A Espiriturgia não é um dom uniforme, mas um rio que se ramifica de acordo com a natureza da alma que o canaliza. Para os Tecelões do Véu, como Merlin, a magia é uma linguagem de harmonia e eles dialogam com o Éter para tecer encantamentos, curas e invocações, sendo arquitetos da realidade. Já os Guerreiros Espiritúrgicos, como Lugalzaguesi, veem o Prana como um combustível bruto, eles são condutores que reforçam seus corpos e canalizam energia em lâminas para desferir golpes que rasgam a matéria.
No entanto, Lugalzaguesi servia a uma vertente proibida ligado a heresia conhecida como Feitiçaria do Véu Negro. Diferente dos arcanos que pede ou do Guerreiro que canaliza, o Feiticeiro da Ruína força a realidade a se curvar. Ele não harmoniza, ele escraviza o Éter. O preço, contudo, é sempre pago em essência vital. Quando a vontade não é suficiente, o sangue torna-se a moeda de troca.
Dentro da cúpula dimensional, Lugalzaguesi percebeu que sua perícia marcial era inútil contra a onisciência de Merlin. Ele rugiu, ativando o Sacrifício de Marduk. Seu sangue começou a evaporar através dos poros, inflamando-se em chamas demoníacas de um carmesim doentio. A técnica de Arcanista da Ruína transformou seu corpo em uma tocha viva de ódio.
— Morra com o resto deste mundo, Mago! — Lugalzaguesi disparou como um cometa de sangue e fogo.
Merlin, calmo em sua flutuação, estendeu o cajado.
— Lanças de Niflheim.
Centenas de estalactites de gelo translúcido, frias o suficiente para paralisar o tempo, surgiram do vácuo. Lugalzaguesi, movido pela fúria febril, girou sua espada em um turbilhão de fogo, cortando as lanças congeladas em estilhaços brilhantes enquanto avançava. Ele estava a centímetros de Merlin, sua lâmina de ferro negro buscando o pescoço do mago.
Merlin inclinou o corpo, sentindo o calor das chamas demoníacas chamuscarem seu rosto. No instante em que o general passou por ele, Merlin tocou o peito do agressor com a palma da mão.
— Combustão Solar: Ponto Zero.
Um disparo de fogo branco e puro explodiu à queima-roupa. Lugalzaguesi foi lançado para trás, seu peito tornando-se uma ferida aberta de carne queimada. Qualquer mortal teria morrido, mas a bruxaria de Ninrode mantinha seus órgãos funcionando por puro terror.
Lugalzaguesi firmou os pés no nada, o sangue fervente escorrendo de sua boca. Ele avançou novamente, mas desta vez Merlin não usou feitiços à distância. O mago estendeu a mão para o lado, e de uma fenda de luz dourada, ele sacou Caliburn. A espada brilhava com uma pureza que ofuscava a dimensão prateada.
O choque entre a espada rúnica da ruína e a lâmina da vitória criou uma onda de choque que rachou a cúpula dimensional. Merlin, o Tecelão, revelava-se agora um Executor Espiritual de habilidade inigualável. A troca de golpes era um borrão de luz branca e fogo negro. Cada vez que as lâminas se encontravam, Lugalzaguesi sentia sua força ser drenada pela santidade da arma de Merlin.
— Você luta bem para uma ferramenta de Ninrode — disse Merlin, bloqueando uma estocada e girando a lâmina para desarmar o general. — Mas você esqueceu a primeira lição de suas artes profanas! Nunca use o próprio sangue para forçar a realidade obedecer você!
Merlin cessou o ataque e guardou Caliburn. Lugalzaguesi, vendo a abertura, saltou para o golpe final. No ar, Merlin simplesmente estalou os dedos.
Lugalzaguesi paralisou no ar. Seus olhos saltaram e suas veias tornaram-se negras e saltadas. Merlin não estava mais atacando de fora, ele havia tomado o controle do sangue que o general tanto ostentava. O líquido vital dentro de Lugalzaguesi começou a ferver, não por calor, mas por uma ressonância mágica absoluta.
— Eu sou o Tecelão do Véu, Lugalzaguesi — Merlin disse, aproximando-se do corpo trêmulo. — E eu decidi que sua linhagem de imundície termina aqui.
O general não conseguiu gritar. Sua resistência foi quebrada de dentro para fora. Merlin estendeu a mão e, em um ato de dominância espiritual, puxou a alma de Lugalzaguesi para fora de seu corpo. A essência do espião, carregada com o poder e os segredos de Ninrode, foi absorvida por Merlin.
O mago sentiu um influxo de poder sombrio ser purificado e integrado à sua própria reserva de Prana. O corpo de Lugalzaguesi desintegrou-se em cinzas acinzentadas, desaparecendo na névoa da dimensão.
Merlin desfez a cúpula. Ele estava de volta ao beco silencioso de Uruk. Seus olhos brilhavam com uma nova intensidade, e ele agora possuía as memórias do inimigo.
— Então é isso que você planeja, Ninrode... — Merlin murmurou, olhando para o Zigurate Real. — O eclipse em Kush foi apenas o começo... imaginar que alguém seria tão louco ao ponto de desafiar o próprio céu