O embate sobre o continente de gelo não durava mais horas, mas ciclos. O sol da Antártica, baixo e pálido, parecia girar freneticamente enquanto os dois Nephilim teciam uma coreografia de extermínio. Para Gilgamesh, a dor nos músculos e o frio que tentava invadir seus pulmões eram as sensações mais doces que já provara.
— Você ainda está usando esse poder sagrado, Viajante? — Gilgamesh limpou o sangue do queixo, sua voz saindo rouca, mas carregada de um entusiasmo febril. — Cada vez que nossas lâminas se cruzam, eu sinto o cheiro de enxofre vindo da sua alma. Pare de me insultar com essa farsa de santo!
Enkidu não respondeu com palavras. Ele girou Excalibur, mas Gilgamesh, num movimento de pura vontade, fez a espada Ur-Kalamma desaparecer. Em seu lugar, o ar se tornou denso e o cheiro de ozônio e incenso solar tomou conta. Das dobras da realidade, ele sacou o Machado de Marduk. A arma era uma massa colossal de ouro e luz, com lâminas que pareciam forjadas no núcleo de uma estrela.
— JULGAMENTO DO ALVORECER! — berrou Gilgamesh.
Ele desceu o machado num arco vertical. Enkidu deu um passo lateral, o deslocamento de ar cortando um fio de seu cabelo. Onde o machado tocou o chão, uma montanha de gelo de três mil metros simplesmente deixou de existir. Não houve estilhaços, apenas a sublimação instantânea do sólido para o vapor, seguida por uma explosão térmica que iluminou o céu austral.
— Essa força... — Enkidu estreitou os olhos, sentindo o calor do machado queimar seu braço. — Você está queimando sua própria linhagem divina para manter esse ritmo. Vai acabar reduzido a cinzas, Gilgamesh.
— E que destino seria mais digno para um Rei? — Gilgamesh riu, avançando como um animal predatório, o machado girando em suas mãos com uma leveza impossível. — Antes que eu queime, eu quero o seu nome! O nome do monstro que está escondido atrás desses olhos!
Enkidu invocou a lança sagrada Rhongomyniad, a lança de luz que gira em espiral capaz de perfurar o mundo. Ele disparou uma rajada espiralada de energia pura, mas Gilgamesh não desviou. Ele usou o Machado de Marduk para cortar o feixe de energia ao meio, dividindo a magia de Enkidu como se fosse água, e continuou avançando.
A balança pendeu. Gilgamesh acertou um chute no peito de Enkidu, seguido por um corte transversal do machado que partiu o corpo do andarilho de cima a baixo.
— Finalmente! — Gilgamesh exclamou, mas seu triunfo durou um segundo.
O corpo de Enkidu não sangrou, ele se desintegrou em partículas de luz fotônica. Era uma ilusão forjada pelas estrelas.
— Olhe para trás, Gilgamesh — a voz de Enkidu soou fria, sem o tom sedutor de antes.
O andarilho surgiu das sombras da encosta destruída, apontando seu cajado de madeira antiga.
— Combustão Solar: Ponto Zero.
Uma esfera de luz branca comprimida ao tamanho de uma semente expandiu-se instantaneamente no peito de Gilgamesh. O Rei foi lançado para trás, atravessando milhas de geleiras. O impacto vaporizou montanhas inteiras, criando um cânion de lava e gelo derretido onde Gilgamesh afundou.
Houve um silêncio pesado. Então, o gelo explodiu.
Gilgamesh emergiu da cratera, suas vestes reais esfarrapada, com o peito queimado, mas seus olhos dourados brilhavam com uma demência alegre.
— Mais! — ele gritou, o sangue escorrendo por seus dentes cerrados num sorriso largo. — Isso sim é viver! Agora eu vejo... você é como eu! Um erro da criação procurando um motivo para não destruir tudo! DIGA O SEU NOME!
Enkidu suspirou. O ar ao seu redor começou a sangrar escuridão. O céu da Antártica foi substituído por um vazio absoluto.
— Vamos terminar isso de uma vez por todas
O mundo se dobrou. Enkidu isolou ambos em um Plano Dimensional Abissal, um lugar onde a luz não tem permissão para entrar. Ali, o Viajante abandonou qualquer pretensão humana. Seu corpo cresceu de forma grotesca e magnífica. A pele tornou-se uma amálgama de branco ebúrneo e negro abissal. Chifres que pareciam coroas de espinhos brotaram de seu crânio, e múltiplos olhos se abriram em suas asas e peito, todos focados no Rei.
A forma demoníaca de Enkidu avançou, movendo-se com uma velocidade que a física comum não explicava. Ele agarrou Gilgamesh com uma das mãos colossais, esmagando as costelas do Rei contra a palma.
— Ele é vasto... como o próprio Enki — pensou Gilgamesh, sentindo o ar fugir de seus pulmões enquanto os dedos do demônio o apertavam.
— Meu nome — disse a entidade, sua voz agora um coro de almas torturadas — Bem não importa não e mesmo? Afinal a sua luz já cessou
Gilgamesh, prestes a ser esmagado, sentiu o ódio e a empolgação se fundirem.
— Quem decidiu isso!? A minha luz e eterna assim como minha grandiosidade! A única luz falsa aqui e a sua!
O Rei brilhou. Não era apenas magia, era a ignição de sua alma. Ele se tornou um sol em miniatura entre os dedos do demônio. O calor divino começou a queimar o demônio de dentro para fora, carbonizando a palma da mão do viajante. O demônio rugiu, uma nota de dor real escapando de suas múltiplas bocas, e soltou Gilgamesh.
O Rei caiu de pé na escuridão, cuspindo um tufo de sangue negro. Ele apontou o dedo para a criatura colossal à sua frente, o Machado de Marduk ressurgindo em sua mão, agora envolto em chamas solares que cortavam o vácuo abissal.
— O nome, seu bastardo! — Gilgamesh limpou o rosto, sua prepotência voltando com força total. — Eu não vou matar um viajante! . Eu vou matar o homem que me fez sangrar pela primeira vez em cem anos!
O Andarilho, recuperando-se do ferimento na mão, encarou o Rei. O respeito mútuo, embora envolto em violência, era palpável.
— Faust, o rei de Malgor e governante de 30 legiões infernais — disse o demônio, sua voz estabilizando. — Mas para você, Gilgamesh... eu serei apenas o fim