por um tédio que beirava a psicose.
Ao seu lado, Lugalzaguesi, um general de olhos famintos e ambição velada, servia-lhe vinho temperado com ervas entorpecentes.
— Por que hesitar, meu Rei? — sussurrou Lugalzaguesi. — A Babilônia de seu avô Ninrode conquista mundos com medo. Uruk deve conquistar com prazer. O povo existe para ser o combustível da sua divindade.
Dumuzide, o guardião dos rebanhos e conselheiro dos prazeres, riu, acariciando uma pantera acorrentada aos pés do trono.
— Deixe a justiça para os fracos como Hamurabi, Gilgamesh. O sangue de Ninrode em você pede por excessos. Amanhã, teremos as virgens do distrito sul. Depois de amanhã, o festival do vinho. O mundo é sua taça! beba até que o céu se torne cinzas.
Gilgamesh olhou para os dois servos. Ele sabia que eles o empurravam para o abismo, alimentando seus piores impulsos para que pudessem governar nas sombras de sua negligência. Mas o tédio em sua alma era tão vasto que ele permitia a manipulação.
— Hamurabi falava de leis que durariam milênios — murmurou Gilgamesh, a voz arrastada pelo vinho. — Mas a carne é efêmera. Se eu sou dois terços divino, por que sinto esse vazio humano que nada consegue preencher? Lugalzaguesi, traga-me mais vinho. Dumuzide, prepare o banquete. Se o destino quer me tornar um monstro antes de Babel cair, que eu seja o mais magnífico deles.
Ele jogou a taça de ouro contra o chão de mármore, o som ecoando como um grito de guerra solitário.
Enquanto o rei mergulhava na escuridão, Enkidu, na janela de sua hotelaria, observava o palácio de longe. Ele sentia a luxúria de Gilgamesh como uma fumaça negra que sufocava a cidade.
— Ele está quase no ponto de ruptura — pensou Enkidu.