O domínio abissal, aquela dimensão de vácuo criada por Fausto, estava em frangalhos. A realidade ali não suportava mais a pressão. O ar fedia a ozônio e enxofre, e o chão invisível sob seus pés rachava como vidro sob o impacto de cada golpe.
Gilgamesh, envolto em uma aura solar que teimava em não se apagar, investiu mais uma vez. O Machado de Marduk desceu em um arco de chamas douradas, mas Fausto, em sua forma demoníaca, não recuou. Ele bloqueou a lâmina com o antebraço endurecido por runas abissais, o som do impacto sendo como o de duas placas tectônicas se chocando.
— Você está perdendo a cor do rosto, Gilgamesh! — Fausto rugiu, as múltiplas vozes em sua garganta vibrando com um esforço sobre-humano.
— E você está perdendo o fôlego, Fausto! — Gilgamesh rebateu, girando o machado para uma estocada lateral que Fausto evitou por milímetros. — Seus olhos... eles estão se fechando!
A coreografia que se seguiu foi uma sucessão de brutalidade e precisão. Fausto desferiu uma sequência de golpes com sua Marmyadose, cada estocada abrindo fendas no vácuo. Gilgamesh defendia e contra-atacava com uma ferocidade que ignorava a própria dor. Seus movimentos eram um borrão de ouroos de Fausto, um rastro de sombras. Eles colidiram no centro do abismo, as mãos livres se agarrando, testando a força bruta de suas linhagens.
O impacto final foi uma explosão de Prana puro que desfez a dimensão abissal.
A realidade voltou com o frio cortante da Antártica. Ambos despencaram do céu, colidindo contra o platô de gelo que Fausto havia criado. O estrondo da queda ecoou por quilômetros.
Gilgamesh tentou se levantar imediatamente. Seus dedos arranharam o gelo, buscando o cabo de seu machado, mas o corpo não respondeu. Seus músculos, levados além de qualquer limite biológico ou divino, sofreram um colapso. O Rei de Uruk caiu de joelhos. Sua respiração vinha em soluços pesados, cada golfada de ar parecendo fogo em seus pulmões.
A poucos metros, a forma demoníaca de Fausto se dissolveu. Ele voltou a ser o homem de cabelos brancos, tremendo violentamente. Suas vestes estavam em farrapos, e o sangue uma mistura de vermelho humano e negro abissal manchava a neve imaculada. Ele se apoiou no cajado, as pernas vacilantes, encarando o rei caído.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Apenas o som do vento uivando sobre o deserto branco.
Gilgamesh olhou para as próprias mãos, que tremiam incontrolavelmente. Ele tentou rir, mas o som saiu como um engasgo seco. Fausto, vendo a figura patética e grandiosa do Rei, sentiu um peso sair de seus ombros.
— Heh... — Gilgamesh soltou uma risada rouca, olhando para Merlin. — Olhe para nós. Dois deuses caídos brincando de briga no fim do mundo. Que visão miserável.
Fausto começou a rir também. Primeiro baixo, depois uma gargalhada genuína que o fez tossir sangue. Ele se sentou no gelo, exausto demais para se manter em pé.
— Você é um teimoso desgraçado, Gilgamesh — disse Fausto, limpando o rosto. — Eu podia ter tentando ser civilizado não e mesmo? Porém nos dois sabemos que isso não iria funcionar
— Eu não converso com indignos, Fausto — Gilgamesh disse, conseguindo sentar-se sobre os calcanhares, a arrogância ainda presente em seu olhar, mas suavizada pelo cansaço. — Eu converso com quem tem o fogo para me enfrentar. Você... você não é um vira lata qualquer. Você é alguém digno.
— O seu ego não possui limites em? Que adorável — Merlin olhou para o horizonte congelado. — Eu vi Uruk e vi o que você estava fazendo. Eu vi a mim mesmo em cada uma daquelas garotas que você tomava, em cada taça de vinho que você bebia para esquecer que é mortal. Eu não queria matá-lo, Gilgamesh. Eu queria que você parasse de se odiar.
Gilgamesh ficou em silêncio por um longo tempo. O brilho de prepotência em seus olhos deu lugar a uma honestidade bruta, algo que ele não permitia que ninguém visse há décadas.
— Eu estava entediado, Andarilho— confessou o Rei, sua voz baixa. — O mundo parecia pequeno demais. O trono parecia uma tumba. Eu buscava o excesso porque a paz era um insulto ao meu sangue. Mas hoje... hoje eu senti que poderia morrer. E, estranhamente, isso me fez querer viver.
Fausto sorriu. Um sorriso humano, sem truques ou ilusões.
— É o que acontece quando você encontra um espelho que não quebra sob o seu peso.
Gilgamesh estendeu a mão. Não para invocar uma arma, mas em um gesto que nenhum súdito em Uruk jamais ousaria imaginar.
— Se você me odeia tanto a ponto de destruir um oceano para me dar uma lição... então talvez seja o único homem cujas palavras valham a pena ouvir.
Fausto arrastou-se pelo gelo e segurou a mão de Gilgamesh. O aperto foi firme, selando não um pacto de servidão, mas uma irmandade forjada no calor da batalha.
— Eu não vou deixá-lo cair, Gilgamesh — disse Fausto seriamente. — Vou ser a voz que você não quer ouvir e o amigo que você não merece. Mas Uruk terá o Rei que Hamurabi sonhou.
— Veremos, Andarilho — Gilgamesh sorriu de lado, seu carisma natural retornando enquanto ele usava o ombro de Merlin para se levantar. — Mas aviso logo: se você for um conselheiro chato, eu te jogo do topo do zigurate.
— Eu gostaria de ver você tentar — Fausto, ajudando o Rei a se equilibrar.
Longe dali, escondida entre as fendas do gelo, Lilith observava a cena com um desprezo frio. O plano de Ninrode de ver um matar o outro falhara. O amor e o reconhecimento haviam triunfado onde a corrupção deveria reinar.