O silêncio das ruelas de Uruk era a máscara perfeita para a traição. Enquanto a cidade dormia sob o peso dos excessos de seu rei, Lugalzaguesi caminhava pelas sombras com a furtividade de uma serpente. Ele não era apenas o general de Gilgamesh, ele era o Sopro de Ninrode, um agente infiltrado anos antes para garantir que o fruto de Uruk apodrecesse no pé.
Ninrode, o Caçador de Deus, possuía uma paciência geológica. Ele permitira a independência de Uruk não por fraqueza, mas por cálculo. Ele sabia que o sangue divino em Gilgamesh, se não fosse temperado pela dor, inevitavelmente buscaria a depravação. Lugalzaguesi era o catalisador desse processo, sussurrando veneno nos ouvidos do sobrinho de seu mestre, transformando justiça em luxúria.
— A luz que um mago traz é um erro na equação — pensou o general, ajustando o punhal de bronze em suas costas. — Nenhum mago interromperá a colheita de meu senhor.
Ele rastreouo rastro de Prana etéreo até um beco sem saída perto dos canais. Lugalzaguesi era um mestre da Alquimia de Sangue Babilônica, capaz de sentir o batimento cardíaco de uma presa a quilômetros. Mas, naquela noite, o ar parecia vazio.
— Procurando por algo, General? — A voz soou calma, vinda de trás.
Lugalzaguesi girou sobre os calcanhares. Enkidu estava ali, parado a poucos passos, com a mão estendida. Não havia medo em seu rosto, apenas uma piedade profunda que irritava o guerreiro.
— Você é o câncer que Ninrode previu — Lugalzaguesi sibilou. — Um arquiteto de esperança em um mundo que pertence às sombras.
Sem aviso, o general avançou. Sua mão, envolta em uma névoa púrpura de energia corrosiva — A técnica Toque da Praga de Ereshkigal —, agarrou o antebraço de Enkidu. Ele esperava sentir a carne do mago derreter, mas o que aconteceu foi um estalo de energia estática. Uma barreira invisível, o Espelho de de Avalon, devolveu a carga. Lugalzaguesi gritou quando sua própria magia de corrosão começou a queimar suas veias.
— Meu corpo não é um alvo, general. É um reflexo — disse Enkidu.
Lugalzaguesi saltou para trás, sacando sua espada de ferro negro, cujas runas brilhavam com um ódio antigo.
— Se eu não puder matá-lo em silêncio, farei com que Gilgamesh veja o seu sangue! O barulho de nossa luta acordará o Rei-Deus e ele mesmo o estraçalhará!
— Gilgamesh não virá — Enkidu fechou os olhos e bateu o cajado no chão. — Avalon
Em um piscar de olhos, as paredes de tijolos de Uruk foram substituídas por uma névoa prateada. O som da cidade desapareceu. Eles estavam em uma dimensão de bolso, um espaço-tempo onde Merlin era o único arquiteto. Aqui, o tempo corria de forma diferente e nenhum grito alcançaria o palácio.
Furioso por ser enjaulado, Lugalzaguesi liberou seu poder total. Ele correu em uma velocidade sobre-humana, desferindo a técnica Corte do Horizonte de Cinzas. Sua lâmina traçou um arco de fogo negro que deveria partir o espaço.
Enkidu permaneceu imóvel. Ele ergueu um único dedo, murmurando.
— Aegis Avalonis Regum.
Sete camadas de luz geométrica surgiram, cada uma absorvendo o impacto do fogo negro até que o golpe se tornasse apenas uma brisa. O mago contra-atacou instantaneamente com o feixe Fulgor de Sirius, uma rajada de energia estelar que perfurou o ombro de Lugalzaguesi antes que ele pudesse se esquivar completamente.
O general, porém, era um veterano de mil guerras. Ele girou no ar, cortando a energia residual e usando o impulso para avançar novamente.
— Você é rápido, mago, mas o aço não tem alma para você manipular!
Lugalzaguesi desferiu uma estocada mortal no coração de Enkidu. No último milissegundo, o mago sorriu. Ele usou o feitiço Astrum Nullius. O espaço à frente de Enkidu dobrou-se como papel, e a ponta da espada de Lugalzaguesi entrou em um portal, ressurgindo exatamente atrás do pescoço do próprio general.
— O quê?! — Lugalzaguesi sentiu o vento da própria arma. Ele executou uma manobra acrobática desesperada, deslocando o ombro para evitar a decapitação pela própria lâmina.
Ele aterrissou ofegante, olhando para cima. Enkidu agora flutuava metros acima do solo, envolto em uma aura de luz branca e azulada. Suas roupas de linho ondulavam como se estivessem sob a água.
— Sua lealdade a Ninrode é sua maior força, e também sua maior cegueira — disse Enkidu do alto. — Você vê a Babilônia como o destino, mas ela é apenas uma tumba maior.
— Cale-se! — Lugalzaguesi rugiu, preparando a técnica proibida Sacrifício de Marduk, onde ele queimaria seu próprio sangue para ampliar sua força. — Eu sou a vontade de Ninrode! Eu sou o General de Uruk!
Enkidu preparou seu cajado, os olhos brilhando com o poder mágico sem igual.