O mundo parecia desacelerar enquanto a cabeça de Enkidu descrevia um arco parabólico contra o céu cor de sangue. Para Gilgamesh, era o troféu de sua superioridade, mas para Merlin, era o mergulho final em um abismo de recordações que ele evitara por milênios.
Enquanto seus olhos violetas encaravam o semblante vitorioso do Rei de Uruk, a consciência de Merlin expandiu-se, arrastando-o para as eras em que o mundo ainda era jovem e as sombras eram mais densas.
Ele não nascera como um mago errante. Nascera em um berço de ouro e ossos, fruto de um amor proibido que desafiou a própria estrutura da criação. Sua mãe, uma mulher de linhagem pura da descendência de Set, possuía a luz da retidão, porém seu pai, um demônio das altas hierarquias, possuía o fogo do abismo. Merlin era um Nephilim dois terços abissal, um terço humano uma proporção de poder que o tornava um deus entre os mortais e um monstro entre os deuses.
Ele se lembrou do peso de sua primeira coroa. Naquela época, a humanidade era um rebanho acuado. Os descendentes de Caim, os primeiros vampiros, bebiam das nações e aberrações Nephilim sem alma devastavam as cidades. Merlin escolhera o lado da luz. Ele liderou exércitos, empunhando uma espada que separava a noite do dia, matando seus próprios irmãos de sangue demoníaco para dar ao homem um amanhã.
— "Não escutem eles, meu filho,” — sua mãe sussurrava, enquanto o sangue negro de demônios manchava suas vestes reais. — “Voce sempre será o meu maior orgulho e bem mais precioso”
Mas o jardim secou. Quando sua mãe morreu, a âncora de sua humanidade se rompeu. O Rei, o Salvador, tornou-se o Rei Profano de Malqor. Ele se viu no reflexo de Gilgamesh, a mesma busca por prazeres vazios para calar a dor da perda, a mesma arrogância de quem se sente intocável. Seu reino tornou-se um labirinto de luxúria e gritos que faziam os anjos desviarem o olhar.
A queda veio como um castigo misericordioso. Seu pai, o demônio que o gerara, desceu dos céus em uma chuva de enxofre. Não por ódio, mas por um desprezo profundo.
— “Você era o último vestígio da beleza dela,” — a voz do pai ecoou entre as ruínas fumegantes do reino de Merlin. — “Agora, você é apenas o lodo que resta de uma estrela que caiu.”
Sozinho entre as cinzas de sua civilização, Merlin em lágrimas jurou que nunca mais sentaria em um trono, nunca mais o prazer. Ele se tornou o conselheiro, a sombra atrás do rei, tentando redimir seu passado através de outros. Ele falhou com muitos, até chegar a Uruk.
A cabeça de Enkidu tocou a areia quente. Gilgamesh baixou a espada Ur-Kalamma, preparando-se para o retorno triunfal. Mas a areia não bebeu o sangue. Em vez disso, a areia começou a vibrar em uma frequência que desintegrou as dunas ao redor.
Um pilar de luz branca, entrelaçado com filamentos de um negro absoluto, ergueu-se em direção ao firmamento. A pressão espiritual foi tão vasta que Gilgamesh sentiu seus joelhos tremerem, uma sensação que ele desconhecia.
— Gilgamesh... — a voz não vinha de um lugar, vinha de todos. — Você se orgulha de ser o Nephilim mais poderoso desta era. Mas você esqueceu que antes de haver reis na Mesopotâmia, havia aqueles que governavam antes do dilúvio.
A luz se dissipou, revelando a verdadeira forma de Merlin. Ele não era mais o viajante esguio ou o "Enkidu" de beleza simples. Ele assumiu sua forma verdadeira por completo.
Seus olhos verde-esmeralda brilharam com uma luz antiga e impiedosa, fendendo a realidade como o olhar de um juiz primordial. Longos cabelos castanhos, espessos e indomáveis, flutuavam ao redor de sua cabeça como se o próprio ar o reverenciasse.
De suas costas emergiram marcas luminosas, símbolos arcaicos gravados na carne com selos simbolizando o céus e a terra, testemunhos de sua linhagem Nephilim. As veias sob a pele pulsavam com um fulgor dourado-esverdeado, como se sangue divino percorresse cada centímetro de seu corpo.
Sua estatura parecia maior do que a de qualquer homem comum, envolta por uma presença esmagadora que dobrava a vontade dos mortais. A armadura divina de sua era manifestou-se como um eco do passado com placas de metal sagrado entrelaçadas por runas vivas, ombreiras que lembravam asas fragmentadas e um peitoral marcado pelo sigilo real de Malqor.
Um halo partido, feito de luz espectral e sombras entrelaçadas, pairava atrás de sua cabeça, enquanto o chão sob seus pés se fendia em silêncio, incapaz de sustentar o peso de sua existência. Ali não estava apenas um rei, mas um herdeiro da queda dos céus, um soberano nascido do pecado dos anjos e da força indomável da humanidade.
Ele era o Príncipe Nephilim da Era Antiga, o maior erro e a maior obra da humanidade.
— Eu vi o meu reflexo em você, Gilgamesh — Merlin disse, sua voz agora possuindo uma gravidade que fazia a terra gemer. — Vi a minha decadência, o meu tédio e a minha covardia. Eu tentei salvá-lo com palavras, mas você só entende o peso do poder.
Gilgamesh sentiu um suor frio descer por sua nuca. Ele apertou o cabo de sua espada, seus olhos dourados brilhando com uma mistura de terror e excitação.
— Então o viajante era um verdadeiro monstrro? — Gilgamesh sorriu, desafiador, embora seu Prana estivesse em desordem. — Ótimo. Eu estava cansado de lutar contra truques. Que venha a sua verdadeira face!
Merlin estendeu a mão para o vazio. O ar se partiu, e uma arma que não era de ferro, mas de pura vontade divina Excalibur materializou-se em suas mãos.
— Você queria um adversário, Gilgamesh? Você queria um desafio? Você queria emoção? Eu lhe darei isso— Merlin avançou um passo, e a onda de choque empurrou o Rei para trás. — Pois eu estou aqui e lhe darei o que você tanto precisa! Uma boa surra para por juízo em sua cabeça!
O duelo entre o Nephilim mais forte da história e o Nephlim mais poderoso da atualidade começou com um choque que foi sentido até nas fundações da Torre de Babel. A areia tornou-se vidro sob seus pés, e o deserto de Uruk nunca mais seria o mesmo.